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segunda-feira, 21 de janeiro de 2013


30.




De como Eros foi cuspido (Parte 3, e final)


A invenção da escrita, ou a marcação simbólica da presença humana no mundo – através de sinais artificiais com significados –, foi o que fez a História estar além da Pré-História1. As primeiras grandes civilizações aparecem como civilizações da fala: primeiro oral (recurso pelo qual o passado, fantasioso e heroico, foi transmitido às gerações e séculos seguintes), depois escrita (ainda habitado pela oralidade, fixada no símbolo formal, fantasiado do incrível: o Mysterium tremendum, as narrativas do numinoso que habita o mundo e o transcende). Mais do que da escrita, o homem é um ser da fala2. A escrita é um artifício, uma artificialidade necessária, dada aos desvãos do significado hermenêutico. E é por isso que os livros sagrados são sagrados apenas àqueles que acreditam neles, e no que eles (conforme interpretam) comunicam.
O que o Antigo Testamento foi para os hebreus – e depois o Novo, para o movimento cristão –, também foi, para os gregos do tempo de Platão e ainda depois dele, talvez em menor medida, os dois longos poemas atribuídos a Homero: Ilíada e Odisséia3. Duas obras monumentais em que o Amor, sem grande esforço de observação, aparece como tema dominante. No Antigo Testamento, o amor de um Deus por seu povo, eleito – às vezes figurado na vida errante e errada de uma prostituta que se casa com um marido complacente, porque justo, porque bom4; no Novo Testamento, o Cristo que morre por amor à sua Igreja, sua noiva, em um tipo modelar para certas relações entre os sexos5. Na Ilíada, em uma guerra motivada por vaidades e pelo sequestro de Helena (esposa de Menelau, rei de Troia), objeto da paixão desenfreada de Páris, filho de Príamo (rei dos gregos); e na Odisséia, na desesperada viagem de um homem, Odisseu, procurando voltar ao seu reino, à sua casa e à sua esposa muito amada, Penélope.6
Não há, no Antigo Testamento ou em Homero, o que poderíamos chamar de “idealismo” – não no sentido platônico, ao menos. Há, porém, a onipresente noção de Transcendens, relativo àquilo que, no mundo, parece maior que o vivente comum, subjugado às vicissitudes do tempo e do espaço. A noção de eternidade (inexistência de espaço e tempo), aliás, é atributo exclusivo da divindade, ou do que é divino – como o Amor em Hesíodo, o mais antigo dos deuses7 e “sempre jovem e viçoso”8, porque nunca preso àquilo que é ligado à temporalidade, ao humano... como o desejo de um homem por uma mulher. À alma humana, no entanto, imaginou-se destinos: beatitude eterna ou tormento, eterno. Conceitos que, somo se nota, carecem daquele dualismo típico do pitagorismo platônico, e depois cristão. Ser salvo, no programa cristão, somente é possível mediante uma resposta positiva (logo amorosa) ao αγάπη, pela graça da fé – já que o amor humano não é ágape e, como tal, é imperfeito. Ser salvo, portanto, é sair da temporalidade penosa para a eternidade feliz. Até lá, o caminho é o amor incondicional, confiante; a entrega feliz e... irracional – pois “o absurdo, que é o estado metafísico do homem consciente, não conduz a Deus.9” O amor nos liga ao divino, porque é resposta ao amor divino. Mas, aí, é ágape. E Eros?
O êxtase sexual (erótico), que é o entorpecimento dos sentidos, não por acaso, tornou-se parte de certos rituais pagãos antigos – principalmente –, sagrados; como se, aí, no frêmito do corpo inebriado de prazer, o sagrado se mostrasse operante10. Pelo gozo e seu resultado, também o sêmen (semente) é expelido... e a vida que aparece, se adequadamente plantada. É o “milagre da vida”, coisa sagrada. O erótico, em quase todas as antigas culturas, não era um “tabu”; não como se tornaria sob a influência cristã, pela noção do “pecado”11, embora houvesse regras para as afecções e as conquistas (não no sentido de corte, cortejo), geralmente associadas à noção de posse: essa mulher é minha, esse efebo é meu, etc. Na moral cristã, porém, o Outro não pode ser nosso objeto, nem instrumento para... o gozo sexual egoísta, por exemplo. Tal egoísmo, aliás, é uma das falhas de caráter mais combatidas por essa mesma moral cristã. O bom Stendhal (Marie-Henri Beyle) afirmou: “O amor é o milagre da civilização [cristã, claro]. Só se encontra um amor físico e dos mais grosseiros entre os povos selvagens ou muito bárbaros.12” O “casar por amor” a uma pessoa determinada, individual, no entanto, é, já, corruptela dessa mesmíssima “invenção milagrosa” da civilização; coisa de dois séculos atrás, somente.13
O casamento entre os cristãos antigos era basicamente um ato de obediência a Deus (por amor a ele), a fim de que o imperativo “sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra...”14 não fosse obedecido à base da libertinagem “imoral do sexo desregrado”, mas realizado em leito santo e reservado ao casal, base da família, que é sagrada – no símbolo do próprio Deus em relação ao seu povo (como mostrado), e também no Cristo, “noivo” da Igreja. Assim, o Apóstolo recomenda “aos solteiros e às viúvas que é bom ficarem assim, como eu. Mas se eles não podem viver na continência, que se casem; pois é melhor casar-se que ficar ardendo”15, no desejo do sexo, naturalmente. O sexo somente é permitido dentro do matrimônio. Santo Agostinho, obediente ao Apóstolo16 e talvez ainda por alguma influência dos maniqueus17, seita da qual fez parte, entende que o casamento é inferior à castidade. Antes da Queda, ele diz, não havia “a vergonha do desejo”:

Os membros genitais obedeciam ao arbítrio da vontade tal como os demais, e o marido ter-se-ia introduzido nas entranhas da esposa sem o aguilhão arrebatador da paixão libidinosa, na tranquilidade da alma e sem corrupção alguma da integridade do corpo. [...] E então poderia assim o sêmen viril penetrar no útero da esposa mantendo-se a integridade do órgão genital feminino – tal como presentemente o fluxo do sangue menstrual pode sair do útero de uma virgem sem prejuízo para a sua integridade. De fato, é pela mesma via que um se introduz e o outro sai.18

“É pela mesma via que um se introduz e o outro sai...” Que imagem! Que loucura!
E parece que a descrição do sexo santo não é lá assim tão convincente, mas, antes, atiça os sentidos do Doutor da Graça, que encerra o texto assim:

É mais conveniente que nossa exposição se refreie pelo pudor que nos retrai do que seja ajudada pela nossa débil eloquência. [...] Como é que, então, um tal assunto poderia sugerir aos nossos sentidos humanos outra coisa que não seja o exercício duma turbulenta paixão em vez do exercício de uma tranquila vontade? Daí que o pudor impeça quem fala, embora não faltem argumentos a quem pensa.19

Em 401, contra Joviniano – para quem a virgindade e o celibato não eram superiores ao casamento –, Agostinho afirmou que tais ensinamentos eram “monstruosos”20. Combatendo esse tipo de ensino ou rumor, na Igreja da Itália, escreveu o De bono conjugali (Sobre o bem do casamento, em 400-1). “Esse modo de tratar era necessário”, diz Robert A. Markus, “porque alegava-se então que era impossível responder a Joviniano sem depreciar o casamento.21” Era? Ao De bono conjugali seguiu-se o De sancta virginitate (Sobre a santa virgindade), redigido no mesmo ano de 401. “Os dois tratados em conjunto significavam [a] reafirmação de uma visão básica, moderada e tradicional, sobre as duas vocações: o casamento é bom, a virgindade é melhor.22” A enorme influência de Agostinho sobre a cultura moral (e a sexual, evidentemente) do Ocidente é lugar comum nas afirmações dos seus intérpretes23. Naquele que é considerado o maior best-seller da Europa do século XVIII, Teresa Filósofa24, a questão é levada ao extremo, para um resultar em um limite, na intenção de apontar a conclusão... ridícula:

Segundo a religião cristã, é preciso tender para a maior perfeição. O estado de virgindade, segundo ela, é mais perfeito do que o do casamento. Ora, é evidente que a perfeição da religião cristã tende à destruição do gênero humano. Se os esforços, os discursos dos padres tivessem sucesso, em sessenta ou oitenta anos o gênero humano estaria destruído. Pode essa religião ser de Deus? [...] Para ser perfeito cristão é preciso ser ignorante, acreditar cegamente, renunciar a todos os prazeres, às honras, às riquezas, abandonar os seus pais, os seus amigos, guardar a virgindade, numa palavra, fazer tudo o que é contrário à natureza.25
    
N’O Anticristo, Nietzsche não pensa em cortesias ou medidas à reprovação que faz à opção cristã que torna, na hermenêutica teológica dos seus intérpretes mais ortodoxos, o fraco em forte, o pequeno em grande... e sempre aos olhos de Deus26. Ora, não é assim que aparece no Apóstolo? “Porque o insensato de Deus é mais sábio que os homens, e o débil de Deus é mais forte que os homens.27” E foi assim que

O cristianismo tomou o partido de tudo o que é fraco, baixo, malogrado, transformou em ideal aquilo que contraria os instintos de conservação da vida forte; corrompeu a própria razão das naturezas mais fortes de espírito, ensinando-lhes a perceber como pecaminosos, como enganosos, como tentações os valores supremos do espírito. E exemplo mais lamentável – a corrupção de Pascal, que acreditava na corrupção de sua razão pelo pecado original, quando ela fora corrompida apenas pelo seu cristianismo!28

Em um trecho de O conceito de angústia, Kierkegaard é menos contundente, mas não menos crítico, mostrando, de modo breve e lúcido, como Eros foi cuspido pela moral do movimento cristão nascente (do qual, ainda, de modo incerto e vacilante, insiste em fazer parte):

No cristianismo o religioso suspendeu o erótico, não só por um equívoco ético, como o pecaminoso, mas sim como o indiferente, porque não há no espírito nenhuma diferença de homem ou mulher. Aqui, o erótico não está ironicamente neutralizado, mas suspenso, porque a tendência do cristianismo é a de levar o espírito adiante.29

