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sexta-feira, 8 de junho de 2012


4. 





Da Vontade objetiva de todo amor, de todo amar




“O bebê que toma o peito, você tira o peito, ele chora, está infeliz. Você lhe devolve o peito, ele se acalma. Há anos uns e outros buscaram nosso peito. Queríamos um ‘bom objeto’, como dizem os psicanalistas, que pudéssemos possuir, que nos saciasse, que fizesse que nada nos faltasse... Que azar: somos desmamados, essa história acabou, ponto final.” São palavras tristes, mas verdadeiras, de André Comte-Sponville.1
Por que os homens gostam tanto dos peitos das mulheres? Porque eles procuram, aí, aquilo que não podem mais ter em suas mães. E as mulheres? O que elas mais procuram, nos homens, é a segurança; e há, nisso, muito bem sedimentado, toda uma história de dominação: psicobiológica, política, social, et cetera. Um homem rico, mesmo carente de atributos estéticos favoráveis, é, por tal fortuna, externa, propaganda de uma segurança que o “ouro” pode dar. Claro que isso pode parecer machista e feio, pela objetividade; não é, porém, superficial. No final das contas, não e nem esse homem feio (o mesmo vale para o bonito) e nem o seu dinheiro que ela quer, mas a segurança. Como se vê, há mais: por trás das intenções, das afecções, disso e daquilo que movem as nossas vontades e decisões.  
Os homens querem “voltar” às barrigas das suas mães, aos seus peitos (primeira fonte de alimento e segurança); as mulheres, quando não desejam isso em seus pares (lesbianismo), miram recursos externos, artificiais, psicologicamente adequados ao seu conforto e segurança – mesmo que não saibam, não pensem sobre isso. Por outro lado, e como antítese dinâmico-existencial, há a Vontade de vida2, e o instinto animal que, em favor da espécie, deseja mais que a segurança. Não há nenhum amor aí, em nenhum dos casos – ao menos o romântico, isto é: idiotizado, maquiado, sublimado. Por outro lado, e como é mais comum e natural, há o amour de soi. E como não haveria de haver? É somente o que há; é tudo o que há. 
Quando, em 1910, Freud tratou sobre o Complexo de Édipo, descreveu-o como o desejo secreto e inconsciente que a criança tem de “matar o pai”3. É que o pai do menino, de três a cinco anos, é um seu rival em relação ao peito materno. A fase seguinte – que viria depois desta, a fálica – marcaria para sempre a vida (psicológica) do indivíduo macho, “devidamente são”: desapegar-se da mãe, reconciliar-se com o pai, encontrar, para amar, uma que seja idêntica à mãe, e não a própria. “Essas tarefas”, Freud escreve, “cabem a todos, e é notável a pouca frequência com que lidamos com elas de maneira ideal”4. Sua mãe lhe despeja no mundo, e agora é você que está, por toda a vida, grávido dela. 
Outro dia um amigo me disse, jocoso, olhando a mãe novinha que passava: “Se eu tivesse uma mãe dessas, até hoje estaria mamando”. “Mas”, eu lhe disse, “dependendo de outro gosto, outro cara pode dizer a mesma coisa da tua mãe.” “Eiii, rapaz!”, ele disse, me esmurrando de mentirinha; e ficou nisso.
Os bons leitores de John Fante sabem que seus livros são altamente biográficos. Em um deles, de 1938 – seu primeiro romance publicado –, seu nome é Bandini, Arturo Bandini; um menino de doze anos:

Era Arturo e adorava o pai, mas vivia no temor do dia em que cresceria e seria capaz de bater nele. Venerava o pai, mas achava que a mãe era fraca e tola.
Por que sua mãe era diferente das outras mães? [...] Tinha doze anos e tomar consciência de que sua mãe não o excitava fez com que a detestasse secretamente. Sempre observava a mãe com o rabo do olho. Amava a mãe, mas a odiava.5

Pobre e desmamado Arturo, sem o peito da mãe, sem o seu sexo. Era preciso buscar outros peitos, outras fontes lícitas de excitação. Talvez a mãe Jack Hawley, ou a de Jim Toland, ou a de Carl Molla6, ou talvez... Rosa7. Mas, ah! Não é a beleza que buscamos, afinal. A beleza é tão somente o atrativo, a propaganda. Buscamos é a vida, atiçados pela Vontade que, nos animais – e principalmente nos que não pensam sobre essas coisas – é cega, faz cegar. Já ouviu aquilo de “o amor é cego”?, é por aí.
Por trás do desejo erótico-estético está o desejo de segurança, da saciedade daquela fome mais primitiva – que está acompanhada de todos os nossos vícios e paixões, domados ou não8. No fim de tudo, reverbera silenciosa a voz do nosso instinto mais básico, comum a todos os bichos: autopreservação. Aquilo que ocorre ao bebê, ocorre também conosco: não ter um peito deixa-nos infeliz... é a tristeza. Quando o peito não nos falta, a vida está assegurada... somente o tédio, agora, nos assedia. Em De rerum natura, Lucrécio faz uma afirmação dolorosa: “Giramos sempre no mesmo círculo sem nunca poder sair... Enquanto o objeto de nossos desejos permanece distante, ele nos parece superior a todo o resto; se ele é nosso, passamos a desejar outra coisa, e a mesma sede da vida nos mantém em permanente tensão...9” E daí Schopenhauer, valendo-se de Lucrécio, dizer que a “vida [do homem], [...] oscila como um pêndulo, para aqui e para acolá, entre a dor e o tédio”10. E Sartre, n’O Ser e o Nada: “O prazer é a morte e o fracasso do desejo”11, e é por isso que “o desejo está fadado ao fracasso.12” Nessa historia toda, parece que não temos muitas escolhas, ou escolha.
A razão, por esse viés, nunca é suficiente, libertadora. Acima de tudo, da própria razão, da própria autopreservação, ela: a Vontade. A única liberdade estaria no suicídio, mas isso seria uma vontade contra a Vontade e, logo, um reflexo da própria. 





