quarta-feira, 24 de outubro de 2012


20.




Dos nomes que o Amor tem, e do sentido que eles escondem



“Amor”, substantivo masculino... Os dicionários comuns não ajudam:

1. Sentimento que predispõe alguém a desejar o bem a outrem. 2. Sentimento de dedicação absoluta de um ser a outro, ou a uma coisa. 3. Inclinação ditada por laços de família. 4. Inclinação sexual forte por outra pessoa. 5. Afeição, amizade, simpatia. 6. O objeto do amor (1 a 5).1

“Amar”, verbo intransitivo, que nem na novela de Mário de Andrade, onde o pensamento ingênuo de Elza lhe diz que, no princípio, o amor tem que ser simples. “Simples e insexual. [Pois] nasce das excelências interiores. Espirituais. O desejo [vem] depois.2” Mas, ah!, que seria isso senão antecipar o pensamento ao pensador, à “coisa pensante (res cogitans)? Não! Não é assim, Elza. Primeiro é a res extensa3, depois a cogitans, e, somente aí, o cogito. O cartesianíssimo cogito ergo sum antepõe-se ao pensamento, afirmando o sujeito4. É assim também com a fórmula agostiniana si fallor, sum: se me engano, existo5, que alguns veem como germe da fórmula cartesiana. É preciso haver o que se engana para que haja o engano... Elza saberá disso, depois.
Quantos saberão? Quantos quererão saber?
“São tantas as teorias sobre o amor, e nenhuma delas serve para nada”, alguns dizem, apressando-se no juízo, pensando com o coração, que nada pensa, mas considera o “fato imediato”, não refletido  na aceitação de um sentimento que, para ser inteiro, exige tempo, calma, ponderação e, acima de tudo, fundamentos. A informação/sensação imediata do visual é vomitada, e agressiva – hoje, mais que antes. A sutileza racional é moeda rara. Adquiri-la exige tempo e esforço, principalmente aos que não são naturalmente dotados de muito brilhantismo intelectual. Os apelos externos, por outro lado, tornam tal empresa ainda mais laboriosa. A segurança reverente da palavra escrita vai sumindo diante das tantas telas do zapping em sua profusão, como lembradas e louvadas pelo Capitão Beatty, na distopia de Ray Bradbury:

Encha as pessoas com dados incombustíveis, entupa-as tanto com “fatos” que elas se sintam empanzinadas, mas absolutamente “brilhantes” quanto a informações. Assim, elas imaginarão que estão pensando, terão uma sensação de movimento sem sair do lugar. E ficarão felizes, porque fatos dessa ordem não mudam. Não as coloque no terreno movediço, como filosofia ou sociologia, com que comparar suas experiências. Aí reside a melancolia.6

É preciso desobedecer tal orientação, mesmo com as ameaças da melancolia – coisa que Guy Montag, personagem principal de Fahrenheit 451, fará e experimentará. No amor, para saber, é preciso saber: amores são, por quaisquer caminhos, afirmações absolutas do nosso Eu que, em função de si mesmo (ou da sua autopreservação), cria “coisas” e fantasias – sendo a religião, muito provavelmente, a maior de todas. Schopenhauer chamava isso (essa força do “amor”) de Vontade (Wille), e Freud, Pulsão (Trieb).
Os amores, na divisão clássica, se distinguem em, pelo menos, quatro: erótico (Eros, eran), o da amizade (philia, philein), o desinteressado (ágape, agapan) e o amor a si mesmo (stergein), ou amor-próprio, amour de soi.
Homens e mulheres que somos, somente experimentamos, por meio do intelecto ou da experiência pura, o último dessa lista. Volto a Nietzsche: “O egoísmo não é um princípio, é só e unicamente fato.7” A farsa, a maior de todas, é a do amor romântico. Ele seria o Eros domado, abraçado à philein, subjugado e dependente da perfeição de ágape. Aí ele se espelharia, unindo os corações e as mentes em uma grande fraternidade universal que, embora as tantas diferenças, transforma homens e mulheres em irmãos8; e mesmo quando (homem e mulher) eles se fazem um (uma só carne), através do matrimônio - que a doutrina católica apresenta como sacramento. Ágape é, acima de tudo, fundamento. Não!, eu digo. Ágape é, acima de tudo, delírio, fantasia, desejo que exista algo além do que os nossos olhos podem ver. Não há. E, se há, somente a nossa fé o garante; a razão, nunca. Mas aqui não há lugar para a fé... não essa. 
Assim, o amor que Arturo sente por sua mulher, ou por sua amante, ou por qualquer outro (ou outra) que seja objeto da sua atenção, é, no final das contas, amor que deseja e responde apenas a si mesmo, e vê no Outro aquilo que lhe faz bem, lhe dá prazer, lhe faz falta, lhe apetece as afecções... o EU refletido no TU. O Outro, objeto, mesmo que outros discursos digam o contrário na tentativa infantil de manter o modelo afundado na poeira dos séculos -, é mero objeto, meio para a minha satisfação, por amor a mim mesmo. Mas, ah!, também sou o mesmo para ela, ele: objeto, de amor ou ódio.
Na carta do Apóstolo aos cristãos de Éfeso: “Quem ama a sua mulher, a si mesmo se ama”. É evidente que esse, nosso, não é o mesmo sentido que o Apóstolo dá à missiva. Também é certo que o contexto do discurso deixa claro aquele sentido estoico-fraternal de há pouco falado. Mas, sim, a citação ilustra perfeitamente o que dizemos.
Agora, suponhamos que alguém tenha um filho e, coisa mais que normal, diga-lhe: “Eu o amo, filho.” Esse amor é, também, braço curto do amour de soi. Que é isso, o desejo de ter filhos (o pai, via de regra, deseja um filho, e a mãe, uma filha), senão o nosso desejo inconsciente de continuidade? Continuidade do Eu no Tu. Os pais, nos filhos, mantêm-se vivos, prolongam-se na história biológica do mundo. Ágape nenhum. Obedecemos, quase sempre, cegamente ao impulso natural. Não há amor aí, apenas Vontade de vida.
Ágape é uma espécie de “amor pelo feio”9, em contraste ao Eros grego – que corresponde exatamente ao amor pelo belo, erótico, sexual. No Novo Testamento, o que mais aparece é ágape, depois philein. Eros e stergein, somente como insinuações combatíveis, a combater-se10. E foi assim que, conforme Nietzsche,

O cristianismo tomou o partido de tudo o que é fraco, baixo, malogrado, transformou em ideal aquilo que contraria os instintos de conservação da vida forte; corrompeu a própria razão das naturezas mais fortes de espírito, ensinando-lhes a perceber como pecaminosos, como enganosos, como tentações os valores supremos do espírito. E exemplo mais lamentável – a corrupção de Pascal, que acreditava na corrupção de sua razão pelo pecado original, quando ela fora corrompida apenas pelo seu cristianismo!11

Amor por algo que não merece o amor, é ágape: o caridoso ágape – coração das palavras charis (graça, favor imerecido) e charitas (caridade). Nalgumas versões mais antigas do Novo Testamento – do capítulo 13 da primeira epístola de são Paulo Aos coríntios, mais especificamente –, a tradução de αγάπη aparece como “caridade”, muito mais acertada; pelo sentido que evoca em seu grande contexto, diferente do que aparece nas versões modernas. Aqui, porém, este detalhe filológico/exegético não vem ao caso.
O amor é sempre amor por algo, e esse algo sempre esbarra em nós mesmos. O “querer algo” nunca é, realmente, “querer algo”, mas querer-si-mesmo12. Madre Tereza de Calcutá é um exemplo radical, inevitável... some-se a ela todos os homens bons, os santos, os justos, os piedosos, os salvadores da humanidade. Tanto mais amor “demonstrado” ao outro (em função do outro), tanto mais amour de soi. No outro, vemos o reflexo de nós mesmos. Mesmo no suicídio, que alguém poderia julgar o maior ato de desapego à vida própria vida, de desamor a ela.

