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segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013


31.





Do desejo que se aloja na raiz de toda a paixão humana...



Talvez nenhuma outra doutrina, mais que a do budismo1, tenha combatido tanto o Eu, e o Desejo, e a tirania dos sentidos. “O caminho do budismo é o caminho da aniquilação do Eu e, portanto, do mundo dos fenômenos.2” Mas, posso pensar de um modo que parece simplista: não há a aniquilação do Eu sem que, também, haja a vontade de que ele seja aniquilado... no próprio Eu. Um contrassenso? Sim. O Eu, naturalmente, não deseja o que é contrário a si, sem que julgue isso, embora cegamente, algum bem. O Eu que deseja escapar do sofrimento, enfrentando seus agentes em direção ao Nirvana, precisa estar a caminho. Mas, que caminho? O caminho do Buda3. É como se pode ler no Visuddhi Magga:

Só há sofrimento, não
há sofredor.
Não há agente, só há
o ato.
O Nirvana é, mas não
aquele ou aquela que o
procura.
O caminho existe, mas não
aquele ou aquela que nele anda.4

Mais que o indivíduo, que nada é, que nada deve ser – ao menos aí, em uma clara relação à doutrina brâmane do Eu, ou ātman –, é o sofrimento (duḥkha), e a ação (karmanta), e o Nirvana e seu caminho (aṣṭapāda). Consta que um asceta itinerante chamado Vaccha, diante do Buda, apresentou-lhe as teses e antíteses do que, segundo ele, era a doutrina do Abençoado. O Buda não somente as nega como, para a perplexidade de Vaccha, afirma que era “livre de qualquer teoria”5. Isso, assim negado, não requer uma teoria? Sim, e o Buda tem uma. Ela se revela na pergunta que ele mesmo faz ao errante Vacchagotta: “Para onde vai um fogo que se apagou? Para leste, oeste, sul ou norte?6” Aqui, um parêntese. O fogo, no imaginário popular, também está relacionado às afecções da nossa alma, e ao amor erótico7. Dizemos: “passou o fogo da paixão”, “o fogo apagou”, etc. E daí o trechinho de “Almanaque”, na música do Chico: “Me responde, por favor / Pra onde vai o meu amor / Quando o amor acaba?8” E daí este poeminha, no mesmo espírito:

Quando o amor acaba
O quanto de nós vai junto,
Em pele, unhas, cabelos...?
Ah!, & os livros devolvidos
& os discos do Bob Dylan...

E onde estará, agora,
A presença que enchia a sala
O corpo sobre a cama suada
& o cheiro que ficava...?

E o que vê, agora,
O rosto que enchia o espelho
De rímel, batom & sombra...?

Ah!, repara a porta aberta...
& a casa vazia, esperando 
Olhando a rua silenciosa
De um dia como hoje
– a tarde de um domingo

Ah!, responda, responda: 
Para onde é que vai o amor
Depois que o amor acaba?

Como a chama que se vai, também o fogo das paixões eróticas. A analogia é simples, mas pratiquíssima ao que pretendo, voltando à pergunta do Buda que Vaccha confessa ignorar a resposta, permitindo que o Abençoado compare o arhat (aquele que atingiu o Nirvana) ao fogo extinto. Qualquer que fosse a afirmativa referente à sua existência não seria mais que uma simples conjectura. Claro que, aí, se aceitamos a analogia e a doutrina do Iluminado, caímos também no seu idealismo, e na fé confiante. Foi assim que Schopenhauer permaneceu no idealismo, ao ponto de afirmar que “o verdadeiro filósofo deve ser um idealista”9. Estava errado, miseravelmente. Amo Schopenhauer, mas amo ainda mais a minha verdade. E “o ‘eu’, por trás de nós oculto”, como dizia Emily Dickinson, ainda “é muito mais assustador.”10
Uma das passagens mais famosas da biografia do Buda é aquela em que ele é tentado pelas filhas do demônio Māra – representação do seu Eu oculto, assustador; um tipo de “lado negro”, um demônio interior, a Morte e Diabo conjugados, o Senhor do Ego e da Ilusão. Depois de atingir a iluminação, o Buda permaneceu sob a árvore Bodhi11, com as pernas cruzadas, imóvel por sete dias. “Encontrei a libertação”, ele pensou. Na quarta semana, mergulhado em profunda meditação, ainda sob a bo, Māra – inconsolável com a sua derrota – vai a ao seu encontro, dizendo-lhe:

