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quarta-feira, 10 de outubro de 2012


19.





Do egoísmo e seu problema



Antes de ser vitimado por um câncer em 15 de dezembro de 2011, Christopher Hitchens foi um dos ateus mais atuantes e influentes, defendendo teses que mostram a atual desnecessidade das religiões; existentes, no passado, por alguns motivos óbvios: o nosso medo infantil daquilo que é maior que nós, e externo (o mundo, o cosmos, o desconhecido, etc.), nosso medo da extinção do nosso Eu post mortem e a necessidade de alguma resposta à pergunta: “por que há alguma coisa ao invés do nada?” A resposta da fé foi, por muito tempo, mais importante do que a resposta nenhuma. Nunca soubemos silenciar o pensamento inquiridor, a dúvida cortante, o espanto diante de... Daí nasceu a filosofia, daí vieram as religiões. Por um viés mais político, a religião também foi (e ainda é) instrumento para o surgimento, poder e manutenção de líderes autointitulados – ou intitulados por outros – representantes dos deuses entre nós, seus/nossos legítimos mediadores na terra, etc.
Ensaísta, crítico literário e jornalista, Hitchens era conhecido, juntamente com Richard Dawkins, Sam Harris e Daniel Dennet, como um dos quatro “cavaleiros do ateísmo”. Algumas teses de Hitchens têm bases antigas, apoiadas nos estudos naturalistas de Charles Darwin e no pseudo-agnosticismo de Thomas Henry Huxley1 (“pseudo” porque, embora seja assim que o próprio Huxley tenha definido a sua posição religiosa – aliás, o primeiro a fazê-lo –, suas convicções são as mesmas de qualquer ateu confesso), bem como na grande crítica de Nietzsche à moral cristã e no materialismo histórico de Marx, Engels, dentre outros2. Seu livro de 1995, The missionary position: Mother Teresa in theory and practice3, foi base para um documentário produzido para a televisão, que, no Brasil, ganhou o título de Madre Teresa de Calcutá: anjo do inferno4, no qual é narrador. Madre Teresa foi, para Hitchens, uma “ladra anã e fanática”, uma “demagoga de extrema-direita”, uma fraude dissimulada. No seu “amor ao outro”, o que mais aparecia era o amour de soi. Embora a teoria do “gene egoísta” (the selfish gene) tenha sido divulgada por seu amigo Dawkins5, não há como não vê aí – e em todos os livros de Hitchens – a natural prevalescência do Eu como agente primeiro e inevitável a qualquer causa que seja considerada boa ou má, conforme as normas culturais e/ou os juízos éticos consensuais, dentre outras áreas e análises que podem ser lembradas – a religiosa, por exemplo.
Apesar da fama de crítico das religiões – da cristã, em especial –, nem Hitchens, nem Dawkins, e nenhum outro “cavaleiro do ateísmo” foi tão frio e incisivo, até hoje, quanto o já mencionado Nietzsche – a quem o equivocado Urbano Zilles se refere, forçadamente, como um “cristão [em] potencial ou reprimido”6. Não mesmo!
Depois de ver Madre Teresa de Calcutá: anjo do inferno, o trecho abaixo – enorme, mas interessante e provocativo – fará todo o sentido, e reforçará o que é dito por Hitchens, Dawkins, Harris e Dennet, referente ao nosso egoísmo inevitável, e necessário.   

“253 – O egoísmo e seu problema! A tristeza cristã em La Rochefoucauld7 que o encontra em toda parte e julga com isso diminuir o valor das coisas e das virtudes! Procurei de início demonstrar contra ele que nada mais pode existir senão o egoísmo – que no homem, cujo ego se enfraquece e se ameniza, a força do grande amor se enfraquece também – que os grandes apaixonados o são por força de seu ego – que o amor é uma expressão do egoísmo, etc. O erro na avaliação visa na realidade o interesse: 1º. daqueles que é necessário servir, ajudar; do rebanho; 2º. contém uma suspeita pessimista na própria raiz da vida; 3º. procura negar os homens mais magníficos e mais realizados: medo; 4º. quer ajudar os vencidos a reivindicar seu direito contra os vencedores; 5º. acarreta uma deslealdade geral, até entre os melhores homens.