Todos os homens procuram ser felizes; não há exceção. Por diferentes que sejam os meios que empregam, tendem todos a esse fim. O que leva uns a irem para a guerra e outros a não irem é esse mesmo desejo que está em todos, acompanhado de diferentes pontos de vista. A vontade nunca efetua a menor diligência, senão com esse objetivo. Esse é o motivo de todas as ações de todos os homens, até mesmo do que vão enforcar-se.13

Quando se faz o bem a alguém, faz-se porque é bom fazer o bem a alguém ­– conforme o modelo moral-dualista do Ocidente, que diz que o bem é bom por si mesmo, e o mal, mau... ou, por falta de um discurso mais preciso, “a privação [ausência] do Bem”, de Deus14. Tais conceitos, porém – veja os filmes de Akira Kurosawa –, não são assim tão precisos, fechados, infalíveis. Se Deus é onipresente, como haveria de haver algo em que ele “faltasse”? E como poderia estar quieto no mesmo lugar em que o mal estivesse, sem destruí-lo? Estaria somente nas obras do amor? Obras de amor... Ah!, o prazer do dever cumprido! O coração repleto de ações altruístas que... não!
Tenha medo, muito medo, de quem diz: eu te amo. Veja-o com desconfiança e, talvez, com a pergunta infalível: por quê?




1 Verbete em: FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Minidicionário da Língua Portuguesa. 3. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1993. p. 29.
2 ANDRADE, Mário de. Amar, verbo intransitivo. Rio de Janeiro: Agir, 2008. p. 21.
3 Não levo em conta o idealismo (moderado?) cartesiano que separa o corpo (ou a matéria) do intelecto, e que supõe uma res divina, substância muito mais exterior e necessária.
4 A necessidade do “eu sou, eu existo” – uma vez que não se pode duvidar sem existir – é o primeiro conhecimento certo que, segundo Descartes, se pode ter com certeza. E mesmo que exista um “Génio Maligno” que possa me enganar a respeito de muitas coisas, inclusive de mim mesmo, “não há dúvida que também existo, se me engana; que me engane quanto possa, não conseguirá nunca que eu seja nada enquanto eu pensar que sou alguma coisa. De maneira que, depois de ter pensado e repensado muito bem tudo isto, deve por último concluir-se que esta proposição Eu sou, eu existo, sempre que proferida por mim ou concebida pelo espírito, é necessariamente verdadeira.” (DESCARTES, René. Meditações sobre a Filosofia Primeira. Coimbra: Livraria Almedina, 1976. p. 119).
5 “Pois se me enganar, existo. Realmente, quem não existe de modo nenhum se pode enganar. Por isso, se me engano é porque existo. Porque, portanto, existo se me engano, como poderei enganar-me sobre se existo, quando é certo que existo quando me engano?” (De Civ. Dei, XI, XXVI; AGOSTINHO, Santo. A Cidade de Deus. 2. ed. Lisboa: Serviço de Educação e Bolsas / Fundação Calouste Gulbenkian, 2000. p. 1051-2).
6 BRADBURY, Ray. Fahrenheit 451. 2. ed. São Paulo: Globo / Biblioteca Azul, 2012. p. 86.
7 NIETZSCHE, Friedrich. Vontade de Potência. São Paulo: Escala Editorial, 2010. p. 148. (Col. Grandes Obras do Pensamento Universal, 97).
8 O conceito, em sua universalidade, vem dos estoicos, com a afirmação de um Logos universal (isto é, presente em todos os indivíduos humanos), abraçado pelo apóstolo Paulo e, depois, subscrito pelos Padres. Ver, a propósito do tema, o livro de: RATZINGER, Joseph. A união das nações: uma visão dos Padres da Igreja. São Paulo: Loyola, 1975.
9 No sentido contrastante de que, Deus, a ninguém apreciaria mais ou menos em resposta a algum atributo estético: “Mas o que é loucura no mundo, Deus o escolheu para confundir o que é forte; aquilo que no mundo é vil e desprezado, aquilo que não é, Deus o escolheu para reduzir a nada o que é, a fim de que nenhuma criatura possa orgulhar-se diante de Deus.” (I Cor., 1, 27-9, TEB).     
10 “Dos quatro verbos gregos que denotam os diferentes aspectos do amor, eran, stergein, philein e agapan, os dois primeiros são praticamente evitados no Novo Testamento (especialmente eran e o substantivo eros, pois possuíam conotações afetivas incompatíveis com o amor a Deus). O terceiro, philiein, não foi privilegiado, focalizando a atenção em agapan e o substantivo agape, cuja aplicação, até o momento marginalizada, permitia a ampliação do campo semântico requerida. Nesse sentido, o amor ocupa o lugar principal e a amizade o secundário no cristianismo, invertendo a hierarquia pagã.” (ORTEGA, Francisco. Genealogias da amizade. São Paulo: Iluminuras, 2002. p. 58).
11 NIETZSCHE, Friedrich. O anticristo: Maldição do cristianismo: Ditirambos de Dionísio. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. p. 12 (§ 5).
12 SCHOPENHAUER, Arthur. El amor, las mujeres e otros ensayos. Madrid: Editorial EDAF, S. A., 1993, p. 439-60. (IV, § 62). Schopenhauer, aí, tem o pensamento no Banquete, de Platão.
13 Pens., VII, 425; PASCAL, Blaise. Pensamentos. 4. ed. São Paulo: Nova Cultural, 1998. p. 137. (Col. Os Pensadores).
14 É o que Santo Agostinho afirma, demonstrando inicialmente que o mal não é um ser, que não tem caráter ontológico, sendo o completo não-positivo do não-ser: “O mal não tem natureza alguma; pois a perda do ser é que tomou o nome de mal” (De Civ. Dei, IX; AGOSTINHO, Santo. Cidade de Deus: contra os pagãos. Bragança Paulista: Ed. Universitária São Francisco, 2003. p. 29. v. II); ele é, ademais, a perversão da vontade: “E procurando o que era a iniquidade compreendi que ela não era uma substancia existente em si mesma, mas a perversão da vontade...” (Conf., XVI;  AGOSTINHO, Santo. Confissões. São Paulo: Paulus, 2006. p. 191); e como a vontade não é livre (por causa da Queda), embora o homem tenha livre-arbítrio, o mal é ação do homem, sem Deus: “Assim a avareza não é vicio do ouro, mas do homem que ama desordenadamente o ouro, por ele abandonando a justiça, que deve ser infinitamente preferida a esta metal. E a luxuria, não é vicio da beleza e graça do corpo, mas da alma que perversamente os prazeres corporais desprezando a temperança, que nos une a coisas espiritualmente mais belas e incorruptivelmente mais cheia de graça. E a jactância que não é vicio do louvo humano, mas da alma que ama desordenadamente ser louvada pelos homens, desdenhando o testemunho da própria consciência. E a soberba não é vicio de quem dá o poder, ou do poder mesmo, mas da alma que ama desordenadamente seu próprio poder, desprezando o poder mais justo e poderoso. Por isso quem ama desordenadamente o bem, seja de qual natureza for, mesmo conseguindo-o, se torna miserável e mau no bem, ao privar-se do melhor.” (De Civ. Dei, VIII; p. 70). Mais sobre a questão do mal, em Agostinho, em: EVANS, G. R. Agostinho sobre o mal. São Paulo: Paulus, 1995.






quarta-feira, 10 de outubro de 2012


19.