“Bem-aventurado és tu, por permaneceres e por conheceres o caminho para a libertação. Apague a lâmpada, extingue a sua chama e entre no Nirvana, oh, Bem-Aventurado! É a hora.”
Ao que o Buda lhe respondeu:
“Não, Māra! Eu não extinguirei a chama, nem entrarei no Nirvana. Devo primeiro conquistar muitos discípulos, e eles, por sua vez, devem ganhar outros sob a minha doutrina. Através da palavra e da ação, devo silenciar meus adversários. Não, Māra! Eu não entrarei no Nirvana até que o Buda seja glorificado em todo o mundo, e até que a sua lei benéfica seja reconhecida.”
E Māra o deixou, cabisbaixo. Parecia ouvir as vozes divinas zombando de seu fracasso:
“Você foi derrotado, Māra”, diziam, “e permanece envolto em pensamentos, como uma velha garça-real. Você é impotente, Māra!, como um velho elefante atolado num pântano. Pensou que era um herói, e está mais fraco que um homem doente abandonado na floresta. De que adiantaram as suas palavras insolentes? Foram tão fúteis quanto o murmúrio dos corvos.”
Nisso, Māra pegou um galho seco e, com ele, desenhava figuras na areia. Suas três filhas, Rati, Arati e Trishna viram-lhe assim, aflito, e ficaram abatidas.
“Pai”, Rati falou, “por que você está tão melancólico?”
“Fui derrotado por um homem santo”, ele respondeu. “Ele resistiu à minha força e à minha astúcia”.
“Pai”, disse Trishna, “nós somos belas e os nossos modos são sedutores”.
“Iremos a esse homem”, Arati atalhou, “e o prenderemos com os grilhões do amor, e o traremos até você, humilde e temente.”
E foram ao Buda. Diante dele, dançavam e cantavam:
“Eis a primavera, amigo, a mais linda das estações. As árvores estão em floração; devemos estar felizes. Seus olhos são belos, brilham com uma luz adorável, e você carrega as marcas da onipresença. Olhe-nos: somos feitas para dar prazer e felicidade tanto aos humanos quanto aos deuses. Levanta-te e te junta a nós, amigo; aproveite ao máximo a tua juventude brilhante; afaste os pensamentos sérios da tua mente. Vê nossos cabelos, quão sedosos!, são as flores que emprestam sua fragrância à sua maciez. Vê nossos olhos; neles estão a doçura do amor. Vê nossos lábios; eles são quentes como a fruta amadurecida ao sol. Vê nossos seios, rijos e bem torneados. Deslizamos com a graça majestosa dos cisnes; sabemos canções que encantam e dão prazer, e quando dançamos, os corações aceleram e os pulsos latejam. Vem, amigo!, não nos despreze. Somente um tolo, de fato, jogaria fora todo esse tesouro. Olha-nos, nobre Senhor: somos as suas escravas.”
O Buda, no entanto, permaneceu imóvel às vozes sedutoras. Antes, franziu a testa às lindas donzelas e elas foram transformadas em bruxas.
Desesperadas, elas retornaram a Māra.
“Pai”, Rati gritou, “vê o que ele fez à nossa juventude e beleza.”
“O amor nunca o ferirá”, disse Trishna. “Ele foi capaz de resistir aos nossos encantos.”
“Oh”, suspirou Arati, “quão cruel foi a nossa punição!”
“Pai”, Trishna implorou, “cura-nos desta horrível velhice e feiura.”
“Devolva-nos a juventude!” Rati gritava.
“Devolva-nos a beleza!” Arati implorava.
“Minhas filhas, minhas pobres filhas”, Māra disse à Arati, “compadeço-me de vocês. Sim, ele derrotou o amor. Ele está para além do meu poder, e estou triste por isso. Vocês suplicam que eu lhes devolva a juventude e a beleza... mas, como eu poderia? Somente o Buda poderá desfazer o que o Buda fez. Voltem a ele; admitam que vocês foram culpadas; digam-lhe que estão arrependidas, e talvez ele devolva seus encantos.”
E elas voltaram à presença do Abençoado.
“Bem-aventurado”, imploraram, “perdoe-nos as nossas ofensas. Nossos olhos estavam cegos à luz, e fomos tolas. Perdoai-nos!”
“Sim, vocês foram tolas”, o Abençoado respondeu. “Tentaram destruir uma montanha com as unhas; tentaram morder o ferro com os dentes... Vocês, porém, reconhecem as suas ofensas, e isso já é sinal de sabedoria. Donzelas, ide em paz. Eu vos perdoo!”
E imediatamente as três filhas do Diabo deixaram a sua presença, ainda mais jovens e mais belas do que antes.12