“254 – Crítica do amor-próprio. – Ingenuidade involuntária de La Rochefoucauld, que acredita dizer algo de audacioso, livre e paradoxal – nessa época a ‘verdade’ psicológica parecia surpreendente. Exemplo: ‘As grandes almas não são as que têm menos paixões e mais virtudes que as almas comuns, mas somente as que têm maiores desígnios.’ É verdade que John Stuart Mill8 (que chamava Chamfort9 o La Rochefoucauld do século XVIII, mas mais nobre e mais filósofo) só vê nele o observador perspicaz de tudo o que na alma humana se reduz ao ‘amor-próprio habitual’ e acrescenta: ‘Um espírito nobre jamais consentirá em se impor a necessidade de considerar de modo duradouro a vulgaridade e a baixeza, se for para mostrar contra quais influências nefastas a elevação do espírito e a nobreza do caráter podem prevalecer.’

“255 – Nunca pensei em ‘deduzir’ todas as virtudes do egoísmo. Gostaria de estar certo primeiramente que são ‘virtudes’ e não formas temporárias que o instinto de conservação assume em certos rebanhos, em certas comunidades.

“256 – Não pode haver ações não egoístas; as palavras ‘instinto altruísta’ soam a meus ouvidos como ‘ferro de madeira’. Gostaria que se tentasse demonstrar a possibilidade de semelhantes atos. É o povo que acredita que existem, e todos aqueles que se assemelham ao povo; – é como se acreditássemos que o amor materno ou simplesmente o amor são sentimentos altruístas.
            Acreditar que os povos sempre interpretaram no sentimento do egoísmo e do altruísmo o quadro do bem e do mal é um erro histórico. O bem e o mal como o ‘lícito’ e o ‘ilícito’ (conforme ou não ao ‘costume’) são muito mais antigos e universais.

“257 – Os homens admiram e elogiam os atos de outro que parecem desinteressados de sua parte, contanto que esses atos sirvam a eles. (Desinteressados no sentido do desfrute ou da utilidade). Outrora se conferia ao desfrute e à utilidade10 um sentido muito vulgar e muito estreito; e todo aquele que fizesse uma coisa, por exemplo, para a glória, já era desinteressado na opinião dos homens grosseiros, da massa. É porque não viam os desfrutes mais delicados, porque muito maior era a estima no domínio do desinteresse. A falta de refinamento psicológico é a razão de muitos elogios e de admiração. Uma vez que a massa não tem paixão, admira a paixão, porque está ligada a sacrifícios e ignora a prudência; não podendo imaginar o desfrute que a paixão oferece, era negada. A multidão despreza tudo o que é habitual, fácil, pequeno.

“258 – Como nascem o instinto, o gosto, a paixão? Esta sacrifica em proveito próprio outros instintos menos poderosos (outras necessidades de prazer); não é altruísmo. Um só instinto domina os outros, mesmo o pretenso instinto de conservação. O ‘heroísmo’, etc., não foram compreendidos como paixões, mas como eram muito úteis aos outros, eram considerados como superiores, mais nobres, diferentes, porque a maioria das outras paixões eram perigosas para os outros. Era uma visão bem limitada! Mesmo o heroísmo do patriotismo, da lealdade, da ‘verdade’, da pesquisa, etc., é extremamente perigoso para os outros – mas os homens são muito tolos para perceber isso. De outra forma, difamariam as virtudes altruístas, como a cobiça, a sensualidade, a crueldade, o gosto das conquistas, etc. Mas as primeiras, uma vez julgadas e sentidas como boas, aos poucos foram idealizadas, tornaram-se ideais. É assim que o trabalho, a pobreza, a usura, a pederastia foram desprezadas em certas épocas, idealizadas em outras.