Do egoísmo e seu problema



Antes de ser vitimado por um câncer em 15 de dezembro de 2011, Christopher Hitchens foi um dos ateus mais atuantes e influentes, defendendo teses que mostram a atual desnecessidade das religiões; existentes, no passado, por alguns motivos óbvios: o nosso medo infantil daquilo que é maior que nós, e externo (o mundo, o cosmos, o desconhecido, etc.), nosso medo da extinção do nosso Eu post mortem e a necessidade de alguma resposta à pergunta: “por que há alguma coisa ao invés do nada?” A resposta da fé foi, por muito tempo, mais importante do que a resposta nenhuma. Nunca soubemos silenciar o pensamento inquiridor, a dúvida cortante, o espanto diante de... Daí nasceu a filosofia, daí vieram as religiões. Por um viés mais político, a religião também foi (e ainda é) instrumento para o surgimento, poder e manutenção de líderes autointitulados  ou intitulados por outros  representantes dos deuses entre nós, seus/nossos legítimos mediadores na terra, etc.
Ensaísta, crítico literário e jornalista, Hitchens era conhecido, juntamente com Richard Dawkins, Sam Harris e Daniel Dennet, como um dos quatro “cavaleiros do ateísmo”. Algumas teses de Hitchens têm bases antigas, apoiadas nos estudos naturalistas de Charles Darwin e no pseudo-agnosticismo de Thomas Henry Huxley1 (“pseudo” porque, embora seja assim que o próprio Huxley tenha definido a sua posição religiosa – aliás, o primeiro a fazê-lo –, suas convicções são as mesmas de qualquer ateu confesso), bem como na grande crítica de Nietzsche à moral cristã e no materialismo histórico de Marx, Engels, dentre outros2. Seu livro de 1995, The missionary position: Mother Teresa in theory and practice3, foi base para um documentário produzido para a televisão, que, no Brasil, ganhou o título de Madre Teresa de Calcutá: anjo do inferno4, no qual é narrador. Madre Teresa foi, para Hitchens, uma “ladra anã e fanática”, uma “demagoga de extrema-direita”, uma fraude dissimulada. No seu “amor ao outro”, o que mais aparecia era o amour de soi. Embora a teoria do “gene egoísta” (the selfish gene) tenha sido divulgada por seu amigo Dawkins5, não há como não vê aí – e em todos os livros de Hitchens – a natural prevalescência do Eu como agente primeiro e inevitável a qualquer causa que seja considerada boa ou má, conforme as normas culturais e/ou os juízos éticos consensuais, dentre outras áreas e análises que podem ser lembradas – a religiosa, por exemplo.
Apesar da fama de crítico das religiões – da cristã, em especial –, nem Hitchens, nem Dawkins, e nenhum outro “cavaleiro do ateísmo” foi tão frio e incisivo, até hoje, quanto o já mencionado Nietzsche – a quem o equivocado Urbano Zilles se refere, forçadamente, como um “cristão [em] potencial ou reprimido”6. Não mesmo!
Depois de ver Madre Teresa de Calcutá: anjo do inferno, o trecho abaixo – enorme, mas interessante e provocativo – fará todo o sentido, e reforçará o que é dito por Hitchens, Dawkins, Harris e Dennet, referente ao nosso egoísmo inevitável, e necessário.   

“253 – O egoísmo e seu problema! A tristeza cristã em La Rochefoucauld7 que o encontra em toda parte e julga com isso diminuir o valor das coisas e das virtudes! Procurei de início demonstrar contra ele que nada mais pode existir senão o egoísmo – que no homem, cujo ego se enfraquece e se ameniza, a força do grande amor se enfraquece também – que os grandes apaixonados o são por força de seu ego – que o amor é uma expressão do egoísmo, etc. O erro na avaliação visa na realidade o interesse: 1º. daqueles que é necessário servir, ajudar; do rebanho; 2º. contém uma suspeita pessimista na própria raiz da vida; 3º. procura negar os homens mais magníficos e mais realizados: medo; 4º. quer ajudar os vencidos a reivindicar seu direito contra os vencedores; 5º. acarreta uma deslealdade geral, até entre os melhores homens.

“254 – Crítica do amor-próprio. – Ingenuidade involuntária de La Rochefoucauld, que acredita dizer algo de audacioso, livre e paradoxal – nessa época a ‘verdade’ psicológica parecia surpreendente. Exemplo: ‘As grandes almas não são as que têm menos paixões e mais virtudes que as almas comuns, mas somente as que têm maiores desígnios.’ É verdade que John Stuart Mill8 (que chamava Chamfort9 o La Rochefoucauld do século XVIII, mas mais nobre e mais filósofo) só vê nele o observador perspicaz de tudo o que na alma humana se reduz ao ‘amor-próprio habitual’ e acrescenta: ‘Um espírito nobre jamais consentirá em se impor a necessidade de considerar de modo duradouro a vulgaridade e a baixeza, se for para mostrar contra quais influências nefastas a elevação do espírito e a nobreza do caráter podem prevalecer.’

“255 – Nunca pensei em ‘deduzir’ todas as virtudes do egoísmo. Gostaria de estar certo primeiramente que são ‘virtudes’ e não formas temporárias que o instinto de conservação assume em certos rebanhos, em certas comunidades.

“256 – Não pode haver ações não egoístas; as palavras ‘instinto altruísta’ soam a meus ouvidos como ‘ferro de madeira’. Gostaria que se tentasse demonstrar a possibilidade de semelhantes atos. É o povo que acredita que existem, e todos aqueles que se assemelham ao povo; – é como se acreditássemos que o amor materno ou simplesmente o amor são sentimentos altruístas.
            Acreditar que os povos sempre interpretaram no sentimento do egoísmo e do altruísmo o quadro do bem e do mal é um erro histórico. O bem e o mal como o ‘lícito’ e o ‘ilícito’ (conforme ou não ao ‘costume’) são muito mais antigos e universais.

“257 – Os homens admiram e elogiam os atos de outro que parecem desinteressados de sua parte, contanto que esses atos sirvam a eles. (Desinteressados no sentido do desfrute ou da utilidade). Outrora se conferia ao desfrute e à utilidade10 um sentido muito vulgar e muito estreito; e todo aquele que fizesse uma coisa, por exemplo, para a glória, já era desinteressado na opinião dos homens grosseiros, da massa. É porque não viam os desfrutes mais delicados, porque muito maior era a estima no domínio do desinteresse. A falta de refinamento psicológico é a razão de muitos elogios e de admiração. Uma vez que a massa não tem paixão, admira a paixão, porque está ligada a sacrifícios e ignora a prudência; não podendo imaginar o desfrute que a paixão oferece, era negada. A multidão despreza tudo o que é habitual, fácil, pequeno.