“Levar o espírito adiante” implica em aperfeiçoá-lo moralmente, na fé, conforme a lei do amor, em seu imperativo – para tanto, em seu progresso e recompensa, não há sexo. N’A Cidade de Deus, Agostinho fala de alguns que “concluíram que as mulheres não ressuscitarão em seu sexo, mas no do homem”, por serem inferiores aos homens e feitas a partir do homem (de sua costela) – interpretação que o Hiponense condena, dizendo: “Tenho para mim que a verdade está do lado daqueles que creem que ressuscitarão ambos os sexos.30” Inda mais que, na reta final de tal aperfeiçoamento do espírito, “não haverá nem comércio carnal nem parto. Os membros da mulher não serão aptos para o uso antigo [o coito procriativo], e sim para a nova beleza, que não excitará a concupiscência de quem a contemple...”31, ou seja: não haverá mais o desejo do sexo.
As éticas do período helênico são fundamentadas na noção de eudaimonía (a estoica e a epicurista, principalmente), à qual Agostinho também adere, mas sem subscrevê-la. Colocando o primado do amor (caridade), “ama e faz o que quiseres”32, e este à luz do Mestre interior (da Verdade revelada ao intellectus e à fides), o Hiponense estabelece o fundamento que, da Patrística à Reforma (com Lutero e depois dele33), será dominante. A mudança mais significativa somente virá no século XVIII, com Immanuel Kant – que procura fundamentar a ética (ou a lei moral) não em heteronomias, mas na autonomia do dever34, conforme o imperativo: “Age de tal forma”, como se, als ob. Em Agostinho, encontramos: “Por esse amor [ágape], portanto, como por um alvo proposto, pelo qual digas tudo o que dizes, o que quer que narres faze-o de tal forma que aquele que te ouve, ouvindo, creia e, crendo, espere e, esperando, ame”35. E não há, aí, para o seu cumprimento, restrições sexistas36. O amor, em Agostinho, é resposta positiva a Deus, que nos “amou primeiro”; em Kant, é resposta à nossa consciência individual, através da simples razão. No imperativo categórico kantiano não há amor - ao menos no seu sentido conceitual mais imediato -; no de Agostinho, é ágape. De um ou de outro modo, Eros está ausente.
O Cristo, nas interpretações de Paulo e Agostinho, apresenta o Pai como alguém que é amoroso, compassivo, justo, perdoador, bom pastor e providencial. “O ensino central de Jesus é que ‘Deus é amor’. [...] Deus nos ama, nos entende e nos ouve.” Afirma Tissa Balasuriya. “Quanto a nós”, ela conclui, “devemos amar a Deus e, em Deus, todos os seres humanos. [...]. O amor dá glória a Deus e realiza as pessoas humanas.37” A realização humana, em Sócrates, é obtida mediante a reflexão (razão); no cristianismo, na entrega feliz, por amor, obediente, pela fé. São dois polos distintos que, em Agostinho, foram co-fundidos com grande êxito – ao menos para as conveniências teológico-cristãs majoritárias.
          Consta que, em janeiro de 1646, quando Etienne Pascal, pai de Pascal38, encontrava-se enfermo – por causa de uma séria lesão na perna –, dois homens piedosos vieram cuidar dele; eram jansenistas39, movidos não por um senso de “dever moral kantinano”, mas animados por ágape... Poderíamos pensar assim, e estaríamos terrivelmente errados em nosso pensamento. Lembre-se de Pessoa: “Nunca amamos alguém. Amamos, tão-somente, a ideia que fazemos de alguém. É a um conceito nosso – em suma, é a nós mesmos – que amamos.40” Pessoa fala do amor romântico, como já mostrei; mas, como também já foi mostrado, o amor romântico supõe o sublime, o absoluto, que seria o seu fundamento. Assim, pode-se perfeitamente, e sem qualquer prejuízo à análise, relacioná-lo à ágape. Mas, ah!,

O indivíduo loucamente apaixonado é como o convertido que deixa casa, filhos, tudo pela fé. Ou como o terrorista que mata, mas por razões idealistas. O prazer não possui essa dignidade ética. O erotismo masculino [...] é absolutamente o inverso da ética. Esta impõe que se considere o outro ser humano como fim e jamais como meio. O objeto do desejo erótico masculino, ao contrário, é meio, como o alimento, como a água, como a cama para quem tem sono. Tudo o que serve para satisfazer uma necessidade é meio. Até mesmo a reciprocidade, no erotismo masculino, é egoísta. O prazer da mulher é desejado em vista do próprio prazer.41

É o Eu, afinal – amour-propre –, de todos os e por todos os meios que pudermos pensar, quem ama e/ou odeia42. No Fragmento de teplitz, de Novalis (Friedrich von Hardenberg): “Todo amor arbitrário no sentido conhecido é uma religião – que tem e pode ter apenas um único apóstolo, evangelista e adepto – e pode – mas não precisa – ser religião recíproca. / Onde o objeto exclui o ciúme por sua natureza – assim é a religião cristã – o amor cristão.43” O culto a Deus ou o amor à pessoa amada é – fatalidade! – amour-propre. Allan Bloom, na leitura que faz do Emílio, de Jean-Jacques Rousseau44, e ao observar o comportamento amoroso dos estudantes europeus (anos 80), usa essa mesma expressão para tratar sobre o “novo indivíduo romântico”, contra a noção blasé de “amor ao semelhante”, desfocado do Eu, em uma reciprocidade igualmente romântico-idealista, imano-transcendente:

O melhor ponto de entrada no especialíssimo mundo habitado pelos estudantes de nossos dias é o fato espantoso de eles não costumarem dizer, no que antigamente se chamava casos de amor, “Eu te amo”, “Sempre te amarei”. Um deles me contou que fala, claro, “Eu te amo” para as amiguinhas, “quando estamos rompendo”. É dessa forma limpa e fácil que eles rompem, sem danos nem defeitos. Entende-se que isso é moralidade, respeito pela liberdade dos outros.45

 Max Stirner46 – contemporâneo de Kierkegaard, apontado como um dos precursores do existencialismo –, ex-aluno de Hegel e anti-hegeliano, e no espírito de Feuerbach47, compreendeu ainda mais profundamente essa questão do amor, para além do Eros grego ou do ágape cristão. Naquele que foi o seu único livro48, Stirner afirma que, qualquer que seja a nossa esperança ou afecção, sua sede, lugar de convergência e retorno, é sempre o nosso Eu, o nosso Eu mesmo. Qualquer que seja a nossa definição para amor, ela não vem e nem vai além do amour de soi, amour-propre.
Em uma época marcada pelo idealismo platônico-cristão, tais afirmações não tornaram a obra de Stirner popular entre os seus; muito ao contrário – Stirner morreu na miséria e na obscuridade. Para além de Kierkegaard (ainda preso às amarras de uma dogmática cristã cambaleante) e Schopenhauer (para quem o verdadeiro filósofo deveria ser um idealista), Stirner ousou afirmar o Eu como fundamento e limite de toda a nossa noção de existencialidade e sentido – mesmo na ausência deste mesmo “sentido”. O homem não é nada – que é diferente de nada é –, e somente o Eu existe, fundado em nada, sobre o nada.
Na tradição que começa com Platão, conhecer é a principal atividade da espécie humana, e seu valor depende de tal efetivação: “Uma vida não refletida”, dizia Sócrates, diante de seus juízes e do povo de Atenas, “não é digna de ser vivida.49” Tal concepção estava intrinsecamente ligada ao idealismo, em que o mundo aparente não é mais que simulacro do mundo real, ideal. A consciência humana estava, pois, entre os dois, e a missão daquele que reflete é passar da aparência para o real, da opinião ao ser. Dessa atitude, caracteristicamente essencialista, resulta, como consequência, a determinação da natureza dos indivíduos, tidos por cultos ou incultos, sábios ou tolos, conscientes ou alienados. Na Modernidade, essas determinações da realidade – referidas a partir da relação entre o fenômeno considerado e sua instância superior – serão fundamentais à legitimação das instituições, em resposta às exigências da razão humana, louvada e promovida pela burguesia cristã do século XVIII. O processo, por outro lado, deu início ao que talvez seja legítimo chamar de “emancipação da sociedade”, no que diz respeito às religiões, contra os abusos e os dogmas da Igreja institucionalizada. O pensamento, ou a razão pura, pouco a pouco – e ainda hoje está em tal processo –, tornou-se o fator decisivo à emancipação do indivíduo, contra potenciais arbitrariedades da Igreja, da monarquia, do romantismo, etc. O Eu (consciência individual), mais que antes, foi colocado dentro e à frente de tudo, no lugar por onde esse mesmo tudo poderia e deveria ser avaliado, questionado, aceito, rejeitado, amado, odiado... “Por isso é que Descartes, para quem isso finalmente se tornou claro, pôde construir a proposição: penso, logo existo”, afirma Stirner.50
Autores ortodoxos costumam reproduzir as ideias e os conceitos que, engessados, vêm sendo combatidos, desde Stirner – e com ele –, por se mostrarem viciados em noções poético-metafísicas, na inconsciente vontade de que isso seja assim como eu desejo que seja. Nisso, por exemplo, ao tratar sobre o solidarismo, Reinholdo Ullmann e Aloysio Bohnen subscrevem a definição de Oswald von Nell-Breuning51, para quem “o princípio da solidariedade é bilateral (zweiseitig), por tratar das relações recíprocas dos membros com a sociedade e desta com aqueles”52, ao que, comentam, definitivos e elogiosos: “Isso discrepa, inteiramente, das ideias do individualismo, que nega a natureza social do homem, e do coletivismo, o qual subtrai ao ser humano a sua dignidade de pessoa.53” Uma interpretação fechada ao que, aqui, é o individualismo em Stirner, ou o egoísmo, ainda segundo ele. Não ocorre aos autores que o conceito de “solidariedade” seja mero construto social, não correspondendo exatamente aos interiores “anseios nobres” e “comuns” dos indivíduos: nada nobres, nada incomuns. Outros autores, como R. W. K. Paterson – crítico e divulgador da obra de Stirner54 –, não veem no homem senão, às vezes de modo bem inconsciente, a fria e permanente luta pela vida, à qual foi antecipado, lançado e, nela, destinado à coisa nenhuma senão ser-si-mesma (permanência), sem vocação para o grande depois, no glorioso triunfo da alma piedosa, amante de Deus ou da sua Ideia, “clara” ou embaçada na impossibilidade da precisão definitiva55, embora plena de confiança – como é requerido ao que tem fé56.