Amor, aí, é apelação erótica... e sofrimento. Mas a douta ignorância13 tem um prêmio, após o erro confessado, na voz do arrependido. É o que não aparece em Vaccha – no trecho que utilizei. Não há “erro”, apenas equívoco. É preciso luz. Longe de ser um mal interpretado “pessimismo”, a Doutrina do Abençoado é uma não afirmação, antes de tudo... mas não pessimista, como querem alguns intérpretes14. Dizer que “tudo é sofrimento” significa, também, saber o que seja o não-sofrer, ou o prazer. A consciência (do Eu e suas consequências) não vem antes da Ignorância e da Informação Inata – alguns reflexos do platonismo, coincidentemente, são muito perceptíveis. A Ignorância produz a Informação Inata; a Informação Inata, a Consciência; a Consciência, os Nomes-e-formas; os Nomes-e-Formas, os Seis Órgãos dos Sentidos; os Seis Órgãos dos Sentidos, o Contato; o Contato, a Sensação; a Sensação, o Desejo; o Desejo, o Apego; o Apego, a Existência; a Existência, o Nascimento; o Nascimento, a Velhice e a Morte. Está tudo ligado: a Sensação, o Desejo, o Apego... a Vida e a Morte. Contra a Morte, a Velhice e tudo aquilo que lhes precede, o remédio é fazer cessar a Ignorância, que está no início de tudo: no Eu que, portador da Informação Inata, porta e produz a Consciência do Eu15 – como está na doutrina do Buda, referente ao Dharma16: “Se o desejo, que se aloja na raiz de toda a paixão humana, puder ser removido, aí então, morrerá esta paixão e desaparecerá, consequentemente, todo o sofrimento humano.17” Também no cristianismo, quanto menos for o cristão – o seu Eu, naturalmente –, tanto maior será a presença do Cristo e do Espírito, nele18. O budismo “apresenta elementos comuns com os theioi andres19 dos gregos e com as biografias míticas mais tardias de outros fundadores de religiões, como Jesus, Mani, etc.20” Diminuir o Eu, dominar as paixões, sufocar o desejo... idealismos, delírios febris alimentados pela fé no Outro, que pode ser tanto o “não-Eu” quanto Aquele que é maior e melhor que que EU, que é de onde venho, como “coisa causada”. Ah!, as minhas projeções – como na afirmação lúcida e desencantada de Feuerbach21. Já mostrei que a própria propaganda de tais modelos doutrinários é, em si, apelo ao Eu que pode compreendê-la – do contrário, que sentido teria? –, e decidir e desejar... isto ou aquilo.  
Quando Siddhārtha – agora Buda – retorna à Shakya e à casa de seu pai (o rei Shuddhodana), depois de oito anos, Yashodhara, sua esposa, orienta a Rahula, seu filho, que lhe peça a sua herança, antes que o Shakyamuni22 parta novamente, em uma jornada de pregações e ensinos que duraria quarenta anos. O Buda, porém, afirma que tem algo maior e melhor para o seu filho: a sua Doutrina. O menino torna-se monge.
Não havendo o Eu, o laço político-tribal ou familiar – e o próprio nome do filho do Shakyamuni, Rahula23, revela isso –, não há também a identidade, nenhuma. Não haveria razão de o Buda retornar à sua casa, aos seus. Para o bem ou para o mal, é o Eu quem age, consciente ou não, por loucura ou por paixão, na ação e na inação, na fala e na escrita... mesmo naquela dos livros “santos”. Também a regra da piedade cristã ensina que não se deve, a título de estilo e ética, sobrevalorar o Eu, que fala ou escreve – “eu assim”, “eu assado” –; mas, ao contrário, mortificá-lo, reduzi-lo a nada ou, como em um discurso solene, soterrá-lo em uma terça no plural: “Nós estamos aqui hoje...” Sim, porque a carne (os mEus apetites) milita contra o espírito, mEu “homem interior”, mEu “Eu interior”.24  
E é por isso que, no início do Walden, Thoreau anota:

A maioria dos livros omite o eu ou a primeira pessoa; aqui ele será mantido; em relação egocentrismo, esta é a principal diferença. Geralmente não lembramos que, afinal, é sempre a primeira pessoa que está falando. Eu não falaria tanto sobre mim mesmo se existisse alguma outra pessoa que eu conhecesse tão bem.25

Thoreau, o “pai do anarquismo” e rebelde ao estilo hipócrita dos seus contemporâneos, quer sobrepor os modelos e a “regra da piedade”25. Ora, não há quem conheçamos melhor do que nós mesmos, embora, para nós mesmos, sejamos o nosso maior enigma. No entanto – e juntamente com os conceitos de Stirner, Marx, Feuerbach, Freud e outros que tenho mostrado seguidamente –, essa parece ser a “perspectiva” mais plausível, e certamente a mais mundana. A verdade pode muito bem nada ter a ver com... religiões. E, afinal, o que não é mundano? Verdade, mentira, candura, leviandade, justiça... Está tudo em mim, em minha mente e em minhas ações, para o meu deus ou para meu companheiro, pai, irmão, amigo, mulher... meu céu e meu inferno. Aqui, em minha mente, como em uma catedral, sou santo ou herege... mas a doutrina é minha, sempre minha. Sim, pois depende da minha fé, da minha hermenêutica, da minha vida e dos lugares e coisas e pessoas que me fazem ser como eu sou, agora, enquanto penso sobre tudo isso. Em tudo e sobre tudo, o amour-propre – ou meu instinto de preservação – é o que me mantém, no desejo ou no desejo de não ter desejo. Não há saída, e tanto a liberdade quanto a culpa por sua ausência, etc., é minha.