“258 – Como nascem o instinto, o gosto, a paixão? Esta sacrifica em proveito próprio outros instintos menos poderosos (outras necessidades de prazer); não é altruísmo. Um só instinto domina os outros, mesmo o pretenso instinto de conservação. O ‘heroísmo’, etc., não foram compreendidos como paixões, mas como eram muito úteis aos outros, eram considerados como superiores, mais nobres, diferentes, porque a maioria das outras paixões eram perigosas para os outros. Era uma visão bem limitada! Mesmo o heroísmo do patriotismo, da lealdade, da ‘verdade’, da pesquisa, etc., é extremamente perigoso para os outros – mas os homens são muito tolos para perceber isso. De outra forma, difamariam as virtudes altruístas, como a cobiça, a sensualidade, a crueldade, o gosto das conquistas, etc. Mas as primeiras, uma vez julgadas e sentidas como boas, aos poucos foram idealizadas, tornaram-se ideais. É assim que o trabalho, a pobreza, a usura, a pederastia foram desprezadas em certas épocas, idealizadas em outras.

“259 – Que um homem não deseje certas coisas, não goste delas, nós lhe imputamos isso à baixeza e à vilania. O ‘altruísmo’ é exatamente o contrário: consiste em amar certas coisas às quais sacrificamos outros instintos e sobre as quais a maioria dos outros homens não chegue até mesmo a pensar que possamos amá-las até esse ponto. Desse modo admitem o milagre do ‘altruísmo’.

“260 – Os homens constataram com surpresa que alguns negligenciam seu próprio interesse (na paixão ou por gosto); ficaram cegos em proveito íntimo do orgulho, da emoção, etc., e consideraram esses homens primeiramente loucos, depois bons, no caso em que levassem vantagem da parte deles. Em seguida desenvolveram a crença de que esses atos são realizados propositadamente para seu bem. Ao elogiar essa espécie de homens e de ações, conseguimos fomentar outros atos análogos e gratuitos. O que exaltou o altruísmo até esse ponto foi o egoísmo daqueles que necessitam de ajuda e benefícios.

“261 – O amor. – Olhem-nos a funda esse amor e essa compaixão feminina – o que há de mais egoísta? E quando as próprias mulheres sacrificam sua honra, sua virtude, a quem elas se sacrificam? Ao homem? Ou melhor, a uma necessidade desenfreada? São desejos igualmente egoístas, embora representem um benefício para outros e inspirem reconhecimento.
            Em que medida semelhante superfetação de um único valor pode santificar todo o resto.

“262 – Viver para os outros: passatempo infinitamente agradável para os homens intensamente egoístas (entre eles contamos aqueles que se torturam por escrúpulos morais).

“263 – A compaixão, desperdício do sentimento, parasita prejudicial à saúde moral. ‘Só pode ser o dever, aumentar a soma dos males no mundo.’ Toda vez que só fazemos o bem por compaixão, fazemos o bem para nós mesmos e não ao próximo. A compaixão não se baseia em máximas; a compaixão é um contágio.

“264 – Crer que a história de todos os fenômenos morais se deixa simplificar, como julgou Schopenhauer, a ponto que a compaixão esteja na raiz de toda emoção moral conhecida – é um grau de absurdo e de ingenuidade onde só poderia chegar um pensador desprovido de todo senso histórico e que teria escapado de forma mais estanha dessa marcante escola histórica que os alemães fundaram, de Herder11 a Hegel.12

“265 – O egoísmo não é um princípio, é só e unicamente fato.

“266 – O egoísmo! Mas ninguém jamais perguntou de que tipo de ego se trata. Todos supõem involuntariamente que todo ego é igual a outro ego. Essas são as consequências da teoria servil do sufrágio universal e da ‘igualdade’.

“267 – Não há egoísmo que se mantenha em si e que não invada os outros – portanto, esse egoísmo ‘permitido’, moralmente indiferente, de que se fala, não existe.
            ‘Sempre se desenvolve o próprio eu em detrimento do próximo’ – ‘A vida subsiste sempre à custa de outra vida’ – quem não compreende isso não deu ainda o primeiro passo na probidade para consigo mesmo.

“268 – Retificação do conceito de ‘egoísmo’ – Se compreendemos até que ponto o conceito de ‘indivíduo’ está errado, quando todo ser particular é justamente o processo inteiro em linha reta (não a herança desse processo, mas o próprio processo), então o ser particular adquire uma enorme importância. O instinto fala nele de modo preciso. Quando esse instinto se enfraquece, quando o indivíduo procura um valor no serviço de outrem, podemos concluir com toda segurança pela lassidão e degenerescência. O altruísmo dos sentimentos, se for profundo e sem trapaça, é um instinto que procura garantir-se pelo menos um valor secundário no serviço de outros egoísmos. Mas na maioria das vezes é apenas aparente, é um desvio destinado a conservar o sentimento próprio de nossa vida, de nosso valor.”

Cristãos católicos e protestantes, notadamente os que utilizam as grandes mídias para a divulgação do que afirmam ser uma “mensagem cristã”, não encontram forma melhor de “venderem sua fé” senão explorando o que há de melhor partilhado entre os homens: o egoísmo, a imediata satisfação do Eu. O que pedem em volta, mais do que a fé ou a piedade, são os recursos para continuarem aí, aparecendo e rapinando os mesmos crentes miseráveis que, carentes de senso crítico, não percebem que são vítimas exatamente do que combatem, neles e nos outros: o egoísmo, o superexagerado amor ao Eu.
É claro que há diferenças entre o egoísmo valor moral (a super autoestima, a vontade de receber o louvor alheio, etc.) e o egoísmo natural (o cuidado inconsciente do Eu que abraça, inclusive, a ideia do “valor moral”), sem o qual a vida não é possível. O problema é que esses mesmos cristãos, crédulos e confiantes, não pensam sobre tais diferenças – como é comum de se fazer depois de abraçarem a fé no que, dizem, está além da razão... E assim não ouvem o sapere aude! kantiano, dentre outros desafios menores. Mas até mesmo isso, essa preguiça da razão e o seu sono, não é outra coisa senão uma cama grande e macia onde deitamos o nosso Eu, deixando que a vida siga o seu curso natural, animalizando-nos – pela falta de uma reflexão desapaixonada referente às coisas da fé, às vezes, única paixão. Paixão? Paixão nenhuma.






1 Cf. HUXLEY, Thomas Henry. Escritos sobre ciência e religião. São Paulo: Editora UNESP, 2009. (Col. Pequenos Frascos).
2 Hitchens é conhecido por sua admiração a George Orwell, Thomas Paine e Thomas Jefferson, frequentemente citados em seus livros.
3 HITCHENS, Christopher. The missionary position: Mother Teresa in theory and practice. London: Verso, 1996.
4 Pode ser visto no YouTube, em: <http://www.youtube.com/watch?v=zjB1YlDE4ok> Acesso em: 10 out. 2012.
5 DAWKINS, Richard. O gene egoísta. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. The selfish gene foi publicado pela primeira vez em 1976.  
6 “[Nietzsche] atacou o cristianismo com fanatismo. Serviu-se de certas formas do cristianismo histórico nas quais só via debilidade e mentira. Rejeitou a idéia de um Deus vingador. É difícil verificar até que ponto sua fúria anti-religiosa não oculta um cristão potencial ou reprimido.” (ZILLES, Urbano. Filosofia da Religião. 2. ed. São Paulo: Paulus, 1991. p. 180 [Col. Filosofia]).
7 François La Rochefoucauld (1613-1680), escritor moralista francês. 
8 John Stuart Mill (1806-1873), filósofo e economista inglês, divulgador do pensamento utilitarista. 
9 Pseudônimo de Sébastien-Roch Nicolas (1740-1794), que foi poeta, jornalista, humorista e moralista francês.  
10 Cabe exatamente ao conceito da moral cristã de Santo Agostinho (354-430), relacionado ao uti e frui, que, principalmente no De doctrina Christina, aparecem pormenorizados e definidos: “Fruir é aderir a alguma coisa por amor a ela própria. E usar é orientar o objeto de que se faz uso para obter o objeto ao qual se ama, caso tal objeto mereça ser amado” (De doc. christ., I, 4). Nas palavras de Lima Vaz: “Agostinho recorre à distinção frui-uti para estabelecer a distinção entre a dimensão teológica e a dimensão antropológica da doutrina cristã, a primeira compreendendo o mistério da SS. Trindade, os atributos de Deus e a Encarnação do Verbo, a segunda tendo por objeto a ordem da vida moral do homem, considerado na excelência de sua condição de criatura feita à imagem e semelhança de Deus. A ordem da vida moral é, pois, regida pela ordem do amor que se desdobra na esfera do uso como amor de si mesmo e dos outros segundo o reto modo e os graus correspondentes, e se eleva finalmente à esfera da fruição como amor de Deus, amado em si mesmo e por si mesmo.” (VAZ, Henrique Cláudio de Lima. Escritos de filosofia IV: introdução à ética filosófica. São Paulo: Loyola, 1999. p. 193).
11 Johann Gottfried Herder (1744-1803), escritor alemão.
12 Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1831), filósofo romântico-idealista alemão, combatido tanto por Kierkegaard como por Schopenhauer e Nietzsche.