Um homem não está “destinado” a nada, não tem nenhuma “tarefa” e nenhuma “vocação”, como tampouco uma planta ou um animal têm um “destino”. A flor não obedece ao destino de desabrochar, mas emprega todas as suas forças para gozar o mais possível do mundo e consumi-lo [...]. Não é no futuro que se encontra esse objeto da nostalgia que é o “homem verdadeiro”, mas no presente existente e real. [...] Eu é que sou o homem verdadeiro [...]. Tudo o que é “verdadeiramente humano” é Minha propriedade.57

O elogio vibrante ao “egoísmo” tem por sede a noção do “eu que me possuo”, que sou, realmente a “única coisa que disponho, e que posso chamar de meu”. O termo, aí, não tem a conotação vulgar do senso comum58. Para esse, e se é o caso, quanto mais o indivíduo tem amor a seu Deus ou ao “seu próximo”, tanto mais egoísta é, se mostra. O não amor a Deus ou ao próximo, também seria uma afetação egoísta. Assim, “devo reivindicar o egoísmo contra as mentiras da devoção e da abnegação dos idealistas, dos humanistas – egoístas hipócritas, ‘vergonhosos e pervertidos’ – e contra estes ‘grandes egoístas’ que são Deus e seus equivalentes humanitários.59” O amor romântico é carente de absolutos e, como tal, egoísta por natureza... e, pior, equivocado quanto ao seu fundamento. Se Eros foi cuspido pelo cristianismo, ágape é escarrado por Stirner, Feuerbach, Freud60, Nietzsche, Pessoa, entre outros. O Eu, conscientemente emancipado, sabe-se lançado no vazio que é o Mundo da vida, de onde não pode escapar senão anulando-se. O coração das religiões não é o amor, algum amor, como querem os sacerdotes e os fieis, mas o Eu desejante, egoísta. 

Duas mulheres conversavam sobre seus amores. Uma delas diz: ‘Eu o amo porque o amo [Silesius]. Pelas coisas que ele me fala. Me canta canções. Me mostra o mundo. Toco o meu corpo, e ele estremece. Nada me dá, mas me faz bonita... Eu o amarei mesmo que me abandone. Sentirei saudades...’ A outra diz: ‘Eu o amo porque está sempre pronto a atender meus desejos. Nada me recusa. Quando não me quer dar eu choro, insisto, prometo beijos e ele muda de ideia...’ Assim são os dois tipos de religião.61

Então, sim, é assim.
E, no final, acaba sendo a mesma coisa: tudo está voltado para o Eu, que é de onde tudo parte. Eu que amo assim, Eu que amo assado. É, além de mim, não há mais nada. O mesmo vale para você, em relação a você mesmo e os Outros. O próximo é distante, para todo o sempre. Amém.