1 Talvez fosse prudente falar em “budismos”, dado às linhas em que ele, hoje, se apresenta. Neste sentido, e como não é a minha intenção fazer um “tratado” sobre velhas e novas escolas – e para não ser desonesto com o leitor –, recomendo o verbete “Budismo”, em: ELIADE, Mircea; COULIANO, Ioan P. Dicionário das religiões. São Paulo: Martins Fontes, 2003. p. 67-85. Ver ainda: ARVON, Henry. O budismo. Lisboa: Publicações Europa-América Ltda., [s.d.]. p. 44-5. (Col. Saber); NIWANO, Nikkyo. Shakyamuni Budda: uma biografia narrativa do Buda histórico. São Paulo: Cidade Nova, 1987; e: LEVENSON, Claude B. Budismo. Porto Alegre: L&PM, 2009. (Col. L&PM Pocket, 758: Enciclopédia). São literaturas de fácil acesso (e leitura) em português.
2 ELIADE; COULIANO, 2003, p. 69.
3 “Atentai a este fato: Buda não é um corpo físico, é a Iluminação. O corpo físico perece, mas a Iluminação subsistirá para sempre na verdade do Dharma e na prática do Dharma. Aquele que apenas vê o meu corpo”, diz o Buda, “não me vê realmente. Somente aquele que aceita meu ensinamento consegue me ver.” (DN 16, sutra Mahaparinibbana. In: A DOUTRINA de Buda. 3. ed. Minato-ku, Tokyo, Japan: Bukkyo Dendo Kyokai, 1984. p. 13. [§ 5]).   
4 Visuddhi Magga, 16.
5 Aqui, é preciso deixar claro que a lógica de Vaccha, simplista, tem a seguinte estrutura: se A não é verdadeiro, então não-A, é. É contra a horizontalidade rasteira de tal raciocínio que o Buda se impõe.
6 ELIADE; COULIANO, 2003. p. 70.
7 E no famoso soneto de Camões: “O amor é um fogo que arde sem se ver...” etc. Cf. CAMÕES, Luís Vaz de. Sonetos. In: _____. Camões: verso e prosa. 2. ed. São Paulo: Paz e Terra, 1996. p. 32. (Col. Leitura).
8 BUARQUE, Chico. Almanaque. In: _____. Almanaque. São Paulo: Abril, 2010. 1 CD player. Faixa 5. (Col. Chico Buarque, 10).
9 Citado em: BARAQUIN, Noëlla; LAFFITTE, Jacqueline. Arthur Shopenhauer. In: _____. Dicionário Universitário dos Filósofos. São Paulo: Martins Fontes, 2007. p. 276.
10 DICKINSON, Emily. Poemas escolhidos. Porto Alegre: L&PM, 2007. p. 57. (Col. L&PM Pocket, 436).
11 Ou bo, em Bodh Gaya, no nordeste da Índia. Por causa da Bodhi é que, segundo consta, o nome de Siddhārtha Gautama é mudado para Buda, que, tanto em páli como em sânscrito, significa “Iluminado”, “Desperto”.
12 Com pequeninas modificações, adaptações e correções, utilizo a obra de: HEROLD, A. Ferdinand. The life of Buddha: according to the legends of Ancient India. Whitefish, Montana - EUA: Kessinger Publishing Company, 2007. p. 123-5.
13 Utilizo o conceito, criado por Nicolau de Cusa (1401-64), livremente, e para o sentido que aparece no texto, simples e definido. Para a sua utilização mais “acadêmica”, e conforme o seu autor, ver: CUSA, Nicolau de. A douta ignorância. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2002. (Col. Filosofia, 148).
14 Cf. ELIADE; COULIANO, 2003. p. 69.
15 Cf. ELIADE; COULIANO, 2003. p. 71.
16 Isto é: a verdadeira Doutrina, os preceitos éticos do budismo.
17 Vinaya, Mahāvagga 1-6 e SN 56-11-12, sutra Dharmmacakrapravartana. In: A DOUTRINA de Buda. 3. ed. Minato-ku, Tokyo, Japan: Bukkyo Dendo Kyokai, 1984. p. 38-9. [§ 1]).