“259 – Que um homem não deseje certas coisas, não goste delas, nós lhe imputamos isso à baixeza e à vilania. O ‘altruísmo’ é exatamente o contrário: consiste em amar certas coisas às quais sacrificamos outros instintos e sobre as quais a maioria dos outros homens não chegue até mesmo a pensar que possamos amá-las até esse ponto. Desse modo admitem o milagre do ‘altruísmo’.

“260 – Os homens constataram com surpresa que alguns negligenciam seu próprio interesse (na paixão ou por gosto); ficaram cegos em proveito íntimo do orgulho, da emoção, etc., e consideraram esses homens primeiramente loucos, depois bons, no caso em que levassem vantagem da parte deles. Em seguida desenvolveram a crença de que esses atos são realizados propositadamente para seu bem. Ao elogiar essa espécie de homens e de ações, conseguimos fomentar outros atos análogos e gratuitos. O que exaltou o altruísmo até esse ponto foi o egoísmo daqueles que necessitam de ajuda e benefícios.

“261 – O amor. – Olhem-nos a funda esse amor e essa compaixão feminina – o que há de mais egoísta? E quando as próprias mulheres sacrificam sua honra, sua virtude, a quem elas se sacrificam? Ao homem? Ou melhor, a uma necessidade desenfreada? São desejos igualmente egoístas, embora representem um benefício para outros e inspirem reconhecimento.
            Em que medida semelhante superfetação de um único valor pode santificar todo o resto.

“262 – Viver para os outros: passatempo infinitamente agradável para os homens intensamente egoístas (entre eles contamos aqueles que se torturam por escrúpulos morais).

“263 – A compaixão, desperdício do sentimento, parasita prejudicial à saúde moral. ‘Só pode ser o dever, aumentar a soma dos males no mundo.’ Toda vez que só fazemos o bem por compaixão, fazemos o bem para nós mesmos e não ao próximo. A compaixão não se baseia em máximas; a compaixão é um contágio.

“264 – Crer que a história de todos os fenômenos morais se deixa simplificar, como julgou Schopenhauer, a ponto que a compaixão esteja na raiz de toda emoção moral conhecida – é um grau de absurdo e de ingenuidade onde só poderia chegar um pensador desprovido de todo senso histórico e que teria escapado de forma mais estanha dessa marcante escola histórica que os alemães fundaram, de Herder11 a Hegel.12

“265 – O egoísmo não é um princípio, é só e unicamente fato.

“266 – O egoísmo! Mas ninguém jamais perguntou de que tipo de ego se trata. Todos supõem involuntariamente que todo ego é igual a outro ego. Essas são as consequências da teoria servil do sufrágio universal e da ‘igualdade’.

“267 – Não há egoísmo que se mantenha em si e que não invada os outros – portanto, esse egoísmo ‘permitido’, moralmente indiferente, de que se fala, não existe.
            ‘Sempre se desenvolve o próprio eu em detrimento do próximo’ – ‘A vida subsiste sempre à custa de outra vida’ – quem não compreende isso não deu ainda o primeiro passo na probidade para consigo mesmo.

“268 – Retificação do conceito de ‘egoísmo’ – Se compreendemos até que ponto o conceito de ‘indivíduo’ está errado, quando todo ser particular é justamente o processo inteiro em linha reta (não a herança desse processo, mas o próprio processo), então o ser particular adquire uma enorme importância. O instinto fala nele de modo preciso. Quando esse instinto se enfraquece, quando o indivíduo procura um valor no serviço de outrem, podemos concluir com toda segurança pela lassidão e degenerescência. O altruísmo dos sentimentos, se for profundo e sem trapaça, é um instinto que procura garantir-se pelo menos um valor secundário no serviço de outros egoísmos. Mas na maioria das vezes é apenas aparente, é um desvio destinado a conservar o sentimento próprio de nossa vida, de nosso valor.”