1 E, aqui, a história não é “a ciência do passado”, como na crítica de Marc Bloch. Se falar assim é falar errado – por sua imprecisão natural, geralmente fincada em anacronismos e análises inescrupulosas –, evito o erro. (Cf. BLOCH, Marc. Apologia da História, ou, O ofício do historiador. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2001. p. 52). O sentido aqui é, ainda, aquele que aparece em uma nota de Engels ao Manifesto do Partido Comunista – na edição inglesa de 1888. À afirmação: “A história de toda sociedade até hoje é a história de lutas de classes”, vem a nota: “Isto é, toda a história escrita.” (ENGELS, Friedrich; MARX, Karl. Manifesto do Partido Comunista. 10 ed. Petrópolis: Vozes, 2000. p. 66. [Col. Clássicos do Pensamento Político, 24]). O mesmo Engels, em “O papel do trabalho na transformação do macaco em homem” (escrito em 1876, e publicado apenas em 1896), mostra como o trabalho (no sentido de produção de bens, manipulação da natureza) precedeu a linguagem, na evolução do homem. “Uma análise comparativa entre os homens e os animais nos leva à constatação de que esta teoria da linguagem a partir do trabalho e pelo trabalho é a que mais satisfaz. [...] O trabalho, primeiro, depois a palavra articulada, constituíram-se nos dois principais fatores que atuaram na transformação gradual do cérebro do macaco em cérebro humano que, não obstante sua semelhança, é consideravelmente superior a ele quanto ao tamanho e à perfeição. Ao desenvolvimento do cérebro correspondeu o desenvolvimento de seus instrumentos imediatos: os órgãos sensoriais.” (ENGELS, F. O papel do trabalho na transformação do macaco em homem. 3. ed. São Paulo: Global Editora, 1986. p. 23-25. [Col. Universidade Popular]). O homem pré-histórico se comunicava através de desenhos (como os que existem até hoje, em paredes de cavernas). Em tais representações (pintura rupestres), trocavam mensagens, transmitiam ideias, desejos e necessidades. Mas ainda não era um tipo de “escrita”, porque faltava organização, padronização, etc. Até que se prove o contrário, foi na antiga Mesopotâmia, por volta de 4000 a.C., que a escrita foi criada, pelos sumérios – a cuneiforme, em placas de barro. Muito do que sabemos sobre este período, é por meio de placas de argila com registros cotidianos, administrativos, econômicos e políticos da época. Também os egípcios, no mesmo período, criaram os hieróglifos, que foram aplicados à hierografia.  
2 Em respaldo ao afirmado, e partindo de análises heideggerianas, ver: GMEINER, Conceição Neves.  A Morada do Ser: uma abordagem filosófica da linguagem na leitura de Martin Heidegger. Santos, SP: Leopoldianum, 1998. 
3 “Essas obras resultam aparentemente da fusão de poemas de autores desconhecidos, realizada, através do tempo, por uma corporação de aedos intitulados Homéridas, isto é, descendentes de Homero, que os transmitiam oralmente de geração em geração. A mais antiga edição escrita de que se tem notícia não foi certamente a primeira que se fez. Foi a determinada, no século VI a.C., por Pisítrato, tirano de Atenas, ou por seu filho e sucessor, Hiparco.” (BRUNA, Jaime. Introdução. In: HOMERO. Odisséia. São Paulo: Cultrix, 2006. p. 7). “De facto, no decorrer da história nenhum poeta, nenhuma personalidade literária ocupou na vida do seu povo um lugar semelhante. Ele [Homero] foi o símbolo por excelência deste povo [os Gregos], a autoridade incontestada dos primeiros tempos da sua história e uma figura de importância decisiva na criação do seu panteão, assim como o poeta preferido, o mais largamente citado.” (FINLEY. M. I. O mundo de Ulisses. Portugal: Editorial Presença, 1972. p. 13. [Col. Biblioteca de Textos Universitários, 1]).
4 Como em Oséias 1, 2: “Disse Iahweh a Oséias: ‘Vai, toma para ti uma mulher que se entregue à prostituição e filhos da prostituição, porque a terra se prostituiu constantemente, afastando-se de Iahweh’.” (BJ). O casamento de Oséias é um símbolo, figurando a relação de Deus com os israelitas, infiéis: “Oséias amou e ama ainda uma mulher que lhe responde a esse amor apenas com a traição. Assim também Iahweh ama sempre Israel, esposa infiel, e após tê-la provado dar-lhe-á novamente as alegrias do primeiro amor e tornará o amor de sua esposa inquebrantável e indefectível (caps. 1-3).” (OSTY, É. Nota [b]. In: A BÍBLIA DE JERUSALÉM: Oséias. São Paulo: Edições Paulinas, 1993. p. 1715).
5 Como em Efésios 5, 25: “Maridos, amai as vossas mulheres como Cristo amou a Igreja e se entregou por ela.” E como na parábola das 10 virgens (Mateus 25, 1-13), em que o Cristo surge como o noivo esperado, e as virgens fazem figura à Igreja, que deve estar atenta, com azeite em seus candeeiros, esperando-o – como uma Penélope ao seu Odisseu.
6 Para uma introdução aos poemas de “Homero” e à própria “questão homérica”, ver o já referido livro de Finley, O mundo de Ulisses, bem como o ensaio de: NUNES, Carlos Alberto. A questão homérica. In: HOMERO. Ilíada. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2011. p. 9-63. (Col. Saraiva de Bolso).
7 HESÍODO. Teogonia, 116 s; como citado n’O banquete 178 b. PLATÃO. O banquete. In: _____. Diálogos. 2. ed. São Paulo: Abril Cultural, 1983. (Col. Os Pensadores).   
8 Agora é Agatão quem fala, também n’O banquete, 195 c: “Eu, embora com Fedro concorde em muitos outros pontos, nisso não concordo, em que Amor seja mais antigo que Crono e Jápeto, mas ao contrário afirmo ser ele o mais novo dos deuses e sempre jovem.” E, antes: “Uma grande prova do que digo ele [Amor] próprio fornece, quando em fuga foge da velhice, que é rápida evidentemente, e que em todo caso, mais rápida do que devia, para nós se encaminha. De sua natureza Amor a odeia e nem de longe se lhe aproxima. Com os jovens ele está sempre em seu convívio e ao seu lado.” (O banquete, 195 b).
9 CAMUS, Albert. O mito de Sísifo. Rio de Janeiro: Edições BestBolso, 2010. p. 49. Antes, Camus afirmara: “O cristianismo é o escândalo, e o que Kierkegaard pede com simplicidade [em Temor e tremor] é o terceiro sacrifício exigido por Inácio de Loyola, aquele que com o qual Deus mais se delicia: ‘o sacrifício do intelecto’.” (CAMUS, 2010, p. 47).
10 Não é de modo leviano ou gratuito que a escultura de Santa Teresa de Ávila (1515-1582), de Gian Lorenzo Bernini (1598-1680), representa a santa como uma mulher tendo um orgasmo. Ao seu lado, à sua direita, um anjo lhe trespassa com uma seta de amor divino (ágape) – é o Eros esculpido e encarnado (ou “cuspido e cagado”) na fantasia cristã, pois deturpado. Esculpida entre 1645 e 1652, no estilo barroco, a escultura está exposta, hoje, em um nicho de mármore e bronze dourado, na Capela Cornaro, na Igreja de Santa Maria dela Vittoria, em Roma. Também as Mênades (ou Bacantes, ou Tíades, ou Bassáridas), as fanáticas seguidoras e adoradoras de Dioniso, são conhecidas por seus transes e êxtases. No culto, dançavam livre e lascivamente, entregues às forças da natureza mais primitiva. No êxtase, eram selvagens: na embriaguez, na autoflagelação e no sexo. Assim Dionísio era louvado. Exemplos de rituais desse tipo, por todo o mundo, são incontáveis.  
11 E, aqui, discordo de meu antigo professor de latim, Reinholdo Ullmann, que afirma “Já [haver] em Homero (século VIII a.C.) exemplos de manifestação de consciência de pecado: Páris, que se reconhece merecedor de repreensão, por parte de Hector [Ilíada III, 59]; Helena, que se declara impudica como uma cadela e coberta de vergonha e ignomínia. [Ilíada III, 180 e 242]” (ULLMANN, Reinholdo Aloysio. Amor e sexo na Grécia Antiga. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2005. p. 17. [Col. Filosofia, 194]). A noção de culpa (ato da consciência) não tem relação evidente com a noção de pecado (contra o divino). Tal consciência (moral), manifestada no monoteísmo hebreu e depois requerida pelos cristãos – depois pluripartida ao Ocidente – não existia na Grécia de Homero, Platão, etc. Hamartía (ou hamártema) era um erro involuntário; e significava menos ainda, nesse sentido: era a demência (ou delírio ou loucura), provocado por ação de algum deus (ou daímôn), contra um humano, por alguma ação sua, uma má ação. Somente muito depois é que hamártema ganhou, no monoteísmo hebreu (e depois cristão), o sentido de “pecado contra Deus”.    
12 STENDHAL. Do amor. Porto Alegre: L&PM, 2011. p. 53 (Livro 1, cap. 26). (Col. L&PM Pocket, 610).
13 Volto ao tema mais adiante.
14 Gênesis 1, 28 (BJ).
15 1 Coríntios 7, 8-9 (TEB).
16 A quem prefere, entre todos os escritores da Bíblia. “Lancei-me evidentemente sobre o venerável estilo (as Sagrada Escritura)”, ele diz, “ditada pelo vosso Espírito, preferindo, entre outros autores, o Apóstolo São Paulo.” (Conf., VII, 21; AGOSTINHO, Santo. Confissões. São Paulo: Nova Cultural, 1996. [Col. Os Pensadores]).
17 Aos quais se refere como “amantes da vaidade e indagadores da mentira. Nisso era-lhes companheiro.” (Conf., IV, 2). O maniqueísmo ensinava a doutrina dos três selos: da boca (contra as blasfêmias, mentiras, pornografias, etc.), das mãos (contra a violência às coisas vivas, como frutos, animais, homens, etc.) e dos seios (contra as sensações, a erotização dos sentidos, etc.). Quando fala da sua relação com a mãe de Adeodato – que Jostein Gaarder chama, romanticamente e sem fundamentos, de Flória Emília –, seu filho, diz que era fiel no leito, e que, “com meu exemplo aprendi claramente, por experiência, qual é a distância que existe entre a moderação do prazer conjugal, contratado em vista da geração, e o pacto do amor sensual. Deste também nascem filhos, mas contra a vontade dos pais, se bem que, uma vez nascidos, se vejam obrigados a amá-los.” (Conf., IV, 2). O ideal maniqueu, relativo ao sexo, é que ele não exista, e mesmo o casamento. Mas, havendo o sexo, que ele não gere filhos – o que equivaleria a perpetuar as trevas. Para mais sobre o maniqueísmo: COSTA, Marcos Roberto Nunes. Maniqueísmo: história, filosofia e religião. Petrópolis: Vozes, 2003. Na fantasiosa carta de Flória, no livro de Gaarder, ela pergunta (ou acusa) ao Hiponense: “Já te ocorreu que talvez sejas tu que vês os dons de Deus com desdém? Espanta-me que teu desprezo pelo mundo dos sentidos possa derivar antes dos maniqueus e dos platônicos que do próprio Nazareno.” (GAARDER, Jostein. Vita brevis: a carta de Flória Emília para Aurélio Agostinho. São Paulo: Companhia das Letras, 1997. p. 49). Eu colocaria, na carta de “Flória”, também o apóstolo Paulo.
18 De civ. Dei, XIV, XXVI; AGOSTINHO, Santo. A Cidade de Deus. 2. ed. Lisboa: Serviço de Educação e Bolsas / Fundação Calouste Gulbenkian, 2000. p. 1314. v. 2. 
19 De civ. Dei, XIV, XXVI.
20 Retractationes, II, 22,1; AUGUSTIN, Saint. Retractationes. In: Bibliothèque augustinienne (B.A.). Oeuvres de Saint Augustin. Paris: Desclée de Brouwer, 1951. v. 12.
21 MARKUS, Robert A. O fim do cristianismo antigo. São Paulo: Paulus, 1997. p. 54. E: “Em 415, escrevendo a Jerônimo, Agostinho repetidamente elogiava o ‘esplêndido tratado’ de Jerônimo contra Joviniano.” (MARKUS, 1997, p. 54). Cf. AUGUSTINE, Saint; JEROME, Saint. Letters of Augustine (n. 28, 71, 82) and the Letters of Jerome (n. 112). In: A select library of Nicene and Post-Nicene Fathers of the Christian Church. Oxford: Parker; New York: Christian Literature Co., 1890-1900.
22 MARKUS, 1997, p. 54. As referências a Agostinho, de onde Markus faz a referida interpretação: De bono conj., 8, 8; 9, 9; 23, 28; De virg., 18. Tais obras fazem parte dos Tratados Morales, na BAC. Assim: AGOSTINHO, Santo. Del bien del matrimonio; Sobre la santa virginidad; De bíen de la viuvez; De la continencia; Sobre la paciencia; El combate cristiano; Sobre la mentira; Contra la mentira; Dal trabajo de los monjes; El sermón de la montaña. In: _____. Tratados morales. Madrid: La Editorial Catolica / BAC, 1954. v. 12. Bilíngue.
23 Demonstro isso no 3º capítulo (“A recepção da moral agostiniana no Brasil, de 1500 a 1808”) da minha tese de doutoramento, enfatizando a formação moral e cultural do Brasil (e da América Latina), herdeiro do Velho Mundo. Cf. SALES, Antonio Patativa de. A filosofia/teologia moral de Santo Agostinho: dos antecedentes gregos à apropriação e interiorização do elemento cristão e sua recepção no Brasil colonial (1500-1808). São Leopoldo: EST, 2010. p. 161-283. Tese (Doutorado).
24 De autoria anônima, secretíssima, sua autoria é, atualmente, atribuída ao senhor Jean Baptiste de Bayer (1704-1771), marquês d’Argens.
25 ANÔNIMO do século XVIII. Teresa Filósofa. Porto Alegre: L&PM, 2007. p. 98-9. (Col. L&PM Pocket, 69).
26 Também o autor do Teresa Filósofa, sobre a hermenêutica desses mesmos indivíduos, se impunha: “A mania dos homens”, ele diz, “é a de julgar [as] ações de Deus por aquelas que lhe são próprias.” (ANÔNIMO, 2007, p. 98). 
27 1 Coríntios 1, 25; com base no: THE NEW TESTAMENT in the original greek: according to the Byzantine / Majority Textform. Atlanta: The Original Word Publishers, 1991. p. 314.  
28 NIETZSCHE, Friedrich. O anticristo: Maldição do cristianismo: Ditirambos de Dionísio. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. p. 12 (§ 5).