1 COMTE-SPONVILLE, André. A felicidade, desesperadamente. São Paulo: Martins Fontes, 2001. p. 114-5.
2 “O querer tende à vida (olho que se abre para a luz), desde as mais elementares formações até as mais complexas. Onde houver Vontade, haverá vida. Por conseguinte, para o autor [Schopenhauer], a expressão ‘Vontade de vida’ é um pleonasmo, e nada melhor a simboliza, em seu ímpeto tempestuoso, do que os órgãos genitais. Esses são o seu ‘foco’. A vida quer viver, nem que para isso o particular tenha de ser sacrificado em favor do universal (como muitas vezes, pensa-se, ocorre nos casos de paixão amorosa, ou dos animais em luta pela fêmea, e ainda de parceiros mortos após a cópula).” (BARBOSA, Jair. Schopenhauer. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003. p. 34. [Col. Passo-a-Passo, 16]).
3 “Quando um garoto (com idade de dois ou três anos) entra na fase fálica de seu desenvolvimento libidinal, ele tem sensações prazerosas em seu órgão sexual, aprende a obter prazer pela estimulação manual e vê-se como amante de sua mãe. Ele deseja possuí-la fisicamente das maneiras que imaginou por suas observações e intuições sobre a vida sexual, e procura então seduzi-la mostrando o seu órgão masculino com orgulho. Em poucas palavras, com o despertar da masculinidade, ele procura ocupar o lugar de seu pai diante de sua mãe. [...] Seu pai transforma-se então em um rival que atrapalha seu caminho e do qual ele gostaria de se livrar.” (FREUD, Sigmund. In: STRCHEY, James [Ed.]. The Standard Edition of the Complete Psychological Works of Sigmund Freud. Hogarth Press / Institute of Psychoanalysis, 1953-74. p. 189, 423-4. vols. 23, 15).   
4 FREUD, apud RAEPER, William; SMITH, Linda. Introdução ao estudo das idéias: religião e filosofia no passado e no presente. São Paulo: Edições Loyola, 1997. p. 91.
5 FANTE, John. Espere a primavera, Bandini. 2. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2003. p. 26-7.
6 “A mãe de Jack Hawley o excitava: tinha um jeito de lhe dar bolinhos que fazia seu coração ronronar. A mãe de Jim Toland tinha pernas sensacionais. A mãe de Carl Molla nunca usava nada além de um vestido riscadinho; quando varria o chão da cozinha ele ficava na varanda dos fundos em êxtase, vendo a sra. Molla varrer, os olhos ávidos engolindo o movimento dos seus quadris.” (FANTE, 2003, p. 26-7).
7 A colega de classe, no colégio, por quem ele delirava: “Uma voz como um violino suave, emitindo vibrações através de sua carne. Lá estava ela, diante dele – sua bela Rosa Pinelli, seu amor, sua garota. [...] Oh, Rosa, como você é maravilhosa. Eu te amo, Rosa, te amo, te amo, te amo! [...] Oh, olhem para os seus cabelos! Olhem para os seus ombros! Olhem para aquele bonito vestido verde! Ouçam aquela voz! Oh, você rosa!” (FANTE, 2003, p. 38).
8 E como afirma Frank Cioffi, nas anotações que faz ao manuscrito do livro de Richard Webster – Freud, escrito para a The Great Philosophers Series, editada por Ray Monk e Frederic Raphael, e publicada pela inglesa Taylor & Francis Group, em 2003 –, mencionado pelo próprio: “[Freud tem o mérito de ter tido] a coragem de desenterrar o subconsciente, solo de todo egoísmo, cobiça, luxúria, destrutividade, covardia, preguiça, ódio e inveja que cada um de nós carrega como herança do mundo animal.” (CIOFFI, apud WEBSTER, Richard. Freud. São Paulo: Editora UNESP, 2006. p. 8 [Col. Grandes Filósofos])
9 LUCRÉCIO. De rerum natura, III, 1080-1084; citado em: COMTE-SPONVILLE, 2001, p. 29.
10 SCHOPENHAUER, Arthur. O Mundo como Vontade e como Representação. São Paulo: Editora UNESP, 2005. p. 402. (IV, 57).
11 SARTRE, Jean-Paul. L’être et le néant. Paris: Gallimard, 1969. p. 467.
12 SARTRE, 1969, p. 466.


terça-feira, 29 de maio de 2012


2.





Do amor entre Meursault e Marie, n’O estrangeiro (de Camus)



Aquele que se deixa prender por uma alegria / Rasga as asas da vida / Aquele que beija a alegria enquanto ela voa / Vive no amanhecer da Eternidade.
– William Blake*


A morte está no início, no meio e no fim de O estrangeiro (L’étranger), de Albert Camus – que Roland Barthes diz ser “o primeiro romance clássico do pós-guerra”, e Manuel da Costa Pinto, à edição brasileira da BestBolso1, apresenta-o como “um dos livros mais enigmáticos da literatura francesa do século XX, [...] assimilado às vanguardas”2, etc. O estrangeiro, juntamente com O mito de Sísifo (Le mythe de Sisyphe), do mesmo ano, e a peça Caligula (1941), formam a “trilogia do absurdo” (ou ciclo, como é mais comum).
De fato.
O início do primeiro parágrafo da “Parte I” dá o tema: “Hoje, mamãe morreu. Ou talvez ontem. Não sei.3” E o que segue, a cada começo dos capítulos, mantém o mote da gratuidade da vida, da inevitabilidade da morte, da contemplação do vazio de sentido assomado ao metodismo complacente de um homem como Gregor Samsa, personagem d’A metamorfose (Die Verwandlung, 1915) – tão bem referenciado no início do capítulo 2 da Parte I, em que Meursault é um reflexo estendido de Samsa: “Ao acordar compreendi por que meu patrão se mostrara aborrecido quando lhe pedi meus dois dias de licença: hoje é sábado. [...] Mas, por um lado, não é culpa minha se enterram mamãe ontem em vez de hoje...4” O “estrangeiro”, aí, é “o estranho”, em referência àquele sentimento que se tem diante do mundo e do Outro: de distanciamento e inadequação, algo próximo ao outsider de Norbert Elias5. Uma estranheza que também é notada em Kafka, n’O processo (Der Prozess, 1925): “Em O processo”, Camus afirma, “Joseph K. é acusado. Mas não sabe de quê. Ele por certo quer se defender, mas ignora por quê.6” Também Meursault, que sabe o motivo, mas não o porquê do motivo. Assim, não há o que dizer além da verdade, que parece absurda e digna de riso. Quando convocado a falar em sua defesa perante o juiz e as testemunhas, depois de ser acusado de indiferente (à morte da mãe), assassino frio e calculista e imoral, segundo os pios valores cristãos, somente pode afirmar “rapidamente, misturando as palavras, que fora por causa do sol. Houve risos na sala.7” E por toda a parte, durante o julgamento, Meursault diz e rediz não entender o que se passa, ou por que se passa assim. Sua obstinação, bem como a consciência de seu crime, não tem uma natureza moral, de algum arrependimento; é, antes, fortalecida pela presença de um enfado acerca de tudo, que é absurdo e gratuidade... e c’est la vie. Não que ele quisesse morrer, não; mas a morte era inevitável, agora ou depois, daqui a vinte anos. E, se já, que diferença faria?, que importância o tempo a mais, excedente, traria? “Todos sabem que a vida não vale a pena ser vivida”8, ele diz. “No fundo, não ignorava que tanto faz morrer aos trinta ou aos setenta anos, pois em qualquer dos casos outros homens e outras mulheres viverão, e isso durante milhares de anos. Afinal, nada mais claro. Hoje, ou daqui a vinte anos, era sempre eu que morria.9” Viver não é uma dádiva, mas uma realidade fatal. Não há saída. Ele lembra-se (final do capítulo 2 da Parte II) do que conversara com a enfermeira, durante o enterro de sua mãe: “Não, não havia saída, e ninguém pode imaginar o que são as noites nas prisões.10” Na referida (final do capítulo 1 da Parte I): “Se andamos devagar, arriscamo-nos a uma insolação. Mas se andamos depressa demais transpiramos e, [ao pararmos, à sombra], apanhamos um resfriado.11” “Tinha razão”, ele concorda com a enfermeira. “Não havia saída”.
É durante os dias que se arrastam pelo seu julgamento que ele, do banco dos réus, lembra-se “que durante todo o processo não tinha procurado uma única vez Marie com o olhar. Não a tinha esquecido, mas tinha estado muito ocupado.12” Como? Que ocupação? Meursault estava preso e sua única ocupação era pensar e comparecer aos julgamentos, aos quais era obrigado, e arrastado. Não havia ocupação, apenas a letargia sentimental estrangeira, jogando-o para longe de tudo e de todos. Meursault é o homem absurdo d’O mito de Sísifo: sem justificativas à moral, a Deus ou ao romantismo: “O homem absurdo só pode admitir uma moral, aquela que não se separa de Deus: a que se dita. Mas ele vive justamente à margem desse Deus. Quanto às outras morais (incluo também o imoralismo), o homem absurdo não vê nelas senão justificativas, e não há nada a justificar.13” Sim, e é o que explica a sua indiferença diante do juiz que lhe podia livrar da morte, que