18 No evangelho se são João, por exemplo, João Batista diz aos seus discípulos remanescentes, que reclamam de seus companheiros, agora, estarem seguindo ao Cristo: “Convém que ele [o Cristo] cresça e que eu diminua. O que vem de lá de cima [o Cristo], é superior a todos. O que vem da terra [ele, João], é da terra, e fala da terra. O que vem do céu, é superior a todos.” (João, 4, 30-31, Vulgata). E o apóstolo Paulo, em Colossenses 3, 5: “Fazei, pois, morrer o que em vós pertence à terra: devassidão, impureza, paixão, mau desejo e a tal cupidez que é uma idolatria.” (TEB). Não faltam referências desse tipo, por todo o Novo Testamento, principalmente. E nas obras de todos os moralistas cristãos – que são milhares – é tema esgotado, lugar dos mais comuns.
19 Isto é: “Homens deuses”, como Hercules, etc.
20 ELIADE; COULIANO, 2003. p. 68. Neste sentido, ver em especial os artigos “Akhenaton, o Iluminador”, “Moisés, nosso Mestre”, “Jesus de Nazaré”, “Mani” e “Buda”, em: BRUNNER-TRAUT, Emma. (Org.). Os fundadores das grandes religiões. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 1999.
21 Isto é: “A religião é a cisão do homem consigo mesmo: ele estabelece Deus como um ser anteposto a ele, Deus não é o que o homem é, o homem não é o que Deus é. Deus é o ser infinito, o homem, finito; Deus é perfeito, o homem imperfeito; Deus é eterno, o homem transitório [etc.]. O que deve ser demonstrado é então que esta oposição, que esta cisão entre Deus e homem, com a qual se inicia a religião, é uma cisão do homem com a sua própria essência.” (FEUERBACH, Ludwig. A essência do cristianismo. 2. ed. Campinas, SP: Papirus, 1997. p. 77). 
22 Literalmente: “Sábio (muni) dos Shakyas”.
23 “Na época em que sua esposa, Yashodhara, deu  luz a seu filho, Siddhartha estava num jardim, fora do palácio. Shuddhodana, exultante pela notícia do nascimento, imediatamente enviou um mensageiro para informar o príncipe. Assim que recebeu a mensagem, Siddhartha murmurou para si mesmo: ‘Ah, nasceu Rahula!’ ‘Rahula’ significa obstáculo, ou laço. Tem-se sugerido que quando Siddhartha, inconscientemente, disse ‘Rahula’ queria dizer que, justo quando estava tomando a decisão de renunciar o mundo, surgiu um laço para bloquear seu caminho.” (NIWANO, 1987, p. 22).
24 Como em 2 Coríntios 10, 3, no desiderium intimum do Apóstolo: “De fato [sic], embora vivendo na carne, não militamos segundo a carne.” (Vulgata). E em Romanos 7, 22: “Pois eu me comprazo na lei de Deus, enquanto homem interior, mas em meus membros descubro outra lei que combate contra a lei que a minha inteligência ratifica; ela faz de mim o prisioneiro da lei do pecado que está em meus membros. Infeliz que sou! Quem me livrará deste corpo que pertence à morte?” (TEB). No Novo Testamento, principalmente nas cartas do apóstolo Paulo, referências dessa natureza são bem comuns. 
25 THOREAU, H. D. Walden. Porto Alegre: L&PM, 2011. p. 17. (Col. L&PM Pocket, 884).
25 Mesmo uma leitura desatenta de A desobediência civil, de 1848, mostraria isso. Cf. THOREAU, Henry David. A desobediência civil. 7. ed. Porto Alegre: L&PM, 2009. (Col. L&PM Pocket, 17).