29 KIERKEGAARD, Sören A. O conceito de angústia: uma simples reflexão psicológico-demonstrativo direcionada ao problema dogmático do pecado hereditário de Vigilius Haufniensis. Petrópolis: Vozes; São Paulo: Editora Universitária São Francisco, 2010. p. 76. (Col. Pensamento Humano). Já expliquei o texto referenciado, e sua sequência, através das notas de rodapé em “De como Eros foi cuspido (Parte 1)”. Para o que se segue, aqui, é bom que elas sejam vistas.
30 De civ. Dei, XXII, XVII; AGOSTINHO, Santo. A cidade de Deus: contra os pagãos. (Parte 2). 4. ed. Petrópolis: Vozes; São Paulo: Federação Agostiniana Brasileira, 1990. p. 560. (Col. Pensamento Humano).
31 De civ. Dei, XXII, XVII.
32 In Ioan. Evang., 7, 8; AGUSTIN, San. Tratados sobre el Evangelio de San Juan (36-124). In: _____. Obras de san Agustín. Madrid: La Editorial Catolica / BAC, 1957. v. 14 [II]. Bilingue). Ou: “Ama, e assim não poderás fazer senão o bem” (In Ioan. Evang., 10, 7). Santiago Sierra Rubio, tratando sobre a ação moral de Cristo, enfatiza a causa precípua do advento de Cristo como sendo uma exaltação ao/do amor (Cf. RUBIO, Santiago Sierra. Patria y camino: Cristo en la vida y en la reflexión de San Agustín. Madrid: Ediciones Religión y Cultura, 1997. p. 103-5). O texto utilizado por Rubio é o que encontramos em De cat. rud., I, IV,7: “Que maior causa pode haver da vinda do Senhor senão mostrar-nos Deus o seu amor? E brilhantemente o demonstrou, pois éramos ainda pecadores quando Cristo morreu por nós! ...Porque a caridade é o fim do mandamento e o pleno cumprimento da Lei: para que nós também nos amemos uns aos outros e, assim como Ele ofereceu por nós a sua vida, assim também demos a nossa vida pelos nossos irmãos. [...] O amor é efetivamente mais grato quando não é perturbado pela aridez da necessidade, mas deriva da bondade fecunda. Aquele provém da miséria, este da misericórdia.” (AGOSTINHO, Santo. A instrução dos catecúmenos: teoria e pratica da catequese. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 2005. p. 46-7).
33 A ética cristã, conforme Stanley Grenz, é modelar em Agostinho “como Amor a Deus”, em Tomás de Aquino “como realização de nosso objetivo”, e em Lutero e nos demais reformadores clássicos “como obediência de quem crê”. (Cf. GRENZ, Stanley. Propostas de modelos cristãos. In: _____. A busca da moral: fundamentos da ética cristã. São Paulo: Vida, 2006. p. 149-92. [Col. Acadêmica]).
34 “Muitos filósofos viram a moralidade de uma maneira muito diferente. Alguns deles [dentre os quais, Agostinho] pensavam que havia uma lei moral objetiva, mas que esta dependia da vontade de Deus. Outros pensavam que a moralidade tinha algo a ver com a razão, mas que o exercício da razão consistia inteiramente em promover algum objetivo, como a própria felicidade ou o bem estar da sociedade [aí se incluem desde Aristóteles até os epicureus e estoicos]. Kant rejeita essas idéias, porque elas fazem a moralidade depender de algo exterior a ela mesma: a vontade de Deus, ou o desejo de promover o bem-estar. Ele rejeita igualmente a idéia de que a moralidade é apenas o desenvolvimento natural de certos sentimentos que pertencem à nossa natureza humana. Isso não seria compatível com seu caráter intrinsecamente racional.” (WALKER, Ralph. Kant: Kant e a lei moral. São Paulo: Editora UNESP, 1999. p. 7. [Col. Grandes Filósofos]).
35 De cat. rud., I, IV,8; itálicos meus. O resultado da ação moral, fundamentada no princípio do amor, portanto, deságua nas três virtudes teologais (cf. 1 Coríntios 13, 13). No original latino: “[...] uti ille [...] audiendo credat, credendo speret, sperando amet”. Para a moral do dever, em Kant, ver: KANT, Immanuel. Grundlegung zur Metaphysik der Sitten. Karl Vorländer (Org.). Hamburg: Der philosophischen Bibliotek, 1965. p. 512. Bd 6 (BA 52). “Toda ação exige a antecipação de um fim, o ser humano deve agir como se (als ob) este fim fosse realizável. [...] Segundo Kant, a noção de felicidade, que fundamenta por exemplo as éticas do período helenístico, como a estóica e a epicurista, é insuficiente como fundamento da moral, porque o conceito de felicidade é variável, dependendo de fatores subjetivos, psicológicos, ao passo que a lei moral é invariante, universal; por isso seu fundamento é o dever” (MARCONDES, Danilo. Iniciação à História da Filosofia: dos pré-socráticos à Wittgenstein. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998. p. 213). As semelhanças, cada qual à sua proporção, como se vê, são enormes. 
36 As semelhanças e diferenças entre os “imperativos” da ética de Agostinho e de Kant foram tratadas em um artigo de: HARE, John E. Augustine, Kant, and the Moral Grap. In: MATTHEWS, Gareth B. (Ed.). The augustinian tradition. Berkeley, Los Angeles, London: University of California Press, 1999. p. 251-62.
37 BALASURUYA, Tissa. Deixar que Deus seja Deus. In: CANTONE, Carlo. (Org.). A reviravolta planetária de Deus: da “experiência religiosa” à “experiência secular”. São Paulo: Paulinas, 1995. p. 165-6. (Col. Sociologia Atual). p. 149-97.
38 Étienne Pascal (1588-1651) era funcionário fiscal, e também era advogado; tinha interesse em ciências e matemática. Estudou em Paris e, em 1610, recebeu o diploma de Direito. No mesmo ano ele retornou à sua cidade natal (Clermont), onde compra o cargo de conselheiro de Bas-Auvergne, região em torno de Clermont – que foi onde Blaise Pascal nasceu, em 19 de Junho de 1623. Impressionado com a demonstração de espiritualidade e caridade cristãs demonstradas em favor de seu pai, Pascal foi atraído à doutrina de Jansênio... e toda a sua noção de pecado, culpa e graça. E daí a crítica de Nietzsche, falando sobre “a corrupção de Pascal, que acreditava na corrupção de sua razão pelo pecado original, quando ela fora corrompida apenas pelo seu cristianismo!” (NIETZSCHE, 2007. p. 12 [§ 5]).  
39 Movimento creditado ao holandês Cornélio Jansênio (1585-1638), que abalou a Igreja Católica durante os séculos XVII e XVIII. Insatisfeito com o exagerado racionalismo dos teólogos escolásticos, Jansênio (doutor em teologia pela universidade de Louvain e bispo de Ypres) uniu-se a Jean Duvergier de Hauranne (futuro abade de Saint-Cyran), nas pretensões de que o catolicismo voltasse à disciplina e à moral da Igreja Primitiva. Baseados em Agostinho, procuravam elementos que permitissem conciliar as teses dos Reformadores com a doutrina da Igreja Católica. “Costuma-se acreditar que o jansenismo tem parentesco com a teologia agostiniana, centrada no problema da graça – e o tem efetivamente ao tempo de Port-Royal e de Pascal – e que pode ser encontrado, após 1650, primeiro como movimento e, em seguida, após o caso da bula Unigenitus (1713), como partido de oposição “patriota” contra o Estado absolutista, contra todos os “despotismos” religiosos, políticos, econômicos, sendo um dos primeiros a dar um sentido prático à palavra despotismo, emprestada de Montesquieu. É considerado como um bloco antijesuíta, como um fronte unido contra todas as pretensões ultramontanas da “Corte de Roma”, e podemos vê-lo opondo sua “catolicidade” tanto contra os protestantes calvinistas como contra os “filósofos” das Luzes com os quais, aliás, ele tem alguma familiaridade.” (PLONGERON, Bernard. Como explicar as pretensões do jansenismo à “catolicidade”? Revista Concilium, Petrópolis, n. 271, p. 95, 1970).
40 PESSOA, Fernando. Autobiografia sem factos. In: _____. Livro do desassossego: composto por Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa. São Paulo: Companhia das Letras, 1999. p. 137 [§ 112]. 
41 ALBERONI, Franscesco. O erotismo: fantasias e realidades do amor e da sedução. São Paulo: Círculo do Livro, [s.d.]. p. 49.
42 Noção que aparece, ainda que em estado de crisálida, em Novalis: “Amor pode por vontade absoluta passar a religião.” (NOVALIS. Folha de fragmentos. In: _____. Pólen: fragmentos, diálogos, monólogo. São Paulo: Iluminuras, 2001. p. 31 [Frag. 4]).
43 Fragmento de teplitz, n. 333, citado em: NOVALIS, 2001, p. 200. Itálicos meus.
44 BLOOM, Allan. Gigantes e anões: ensaios (1960-1990). São Paulo: Best Seller, [s.d.]. p. 125-66. Voltarei ao Emílio mais adiante, guiado por Bloom.
45 BLOOM, Allan. O declínio da Cultura Ocidental: da crise da universidade à crise da sociedade. 4. ed. São Paulo: Best Seller, 1989. p. 153.
46 Max Johann Caspar Schmidt (1806-1856). “Pensador niilista, precursor do existencialismo, imprecador revoltado, pertence à época imediatamente pós-hegeliana. Sua crítica é dirigida contra todas as formas de pensamento que pretendem superar o indivíduo: sistema hegeliano, socialismo, comunismo, liberalismo, humanismo... Caindo num esquecimento total depois de 1848, foi redescoberto às vésperas do século XX pelo poeta anarquista J. H. Mackay, que se empenhou em divulgar a obra e o personagem. Stirner será então 1apropriado’ pelo anarquismo individualista (contra o anarquismo comunista). Mas outros foram capazes de entende-lo como um correspondente ateu de Kierkegaard (que brada contra Hegel e as autoridades exatamente ao mesmo tempo que ele) e como precursor de Nietzsche.” (BARAQUIN, Noëlla; LAFFITTE, Jacqueline. STIRNER. In: _____. Dicionário Universitário dos Filósofos. São Paulo: Martins Fontes, 2007. p. 287).
47 Ludwig Andreas von Feuerbach (1804-1872).
48 Isto é: STIRNER, Max. Der Einzige und sein Eigentum. Otto Wigand (Ed.). Leipzig, 1845. (Edição original). Em seu artigo, O falso Principio de nossa educação (São Paulo: Imaginário, 2001), de 1842, já estão presentes os germes de muitas das nossas modernas concepções psico-filosóficas sobre o Eu, o Outro, a política, a educação, nossas relações, etc.
49 Ou: “Para o homem, nenhum bem supera o discorrer cada dia sobre [o que seja] a virtude e outros temas de que me ouvistes praticar quando examinava a mim mesmo e a outros, e que vida sem exame não é vida digna de um ser humano.” (PLATÃO, Apol., 38a; PLATÃO. Defesa de Sócrates. São Paulo: Nova Cultural, 1996. p. 46. [Col. Os Pensadores]. p. 27-52).
50 STIRNER, Max. O único e a sua propriedade. Lisboa: Antígona, 2004. p. 25. Por isso: “Só vivo quando vivo espiritualmente, só sou real como espírito.” (STIRNER, 2004, p. 25).
51 Nascido em Trier, na Alemanha, em uma família aristocrática, Nell-Breuning (1890-1991) foi ordenado ao sacerdócio (jesuíta) em 1921, e nomeado professor de Ética na Universidade de Frankfurt am Main, em 1928. Sua participação foi fundamental na redação da encíclica do Papa Pio XI, a Quadragesimo Anno, de 1931 – essa, juntamente com a Rerum Novarum (1891), trata sobre a “questão social” da Igreja, e desenvolve o princípio da subsidiariedade.
52 NELL-BREUNING, Oswald von. Wie sozial ist die Kirche? Düsseldorf: Patmos-Verlag, 1972. p. 25.
53 ULLMANN, Reinholdo; BOHNEN, Aloysio. O solidarismo. São Leopolodo: Editora Unisinos, 1993. p. 88.
54 “’Der Einzige’ certamente continua a ser um livro profundamente original e perturbador. Depois de cento e vinte anos, a voz de Stirner não menos urgente, e a solução sombria que ele descreve certamente mantém o seu poder de fascinar.” (PATERSON, R. W. K. The nihilistic egoist: Max Stirner. London: Oxford University Press, 1971. p. 311).
55 “Agora, vemos em espelho e de modo confuso”, diz o Apóstolo, depois de tecer seu longo elogio ao Amor (ágape); “mas então, será face a face. Agora o meu conhecimento é limitado; então, conhecerei como sou conhecido.” (1 Coríntios 13, 12; TEB).
56 “Sem a fé, é impossível agradar a Deus, pois quem se aproxima de Deus deve crer que ele existe e recompensa os que o procuram.” (Hebreus 11, 6; TEB). Retire a “recompensa da fé” e Deus deixa de ser procurado, com fé, com amor. A propaganda cristã, que promete ora promete o céu hora ameaça com o inferno, não tem para o que apelar senão para o desejo da eterna beatitude, nos homens. Por qualquer parte, e mesmo aqui, é o egoísmo que se mostra evidente, requerido, e, sem o qual, o homem não é. 
57 STIRNER, 2004, p. 32.
58 “Vocês destinaram a palavra ‘egoísta’ à execração e ao desprezo, quando ela se aplica principalmente a vocês.” (STIRNER, 2004, p. 33).
59 BARAQUIN; LAFFITTE, 2007, p. 288-9.
60 O tema do amor erótico, sublimado e relacionado à moral neurótica da propaganda cristã referente ao Eu (Ego), geralmente combatido, aparece com destaque em duas obras essenciais de Sigmund Freud: O futuro de uma ilusão (Rio de Janeiro: Imago, 1997), de 1927; e O mal-estar na civilização (Rio de Janeiro: Imago, 1997), de 1930. Nessa última: “No auge do sentimento de amo, a fronteira entre ego e objeto ameaça desaparecer. Contra todas as provas de seus sentidos, um homem que se acha enamorado declara que ‘eu’ e ‘tu’ são um só, e está preparado para se conduzir como se isso constituísse um fato.” (FREUD, 1997, p. 11-2). O Eu e o Tu, igualmente, pode estar ligado às convicções religiosas, na resposta positiva àquele ágape – como já visto.
61 ALVES, Rubem. Mais badulaques. São Paulo: Parábola Editorial, 2004. p. 169. Os itálicos são meus.


quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

27.






De um Amor que transcende as falas... de amor




N’O banquete, de Platão – que Schopenhauer entende ser a principal obra sobre o tema do Amor, embora com desvios e limitações1 –, os amores são caminhos para o sublime, para a Ideia sublimada.
O banquete não é propriamente um diálogo; é, antes, uma série de discursos sobre a origem, ações, funções e marotagens de Eros: às vezes divino, às vezes humano. Por isso que os discursos são “irregulares e pitorescos, em que o sério e até sublime se sucede ao cômico e mesmo à farsa”2. As várias faces do Amor, conforme a tradição, pontuam os discursos dos personagens – pelo menos aqueles que foram julgados mais importantes, e lembrados por Aristodemo e Apolodoro3 –, até que chega a vez de Sócrates.
Realizado na casa de Agatão – que comemorava um prêmio conquistado4 –, o primeiro a discursar é Fedro. Invocando a autoridade de Hesíodo, Fedro afirma que Amor é um dos deuses mais antigos, um dos mais reverenciados e poderosos. Sem genitores, teria nascido depois de Caos e Terra5. É o Amor quem transforma jovens comuns em heróis, uma vez que eles têm vergonha de parecerem tolos ou covardes diante daqueles ou daquelas a quem amam.

A vergonha os cobre sobretudo quando, na execução do reprovável, a vista dos erastas os atinge. Se fosse possível dar vida a uma cidade ou a um exército de formado de erastas e de erômenos, não haveria maneira melhor de conviverem do que absterem-se de toda ação reprovável e cultivarem admiração mútua. Um eronta preferiria muitas vezes morrer a ser visto pelo desejado a abandonar o posto ou a entregar as armas; o testemunho dos outros lhe seria mais humilhante.6

“Dai-me um exército de enamorados e poderei conquistarei o mundo”, ele dizia7. E: “O que Homero afirmou, que ‘uma divindade inspira ardor a certos heróis’, isso outorga Eros de si mesmo aos erontas. Sem dúvida, só os erontas se dispõem a morrer uns pelos outros, quer homens, quer mulheres.8” Para respaldar o que afirma, Fedro cita três casos conhecidos: Alceste, que se dispôs a morrer no lugar do seu marido, Admeto, rei de Feres, na Tessália:

E a esse respeito a filha de Pélias, Alceste, dá aos gregos uma prova cabal em favor dessa afirmativa, ela que foi a única a consentir em morrer pelo marido, embora tivesse este pai e mãe, os quais ela tanto excedeu na afeição do seu amor que os fez aparecer como estranhos ao filho, e parentes apenas de nome; depois de praticar ela esse ato, tão belo pareceu ele não só aos homens mas até aos deuses que, embora muitos tenham feito muitas ações belas, foi a um bem reduzido número que os deuses concederam esta honra de fazer do Hades subir novamente sua alma, ao passo que a dela eles fizeram subir, admirados do seu gesto; é assim que até os deuses honram ao máximo o zelo e a virtude no amor.9

Orfeu, que foi ao Hades em busca de Eurídice:

A Orfeu, o filho de Eagro, eles [os deuses] o fizeram voltar sem o seu objetivo, pois foi um espectro o que eles lhe mostraram da mulher a que vinha, e não lha deram, por lhes parecer que ele se acovardava, citaredo que era, e não ousava por seu amor morrer como Alceste, mas maquinava um meio de penetrar vivo no Hades.10

E, por fim, Aquiles – que mesmo sendo advertido por sua mãe, Tétis, de que matar Heitor significaria também a sua própria morte, a preferiu, por amor a Pátroclo, a quem vingou.11  
Em Fedro, o Amor tem uma natureza educativa: pela transformação que faz no amante – de fraco em forte, de comum a excelente, de excelente a divino. Na educação do corpo e da mente, com vistas ao bem da pólis – como aparecerá depois em Platão –, os ecos desse discurso, embora as diferenças, ainda reverberam. Ademais, o próprio Fedro será personagem de outro diálogo com Sócrates12, em que dois temas são principais: o amor e a retórica – tudo convergindo, como n’O banquete (já veremos), para a Ideia do belo, do bem... o Sumo Bem.13 
Depois de Fedro, o discurso é de Pausânias. Esse, procurando corrigir a Fedro, afirma não haver apenas um Amor, mas dois. Também é preciso “distinguir entre o amor terreno [Pandêmia, a Popular] e o amor divino [Urânia, a Celeste] – a atração entre dois corpos, de um lado, e, de outro, a afinidade entre duas almas. O amor vulgar do corpo cria asas14 e foge ao passar o viço da mocidade. Mas o nobre amor da alma é perpétuo.15” Há, pois, o amar (humano) e o Amor (divino). O amor divino (a Urânia Celeste) é verdadeiro, nobre, eterno; o amor terreno (a Afrodite Pandêmia) é falso e fugaz, ligado mais às belezas do corpo que às da alma16. Há, no amor, assim, uma hierarquia – o discurso de Pausânias, como já fica evidente, não será ignorado por Sócrates, mais tarde.
Em seguida vem Erixímaco, que apresenta uma teoria cósmica do amor. Nela, dentre outras, o amor é responsável pela saúde dos corpos, as harmonias musicais, as revoluções astronômicas, a adivinhação, etc. “Grande e admirável é o deus [Amor], e a tudo se estende ele, tanto na ordem das coisas humanas como entre as divinas.17” Assim, depois de elogiar o discurso de Pausânias – pela dupla natureza do amor –, e tomando como ponto de partida a medicina (Erixímaco era médico), ele afirma que “a natureza dos corpos, com efeito, comporta esse duplo Amor; o sadio e o mórbido são cada um reconhecidamente um estado diverso e dessemelhante, e o dessemelhante deseja e ama o dessemelhante”18, ou seja: aquilo que lhe é próprio. A saúde, na doença, deseja a saúde; e a doença, na saúde, o seu contrário. Deste modo, o amor supõe uma harmonia, e a medicina é uma arte que é “capaz de fazer com que os elementos mais hostis no corpo fiquem amigos e se amem mutuamente”19. Tal harmonia, seja na adversidade ou diversidade dos elementos do/no mundo, demonstram que o amor – como a Vontade, em Schopenhauer – está em tudo, mantendo o que há, por união ou separação, por vida ou morte, por excesso ou escassez. Outras artes, como a música e literatura, por exemplo, são tão assimiláveis à medicina que “nada mais versam senão sobre a conservação e a cura do Amor”20. O Amor, como também as outras afecções, é cura e doença.21
O comediógrafo Aristófanes, em seu discurso, tem uma explicação irretocável sobre os efeitos do Amor sobre os pobres amantes: “Nos tempos antigos”, diz ele,

andavam os dois sexos unidos num único corpo. Esse corpo era redondo como uma bola, tinha quatro mãos, quatro pés e duas faces. Movia-se com assombrosa rapidez, utilizando-se dos oito membros que tinha, como se fossem os raios de uma roda, numa série contínua de saltos mortais. A força dessa raça de homens-mulheres era tremenda, e sua ambição sem limites. Assim planejaram escalar os céus e atacar os deuses quando Júpiter teve uma feliz ideia: “Dividamo-lo em dois”, disse ele, “e eles terão, assim, apenas metade da força que têm, e nós, o dobro de sacrifícios”.
E dito isso, o deus separou os dois sexos, e desse dia em diante as duas metades daquele corpo outrora unido, vêm se consumindo no ardente desejo de se reunirem novamente, para serem, como antes, um só. E é esse anseio pela reunião dos sexos que chamamos amor.22

Agatão, que era o anfitrião, também discursa, chamando a atenção de todos para a causa, e não apenas para os efeitos do Amor... sobre os amantes:

Eu então quero primeiro dizer como devo falar, e depois falar. Parece-me com efeito que todos os que antes falaram, não era o deus que elogiavam, mas os homens que felicitavam pelos bens de que o deus lhes é causador23; qual porém é a sua natureza, em virtude da qual ele faz tais dons, ninguém o disse. Ora, a única maneira correta de qualquer elogio a qualquer um é, no discurso, explicar em virtude de que natureza vem a ser causa de tais efeitos aquele de quem se estiver falando.24

Mais adiante, Sócrates elogiará tal princípio, defendido por Agatão25. Ele, em verdade, representa uma nova e decisiva etapa na progressão dos discursos. “Embora não vá acertar na definição da natureza do Amor, Agatão traz à baila o problema, possibilitando assim a refutação socrática26 e a definição platônica27.28” Depois do discurso de Aristófanes, qualquer outro corria o risco de tornar-se enfadonho. Mesmo assim, e apesar de tudo, Agatão sustenta – não sem uma boa dose de extravagância, jocosidade e fantasia29 – muito bem as suas posições, prendendo a atenção dos convidados, ao mesmo tempo em que procura provar as perfeições do Amor – que é o mais jovem dos deuses30 e, entre eles, o mais feliz, mais belo e melhor, a todos submetendo, deuses e homens31. A posição de Agatão, no entanto, não deixe de ter uma natureza “romântico”-idealista. Isso, é claro, parece o gancho natural para que Sócrates, afinal, faça o seu discurso.  
O amor é um tema central da filosofia; ela que se define como “amor à sabedoria”, e não “possuidora” dela. Antes de iniciar seu discurso – afirmando-se “terrível nas questões do amor” e “nada saber” sobre o que deveria elogiar32 –, a ironia socrática soa como uma captatio benevolentiæ, na retórica; mas, é não. Seja como for, e para falar sobre o tema comum a todos os convivas, ele avisa que seu discurso é reprodução do que aprendeu junto à Diotima:33