Cristãos católicos e protestantes, notadamente os que utilizam as grandes mídias para a divulgação do que afirmam ser uma “mensagem cristã”, não encontram forma melhor de “venderem sua fé” senão explorando o que há de melhor partilhado entre os homens: o egoísmo, a imediata satisfação do Eu. O que pedem em volta, mais do que a fé ou a piedade, são os recursos para continuarem aí, aparecendo e rapinando os mesmos crentes miseráveis que, carentes de senso crítico, não percebem que são vítimas exatamente do que combatem, neles e nos outros: o egoísmo, o superexagerado amor ao Eu.
É claro que há diferenças entre o egoísmo valor moral (a super autoestima, a vontade de receber o louvor alheio, etc.) e o egoísmo natural (o cuidado inconsciente do Eu que abraça, inclusive, a ideia do “valor moral”), sem o qual a vida não é possível. O problema é que esses mesmos cristãos, crédulos e confiantes, não pensam sobre tais diferenças – como é comum de se fazer depois de abraçarem a fé no que, dizem, está além da razão... E assim não ouvem o sapere aude! kantiano, dentre outros desafios menores. Mas até mesmo isso, essa preguiça da razão e o seu sono, não é outra coisa senão uma cama grande e macia onde deitamos o nosso Eu, deixando que a vida siga o seu curso natural, animalizando-nos – pela falta de uma reflexão desapaixonada referente às coisas da fé, às vezes, única paixão. Paixão? Paixão nenhuma.






1 Cf. HUXLEY, Thomas Henry. Escritos sobre ciência e religião. São Paulo: Editora UNESP, 2009. (Col. Pequenos Frascos).
2 Hitchens é conhecido por sua admiração a George Orwell, Thomas Paine e Thomas Jefferson, frequentemente citados em seus livros.
3 HITCHENS, Christopher. The missionary position: Mother Teresa in theory and practice. London: Verso, 1996.
4 Pode ser visto no YouTube, em: <http://www.youtube.com/watch?v=zjB1YlDE4ok> Acesso em: 10 out. 2012.
5 DAWKINS, Richard. O gene egoísta. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. The selfish gene foi publicado pela primeira vez em 1976.  
6 “[Nietzsche] atacou o cristianismo com fanatismo. Serviu-se de certas formas do cristianismo histórico nas quais só via debilidade e mentira. Rejeitou a idéia de um Deus vingador. É difícil verificar até que ponto sua fúria anti-religiosa não oculta um cristão potencial ou reprimido.” (ZILLES, Urbano. Filosofia da Religião. 2. ed. São Paulo: Paulus, 1991. p. 180 [Col. Filosofia]).
7 François La Rochefoucauld (1613-1680), escritor moralista francês. 
8 John Stuart Mill (1806-1873), filósofo e economista inglês, divulgador do pensamento utilitarista. 
9 Pseudônimo de Sébastien-Roch Nicolas (1740-1794), que foi poeta, jornalista, humorista e moralista francês.  
10 Cabe exatamente ao conceito da moral cristã de Santo Agostinho (354-430), relacionado ao uti e frui, que, principalmente no De doctrina Christina, aparecem pormenorizados e definidos: “Fruir é aderir a alguma coisa por amor a ela própria. E usar é orientar o objeto de que se faz uso para obter o objeto ao qual se ama, caso tal objeto mereça ser amado” (De doc. christ., I, 4). Nas palavras de Lima Vaz: “Agostinho recorre à distinção frui-uti para estabelecer a distinção entre a dimensão teológica e a dimensão antropológica da doutrina cristã, a primeira compreendendo o mistério da SS. Trindade, os atributos de Deus e a Encarnação do Verbo, a segunda tendo por objeto a ordem da vida moral do homem, considerado na excelência de sua condição de criatura feita à imagem e semelhança de Deus. A ordem da vida moral é, pois, regida pela ordem do amor que se desdobra na esfera do uso como amor de si mesmo e dos outros segundo o reto modo e os graus correspondentes, e se eleva finalmente à esfera da fruição como amor de Deus, amado em si mesmo e por si mesmo.” (VAZ, Henrique Cláudio de Lima. Escritos de filosofia IV: introdução à ética filosófica. São Paulo: Loyola, 1999. p. 193).
11 Johann Gottfried Herder (1744-1803), escritor alemão.
12 Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1831), filósofo romântico-idealista alemão, combatido tanto por Kierkegaard como por Schopenhauer e Nietzsche.


segunda-feira, 27 de agosto de 2012


15.