Bruscamente, levantou-se, dirigiu-se com grandes passadas para a extremidade da mesa e abriu a gaveta de um arquivo. Tirou um crucifixo de prata que brandiu na minha direção. E com uma voz completamente alterada, quase trêmula, gritou:
– Será que conhece este aqui?
– Sim, é claro – respondi.
Disse-me, então, muito depressa, e de modo apaixonado, que ele acreditava em Deus, que tinha convicção de que nenhum homem era tão culpado para que Deus não o perdoasse, mas que para isso era necessário que o homem, pelo seu arrependimento, se transformasse como que numa criança, cuja alma está vazia e pronta para acolher tudo.14

 Meursault é também um Kierkegaard que, à sua maneira, não consegue dar o salto da fé15... e nem o deseja. Tanto que, quando o padre capelão vem ter com ele, pouco antes de ele ser conduzido à guilhotina, continua irredutível, considerando essa conversa como mais um enfado desnecessário. Por ele, ou contra ele, chega à sua reação mais violenta – pois consciente, sem a embriaguez daquele sol –, que descreve: “Queria continuar a me falar em Deus, mas eu avancei para ele e tentei explicar-lhe, pela última vez, que já não dispunha de muito tempo. Não queria perde-lo com Deus. [O capelão] tinha um ar tão confiante, não tinha? No entanto, nenhuma das suas certezas valia um cabelo de mulher...”16
... uma mulher como Marie, por exemplo, Marie Cardona. A “Marie que”, ele diz, “queria que eu me casasse com ela.17” A mesma Marie que ele havia esquecido, divagando sobre tudo o que fizera, e sobre a sua vida na prisão e sobre a condição miserável que é viver, e morrer... ou viver para morrer. Não, não era um esquecimento proposital, somente um hiato anômico entre ama última visão e esta, nova: “Eu a vi entre Céleste e Raymond. Fez um pequeno sinal, como se dissesse ‘enfim’ e vi sorrir seu rosto um pouco ansioso. Mas sentia o coração fechado e nem sequer fui capaz de corresponder a seu sorriso.18” “O absurdo não liberta, amarra” – está n’O homem absurdo19. E: “Se amar bastasse, as coisas seriam simples. Quanto mais se ama, mais se consolida o absurdo.20” À Marie, porém, ele nunca amou; nunca pode ir a tanto.
Marie. Quem era Marie?
Meursault a conheceu no dia seguinte ao enterro de sua mãe, na praia – e isso lhe foi imputado negativamente diante do juiz e de todos do/no tribunal. Era um domingo de sol em Marengo. Ele fazia a barba, pensando sobre o que poderia fazer por ali, antes de voltar para Argel, e para o refúgio tranquilo do seu emprego.

[...] decidi tomar um banho de mar. Uma vez lá, mergulhei no canal. Havia muitos jovens. Na água encontrei Marie Cardona, uma antiga datilógrafa do escritório que eu desejara na época. Ela também, creio eu. [...] Ajudei-a a subir numa boia e, nesse movimento, rocei os seus seios. Eu estava ainda na água quando ela já se deitara na boia, de bruços. Virou-se para mim. Os cabelos caiam-lhe nos olhos e sorria. Ergui-me até ficar ao seu lado. O tempo estava bom e, de brincadeira, deixei cair a cabeça para trás e encostei-a na sua barriga. Não reclamou, e eu fiquei assim. Tinha o céu inteiro nos olhos, e ele estava azul e dourado.21

Combinam ver, à noite, um filme de Fernandel (Fernand Joseph Désiré Contandin), no cinema. Lá, ele a beija, de modo desajeitado. Ela acaba indo à sua casa, depois. Conversam, transam, dormem. Quando ele acorda, ela já saiu. Ele lembra que ela havia falado em visitar uma tia. “Então, virei-me na cama, busquei no travesseiro o cheiro de sal que os cabelos de Marie tinham deixado...22” Daí em diante, estará sempre se encontrando com ela. Como no sábado da semana seguinte. Ela está em um vestido de listras vermelhas, e sandálias de couro; ele a deseja profundamente, adivinhando seus seios firmes e queimados pelo sol da praia, que têm em sua imaginação o aspecto de uma flor. Decidem ir à praia novamente, a alguns quilômetros de Argel. “Marie chegou perto, então, e colou-se a mim na água. Colocou a boca contra a minha. A língua dela refrescava-me os lábios, e rolamos por instantes nas ondas.23” Ela o encara com os olhos brilhando, está apaixonada. Apressam-se a encontrar um ônibus para voltarem à casa dele, e à sua cama. Transam, cansam-se, depois descansam nus sobre a cama, enquanto a noite de verão escorre por seus corpos bronzeados. Ela decide ficar com ele até a manhã; quer fazer-lhe o almoço. Ele sai para comprar carne. Quando retorna, ela

Estava com um dos meus pijamas, do qual arregaçara as mangas. Quando riu, voltei a sentir desejo por ela. Instantes depois perguntou-me se eu a amava. Respondi-lhe que isto não queria dizer nada, mas que me parecia que não. Ficou com ar triste. Mas ao preparar o almoço e a propósito de nada, voltou a rir, de tal forma que eu a beijei.24

Na semana seguinte, é Marie quem vai buscar Meursault e, novamente, pergunta se ele quer casar-se com ela. “Disse que tanto fazia, mas que se ela queria, podíamos nos casar.” Ela quer saber se ele a ama. “Respondi, como aliás já respondera uma vez, que isso nada queria dizer, mas que não a amava.” “Nesse caso”, ela pergunta, “por que se casar comigo?” “Expliquei que isso não tinha importância alguma e que, se ela o desejava, nós poderíamos casar. Daí a pouco é ela quem se pergunta se o ama; disso, porém, ele nada pode saber, ou dizer. Ela diz que ele é uma pessoa estranha e que, talvez por isso mesmo o amasse, “mas que talvez um dia, pelos mesmos motivos, eu a decepcionaria.25” Ele fica calado. Ela o abraça e, sorrindo, declara que quer, sim, casar-se com ele.
No domingo seguinte, com Marie e em companhia de amigos (Raymond, Masson e sua mulher, uma francesa), Meursault terá momentos alternados entre a alegria e a embriaguez sangrenta do sol cegante. Na praia, envolve-se em uma briga com alguns árabes, inimigos de Raymond. Depois que tudo parece haver se resolvido, ele retorna à praia, sozinho e armado com um revólver que pertence a Raymond. Encontra o árabe que havia ferido seu amigo, e em um momento de tensão e delírio, mata-o.