[...] o discurso que sobre o Amor eu ouvi um dia, de uma mulher de Mantinéia, Diotima, que nesse assunto era entendida e em muitos outros [...], o discurso então que me fez aquela mulher eu tentarei repetir-vos, a partir do que foi admitido por mim e por Agatão, com meus próprios recursos e como eu puder. É de fato preciso, Agatão, como tu indicaste, primeiro discorrer sobre o próprio Amor, quem é ele e qual a sua natureza e depois sobre as suas obras.34

Sócrates escolhe Agatão – o jovem premiado e brilhante que arrancou aplausos imodestos dos seus convidados35 – como interlocutor, a quem pergunta: “O Amor é amor de nada ou de algo?” De algo, Agatão responde36. Há, pois: o que ama, o objeto amado e o amor – tríade que será lembrada por Agostinho de Hipona, relacionando-a à doutrina da Trindade cristã37. O erasta, por ação Eros, é “o que deseja aquilo de que carente, sem o que não deseja, se não for carente”38. O amor, antes de tudo, é falta, necessidade, insuficiência e, ao mesmo tempo, desejo de conquistar e conservar aquilo que foi conquistado. A conquista do objeto amado não aplaca a vontade, nem o desejo e, menos ainda, a falta de... Desejo é falta, e falta é sofrimento.

Quando alguém diz: “Eu, mesmo sadio, desejo ser sadio, e mesmo rico, ser rico, e desejo mesmo isso que tenho”, poderíamos dizer-lhe: “Ó homem, tu que possuis riqueza, saúde e fortaleza, o que queres é também no futuro possuir esses bens, pois no momento, quer queiras quer não, tu os tens; observa então se, quando dizes “desejo o que tenho comigo”, queres dizer outra coisa senão isso: “quero que o que tenho agora comigo, também no futuro eu o tenha.”39

Em segundo lugar, o Amor procura aquilo que julga belo; e assim fazendo, procura mesmo é pelo Bem, pelo seu próprio bem: “Não é com efeito o que é seu, penso, que cada um estima, a não ser que se chame o bem de próprio e de seu, e o mal de alheio; pois nada mais há que amem os homens senão o bem”40, e “é o amor amor de consigo ter sempre o bem.”41     
Em terceiro lugar, o Amor é desejo de eternidade, de imortalidade, “como demonstra o instinto de gerar, próprio de todos os animais”42 – asserção que será requisitada por Schopenhauer, ao falar sobre o instinto sexual, sobre o amor, sobre a posse43: “Com esse processo, o mortal participa da imortalidade tanto no corpo como em todos os outros aspectos, embora o imortal esteja situado em outro nível. Não há, portanto, nada de estranho no fato de cada um dos seres admirar o seu rebento. A imortalidade provoca esse zelo, esse erotismo.44” Mas, nas palavras de Huisman: “Eros não poderia ser de essência divina: ele é δαίμων (daimon), intermediário entre o divino e o humano. Sendo desejo de imortalidade, de beleza, ele inspira nos corpos a sede de se perpetuar pela procriação, nas almas o desejo de eternidade.”45
Há, por fim, tantas formas de Amor quantas são as belezas do/no Mundo – da sensível à beleza da sabedoria – e todas elas, a seu modo, apontam para o sublime, com destaque àquela que, por meio da filosofia, pode elevar o erasta à Ideia: do belo em si, da beleza em si, etc46. Tal amor, no discurso de Sócrates, importa-se mais com a beleza da alma que a do corpo.47

Deve-se notar que Sócrates [...] reúne suas intuições esparsas para leva-las a um grau superior de compreensão. Por elevação progressiva aos graus de abstração (diríamos, de idealização), o amor permite assim que a alma tenha acesso à contemplação pura da Ideia do belo, do belo em si.48

A doutrina platônica do amor, presente n’O banquete – o primeiro tratado filosófico do gênero – e no Fedro contém uma análise positiva da afecção e, de modo engenhoso e novo, um modelo metafísico para as noções (todas) de amor, sublimando-as, elevando-as a degraus, inferiores ou superiores, na escalada para o Amor Ideal, ou o Bem. Não é por acaso que, tanto o modelo do seu diálogo quanto as ideias nele contidas, seriam tomadas e retomadas ao longo da história das ideias, da História da Filosofia. O romantismo ocidental é inteiramente e destacadamente devedor de Platão, e sua maior vítima.49