segunda-feira, 24 de setembro de 2012


18.






De como ficam tolos, os bêbados e os apaixonados




Tarde de sábado em Campina Grande, ali no Ferro de Engomar.
No bar, que ganhou o nome por ter o formato de um ferro de passar roupas, encontrei amigos que já estavam por lá desde a hora em que a manhã cumpriu o seu ofício. Havia cachaça em copos espalhados sobre a mesa, e cerveja, e cigarros, e conversas atiradas para todos os temas. Um grupo de homens tocava samba, mantendo o que já é, ali, tradicional ajuntamento. E até me arrisquei a tocar algumas coisas junto com eles, armado com um triângulo.
Notei a mulher posta em pé, próxima à porta do banheiro. Seu companheiro lhe pagava bebidas e, vez ou outra, cobrava alguns carinhos. E ela parecia feliz, protegida pelo seu homem. Dois completos desconhecidos.  
Tarde bem caída, e quando todos pareciam ensaiar as primeiras despedidas, a mulher subiu ao balcão e, sem se importar com as reclamações do dono do bar – que depois me disse estar morto de cansaço, por não haver dormido nadinha na noite passada –, olhou para todos que, surpreendidos pelo gesto, deveriam ter, se fossem personagens de uma história em quadrinhos, aqueles balões cheios de interrogações desenhados sobre as suas cabeças.  
– Gente! Genteee! – ela falou, como a pedir atenção. – Eu posso falar?
Todo mundo aplaudiu, respondendo em coro e acompanhando os gritos com palmas:
– Fala! Fala! Fala! Fala! Fala!...
A cara do dono do bar não era de satisfação, mas, diante do apelo comum, deixou que a cena continuasse.
– Vocês sabem o que é o amor? Vocês sabem o que é o amooooor? – Perguntou assim, de modo retórico, esticando bem muito o “ôooor...” no final da palavra. – Eu vou dizer. O amor é uma coisa muito louca, mas é muito lindo também.
– Êeee... – Todos aplaudiam, em festa e picardia. Ela continuou:
– Eu subi aqui somente para dizer isso, e dizer que amo esse homem. – Tinha a cara encabulada, mas resistia, feliz e embriagada, apontando para o homem que também parecia meio acanhado.  
Daí, e atestando a veracidade da loucura que é o amor, todos começaram a gritar ainda mais e ainda mais agitados:
– Tira a roupa! Tira a roupa! Tira a roupa! Tira a roupa! Tira a roupa!...
Mas ela não tirou.
Desceu do balcão, ajudada por seu companheiro, que lhe recebeu com um beijo, atendendo à saraivada de palmas e gritos de “beija!, beija!, beija!, beija!, beija!, beija!..”
“A paixão é uma dama perversa, e de reações têpêemísticas variadas!”, pensei, na hora, lembrando-me de um fala do Fedro, n’O banquete, de Platão, em que a coragem alucinada dos apaixonados é pura sandice e, por isso, “dê-me um exército de amantes e conquistarei o mundo”, ele dizia.1
Na literatura, a temática amorosa costuma privilegiar o absoluto do amor, a opção eletiva do um pelo outro, nas promessas de exclusividade do amante ao seu objeto.  Na literatura ocidental, especialmente, o tema do amor também é alimentado pela tragicidade, pelo obstáculo e pelas tantas provações – puro platonismo.2 A maior história de amor do Ocidente termina com o seu personagem principal crucificado, e por amor a uma que, na trama, aparece como sua noiva... Ele se vai, prometendo voltar logo, rico e majestoso; ela o espera, pacientemente, sem pensar em se dar a outro.  
Figurado em Alceste, que oferece a sua vida em favor do seu marido3, Roland Barthes reconhece a historicidade do discurso ausente, aquele marcado na voz da Mulher: e ela que espera o Homem que partiu – como Penélope, a Odisséu; como a Igreja, a Cristo –, dispondo de todo o tempo do mundo para tecer o seu tapete, construir a sua doutrina poético-teológica, ou elaborar a intrincada ficção de um discurso interior: “[...] a ausência apaixonada dirige-se apenas num sentido e não pode exprimir-se senão a partir de quem fica – e não de quem parte: o eu, sempre presente, não se constitui senão em face de ti, sempre ausente.”4
Seja no andrógino de Aristófanes, narrado por Platão5, seja na Eva, feita da costela do Homem – e, por sua causa, a sua ruína –, o que há, nas relações afetivas, pela união ou pela separação, é a insatisfação satisfeita, a dor consentida, o “fogo que arde sem se ver”, a “ferida que dói e não se sente” – e isso, naturalmente, não explica o ideal, nem o revela, mas o real, e o animal no/do homem (no sentido mais abrangente do termo), sempre à caça não de uma vítima, mas da vida (Vontade de vida)... embora domado pelas morais dominantes, a heterônoma ou a autônoma, especialmente.
Na primeira parte de O conceito de ironia constantemente referido a Sócrates, publicado em 1841, Sören A. Kierkegaard mostra que o discurso de Sócrates, em contraponto ao dos seus predecessores, n’O banquete, tem a ironia como método. O pensador dinamarquês não tem uma novidade maior que esta, e apesar das críticas que faz ao romantismo6. Às coisas do amor, se ainda permanecemos em Kierkegarrd, será preciso ir à outra obra sua, o primeiro volume de A alternativa: Diário de um sedutor... mas, mesmo aí, e o estágio do esteta que aparece, e que, como se sabe, será ultrapassado pelo ético, e, este, pelo religioso. Mas, não vou falar disso... por hora.
Se, à semelhança daquela mulher apaixonada, eu também subisse ao balcão e fizesse um discurso sobre o amor, mas dizendo o que é que ele é mesmo, de verdade, era bem capaz de tomar umas garrafadas no meio da cara, para aprender a não estragar a festa alheia.  