segunda-feira, 24 de setembro de 2012


18.






De como ficam tolos, os bêbados e os apaixonados




Tarde de sábado em Campina Grande, ali no Ferro de Engomar.
No bar, que ganhou o nome por ter o formato de um ferro de passar roupas, encontrei amigos que já estavam por lá desde a hora em que a manhã cumpriu o seu ofício. Havia cachaça em copos espalhados sobre a mesa, e cerveja, e cigarros, e conversas atiradas para todos os temas. Um grupo de homens tocava samba, mantendo o que já é, ali, tradicional ajuntamento. E até me arrisquei a tocar algumas coisas junto com eles, armado com um triângulo.
Notei a mulher posta em pé, próxima à porta do banheiro. Seu companheiro lhe pagava bebidas e, vez ou outra, cobrava alguns carinhos. E ela parecia feliz, protegida pelo seu homem. Dois completos desconhecidos.  
Tarde bem caída, e quando todos pareciam ensaiar as primeiras despedidas, a mulher subiu ao balcão e, sem se importar com as reclamações do dono do bar – que depois me disse estar morto de cansaço, por não haver dormido nadinha na noite passada –, olhou para todos que, surpreendidos pelo gesto, deveriam ter, se fossem personagens de uma história em quadrinhos, aqueles balões cheios de interrogações desenhados sobre as suas cabeças.  
– Gente! Genteee! – ela falou, como a pedir atenção. – Eu posso falar?
Todo mundo aplaudiu, respondendo em coro e acompanhando os gritos com palmas:
– Fala! Fala! Fala! Fala! Fala!...
A cara do dono do bar não era de satisfação, mas, diante do apelo comum, deixou que a cena continuasse.
– Vocês sabem o que é o amor? Vocês sabem o que é o amooooor? – Perguntou assim, de modo retórico, esticando bem muito o “ôooor...” no final da palavra. – Eu vou dizer. O amor é uma coisa muito louca, mas é muito lindo também.
– Êeee... – Todos aplaudiam, em festa e picardia. Ela continuou:
– Eu subi aqui somente para dizer isso, e dizer que amo esse homem. – Tinha a cara encabulada, mas resistia, feliz e embriagada, apontando para o homem que também parecia meio acanhado.  
Daí, e atestando a veracidade da loucura que é o amor, todos começaram a gritar ainda mais e ainda mais agitados:
– Tira a roupa! Tira a roupa! Tira a roupa! Tira a roupa! Tira a roupa!...
Mas ela não tirou.
Desceu do balcão, ajudada por seu companheiro, que lhe recebeu com um beijo, atendendo à saraivada de palmas e gritos de “beija!, beija!, beija!, beija!, beija!, beija!..”
“A paixão é uma dama perversa, e de reações têpêemísticas variadas!”, pensei, na hora, lembrando-me de um fala do Fedro, n’O banquete, de Platão, em que a coragem alucinada dos apaixonados é pura sandice e, por isso, “dê-me um exército de amantes e conquistarei o mundo”, ele dizia.1
Na literatura, a temática amorosa costuma privilegiar o absoluto do amor, a opção eletiva do um pelo outro, nas promessas de exclusividade do amante ao seu objeto.  Na literatura ocidental, especialmente, o tema do amor também é alimentado pela tragicidade, pelo obstáculo e pelas tantas provações – puro platonismo.2 A maior história de amor do Ocidente termina com o seu personagem principal crucificado, e por amor a uma que, na trama, aparece como sua noiva... Ele se vai, prometendo voltar logo, rico e majestoso; ela o espera, pacientemente, sem pensar em se dar a outro.  
Figurado em Alceste, que oferece a sua vida em favor do seu marido3, Roland Barthes reconhece a historicidade do discurso ausente, aquele marcado na voz da Mulher: e ela que espera o Homem que partiu – como Penélope, a Odisséu; como a Igreja, a Cristo –, dispondo de todo o tempo do mundo para tecer o seu tapete, construir a sua doutrina poético-teológica, ou elaborar a intrincada ficção de um discurso interior: “[...] a ausência apaixonada dirige-se apenas num sentido e não pode exprimir-se senão a partir de quem fica – e não de quem parte: o eu, sempre presente, não se constitui senão em face de ti, sempre ausente.”4
Seja no andrógino de Aristófanes, narrado por Platão5, seja na Eva, feita da costela do Homem – e, por sua causa, a sua ruína –, o que há, nas relações afetivas, pela união ou pela separação, é a insatisfação satisfeita, a dor consentida, o “fogo que arde sem se ver”, a “ferida que dói e não se sente” – e isso, naturalmente, não explica o ideal, nem o revela, mas o real, e o animal no/do homem (no sentido mais abrangente do termo), sempre à caça não de uma vítima, mas da vida (Vontade de vida)... embora domado pelas morais dominantes, a heterônoma ou a autônoma, especialmente.
Na primeira parte de O conceito de ironia constantemente referido a Sócrates, publicado em 1841, Sören A. Kierkegaard mostra que o discurso de Sócrates, em contraponto ao dos seus predecessores, n’O banquete, tem a ironia como método. O pensador dinamarquês não tem uma novidade maior que esta, e apesar das críticas que faz ao romantismo6. Às coisas do amor, se ainda permanecemos em Kierkegarrd, será preciso ir à outra obra sua, o primeiro volume de A alternativa: Diário de um sedutor... mas, mesmo aí, e o estágio do esteta que aparece, e que, como se sabe, será ultrapassado pelo ético, e, este, pelo religioso. Mas, não vou falar disso... por hora.
Se, à semelhança daquela mulher apaixonada, eu também subisse ao balcão e fizesse um discurso sobre o amor, mas dizendo o que é que ele é mesmo, de verdade, era bem capaz de tomar umas garrafadas no meio da cara, para aprender a não estragar a festa alheia.  