1 “De todos os filósofos”, Schopenhauer afirma, “foi Platão que mais se dedicou ao tema do amor sexual, sobretudo no Banquete e Fedro. Mas, o que ele diz sobre o assunto não passa de mitos, fábulas e anedotas, e refere-se, na sua maior parte, à pederastia.” (SCHOPENHAUER, Arthur. O instinto sexual. São Paulo: Edições INEDOS, 1951. p. 41).
2 HUISMAN, Denis. O banquete. In: _____. Dicionário de obras filosóficas. São Paulo: Martins Fontes, 2000. p. 24.
3 Platão é o narrador invisível, que conta as memórias de Apolodoro (a pedido de Glauco), que teria ouvido os relatos de Aristodemo e se certificado, com o próprio Sócrates de que eles eram fidedignos. Sócrates, por sua vez, contará, de memória, o que ouviu de Diotima. 
4 Agatão (ou Agaton) havia conquistado o primeiro lugar em uma competição de dramas para o teatro, em 416, no arcontado de Eufemo. Para comemorar, convidou os seus melhores amigos a um banquete em sua casa – Sócrates é, naturalmente, o convidado mais ilustre, sentando-se à sua direita. Aí, cada um (da esquerda para a direita), por sugestão de Erixímaco, fará um discurso elogiando o Amor.
5 Com uma citação de: HESÍODO, Teogonia, 116 ss. Depois Fedro cita Parmênides (séc. V a.C.), afirmando que “bem antes de todos os deuses [a Justiça] pensou em Amor” (em: SIMPLÍCIO, Física, 39, 18 [O banquete, 178b]). Diz, por fim, que também Hesíodo concorda com Acusilau (Genealogista natural de Argos, do século VI a.C., que escreveu várias genealogias de deuses e de homens ilustres): Assim, ele diz, “de muitos lados se reconhece que Amor é entre os deuses o mais antigo.” (O banquete, 178c). PLATÃO. O banquete. In: _____. Diálogos. 2. ed. São Paulo: Abril Cultural, 1983. (Col. Os Pensadores).
6 O banquete, 178e, 179a. PLATÃO. O banquete. Porto Alegre: L&PM, 2012. (Col. L&PM Pocket, 711).
7 Como na interpretação de THOMAS, Henry; THOMAS, Dana Lee. Vida de grandes filósofos. Porto Alegre: Editôra Globo, 1958. p. 9.
8 O banquete, 179b. (2012).
9 O banquete, 179 b-d. (1983). Como aparece na tragédia, homônima, de Eurípedes – o mais antigo drama de Eurípedes, que sobreviveu, e o único anterior à Guerra do Peloponeso. Cf. EURIPIDE. Alceste. Paris: Les Belles Lettres, 1926, p. 43-101. v. 1.
10 O banquete, 179d. (1983).
11 O banquete, 179d-180a.
12 O Fedro, posterior a’O banquete. As datas dos diálogos de Platão são motivos de muitas controvérsias. A redação d’O banquete, por exemplo, teria sido por volta de 385 a.C. A do Fedro costuma aparecer entre 375 e 370 a.C. Com relação à problemática, ver: SCHLEIERMACHER, Friedrich D. E. Introdução aos diálogos de Platão. Belo Horizonte: Editora UFMG; Departamento de Filosofia – FAFICH/UFMG, 2002. p. 27-76.
13 “O ponto de partida do diálogo [Fedro] é um discurso do retor Lísias, a quem o jovem Fedro devota desmedida admiração. a esse discurso, Sócrates opõe um arrazoamento sobre o mesmo tema, a saber: valerá mais conceder favores a quem nos ama ou a quem não nos ama? (Esse diálogo, evidentemente, deve ser situado no contexto cultural grego, em que a homossexualidade desempenhava papel muito especial). Como, em seu discurso, Lísias escolhia (paradoxalmente) a segunda resposta, Sócrates vai defender a primeira. Mas Sócrates não poderia satisfazer-se em somar um discurso a outro discurso. Sua reflexão sobre o amor passará, portanto, por uma análise da alma humana. Aqui se encontra a célebre imagem da atrelagem alada: a alma é comparável ao conjunto formado pelo cocheiro e seus dois cavalos, um dócil e outro bravio. Essa imagem leva Platão a uma alegoria do conhecimento, da vida virtuosa, da própria filosofia. [...] Assim como O banquete, cujo prolongamento indispensável constitui, Fedro articula uma reflexão sobre o amor e a filosofia com a Ideia de belo.” (HUISMAN, 2000, p. 223).
14 Ou “alça ele o seu voo”, como na Ilíada (II, 71), que é de onde Pausânias retira a referência, aludindo a Oneiros – o Sonho personificado –, que se apresenta a Agamenon.
15 O banquete, 183d-e. Aqui, novamente, uso a interpretação de Henry e Dana L. Thomas (THOMAS; THOMAS, 1958, p. 9).
16 “O Amor de Afrodite Pandemônia é realmente popular e faz o que lhe ocorre; é a ele que os homens vulgares amam. E amam tais pessoas, primeiramente não menos as mulheres  que os jovens, e depois o que neles amam é mais o corpo que a alma, e ainda dos mais desprovidos de inteligência, tendo em mira apenas o efetuar o ato [sexual], sem se preocupar se é decentemente ou não; daí resulta então que eles fazem o que lhes ocorre, tanto o que é bom como o seu contrário.” (O banquete, 181b [1983]).
17 O banquete, 186b. (1983).
18 O banquete, 186b. (1983).
19 O banquete, 186d. (1983). Ou: “A medicina, portanto, como estou dizendo, é toda ela dirigida nos traços deste deus, assim como também a ginástica e a agricultura; e quanto à música, é a todos evidente, por pouco que se lhe preste atenção, que ela se comporta segundo esses mesmos princípios.” (O banquete, 187a. [1983]).
20 O banquete, 188b. (1983).
21 O livrinho de Ovídio (43 a.C.-c.17/8 d.C.), Os remédios para o amor, parece desenvolver esse tema: “O Amor, ao ler o título e o nome deste pequenino livro, disse: ‘É a guerra, estou vendo a guerra que estão preparando contra mim’. Pare, Cupido, de condenar seu poeta como um criminoso, eu que, tantas vezes, sob o seu comando, carreguei o estandarte que você me confiou.” Ele diz, no prefácio. E diz mais: “Venham às minhas aulas, jovens enganados, que no amor só encontraram decepções. A mesma mão lhes trará a ferida e o remédio.” (OVÍDEO. Os remédios para o amor. In: A arte de amar. Porto Alegre: L&PM, 2001. [Col. L&PM Pocket, 248]). Como em Erixímaco, o amor, para Ovídeo, é uma doença.
22 THOMAS; THOMAS, 1958, p. 9-10. N’O banquete, 189c-193e.
23 Elogiando as ações dos homens, movidos pelo Amor (ou por Amor), os oradores esqueceram que era ao próprio Amor que deveriam elogiar.
24 O banquete, 194e-195a (1983).
25 “Realmente, caro Agatão, bem me parece iniciar teu discurso, quando dizias que primeiro se devia mostrar o próprio amor, qual a sua natureza, e depois as suas obras. Esse começo, muito admiro.” (O banquete, 199c [1983]).
26 O banquete, 189d-204c.
27 O banquete, 201c-204a.
28 SOUZA, José Cavalcante de. Notas. In: PLATÃO. O banquete. In: _____. Diálogos. 2. ed. São Paulo: Abril Cultural, 1983. p. 27. (Col. Os Pensadores). Nota 79.
29 Como quando ele diz que a constituição do Amor é úmida: “Pois não seria ele capaz de se amoldar de todo jeito, nem de por toda alma primeiramente entrar, desapercebido, e depois sair, se fosse ele seco.” (O banquete, 196a [1983]). E como ele mesmo diz, ao final do discurso: “Esta é minha contribuição, Fedro, ao que está sendo discutido, oferenda a Eros, mistura de brinquedo e seriedade. Exigir mais excederia a minha capacidade.” (O banquete, 197e [2012]).
30 “E uma grande prova do que digo ele [o Amor] próprio fornece, quando em fuga foge da velhice, que é rápida evidentemente, e que em todo caso, mais rápida do que devia, para nós se encaminha. De sua natureza Amor a odeia e nem de longe se lhe aproxima. Com os jovens ele está sempre em seu convívio e ao seu lado.” (O banquete, 195b [1983]).
31 O banquete, 197b.
32 Antes, ele dissera “em nada mais ser entendido senão nas questões do amor” ((O banquete, 177d [1983]), ou, como na tradução de Donaldo Schüler: “... afirmo que entendo de assuntos eróticos e de nenhuma outra matéria” (O banquete, 177d [2012]). Agora, ao iniciar o seu discurso: “Refleti então que estava evidentemente sendo ridículo, quando convosco concordava em fazer na minha vez, depois de vós, o elogio do Amor, dizendo ser terrível nas questões do amor, quando na verdade nada sabia do que se tratava, de como se devia fazer qualquer elogio.” (O banquete, 198d. [1983]).
33 Não entro no mérito da questão referente à legitimidade (ou não) do discurso de Diotima, que pode ser mera invenção de Sócrates, a fim de desviar uma fala que seria imediatamente sua, para outra – de uma autoridade (no tema) que ele afirma reconhecer – como também Parmênides (séc. V a.C.) faz, atribuindo à Deusa (Justiça) o seu grande poema Sobre a natureza. Importa, por hora, o conteúdo do tal discurso, e suas implicações. Convém dizer, entretanto, que a metáfora da revelação parmenidiana, por sua vez, provém de Homero (primeiro verso da Ilíada), a quem o eléata conhece muito bem, juntamente com Hesíodo. A Deusa, a quem ele deve a sua revelação – que é ho daímon (“a divindade”), é a própria Diké, aquela que o “atrai” à sua morada, e é Moira (“Destino”) e Ananké (“Necessidade”) e Alétheia (“Verdade”) –, somente tem a afinidade de Afrodite, enquanto mãe de Eros: “Como primeiro (daimon) concebeu antes de todos os deuses eros...” (Frag. B 13, na tradução de Emmanuel Carneiro Leão. Em: PARMÊNIDES. Acerca da nascividade. In: Os pensadores originários: Anaximandro, Parmênides, Heráclito. 3. ed. Petrópolis: Vozes, 1999. p. 53. [Col. Pensamento Humano]). O recurso, como se vê, pode ser o da “via indireta”, na autoridade de uma (outra) autoridade. Mas pode ser que não seja.     
34 O banquete, 201d. (1983).
35 “Ao que me contou Aristodemo”, Apolodoro diz, “o discurso de Agaton levantou uma tempestade de aplausos. Os convivas estavam convictos de que a expressão do jovem correspondia às características da divindade reverenciada.” (O banquete, 198a [2012]).
36 O banquete, 199e. (1983).
37 “Pois “não há amor onde nada é amado.” (De Trin., IX, 2.2). Mas, que é o amor ou a Caridade (αγάπη, charitas) senão o amor do Bem? “O amor, porém, supõe alguém que ame e alguém que seja amado com amor. Assim, encontram-se três realidades: o que ama, o que é amado e o mesmo amor. O que é, portanto, o amor, senão uma certa vida que enlaça dois seres, ou tenta enlaçar, a saber: o que ama e o que é amado?” (De Trin., VIII, 10.14). O amado (quod amatur) é amado por aquele que ama (amans), e ambos estão unidos no amor (amor), formando a unidade trinitária. Um modelo perfeito para a Trindade cristã. Outras tríades, sempre ascendentes (da “coisa” à Ideia), e de forte influência socrático-platônica, aparecem por toda a parte da De Trinitate: AGOSTINHO, Santo. A Trindade. 2. ed. Paulo: Paulus, 1994. (Col. Patrística, 7).
38 O banquete, 200b. (1983).
39 O banquete, 200d. (1983).
40 O banquete, 205e. (1983).
41 O banquete, 206a. (1983).
42 ABBAGNANO, Nicola. Amor. In: _____. Dicionário de filosofia. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2008. p. 39.
43 “Por mais desinteressada e ideal que pareça essa admiração por uma pessoa amada, o alvo real é a concepção de um novo indivíduo de determinada natureza. Prova-se isto pelo fato de que o amor sexual não se contenta com o sentimento recíproco, mas exige a posse, isto é, o gozo físico. A certeza de ser amado não compensa a privação da posse de quem se ama, e em tais casos, muitos já se suicidaram.” (SHOPENHAUER, 1951, p. 44).
44 O banquete, 208b. (2012).
45 HUISMAN, 2000, p. 25. “Quando então alguém, subindo a partir do que aqui é belo [o pronome τῶνδε, aqui, aponta para a “ideia do belo”], através do correto amor aos jovens, começa a contemplar aquele belo, quase que estaria a atingir o ponto final. Eis, com efeito, em que consiste o proceder corretamente nos caminhos do amor ou por outro se deixar conduzir: em começar do que aqui é belo e, em vista daquele belo, subir sempre, como que servindo-se de degraus, de um só para dois e de dois para todos os belos corpos, e dos belos corpos para os belos ofícios, e dos belos ofícios para as belas ciências ate que das ciências acabe naquela ciência, que de nada mais é senão daquele próprio belo, e conheça enfim o que em si é belo.” (O banquete, 211b-c. [1983]).
46 O banquete, 210a ss. “Feito o exame das diversas formas da atividade amorosa (procriação, poesia, legislação), Diotima as considera com estágios preliminares do supremo ato do amor, que é a conquista da ciência do belo em si.” (SOUZA, 1983, p. 41. Nota 138). A relação com a progressividade do conhecimento, como pode ser visto na alegoria da caverna, é flagrante: “Agora, meu caro Glauco, é preciso aplicar [...] esta imagem que dissemos atrás e comparar o mundo que nos cerca com a vida da prisão na caverna, e a luz do fogo que ilumina com a força do Sol. Quanto à subida à região superior e à contemplação dos seus objetos, se a considerares como a ascensão da alma para a mansão inteligível, não te enganarás quanto à minha idéia, visto que também tu desejas conhecê-la. Só Deus sabe se ela é verdadeira. Quanto a mim, a minha opinião é esta: no mundo inteligível, a idéia do bem é a última a ser apreendida, e com dificuldade, mas não se pode apreendê-la sem concluir que ela é a causa de tudo o que de reto e belo existe em todas as coisas.” (Rep., VII, 517 b/c; PLATÃO. A República. São Paulo: Nova Cultural, 1996. (Col. Os Pensadores).
47 “Por trás da aparência física (Sócrates era feio), é a alma que se deve considerar.” (HUISMAN, 2000, p. 25).
48 HUISMAN, 2000, p. 25. A temática é retomada no Fedro, quando Sócrates procura mostrar os caminhos pelo qual o amor sensível chega ao amor pela sabedoria (a filosofia), e o transe erótico à virtude divina, afastando o erasta das vias comuns, auxiliado pela dialética (Fédon, 265b, ss.).
49 “A principal consequência dessa concepção [a metafísica platônica, sua teoria do conhecimento] para o desenvolvimento da filosofia é que, na medida em que a tarefa filosófica passa a se definir como teoria, contemplativa, especulativa, dirigida assim para uma realidade abstrata e ideal, a reflexão filosófica afasta-se progressivamente do mundo de nossas experiência imediata e concreta [como ocorria entre os pré-socráticos], passando a ser vista como contemplação e meditação. Isso ocorrerá de fato com algumas correntes do platonismo no período do helenismo, especialmente com o neoplatonismo e, em alguns casos, com o platonismo cristão [o de Agostinho, entre os principais]. Daí se origina o sentido vulgar que o termo ‘platônico’ possui ainda hoje, com a conotação de ‘contemplativo’, como na expressão ‘amor platônico’.” (MARCONDES, Danilo. Iniciação à História da Filosofia: dos pré-socráticos a Wittgenstein. 2. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998. p. 57).


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