Compreendi que destruíra o equilíbrio do dia, o silêncio excepcional de uma praia onde havia sido feliz. Então atirei quatro vezes ainda num corpo inerte em que as balas se enterravam sem que se desse por isso. E era como se desse quatro batidas secas na porta da desgraça.26

Não poderia estar mais certo.
Somente depois de muitos dias é que verá Marie, que não pode visitá-lo antes, por não ser sua mulher. Na vez em que ela consegue, conversam pouco, em um ambiente tumultuado e confuso. “Você vai sair depressa”, ela lhe diz, “e vamos nos casar.27” Ele não tem a mesma esperança. É quando se lembra da conversa com a enfermeira, no dia do enterro da mãe: não há saída; não há esperança. Os repórteres aumentam as proporções do seu caso, para que os jornais vendam mais. O testemunho de Marie não ajuda muito, muito ao contrário: o banho de mar, o cinema, a ida à casa dele, um dia após o falecimento da mãe, que abandonara no asilo. Meursault, cada vez mais e aos olhos de todos, torna-se um monstro – uma barata enorme. Não há esperança; não há saída.
Da sala pequenina que “cheira à escuridão”, quase pode ouvir sua sentença; que ouve agora, nitidamente, ao ser reintroduzido na sala do julgamento. É condenado à morte por guilhotina. Sua cabeça seria cortada “numa praça pública em nome do povo francês”. Perguntam-lhe se ele quer dizer alguma coisa: “Não.” É a sua resposta28. A única que pode ser.   
Enquanto o dia não chega, as horas se arrastam, e Marie some. Ele lembra-se de lembrar-se dela:

Pela primeira vez em muito tempo pensei em Marie. Havia muitos dias que não me escrevia mais. Naquela noite, pensei muito e disse a mim mesmo que ela talvez se tivesse cansado de ser amante de um condenado à morte. Veio-me a ideia de que ela talvez estivesse doente ou morta. Era a ordem natural das coisas. Como poderia eu saber, aliás, já que, além dos nossos corpos agora separados, nada nos ligava, nada nos lembrava um ao outro. A partir desse momento, a lembrança de Marie me passaria a ser indiferente. Morta, deixaria de me interessar. Achava isso normal, assim como compreendia muito bem que as pessoas me esquecessem depois da minha morte.29

No acesso de fúria que tem contra o padre, quando lhe pega pelo colarinho, Marie ainda é uma lembrança dolorosa, a “Marie que queria que eu me casasse com ela”, diz ao capelão. “Que importava que ela oferecesse hoje a boca a um novo Meursault?30” Não havia mais esperanças; não havia mais tempo; não havia mais nada. Mas isso tudo, afinal, não era lá uma coisa realmente muito importante. A cólera, porém, foi. Foi a sua última investida contra algum sentido da/na vida – que ele poderia desejar, e que jamais poderia ter. Seu prêmio foi o repouso tranquilo na terna indiferença do mundo. “Por senti-lo tão parecido comigo, tão fraternal, enfim, senti que tinha sido feliz e que ainda o era. Para que tudo se consumasse, para que me sentisse menos só, faltava-me desejar que houvesse muitos espectadores no dia da minha execução e que me recebessem com gritos de ódio.”31
O amor de Meursault por Marie, como o amor pela vida, não tem mais importância nenhuma, nunca teve. O desejo de amar e ser amado, se vai além do desejo sexual, é um sentimento estrangeiro, um absurdo.




*  “He who binds to himself a joy / Does the winged life destroy / But he who kisses the joy as it flies / Lives in eternity's sun rise.” (BLAKE, William. Eternity. In: HOWARD, John. Infernal poetics: poetic structures in Blake’s Lambeth prophecies. Cranbury, NJ: Fairleigh Dickinson Univ. Press, 1984. p. 102).
1 Selo da editora Best Seller, do Grupo Editorial Record, de São Paulo.
2 PINTO, Manuel da Costa. Prefácio à edição de bolso O estrangeiro, tragédia solar. In: CAMUS, Albert. O estrangeiro. 2. ed. Rio de Janeiro: BestBolso, 2010a. p. 5. Publicado em 1942 (antes da Segunda Guerra), O estrangeiro tem como cenário a cidade de Argel, terra natal do escritor, lugar onde viveu durante alguns anos e onde começou sua carreira de escritor e jornalista.
3 CAMUS, 2010a, p. 13.
4 CAMUS, 2010a, p. 25. E, no início d’A metamorfose, de Kafka: “Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso. [...] – O que aconteceu comigo? – pensou. Não era um sonho. [...] Samsa era caixeiro viajante. [...] O olhar de Gregor dirigiu-se para a janela e o tempo turvo – ouviam-se gotas de chuva batendo no zinco do parapeito – deixou-o inteiramente melancólico. – Que tal se eu continuasse dormindo mais um pouco e esquecesse todas essas tolices? – pensou, mas isso era completamente irrealizável, pois estava habituado a dormir do lado direito e no seu estado atual não conseguia se colocar nessa posição. [...] – Ah, meu Deus! – pensou. – Que profissão cansativa eu escolhi. Entra dia, sai dia – viajando.” (KAFKA, Franz. A metamorfose. São Paulo: Companhia das Letras, 1997. p. 7-8). 
5 Cf. ELIAS, Norbert. The Established and the Outsiders: a sociological enquiry into community problems. Londres: Frank Cass & Co, 1965.
6 CAMUS, Albert. O mito de Sísifo. Rio de Janeiro: Edições BestBolso, 2010b. p. 127.
7 CAMUS, 2010b, p. 95.
8 CAMUS, 2010a, p. 103. Ou, como no tema central d’O mito de Sísifo: “Só existe um problema filosófico realmente sério: o suicídio. Julgar se a vida vale ou não vale a pena ser vivida é responder à pergunta fundamental da filosofia.” (CAMUS, 2010b, p. 19). “Viver, naturalmente, nunca é fácil.” (CAMUS, 2010b, p. 21).
9 CAMUS, 2010a, p. 103.
10 CAMUS, 2010a, p. 78.
11 CAMUS, 2010a, p. 24.
12 CAMUS, 2010a, p. 97.
13 CAMUS, 2010b, p. 73.
14 CAMUS, 2010a, p. 67.
15 “Não posso realizar o movimento da fé, não posso cerrar os olhos e lançar-me de cabeça, pleno de confiança, no absurdo; tal coisa é impossível, mas não me vanglorio por isso.” (KIERKEGAARD, Sören. Temor e tremor. Lisboa: Guimarães Editores, 1990. p. 47).
16 CAMUS, 2010a, p. 108. E, logo adiante: “Do fundo do meu futuro, durante toda esta vida absurda que eu levava, subira até mim, através dos anos que ainda não tinham chegado, um sopro obscuro, e esse sopro igualava, à sua passagem, tudo o que me haviam proposto nos anos, não mais reais, que eu vivia. Que me importavam a morte dos outros, o amor de uma mãe, que me importavam o seu Deus, as vidas que as pessoas escolhem, os destinos que as pessoas elegem, já que um só destino devia eleger-me a mim próprio e comigo milhares de privilegiados que, como ele, se diziam meus irmãos.” (CAMUS, 2010a, p. 109).
17 CAMUS, 2010a, p. 109.
18 CAMUS, 2010a, p. 97.
19 CAMUS, 2010b, p. 74.
20 CAMUS, 2010b, p. 75.
21 CAMUS, 2010a, p. 25.
22 CAMUS, 2010a, p. 26.
23 CAMUS, 2010a, p. 39.
24 CAMUS, 2010a, p. 40.
25 CAMUS, 2010a, p. 46.
26 CAMUS, 2010a, p. 60.
27 CAMUS, 2010a, p. 73.
28 CAMUS, 2010a, p. 98.
29 CAMUS, 2010a, p. 104.
30 CAMUS, 2010a, p. 109.
31 CAMUS, 2010a, p. 110.