1 O banquete, 179 a. PLATÃO. O banquete (O Simpósio ou do Amor). Lisboa: Guimarães Editores, 1986.
2 Veja o discurso de Sócrates, reproduzindo os ensinos de Diotima, em: O banquete; e também o Fedro. PLATÃO. Fedro (ou da Beleza). 6. ed. Lisboa: Guimarães Editores, 2000.
3 Cf. O banquete, 179 b.
4 BARTHES, Roland. Fragmentos de um discurso amoroso. Lisboa: Edições 70, 2001. p. 52.
5 Também n’O banquete, 189c–193e.
6 “A ironia trabalha com o mal-entendido. A própria banca examinadora [da tese de Kierkegaard, que resulta no referido livro] experimentou isto na carne. O orientador da tese, Prof. F. C. Sibbem, não entendeu bem a ligação da primeira com a segunda parte, enquanto outros pareceres falaram até de dois trabalhos distintos, um sobre Sócrates e outro sobre o romantismo.” (VALLS, Álvaro. L. M. Apresentação. In: KIERKEGAARD, S. A. O conceito de ironia constantemente referido a Sócrates. Petrópolis: Vozes, 1991. p. 11. [Col. Pensamento Humano]).


terça-feira, 11 de setembro de 2012


17.






De como Ghiraldelli não explica nada sobre o amor (Parte 2, e final)




Rio de Janeiro, 25 de outubro de 2011, 05:35. Aeroporto Internacional do Galeão, aquele do Samba do avião, música do Tom Jobim; e que, por isso, também tem o nome dele, como homenagem.