Da palavra que o amor esconde, e do seu contrário



“Mudança de comportamento”, composição do Edgard Scandurra, tem o refrão: “Eu morreria por você / na guerra ou na paz. / Eu morreria por você / sem saber como sou capaz”1. É poesia, discurso de poeta, idealismo romântico. No mundo real, sem a fantasia, vale o dito pascalino – embora Pascal tivesse, aqui, outras intenções:

Todos os homens procuram ser felizes; não há exceção. Por diferentes que sejam os meios que empregam, tendem todos a esse fim. O que leva uns a irem para a guerra e outros a não irem é esse mesmo desejo que está em todos, acompanhado de diferentes pontos de vista. A vontade nunca efetua a menor diligência, senão com esse objetivo. Esse é o motivo de todas as ações de todos os homens, até mesmo do que vão enforcar-se.2

Sem o recurso da (licença) poética (ou do idealismo romântico, ou da teologia), não há ninguém, além de nós mesmos, por quem queiramos realmente viver ou morrer; e nisso, para bem viver, está a nossa felicidade, como fim... quer nos pensemos vivos ou mortos. Para o “ninguém, além de nós mesmos”, não há mistério algum, e nenhuma profundidade. Coisas evidentes, de tão evidentes, às vezes soam obscuras, profundas, misteriosas. “Estava o tempo todo aí”, dizemos; “o tempo todo diante dos meus olhos”, “se fosse uma cobra tinha me mordido”. Na distração, parece que entramos no estado de caça do para além do dado, fora do fenômeno, do real do mundo real – como se, por trás das coisas, houvesse o... mistério.
Alberto Caeiro (Fernando Pessoa), sobre o mistério das coisas e da sua profundidade, era sentencioso:

O mistério das cousas! Sei lá o que é mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério.
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o sol
E a pensar muitas cousas cheias de calor.3

E bastava ver, e sentir o visto.
As coisas do mundo (e nós entre elas) são o que são (aparecem), no fenômeno simples: o real do imediato. Pensar sobre as coisas – constituição físico-atômica, substância, forma, gênero, procedência, etc. – é o mesmo que distanciar-se delas4. Nada existe para ser compreendido; tudo existe a ser visto, vivido na experiência imediata do encontro: com o Outro e com o Mundo – com as coisas do mundo, em que o Outro está incluído e, naturalmente, as relações (de amor ou ódio) que mantemos. O “compreender”, aí, tem a ver com o sentido profundo de um “objetivo exterior ao Mundo”, supralunar, fundante/fundamental. Mesmo o já, fenomenicamente dado, conhecido como é (ou como aparece), imediatamente desnudo pelos nossos sentidos, é impenetrável – como a palavra sobre a palavra, qualquer que seja ela. Não é por acaso que Paul Valéry, evocando mais do que a constituição etimológica das palavras – dando ênfase àquilo que está por trás delas, quando escritas, pensadas ou pronunciadas –, afirma não haver uma só palavra que possamos compreender, se buscamos os seus limites5. Não é por acaso que Sartre, depois, retoma a sentença, ilustrando-a:

Esta frase: “Partirei amanhã para o campo” envolve o infinito. Primeiramente, é preciso que haja um “amanhã”, isto é, um sistema solar, constantes físicas e químicas. É preciso também que eu ainda viva, que nenhum acontecimento grave tenha abalado minha família ou a sociedade em que vivo. Estas condições são, sem dúvida, implicitamente requeridas por essa simples frase. Além disso, Binet6 disse muito bem, o sentido da palavra “campo” é inesgotável; seria preciso acrescentar: o sentido da palavra eu e o das palavras “partir” e “amanhã”. Finalmente, recuamos assustados diante da profundidade dessa inocente pequena frase. É o caso de recordar a observação de Valéry: não há uma palavra que possamos compreender, se vamos até o fundo.7