domingo, 27 de maio de 2012


Livro 2


Em que o autor oferece grande somatória de exemplos – históricos, filosóficos e literários, principalmente literários – que (de)mostram como o amor romântico foi engendrado sob o peso moral do idealismo platônico, assumido pela cultura da cristandade ocidental, principalmente – e que teria, psicologicamente, maquiado o mecanismo biológico-natural (feio e cru), que é a Vontade de vida, a Pulsão, o sexo puro.




1.





Da condição humana, ou: Da sua eterna contradição



“[o Diabo] voou de novo ao céu, trêmulo de raiva, ansioso de conhecer a causa secreta de tão singular fenômeno. Deus ouviu-o com infinita complacência; não o interrompeu, não o repreendeu, não triunfou, sequer, daquela agonia satânica. Pôs os olhos nele, e disse-lhe: – Que queres tu, meu pobre Diabo? As capas de algodão têm agora franjas de seda, como as de veludo tiveram franjas de algodão. Que queres tu? é a eterna contradição humana.”
É um trecho de “A igreja do Diabo”, de Machado de Assis1.
Dentre outras, no conto, há a ideia de que, para que os homens sobrevivam, é preciso que algo os desafie constantemente – para que desejem encontrar algum sentido nos tantos sem-sentidos do mundo. Em outras palavras: é preciso que estejamos insatisfeitos, eternamente insatisfeitos. Se entre os homens houvesse apenas o mal, o mal absoluto, então eles haveriam de inventar o bem, para fazer frente ao mal e, assim, darem sentido à própria existência do mal, à sua condição. Mas isso de haver algum bem onde somente há o mal, é um grande contrassenso. É que o mal, absoluto, não toleraria a concorrência, nem dependeria dela. Havendo o bem, porém, a coisa poderia diferente – se ele não fosse, também, elevado à categoria de “absoluto”. O problema, como se vê, são os absolutos.  
Por quê?
Porque o bem, justamente por ser o bem, poderia muito bem suportar a existência do mal, e aí, apesar de tudo, ver algum bem, alguma “boa finalidade” – desde que não esteja, como já dito, elevado à categoria de “absoluto”. Se assim não fosse, como falar da fé em Deus, por exemplo?, ou do amor? Impossível. A postulação da ideia da existência de um bem absoluto é, nesses termos, auto-aniquilacionista, autocontraditória.
O mal, sem os objetos aos quais possa administrar as suas maléficas maldades, seria o mesmo que o bem. E o mal somente pode atingir aquilo em que ainda não está o mal, administrado. Pois, se o mal castigasse o mal, então ele estaria fazendo o trabalho do bem; logo, agindo como se fosse o próprio – uma contradição à sua condição. O mal exige o bem, carece dele – para poder existir como contraparte. O bem, porém, como careceria do mal sem que, nisso, também portasse a uma parcela de maldade? A ideia do bem em seu sentido absoluto escapa a qualquer juízo a posteriori, está para além de qualquer análise fundamentada na razão. Isso vale, certamente, para os objetos de fé. “A expressão começa onde o pensamento acaba”, Albert Camus dizia n’O mito de Sísifo2. Posso substituir o substantivo feminino “expressão” por “fé”, sem prejuízos, e com equivalente lucidez.
Do mesmo modo, por outro viés, são as coisas do amor romântico (ideal). Quem, em sua teimosia, acredita na possibilidade de um amor perfeito, acredita que é possível transpor, em abissais saltos ontológicos, as barreiras das análises a posteriori (i.e. do real), repousando no Amor, fundamento último. Esse ou essa, mesmo que não saibam, crentes nas coisas do amor ou da fé – em suas aporias e paradoxos mais profundos –, agarram-se ao apriorístico discurso da própria fé. A fé é um escandaloso absurdo (Camus), um grande paradoxo (Kierkegaard)3.
Sentimento, aqui, de nada vale – para o fundamento discursivo-demonstrativo requerido.
Mas, veja só: é pelo sentimento que se morre; ou, antes, pela ideia de amor àquilo que se acredita verdadeiro. Ah!... Ninguém, no fundo, morre pela verdade. Os martírios, todos eles, não têm outro fundamento senão o sentimento (sobre a verdade ou o erro) ou a dúvida (sobre a verdade ou o erro); e é sempre o meu sentimento, a minha dúvida. Quando alguém “morre por outro”, e por si mesmo que morre; e quando não chega a morrer, mas padeça no sofrimento (também por outrem), é por si mesmo que sofre. Tudo é sentimento – nada é certeza... a não ser a certeza da incerteza – e insatisfação. Essa é, queiram ou não, meus senhores e minhas senhoras, a eterna condição humana, a sua eterna contradição.





1 ASSIS, Machado de. A igreja do Diabo. In: _____. Contos. São Paulo: Paz e Terra, 1996. p. 106. (Col. Leitura).
2 CAMUS, Albert. O mito de Sísifo. Rio de Janeiro: Edições BestBolso, 2010. p. 101.
3 O paradoxo da fé é, em Kierkegaard, apresentado na figura de Abraão: “E houve grandes homens pela sua energia, sabedoria, esperança ou amor – mas Abraão foi o maior de todos: grande pela energia cuja força é fraqueza, grande pelo saber cujo segredo é loucura, pela esperança cuja forma é demência, pelo amor que é ódio a si próprio.” (KIERKEGAARD, Sören. Temor e tremor. Lisboa: Guimarães Editores, 1990. p. 31). “O cristianismo”, Camus afirma, “é o escândalo, e o que Kierkegaard pede com simplicidade é o terceiro sacrifício exigido por Inácio de Loyola, aquele com o qual Deus mais se delicia: 'o sacrifício do Intelecto.' Esse efeito do 'salto' é bizarro, mas não deve nos surpreender mais. ele faz do absurdo o critério do outro mundo, enquanto não passa de um resíduo da experiência deste mundo. 'Em seu fracasso', diz Kierkegaard, 'o crente encontra [como em Abraão] o seu triunfo'.” (CAMUS, 2010, p. 47).

quarta-feira, 2 de maio de 2012


63.