– Tá gostando?
– Ah!?
– Do livro.
Um homem de barba rala, já quase toda branca, alto e de aspecto sisudo, porém gentil, apontava para o livro que eu segurava com alguma atenção. Daí notei quem era: Paulo Ghiraldelli Jr., autor de Como a filosofia pode explicar o amor. O livro que, por acaso, eu tinha em mãos. Não vou mentir dizendo que não fiquei meio constrangido e, talvez por isso, não soube bem o que dizer além de um honesto:
– É para ser honesto?
– Sim! Por favor! – Ghiraldelli disse, parecendo confiante e muito animado.
No automático, lembrei-me da crítica de Nietzsche ao cristão materialista David Friedrich Strauss, por seu livro A antiga e a nova fé, de 1872, que fizera aumentar o alarde já iniciado com a publicação de A vida de Jesus, de 1836. O impacto dessas obras na sociedade europeia da época, e o modo como o nome de Strauss estava ligado ao de Hegel, foi o que fez Nietzsche se opor ao referido pensador. Na Primeira consideração intempestiva: David Strauss, sectário e escritor, Nietzsche o acusa de, dentre outras, desconhecer a filosofia, não fundamentar consistentemente a sua ideologia cristã materialista-evolucionista e, de muitos modos, ser débil em suas argumentações, além de dominar precariamente a língua alemã, escrevinhando frases desconexas e sem sentido, mal elaboradas e, às vezes, ofensivas à mínima estrutura de um sistema linguístico que preze pela divulgação de ideias e alguma cultura. Também acusa os leitores de Strauss. Esses, ludibriados pela água turva do poço, deixam-se enganar por sua pretensa profundidade. A coletividade alemã é despreparada culturalmente e, por isso, incapaz de demonstrar senso crítico contra escritores como Strauss; é, igualmente, incapaz de acatar verdadeiras críticas e novas propostas de pensadores sérios; assim, e pelo modo como consomem tais obras, favorecem o surgimento e a proliferação de autores mesquinhos e ávidos por fama e fortuna, como o esperto Strauss.
– Na verdade – eu disse, agora pensando em outros espertos, como Ghiraldelli ou Gabriel Chalita –, penso que o senhor realmente não mostra como a filosofia pode explicar o amor. Com exceção do trecho que fala sobre Freud... – procurei o sumário – ... no capítulo 8, e que nem é lá tão extenso, não creio que autores como Schopenhauer, citado apressadamente, Lou-Salomé e Stendhal, somente para lembrar alguns dos mais relevantes, devessem ser ignorados em um livro que, ao menos no título, tanto promete.
– Mas eu falo de Stendhal...
– “Menciona”, e quase por acidente, e o faz em referência a’O vermelho e o negro. E quando o Do amor aparece, acho que é no capítulo 13 – lembrava bem disso porque havia associado o tal capítulo à passagem famosa da carta de são Paulo Aos coríntios –, é em uma referência muito discreta, como não deveria ser; para ele, pelo menos um capítulo, inteiro... e não pequeno.
– Nossa! – Ele disse –, você leu mesmo, hem?
– ...
– Mas, melhor assim. Ao menos mostra que leu. Fale mais.
– No capítulo dedicado a Freud, é O mal-estar na civilização que aparece. Penso que, para falar sobre o amor romântico, que está no mesmo nível da religião, pela sublimação que fazem das afecções, delirando sobre a pureza e a eternidade da sua Fonte, seria mais adequado utilizar O futuro de uma ilusão e...
– Mas – ele atalhou –, já que você prestou tanta atenção, deve ter notado que, até pela quase ausência de referências, notas de rodapé, índice anosmático e temático, é uma obra que se destina a um público, digamos, um público mais leigo.
– E não por acaso eu o comprei em uma banca de revistas.
– Foi? Onde?
– Lá em João Pessoa, na Paraíba.
– Olha aí! – Parecia contente. – Vejam só onde chegamos!
– ...
– Mas, você esta vindo de onde para onde?
Disse que era de João Pessoa mesmo, e esperava uma conexão para Porto Alegre. O voo, por ventura ou por azar, estava atrasado e sem perspectiva de chegada, devido ao mau tempo.
– Porto Alegre! – Ele disse, repetindo a minha última frase. – Desculpe, acho que não perguntei teu nome.
– Antonio Patativa de...
– De Assaré?!
– ... de Sales.
Sempre me impressiono de como as pessoas fazem essa piadinha, tão sem graça. Mas eu nunca fui deselegante por isso, e não seria, agora, com um colega de ofício. Assim, somente acrescentei:
– O de Assaré morreu em julho de... 2002; eu, ao contrário...
– Que Deus o tenha! – Ele disse.
– Duvido muito! – Respondi.
– Não acredita em Deus, Antônio?
– E nem no amor; ao menos como está escrito aqui, em seu livro. É sério: por que é que a gente tem tanto medo de dizer que... o rei está nu? Diga aí, companheiro.
– Hummm... Antônio, se você olhar bem aí... Posso pegar? – Entreguei o livro e deixei que ele procurasse o que, parece, queria me mostrar. Demorou um pouco a que achasse o trecho, e vibrou discretamente ao encontrá-lo, um leve riso de satisfação. – Aqui, ó! Página 58, capítulo 8: “Freud trouxe à baila algo que Schopenhauer e Nietzsche intuíram: que deveríamos prestar mais atenção à ideia de amor como algo vindo do mundo terreno, por mais espiritualizado e/ou idealizado que este pudesse parecer, como de fato se fez representar no chamado amor romântico.”
– ...
– Bem, é alguma coisa; não é? – parecia meio desapontado.
– “Freud trouxe à baila algo que Schopenhauer e Nietzsche intuíram...” Intuíram, nada! – Eu disse. – Eles foram bem além da mera “intuição”. Capítulos como Leben der Gattung, Methaphysik der Geschlechtsliebe e Die Pederastie, de O Mundo como Vontade e como Representação, não são, de forma alguma, mera “intuição” – desenhei as aspas no ar, com as pontas dos dedos, aproveitando que ele ainda segurava o meu/seu livro. – Uma geração antes de Darwin e 60 anos antes de Freud ou Nietzsche – continuei –, Schopenhauer foi o primeiro a apontar as razões inconscientes e biológicas para o amor. Coisa que, hoje, parece bem óbvia às pessoas mais entendidas e menos dadas às fantasias românticas.
– É – ele disse –, parece que tenho de admitir que não me detive o suficiente no velho Schopenhauer, embora tenha, de certo modo, apontado um pouco sobre o seu pensamento amoroso ao falar sobre Freud, sobre o Eu,  o corpo e...
– Foi Schopenhauer quem identificou o eu ao corpo: Eu-corpo; e o corpo ao mundo: corpo-mundo. Daí concluiu, partindo dos sentimentos imediatos deste último, que a essência íntima de cada coisa é a Vontade. Ele partiu da própria subjetividade egótica, como também fizeram os demais filósofos do idealismo alemão, mas lhe imprimiu uma dimensão novíssima de tratamento. Faz isso ao acrescentar, nela, a sua qualidade corpórea. A novidade que isso trouxe ao idealismo não foi percebida por seus contemporâneos. E ainda hoje se coloca a Nietzsche e Freud como promotores dessa descoberta decisiva. O mesmo se dá, de acordo com Roberto Rodríguez Aramayo, em relação à descoberta dos impulsos sexuais, relacionados à vontade de vida, etc.
– Roberto?...
– ... Rodríguez Aramayo, no “Estúdio preliminar” que faz à edição castelhana de Metafísica de las costumbres, de Schopenhauer. Parece que editado pela... não lembro a editora.
– Vou verificar isso.
– Lembro ainda que, no mesmo Estudo, falando sobre a influência da “teoria do amor” de Schopenhauer sobre Freud, Aramayo diz que esse não parecia muito disposto a ver em Schopenhauer o muito da sua inspiração, como registra em sua Autobiografía. E ele cita o trecho – reproduzi o mais fielmente que pude, conforme lembrei –: “A ampla convergência da psicanálise com a filosofia de Schopenhauer, que não somente reconheceu a primazia da emoção e da extraordinária importância da sexualidade, mas também o mecanismo de repressão, não pode ser atribuído ao meu conhecimento de suas teorias, como vi em Schopenhauer, mas em uma época muito avançada em minha vida.” Freud preferia confessar déficits ignorantes de leitura a dar a glória de uma “descoberta atribuída”. Enfim.
Ghiraldelli parecia entediado; e eu acabei ficando. Ele devolveu o livro, dizendo:
– Mais alguma observação? Esse nosso voo parece que vai demorar mais que o esperado.
– Pior que é. Então você está indo à PoA também?
– Pois é.
– Ah!, lembrei de uma coisa que, putz!, não poderia deixar passar.
Ele riu, como a dizer “lá vem você de novo”, e fez sinal para que eu prosseguisse.
– E quando... deixa eu ver aqui... – Localizei o trecho, que ficava no comecinho do referido capítulo “dedicado a Freud”, e li –: “Não canso de admirar as músicas de Rita Lee. As dela ou as que ela escolhe para interpretar. ‘Amor é isso, sexo é aquilo’, de ‘Amor e sexo’, é uma das frases mais fantásticas que eu ouvi. – Olhei para Ghiraldelli, com cara de “ah, tá!, senta lá, Cláudia!” Ele não disse nada. Continuei: – “Leva à verdade, à reflexão e, mesmo fazendo tanto, mantém uma simplicidade estonteante. O amor é o que está perto, isto aqui, ora, mas que o sexo fique bem longe, que seja aquilo lá. ‘Amor é isso’, veja que bonito!” – Fechei o livro, inconformado:
– A beleza, aí, não é mais que uma vontade que ela seja, para além do feioso “aquilo lá”. I believe the common denominator of the universe is not harmony; but chaos, hostility and murder.” Herzog acredita como Schopenhauer; e eu os sigo, nisso. Não há beleza alguma na procriação, na luta pela vida. O Pequeno Príncipe pensando em sua Rosa vaidosa... é a tradição romântica inteira mantida, sob a máscara de um Eros domado. Solum poeticae litterae, tantum fidem. Ademais, a letra nem é de Rita Lee, mas do Arnaldo Jabor. Pelo amor de Deus!...
– Eiii...!, e quando eu falo em “as dela ou as que ela escolhe para interpretar”? Isso não conta, não?
– Sim!, até conta. Ou melhor: até contaria, se, depois, logo na página seguinte, não estivesse assim – reabri o livro, na página 58, e mostrei-lhe o trecho que eu havia grifado com grafite –: “Sob essa luz dupla, sua atividade poderia ser descrita como uma tentativa de modificar a frase de Rita Lee.” Rita Lee? E que frase seria essa?
– “Amor é cristão, sexo é pagão...”
– Exatamente! Pode até ser bonita a frase (que não é da Rita), mas não tem nada de verdadeiro nela. E é exatamente isso que, parece, poderia ter sido mostrado, através de Schopenhauer, Freud, Nietzsche ou mesmo Lou-Salomé, dente outros e outras. E tem mais...
– ... Pode falar.
– ... Você diz que o livro é destinado ao público leigo, et cetera. Se é, para que utilizar, e sem tradução, termos latinos como par excellence e mutatis mutandis? E isso, a utilização deles, bem mais de uma vez. Soam deslocados e... deselegantes, dentro do grande contexto. E quando, aqui... – mostrei-lhe a página 50 – ... você cita Luc Ferry, a referência que aparece (“Aquele que é consciente do seu pensamento e responsável pelos seus atos”) é a uma obra sua, em que você já havia citado a citação, e a gente acaba sem saber onde foi mesmo que o danado do Luc Ferry disse isso. Há mais referência e referências às tuas próprias obras, Ghiraldelli. É como se, para justificar algo que você diz, você recorresse à sua própria autoridade. E por falar em autoridade: quando você faz referência ao “amor cristão”, baseado na obra de Hannah Arendt, é pensando n’A condição humana, e subscrevendo-a, como se o que ela diz aí fosse certo e acabado. Para falar de amor, em Arendt, eu escolheria O conceito de amor em Santo Agostinho, que é onde isso parece estar bem mais claro e fundamentado, embora equivocado... por afirmar coisas como esta, que está em seu livro: “Diz Arendt que foram os romanos, e não os gregos, que lançaram a ideia de comutar penas, em especial a pena de morte. O hábito de governar povos conquistados, a partir de províncias, obrigou os romanos a introduzir formas de amenização de penas. Todavia, foi só com o Evangelho de Jesus que surgiu o conceito de perdão.” É como se a história do mundo se resumisse à história do Ocidente, e fosse toda ela cristianizada. Naturalmente que é preciso destacar a noção de perdão, na perspectiva jurídica, e o perdão, na perspectiva teológico-salvífica, como aparece na cristandade, et cetera. Agora, confundir o perdão com o amor, e sublimá-lo, como se a coisa sublimada fosse real e fundamento de fundamentos, aí é que está o mais do mesmo do livro, e a manutenção do status quo do pensamento e do erro mais comum a tantos e tantos que escrevem sobre o amor. Essa é a grande novidade em Schopenhauer, ausente em teu livro. Ele, apesar de também ter se voltado a’O banquete de Platão, como você também faz, e ao Fedro, supera-os, depois de elogiá-lo, dizendo que ele foi o que mais se dedicou ao tema do amor sexual. Mas o que Platão dizia sobre o tema, conforme Schopenhauer, não passava de mitos, de fábulas e anedotas que se referiam, geralmente, à pederastia. Assim, sobre o tema do amor, Schopenhauer não teve predecessores a copiar; e os seus contemporâneos nada diziam que fosse digno de grandes comentários...
– Boa observação! Não tenho o que contestar. Admito que deveria ter dado mais atenção a pormenores como esses...
– E outros.
– Outros? Quais?
– Tem um que é central, superior a todos. Foi por causa dele que, logo de cara, vi que o teu livro não me seria lá de muita ajuda.
– Uau! Isso me pareceu bem imodesto.
– O que é a modéstia?
– Ok! OK! Evitemos essa digressão. O que foi que deixou o meu livro tão... rebaixado em teu conceito?
– Logo no primeiro capítulo, quando você descreve os tipos de amor, na literatura, et cetera. Os que aparecem: Eros, philia e ágape. Você não vai, em nenhum capítulo depois, dizer que esses amores, todos eles, são apenas meios de falar, por outro viés, do amour de soi, do amor-próprio, ou o stergein dos gregos, e nosso, naturalmente. Não foi por acaso que eran e stergein, no Novo Testamento, foram evitados. Você não somente subscreve o Novo Testamento como subscreve a quem o subscreve, como Agostinho e Arendt, exaltando festivamente as sublimidades de philein e agapan. Não posso aceitar isso senão como uma espécie de manutenção ad infintum das histórias da carochinha, dos contos de fadas, do amor do Pequeno Príncipe à sua Rosa, e mais do mesmo... um equívoco milenar. Hoje, na emergência do sujeito, não precisamos mais de subterfúgios como “egotismo”, para driblar o velho sentido pejorativo do Eu supervalorado. No início do Walden, de Thoreau, ele diz que “a maioria dos livros omite o eu ou a primeira pessoa”, daí, e como justificativa, o seu eu, ali, será mantido; e essa é a sua diferença, em relação egocentrismo. “Geralmente não lembramos que, afinal”, ele diz, “é sempre a primeira pessoa que está falando.” E, “eu não falaria tanto sobre mim mesmo se existisse alguma outra pessoa que eu conhecesse tão bem.” No amor ou no ódio, para o amor ou para o ódio, a nós mesmos ou aos outros, é o nosso Eu-messsmo que aparece – falei assim, esticando o “s” bem muito, e metendo um excessivo “nosso Eu-messsmo” para enfatizar a ênfase. – O que fazemos disso é que são outros quinhentos e, daí, a importância atual da ética, mas a autônoma, nunca heterônoma. Madre Teresa de Calcutá: ágape ou stergein? Não há dúvida: stergein. Mil vezes stergein! Quanto mais amor, tanto mais egoísmo. Santa Teresa D’Ávila, o piedoso Padre Pio, Adolf Hitler, Pol Pot, Pinochet, Reverendo Moon, Billy Graham... tudo stergein, de um jeito ou de outro...
– “Atenção, senhores passageiros do voo...”
Era a voz no sistema de som do aeroporto, informando que a aeronave já estava se preparando para pousar e que, em breve, anunciariam os procedimentos para o nosso embarque.
– Ufa!, finalmente! – ele disse.
O seu “ufa!”, desconfiei, tinha uma dupla causa: a chegada do nosso avião e a pausa que isso impôs à minha falação sem fim. Eu realmente havia me empolgado naquilo, e não era por acaso que havia comprado o bendito livro do Ghiraldelli, que eu parecia querer depenar por tanto, sim, haver me decepcionado.
– Posso falar só mais uma coisa?
– Mas você nem deixou espaço para as minhas respostas, Antônio.
– Hum... foi mesmo. Desculpe.
– Nada! – ele ziguezagueou com a mão, sinalizando que não havia nada a ser desculpado. – Na verdade, prefiro ouvir as suas colocações... elas podem ajudar a, quem sabe, melhorar uma próxima edição, me fazer rever alguns pontos.
– Pois, se você for rever alguma coisa, pelo amor de deus, companheiro!, exclua aquele monte de referências ao homem de Platão, segundo Aristóteles, só na “sacanation”. “Bípede sem plumas”... é muito clichê, e usado e abusado como você faz, é muito deselegante.
– “Senhores passageiros do voo...”
Era o nosso. Despedimo-nos em um aperto de mão amistoso, como convém aos cavalheiros. Entre filósofos, diferentemente do que ocorre entre os teólogos, a discórdia não aponta para fogueiras, nem condenações eternas. Poderíamos ter ido, inclusive, à fila de embarque; mas desejei ir ao banheiro antes. Depois disso, nunca mais encontrei Ghiraldelli; nem em aeroportos, nem em congressos de filosofia, nem em nada... e duvido muito que ele se lembre de alguma coisa dessa nossa conversa chata e tediosa. Melhor assim.