É o mesmo Valéry que questiona: “Em que se transforma: Eu penso, e em que se transforma: Eu existo? O que se torna, ou o que volta a ser, esse verbo SER, que fez uma carreira tão grande no vazio?8” E a questão volta ao que, antes, era presente na poesia do nosso Pessoa: pensar é uma coisa; ser, outra. Enfeitiçados pela fé nas capacidades do nosso entendimento, acreditamos em verdades “que se asseguram por si-mesmas”, ou por outra, superior a todas e fonte de todas. Assim fazemos, de nosso intelecto, nosso ídolo, nossa religião, nossa igreja – novamente me vem a máxima de Thomas Paine9. “A filosofia”, dizia Wittgenstein, “é uma luta contra o enfeitiçamento do nosso entendimento pelos meios da nossa linguagem.10” Vencido tal feitiço, temos a liberdade de, por exemplo, rejeitar tal liberdade. Todos os românticos – e aqui o sentido é totalmente abrangente – fazem assim, e são assim. Se não fossem, não seriam românticos. 
As falas do amor (romântico), por isso, são as falas do nosso Eu triplamente iludido: pelas promessas de uma realidade palpável (ou ao menos inteligível) do Amor, por nossa crença na possibilidade de havê-lo e, havendo-o, mantê-lo conosco, mantê-lo em nós. Assim poderemos, afinal, ser felizes. Acreditamos, tolamente, cegamente. “O fim em todas as coisas é o bem e, de modo geral, em toda a natureza o fim é o sumo bem”, Aristóteles garantia.11  
Acontece que, por “amor romântico”, e na impossibilidade de fixação de um único sentido à palavra (ou ao termo), podemos compreender tudo o que, neste ou em outro mundo (conforme a nossa fé), possa ser notado e desejado: ao nosso conhecimento, prazer, utilização, etc.12
O haver “algo” (a ser notado e desejado) é suficiente para que haja a filosofia, pelo espanto (thauma)13 da evidência do além-de-mim (o Mundo, o Outro), e por sua estranheza – naquelas mesmas relações simples de conhecimento, prazer, utilização, dentre outras. É o realismo aristotélico que evocamos, aí. Mas, com Valéry, parece que se pode ir um pouco mais adiante.
Portanto, se se pode falar em um “espanto filosófico valéryano”, ele não é causado pelo fato de haver “alguma coisa ao invés do nada” (como geralmente ocorre no registro do Cristianismo), mas pelo fato de “as coisas serem assim como são, e não de outro modo” (como costuma ocorrer no registro da Antiguidade Clássica, e em Protágoras, dentre os mais antigos). “– O impressionante”, Valéry afirma, “não é que as coisas sejam; mas que elas sejam dessa maneira e não de outra”14. O poeta-pensador vai mais distante que Aristóteles, mas não o suficiente. Acontece que é preciso ir ainda mais, bem mais. Valéry afirma-se como católico, “quase um radical idólatra”, ele diz, em oposição aberta aos jansenistas e calvinistas15. E isso, dito assim, expõe os alicerces do que subjaz ao seu pensamento, em matéria de metafísica e/ou transcendência, no âmbito da filosofia ou teologia – mesmo que existam, como existem, de fato, variantes apontadas contra a tradição de ambas. 
A subjetividade filológico-histórico-conceitual da palavra “amor”, em Valéry, torna-a impossível às definições – mesmo que fragmentada em milhares de conceitos menores, e “dissecada” pela mais fina e arguta das hermenêuticas, das exegeses, etc. E por que é que isso é assim? Porque apesar de professar-se “egotista”16 (que prefere, em lugar de egoísta), no sentido de “somente percebo e posso falar do além-de-mim a partir de mim-mesmo”, Valéry não nega o absoluto extramundano, fundamento ou de sua fé ou sua razão, e o encantamento do mundo-espelho. Nisso, colocar obstáculos no caminho das definições não é mais que, por um artifício filológico-conceitual, afirmar a transcendência do entendimento das referidas definições (que supõem coisas, ideias, etc.), e do que as palavras podem dar a entender... principalmente quando isso se mostra impossível. Do amor, como palavra conceituada, descrição afecção ou propósito na vida (ou para a vida), nenhum outro, ainda, conseguiu superar o velho e rabugento Schopenhauer:

Considere-se o seguinte: todo querer tem de nascer de uma necessidade; toda necessidade, entretanto, é uma carência sentida, a qual é forçosamente um sofrimento. Decerto, toda satisfação põe fim a esse sofrimento. Mas, 1) o desejo retorna rápido e fácil; a satisfação, de modo lento e difícil; para cada desejo satisfeito, permanecem contra ele pelo menos dez que não são. Nossa cobiça dura muito e nossas exigências não conhecem limites; a satisfação, no entanto, é breve e módica: com ela crescem as exigências, porém o contentamento assegurado pela satisfação decresce, devido ao avanço do hábito; 2) a satisfação última de um desejo é, nela mesma, apenas aparente: nada nos torna efetivamente contentes, pois, assim que um desejo é satisfeito, um novo ocupa o seu lugar; o desejo realizado é um erro conhecido, e o novo, um erro ainda desconhecido. Uma satisfação duradoura, invencível, não pode de fato advir de objeto algum alcançado pelo querer, mas se assemelha à esmola que damos ao mendigo, a qual torna sua vida menos miserável, hoje, e no entanto prolonga seu tormento amanhã.17

Seja em qual for o sentido, tempo e espaço que utilizemos as palavras “amor”, “amar”, é a Vontade do amante sobre o amado que aparece; e mesmo quando, ao contrário, o que sentimos pelo Outro, nosso objeto, seja o ódio. Aí também está o querer, a vontade, o desejo: do beijo adocicado ou do escárnio cruel. Tudo é amour de soi, reduzido à objetividade da nossa Vontade, do nosso Eu, amado acima de tudo e de todos; o nosso Eu insatisfeito, eternamente insatisfeito. Tanto mais amor, tanto mais egoísmo.  