Do Amor de Maria de Lourdes



A primeira vez que fui a Salvador foi em 2004. Eu fazia, na época, mestrado em Filosofia, na UFPB, e havia inscrito uma comunicação – “Algumas considerações sobre o ‘cogito’ agostiniano”  – no XI Encontro Nacional de Filosofia da ANPOF (Associação Nacional de Pós-Graduação em Filosofia).
Em uma das noites, no alojamento, acordei com barulhos abafados e ofegantes. Debaixo dos cobertores e acoitados pela escuridão, um casal de amigos fazia sexo, sem se importar de estar ao meu lado, separados por menos de quatro palmos. “Ó os maluco tudo fazendo maluquice, meu!”, pensei, enquanto virava para o outro lado, deixando que os dois ficassem “na boa”. “Essa galera está ficando sem limites.” E não me lembro de haver pensado em mais nada naquela noite.
Na noite do segundo dia houve o lançamento de alguns livros. Um deles foi o da professora Maria de Lourdes Borges, Amor, da coleção passo-a-passo, da carioca Jorge Zahar Editores. Comprei pelo título, sem ao menos folheá-lo. “Talvez seja útil às minhas pesquisas sobre as várias faces do amor ao longo dos séculos”, pensei. Ha ha, me enganei.  
O livrinho, de apenas 64 páginas, é dedicado “a um certo A.”, que ela revela ser o seu “estóico preferido”. “Uma fala da paixão”, foi a primeira impressão que tive, tão logo abri o referido. Ironicamente, é contra a paixão – que, do latim, pode ser traduzida como perturbatio, “perturbação” –, ou aqueles apetites que trazem intranquilidades à nossa alma, que a filosofia estoica mais se posiciona, se impõe. “Maria de Lourdes deve saber disso”, pensei. Na interpretação que faz a um texto de Sêneca, ela afirma: “Toda perturbação da alma é nociva para a vida do sábio, logo, toda perturbação deve ser aniquilada. Se todo o amor for perturbação, então o sábio deve tentar extingui-lo”. “Bem”, concluí, “ela não disse em lugar algum que era estoica”. No mais, e em uma leitura bastante superficial, estava clara a confusão que ela fazia entre o que poderíamos chamar de amor romântico (produto do idealismo), amor sensual (resposta favorável dos sentidos aos apelos do mundo externo) e a pura paixão – a perturbatio interna que, conforme os estoicos e a doctrina christiana, deve ser domada, seja por uma ética própria (autônoma) ou sublimada (heterônoma). A ética estoica – a mais autônoma, antes de Kant – é profundamente marcada por essa objetivação da vontade no equilíbrio que condiciona a própria vontade ao curso da vida, do modo mais natural possível; isto é: sem os extremos excessivos que nos fazem despencar ou na intrepidez estúpida ou na covardia confessa, ou no amor idiotizado ou no ódio irracional. O ideal estoico visa a ataraxía, a imperturbabilidade. O amour de soi, no Amor de Maria de Lourdes, não entra nem em nota de rodapé. Como “não entra”? Entra sim. Está em todas as páginas, mas não é tratado como tal – o que é uma pena. Uma falha lamentável.
Desprezei o Amor de Maria de Lourdes; sem julgar, porém, que fosse um desperdício de papel. Mas, afinal, de que vale repetir ideias e conceitos de pensadores velhos e mofados, sem que se faça qualquer crítica às diferenças dessas mesmas ideias e conceitos, à luz da contemporaneidade? E mais: que relevância tem o “filósofo” que deita e rola emparedado no mais elementar do senso comum? Há livros feitos para melhorar a vida das pessoas, e livros feitos para melhorar a vida dos editores e dos autores. O seu é assim, como esses últimos.
Em meu exemplar de Amor, a dedicatória que me foi feita, com caneta BIC azul, tem cara de ironia: “Para Antônio, para que aprenda um pouco sobre o amor, Mª de Lourdes”. Se for para aprender assim, não quero não.
. . . . .
Hoje é o último dia da primavera de 2009. É um dia quente. Vejo à minha frente, sempre que ergo a cabeça, o quadro que tem uma borboleta pintada por minha mulher, Mabel, ainda quando criança. Na pintura, a borboleta não tem flor alguma, não repousa sobre nada. O amor romântico, Maria de Lourdes, é uma borboleta pintada; o mais, a ele ligado, desejado como transzendez, é fantasia de criança.



segunda-feira, 30 de abril de 2012


62.






Do bebop jazz ao tropicalismo, ou: De quando o autor é o tempo*



– “Nas partes...” Nas partes o caralho!
– Surtou, foi? O que tem as partes do caralho?
– Patativa só quer ser o engraçadinho! – Jorge disse, fechando o livro que lia e me tomando a pequenina peça de artesanato, que eu segurava. – Essa aqui já tem dono, Gafanhoto – era assim que ele me chamava, por causa de uma longa história que não vem ao caso nesta história. – Às vezes penso que os séculos de medo, de ideias dominadas por doutrinas que condenavam o corpo dos escritores ao suplício, aqui na terra, e suas almas, depois daqui, fizeram um estrago muito miserável na alma do Ocidente, em relação à sua literatura.
– Quê que tá pegando, Jorge?
Jorge Hippie era um amigo querido, lá de Crato, Ceará. Um hippie que não acreditava mais na ideologia hippie, e que dava aulas de História na URCA. “Eu ensino para pagar as minhas contas, Gafanhoto; e vendo meu artesanato para me divertir e conversar com as pessoas reais, do mundo real. Diferentemente do Cazuza, eu vivo muito bem sem uma ‘ideologia’. ‘Mas isso é também uma ideologia’, você poderia dizer. Mas eu falo é daquelas pelas quais se vive ou se mata, e pelas quais surgem os mártires, os que querem mudar o mundo. Não sirvo para isso.”
Como eu não dissesse nada, ele, agora trabalhando em um fio de cobre para alguma das suas peças, se explicou:
– Esse... “pudor” que foi imposto pela moral cristã-ocidental, que ainda prende os autores em suas expressões, em seus estilos, em suas maneiras de transmitir ideias é... Olha isso: “Era esse o inconveniente de jogar no gol, embora também tivesse outros tão insuportáveis quanto esse, como receber boladas no meio do peito ou nas partes.” “Nas partes” o caralho! Duvido que se não fosse essa moral e esse medo de falar das coisas como elas são, do modo como são vistas, sem todas essas travas da linguagem, às vezes bem inconscientes, ele escrevesse assim. Escrevia nada! Teria escrito era “nos ovos”; receber “boladas nos ovos”.
Jorge estava lendo, ou começando a ler, As dançarinas mortas1, do espanhol Antonio Soler. Daí lembrei-me do comecinho de A queda, de Camus, quando o advogado (o “juiz-penitente”, como se autodenomina), num bar de Amsterdã, entre os marinheiros, em seu exame de consciência, fala a um anônimo: “Meu senhor, posso oferecer-lhe meus préstimos, sem correr o risco de ser inoportuno?” Também tinha o comecinho de Pantaleón e as Visitadoras, de Mario Vargas Llosa, quando ele fala de um sujeito que, em Leticia, se crucificou para anunciar o fim do mundo. Recolhido ao hospício, foi retirado de lá pelas pessoas que o consideravam santo, etc. Enfim, não era a mesma coisa das “partes” de Soler, da reclamação de Jorge, mas mostrava como, de certo modo, há mesmo essa coisa do pudor, da polidez, dos níveis infra e supralunares da tensão hora santa hora profana: o espectro do cristianismo com a sua moral, juíza e carrasco, como o index provava. O medo havia sobrevivido nas entrelinhas, feito erva daninha ruim e resistente – e mesmo na literatura de autores sádicos como... Sade. E ai de Sade, para a fama de Sade, se não fosse isto: a sua contraparte moral. É como se não houvesse um meio de fugir àquilo que, nas teses sobre a comunicação, possibilita a compreensão das coisas, e das intenções – mesmo quando para contestá-las. Entre o sujeito A (o autor, o escritor, etc.) e o sujeito B (o leitor, o ouvinte, etc.) há uma série de abismos que, para que uma obra – a literária, em nosso caso – faça sentido, precisam ser transpostos. Coisa que nunca é, nunca mesmo, cem por cento.