quarta-feira, 5 de setembro de 2012


16.





De como Ghiraldelli não explica nada sobre o amor (Parte 1)



 “Antes de alguma palestra, enquanto se espera dar a hora exata do início do evento, é comum as pessoas formarem grupinhos de conversação ao redor do palestrante. Eu estava em uma roda de bate-papo desse tipo, na universidade. No centro dela, o padre convidado a falar também aguardava o momento, mas ali mesmo já havia começado a aquecer a garganta. Dava suas opiniões sobre tudo, falando pelos cotovelos, e, como de praxe, tecia comentários doutorais a respeito do amor. Foi então que o meu celular chamou. O toque não era tradicional, mas aquele com sons diferentes. No caso, tratava-se dos ruídos característicos de uma moça fazendo amor, que alguém em casa havia colocado como ‘chamada’! Eis que o constrangimento foi geral. E piorou quando eu, tentando consertar a situação, comentei que aquilo era o que de fato era mesmo: ‘gemidos de amor’. Saí logo da roda para atender à chamada e, evidentemente, não voltei.
“Interessante esse fato: falávamos de amor, mas os gemidos de amor não foram bem-vindos!”1

É o primeiro parágrafo e início do segundo, no capítulo 1 de Como a filosofia pode explicar o amor (Universo dos Livros, 2011), do professor Paulo Ghiraldelli Jr. E essa é a melhor parte do referido livro – por, e com graça, mostrar o contraste entre o ideal (o amor romântico, sublimado, no discurso “piedoso” do padre) e o real (os gemidos do sexo sendo feito, sem piedade alguma).
Erra-se, e erra-se muito – e o próprio Ghiraldelli não será isento a isso, em seu livro2 – quando se faz a distinção entre uma coisa e outra, ou quando confundem esse amor como derivação daquele Outro, como se o ideal, sublime, sublimado, tivesse uma existência própria, extramundana, e não somente em nós mesmos, em nossos delírios e vontades inconscientes. No amor e na guerra, e sem tal delírio, nada é lindo, nada é sublime, nada é encantado; tudo é fome e destruição.






1 GHIRALDELLI JR., Paulo. Como a filosofia pode explicar o amor. São Paulo: Universo dos Livros, 2011. p. 7. (Col. Filosofia Prática).
2 Que, por sinal, faz parte de uma coleção intitulada “filosofia prática”, da editora supracitada. Olhando-se a fundo, porém, e pela mera repetição do autor às concepções ultrapassadas e teóricas, subscrevendo-as, a “praticidade”, aí, auxilia apenas à manutenção do romantismo – fonte de lucros garantidos ao mercado editorial, à indústria cinematográfica e musical, dentre as mais representativas, nas artes – e do equívoco milenar, desde Platão até os dias de hoje. Minha crítica, sobre a obra, aparecerá no diálogo a seguir.  


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