1 SCANDURRA, Edgard. Mudança de comportamento. In: Ira!: o melhor do Ira!. São Paulo: WEA Music do Brasil, 1996. 1 disco sonoro. Faixa 3 (2 min 58 s).
2 Pens., VII, 425. PASCAL, Blaise. Pensamentos. 4. ed. São Paulo: Nova Cultural, 1998. p. 137. [Col. Os Pensadores]).
3 PESSOA, Fernando. De “O Guardador de Rebanhos”. In: CAEIRO, Alberto (pseudônimo). Ficções do interlúdio. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. p. 218.
4 “Mas abre os olhos e vê o sol, / E já não pode pensar em nada, / Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos / De todos os filósofos e de todos os poetas. / A luz do sol não sabe o que faz / E por isso não erra e é comum e boa.” (PESSOA, 1998, p. 218).
5 Em Au sujet du ‘Cémitière Marin’, sobre a poética, Valéry formula uma passagem que tornou-se célebre: “Quanto à interpretação da letra [...], não há sentido verdadeiro de um texto. [il n’y a pas de vrai sens d’um texte]. Não há autoridade do autor. Seja o que for que tenha pretendido dizer, escreveu o que escreveu. Uma vez publicado, um texto é como uma máquina que qualquer um pode usar à sua vontade e de acordo com seus meios: não é evidente que o construtor a use melhor que os outros. Do resto, se ele conhece bem o que quis fazer, esse conhecimento sempre perturba, nele, a perfeição daquilo que fez.” (VALÉRY, Paul. Au sujet du ‘Cémitière Marin’. In: _____. Œuvres. Paris: Bibliothèque de la Pléiade / Gallimard, 1997. p. 1507. v. 1)
6 Pedagogo e psicólogo, o francês Alfred Binet (1857-1911) é mais conhecido por sua contribuição à psicometria, tendo inventado o primeiro “teste de inteligência”, base dos nossos modernos testes de QI.
7 SARTRE, Jean-Paul. A imaginação. 6. ed. São Paulo: DIFEL, 1982. p. 60.
8 VALÉRY, 1997, p. 1247. Tal perspectiva, como Jean Sebeski notou (cf. SEBESKI, Jean. Confluenes valeryennes. In: CELEYRETTE-PIETRI, Nicole & SOULEZ, Antonia (Orgs.). Revue Litteraire Bimestrielle – Valéry, la logique et le langage. Paris: Université Paris XII [Val de Marne le 29 novembre 1986], 1988. p. 24-24.) aproxima-se de outra perspectiva, de Carnap, segundo a qual, o metafísico é um “músico sem talento musical”. (CARNAP, Rudolph. Le dépassement de la métaphysique par l’analyse logique du langage. In: SOULEZ, Antonia (Org.). Manifeste du Cercle de Vienne et autres écrists. Paris: PUF, 1985. p. 177).
9 “Minha mente é a minha igreja.” (PAINE, Thomas. The Age of Reason. London: Forgotten Books, 1884. p. 18).
10 WITTGENSTEIN, Ludwing. Investigações filosóficas. São Paulo: Abril Cultural, 1975. p. 54. (Col. Os Pensadores).
11 Metafízica, A 2, 982 b 5. ARISTÓTELES. Metafísica. São Paulo: Loyola, 2002. p. 11. v. 2: texto grego com tradução ao lado.
12 “A linguagem interior cria um Outro no Mesmo.” (VALÉRY, Paul. Caheirs. In: Judith Robinson-Valéry (Org.). Choix de textes. Paris: Bibliothèque de la Pléiade / Gallimard, 1973. p. 461. v. 1).
13 Em Aristóteles (ele, novamente): “De fato, os homens começaram a filosofar, agora como na origem, por causa da admiração [θαυμάζειν], na medida em que, inicialmente, ficavam perplexos [θαυμάσαντες] diante das dificuldades mais simples.” (Met., 982b 10-5; a ênfase é minha).
14 VALÉRY, 1997, p. 1221.
15 Embora não se deva superestimar a influência do Catolicismo sobre Valéry, é fato que, em uma carta de 1890, que ele endereça a Pierre Louis, há claríssimas considerações sobre suas inclinações religiosas – e pelas quais alguns críticos mais ávidos não tardaram em classificá-la como antissemita; qualificativo que, por vezes, pairou ferozmente sobre a imagem do poeta. “Com relação à Bíblia”, ele escreve, “eu creio que você despreza o objeto de minhas preferências místicas. Eu sou, sobretudo, católico, quase idólatra e detesto todo calvinismo e jansenismo, isto é, todas as seitas inartísticas (!). Eu não gosto dos Judeus, pois eles não têm arte. Das raças vizinhas, eles pilharam tudo em matéria de arquitetura, etc.” (VALÉRY, Paul. Lettres à quelques-uns, L’Imaginair. Paris: Gallimard, 1997. p. 13).
16 “Sou um miserável Robinson”, ele se apresenta, “numa ilha de carne e de espírito, rodeado por todas as partes de ignorância, e fabrico generosamente meus utensílios e minhas artes.” (VALÉRY, 1957, p. 961). Ou: “A palavra Eu designa sempre virtualidades — Não há Eu redutível ao atual.” (VALÉRY, Paul. Caheirs. Paris: CNRS, 1957-1961. p. 311. v. 23. [fac-símile]). “O eu – eu o olho como uma propriedade fundamental da consciência – um ponto virtual [...] para o qual [...] o meu conhecimento se ordena.” (VALÉRY, Paul. Caheirs. In: Judith Robinson-Valéry. (Org.). Choix de textes. Paris: Bibliothèque de la Pléiade / Gallimard, 1974. p. 284. v. 2.).
17 SCHOPENHAUER, Arthur. Da parte subjetiva da satisfação estética. In: _____. Metafísica do Belo. São Paulo: Editora UNESP, 2003. p. 90.


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