– E então, Gafanhoto? Será que é preciso inventar uma nova linguagem para o mundo de hoje?, ou fazer frente aos vícios da atual, que domina não somente os compêndios de teologia e de filosofia, mas a chamada grande literatura?
– Ironia? – perguntei, com sinceridade.
– Não, né?! – ele disse.  – Falo de, quem sabe, uma coisa assim meio, meio Arturo Gouveia. Algo como no “Tânatos também te contempla”, do Santíssimas trevas2; ou como nalguns contos d’O mal absoluto3. Embora também o Arturo...
– Parece que eu preciso ler o Arturo. Pensei nos beats – falei, sem me aprofundar.
– Pois é... “os beats”; você diz. Quando o “pai dos beats” se apresenta, no Lonesome traveler4, ele próprio diz que não foi um deles. E também tem o problema dos gêneros literários, das épocas, do público-alvo e dessas porras todas. Pra tu vê, Gafanhoto: em 1940, a estética da espontaneidade estava, nos Estados Unidos, com os artistas que criticavam o racionalismo, o dualismo e o individualismo ligado ao liberalismo empresarial. E quem eram esses artistas? A maioria era filho de imigrantes judeus, de poloneses, de italianos e de irlandeses. Uma galera meio excluída dos grandes centros, meio fodida mesmo. A “expressão livre” que buscavam, fora dos “cânones culturais anglo-americanos”, na dança, na pintura, na música, na literatura e em outras artes, era um levante contra esse “controle burocrático associado ao liberalismo empresarial”, como li em alguma coisa do Daniel Belgrad.5
– Hummm... – eu não fazia a menor ideia sobre quem era o tal Belgrad.
– É, cara! Falavam em uma “intersubjetividade”. Palavrinha que grudou geral.
– Foi mesmo. Ainda hoje...
– E sabe em quem eles se fundamentavam? Trabalhos de Dewey, Whitehead e Jung, além dos existencialistas, e do surrealismo, e da psicologia gestalt e do zen-budismo. Os caras encaravam a arrogância eurocêntrico-ocidental com um pluriculturalismo que abraçava os índios, entende? A cultura nativa dos índios dos Estados Unidos da América... tipo tomando as dores do Enterrem meu coração na curva do rio, saca?, mesmo tendo sido só depois.6  
– Caramba! Tu se liga mesmo nessas coisas, né?
– Sim, meu broder! É preciso ficar ligado. E o bebop...
– Isso mesmo! Me fala aí sobre o bebop.
– Bebop jazz. O bebop jazz destacava a importância que era dada ao holismo corpo-mente, naquela época; e também estava ligado à estética da espontaneidade.
– Como era isso?
– Construído no idioma afro-americano, era uma conversação espontânea de vozes prosódicas...
– Vozes o quê? – foi uma pergunta honesta.
– Prosódicas, Gafanhoto. Tu não se liga? De “prosódia”, saca? Que tem a ver com o ritmo, a entonação, a métrica, etc. Então, com base nisso, os caras entendiam que os sentidos de uma elocução verbal estavam em sua produção corporal, e não na sua simbologia.
– Ok!, mas estávamos falando de literatura, não? – eu tinha a impressão de que estávamos entrando num papo meio... gramático-musical, e confesso que estava bem perdido naquilo tudo.
– Meu irmão!, se ligue! É dai que nasce a famosa escrita espontânea de Kerouac, tá entendendo? O cara ligava o consciente ao inconsciente e disparava, integrando coisas à coisa, e essas coisas todas. Como é que tu acha que nasceu o On the road, hem? Foi assim, nessa vibe aí.
– Hummm... Me passei! – tive de admitir. Jorge continuou, cheio de empolgação:
– Na década de 1950, essas propostas de espontaneidade estavam voltadas contra a Guerra Fria, e era uma crítica social muito viva e abrangente. A prosódia espontânea dos beats, do mesmo modo que foi no bebop jazz, via o liberalismo empresarial como o grande vilão da cultura enlatada, plastificada em fórmulas e modelos estanques, prontos para vender fácil, expandir o consumo e deixar tudo no status quo de sempre, e a cabeça das pessoas, principalmente. Mas esses caras, ah!, meu irmão!, Esses caras queriam arrebentar com isso tudo; queriam incendiar a coisa toda. Tem uma frase, acho que é de Kerouac: “Só me agrada aquilo que uma pessoa escreveu com o seu próprio sangue. Eu só confio em autores que escrevem com o sangue7.”  Pronto!, está aí, eram esses caras. Não foi por acaso que, depois dos beats, e pela influência que eles tiveram, surgiu a new left. Essa, por sua vez, pariu a contracultura dos hippies loucos e coloridos, em 1960. Tu se liga que está tudo encadeado?  
– Tu fala desse jeito, com os teus alunos?
– Ihhh!, qualé o problema, véi?! Os caras são descolados e não se ligam nessa coisa de “formalidade” não. Claro que tem os limites, né? Porque senão... 
– Jorge, desculpa perguntar – disse, confessando minha ignorância –: o que tu quer dizer com new left é mais do que “nova esquerda”, não é? Ou, melhor: o que era essa new left, aí?
– Tu pensa logo em política, né? E tem. Mas acho que eu não saberia explicar isso direito; não agora.8
– Então – procurei retomar o tema –, você falava dessa progressão dos movimentos e tal, e como isso afetava a produção literária, etc.
– Então, maluco?! No começo dos anos 60 os caras entraram numa de dadaísmo, explorando e ironizando expressões artísticas anteriores, substituídas pelo expressionismo abstrato e a pop art, como o crítico inglês Lawrence Alloway chamou a escola, parece que iniciada a partir de uma colagem de Richard Hamilton, chamada: “O que exatamente torna os lares de hoje tão diferentes, tão atraentes?”, de 1956. Doidera, né?
– Ôoo!...
– Daí só foi viagem e delírio: um parque de diversões na cabeça. Aqui houve, antes, a semana de arte moderna; lá, o jazz dava lugar ao rock-and-roll; e veio a LSD e as experiências transacionais, e aquelas viagens loucas à Índia, e o louco do Timothy Leary, e o festival de Woodstock, e Os Mutantes, e O Terço, o tropicalismo e o escambal. Um desbunde na cultura indie-alternativa, para cima e para baixo.  
– Voltando aos beats – chamei a palavra para mim. – Mesmo eles, como você falou, foram homens de seu tempo. Na desambiguação desses portraits instantâneos, como posso ver em poemas de Ferlinghetti ou na prosa espontânea de... Burroughs, por exemplo, há o experimentalismo que, hoje, sabermos os efeitos...  e, talvez por isso, uma inibição quanto ao repetir dos processo já... gasto. Sei lá! – eu não tinha, naquele tempo, o vocabulário do Jorge, e nem a sua bagagem cultural, e menos ainda a sua desenvoltura em falar as coisas que pensava, com ordem e clareza. – Acho que não sei dizer tudo como quero – confessei, embaraçado. – Penso que a novidade dessa literatura dos anos 50/60, ainda bem atual, foi soma de muito ácido mais o holismo que não ignorou obras não ocidentais, como a poesia haiku, o Kama Sutra, os koans, o I Ching, o Bhagavad-Gita e a ioga, dentre outras. Logo, um tipo de fórmula. Mesmo assim, como você também sugeriu, estava lá o “tempo ocidental”, e os seus signos, por toda a parte, nas entrelinhas. E como poderia ser diferente? A pergunta é bem simples, mas a resposta, não. Que “nova literatura” poderia estar livre disso?
– É! Mesmo assim, e se não é possível criar uma nova linguagem, é preciso desafiar as estruturas da narrativa convencional, quando elas parecerem engessar a criatividade, a ousadia que salta mais longe. Sem pólemos não há progresso; e a beleza estagnada, como o pôr-do-sol em um postal ou um rio parado numa pintura, nunca é mais linda que o real.
– Não é – concordei.
Jorge não disse nada por alguns instantes, e nem eu sabia mais o que dizer. Parecia que havíamos andado, andado e, então, voltado ao mesmo lugar de onde antes havíamos saído.
– E essa história toda não implica em ideologia, pregação ideológica; e nem em uma mensagem ou verdade cheia de “valores inegociáveis” e essas coisas todas.
– Tudo bem. Não pensei nisso – deixei que ele acreditasse que eu acreditei, para que ele ficasse tranquilo. – É difícil falar estando sempre do lado de fora, sem os recursos que estão presos no lado dentro... Ah!, você sabe.
– Caralho! Deixa isso pra lá – ele disse.
– É – respondi. – Deixa quieto.




* Trata-se de um brevíssimo diálogo sobre a transmissão de conteúdos, e conteúdos morais, na literatura engessada (inclusive na  “prosa espontânea” da literatura beat); e, embora malfadada, a proposta de uma literatura realmente livre, honesta e de vanguarda. Nele, no diálogo, sou mais espectador que ator, papel que cabe ao meu bom e querido amigo Jorge Hippie – de quem espero não haver corrompido as falas, e a honesta intenção.  
1 Publicado no Brasil em 1998, com tradução de Sérgio Molina, para a Companhia das Letras.
2 Cf. GOUVEIA, Arturo. Santíssimas trevas. João Pessoa: Editora Idéia, 2008. 
3 Cf. GOUVEIA, Arturo. O mal absoluto. São Paulo: Iluminuras, 1996. 
4 Jorge se referia, certamente, a esta confissão: “Na verdade, não sou um beat, mas sim um estanho e solitário católico, louco e místico...” Não saberia dizer como ele teria tido acesso ao livro (provavelmente em inglês, já que o citou pelo título original), uma vez que a primeira edição, em português, somente apareceu em 2005, com tradução de Eduardo Bueno, para a L&PM. Quanto à citação, ver: KEROUAC, Jack. Viajante solitário. Porto Alegre: L&PM, 2005. p. 10. Penso, igualmente, que o sentido do “não ser beat”, aí, de Kerouack, tem a mesma natureza do “não ser um autêntico vagabundo”, como ele diz de si mesmo, na mesma obra – no último capítulo: “O vagabundo americano em extinção” –: “Eu próprio fui um vagabundo, mas só até certo ponto, como se vê, porque sabia que algum dia meus esforços seriam recompensados com a proteção social – não fui um vagabundo autêntico, sem esperanças...” (p. 208); ou seja: um beat, um legítimo beat.   
5 Depois soube que se tratava do livro: The culture of spontaneity: improvisation and the arts in the post-war America (Chicago: The University of Chicago Press, 1998). Estamos em agosto de 2009, e eu não sei se já há alguma tradução para o português.
6 Lançado em 1970, Enterrem meu coração na curva do rio (Bury my heart at wounded knee), livro do americano Dee Brown (1908-2002), relata a destruição sistemática e progressiva dos índios da América do Norte. O livro reúne registros oficiais, autobiografias, depoimentos e descrições de primeira mão, nas palavras dos grandes chefes e guerreiros das tribos Dakota, Ute, Soiux, Cheyenne, dentre outras. É um livro triste, honesto e incrivelmente belo. No Brasil, a primeira edição é a do Círculo do Livro. Cf. BROWN, Dee. Enterrem meu coração na curva do rio. São Paulo: Círculo do Livro, 1974. 
7 A frase, na verdade, é de Nietzsche, na primeira parte de Assim falou Zaratustra (Do ler e escrever). Completa: “De todo o escrito só me agrada aquilo que uma pessoa escreveu com o seu sangue. Escreve com sangue e aprenderás que o sangue é espírito. Eu só confio em autores que escrevem com o sangue.” (NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Assim falou Zaratustra: um livro para todos e para ninguém. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. p. 40). A citação de Kerouac: “Eu só confio nas pessoas loucas, aquelas que são loucas pra viver, loucas para falar, loucas para serem salvas, desejosas de tudo ao mesmo tempo, que nunca bocejam ou dizem uma coisa corriqueira, mas queimam, queimam, queimam, como fabulosas velas amarelas romanas explodindo como aranhas através das estrelas.” (KEROUAC, Jack. On the road. London: Penguin Books, 1976. p. 12). Jorge, naturalmente e involuntariamente, deve ter trocado uma citação por outra.
8 Fundada em 1960, no Reino Unido, a New Left Review resulta da fusão de dois outros periódicos, o New Reasoner e o Left Review, ambos de tendência marxista. O nome vem de um texto de 1960, do sociólogo americano Charles W. Mills, Open letter to the new left, em que ele acusava a “Old Left”, tanto a comunista como a reformista (e também os liberais radicais) de haverem traído os ideais de liberdade e justiça. Fundamentando-se na Teórica da Alienação, do Jovem Marx, Mills provocou grande impacto entre os jovens intelectuais das décadas de 1960 e 70, principalmente. 


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