1 O banquete, 179 a. PLATÃO. O banquete (O Simpósio ou do Amor). Lisboa: Guimarães Editores, 1986.
2 Veja o discurso de Sócrates, reproduzindo os ensinos de Diotima, em: O banquete; e também o Fedro. PLATÃO. Fedro (ou da Beleza). 6. ed. Lisboa: Guimarães Editores, 2000.
3 Cf. O banquete, 179 b.
4 BARTHES, Roland. Fragmentos de um discurso amoroso. Lisboa: Edições 70, 2001. p. 52.
5 Também n’O banquete, 189c–193e.
6 “A ironia trabalha com o mal-entendido. A própria banca examinadora [da tese de Kierkegaard, que resulta no referido livro] experimentou isto na carne. O orientador da tese, Prof. F. C. Sibbem, não entendeu bem a ligação da primeira com a segunda parte, enquanto outros pareceres falaram até de dois trabalhos distintos, um sobre Sócrates e outro sobre o romantismo.” (VALLS, Álvaro. L. M. Apresentação. In: KIERKEGAARD, S. A. O conceito de ironia constantemente referido a Sócrates. Petrópolis: Vozes, 1991. p. 11. [Col. Pensamento Humano]).


terça-feira, 24 de julho de 2012


10.





Do amor que ainda há, quando não há amor




Ninguém escapa ao amour de soi, mesmo quando pensa, contra qualquer afecção, não haver mais amor nenhum. O amour de soi está no sentimento de “amor romântico”, seu melhor e mais mundano disfarce. Está também no ágape, mas apenas como discurso acerca do transcendente, perdido em conceitos metafísicos e delírios teológicos. O celeste, aí, é mero discurso religioso, ou liberdade poética... mosca que não vai além da janela de vidro de nossa sala, em nossa casa. Amour de soi → Eros → ágape ↔ Vontade. São vários os nomes para a Vontade, fundamento de todos os conceitos de amor que conhecemos e que, em uma tirada poética de Bukowski, “é um cão dos diabos!” Por quê? Porque ele – ou os efeitos de sua ação – pode aparecer nas horas mais inesperadas; inclusive enquanto dormimos.
Aquela garota a quem você não dava a menor atenção, aparece em seus sonhos, assim, do nada: fantasiada de estrelas, de mar e mistérios, de paraíso oferecido, aureolada de idílicas delícias secretas que pedem por descobrimentos. Ao acordar, e sem que perceba, você ainda está sonhando com ela, e dizendo o seu nome baixinho, quase inaudivelmente, sussurrado por entre os lábios. E aquelas imagens oníricas vêm todas de uma vez, em um flash-back atordoante e, estranhamente, bom. Você que não estava “nem aí para essas coisas”, sente as saudades do que nunca teve, que não viveu: dessa moça ou moço que veio morar em seus sonhos, em sua fantasia, em seu desejo, em sua vontade. Mas, ah!, a Vontade está em você, mas não é sua. E há uma presença, sim: da falta dela. Cupido lhe flechou. Que loucura! Inesperadamente, numa espontaneidade magnética, você sente uma enorme vontade de vê-la, vê-lo; está apaixonado/a.  
Eros age de modos vários e misteriosos; e quase sempre de modo irônico, inesperado. Não envia recados, age na Vontade, e por ela – da qual é um simples braço.
O Amor pode estar, mais que na tranquilidade da planície e no cício suave dos ventos que acariciam trigais, na fúria das ondas que despedaçam a penha, e nos espasmos dos trovões que estremecem o mundo, ou na violência dos raios que iluminam o breu das noites... quando na presença físico-material do seu alvo. Sim, demônio que é, e sem corpo, ele precisa de um em que possa habitar. Nem os deuses estão a salvo. “Eros [é] o mais belo dos deuses imortais, que afrouxa os membros, e vindo ao coração de todo ser, homem ou deus, domina a razão e o discreto conselho”, afirma Hesíodo em sua Teogonia1. Mas, aí daqueles que amam, permitindo-se ao Amor. É que Eros, realizando-se, abandona a casa à sua própria sorte, e parte em busca de novas habitações – é o discurso contundente de Diotima, repetido por Sócrates, n’O Banquete de Platão.2 
E é assim que a garota dos seus sonhos pode ser, também – se você não estiver vacinado com a parábola do Pequeno Príncipe e sua Rosa –, a garota dos seus pesadelos. Como, não? Um exemplo literário, que estampa o cotidiano dos casais românticos. Marjorie, outrora tão linda e desejada, é a mulher de Walter3. Ela, antes tão tudo, é, agora, objeto das suas mais tristes tristezas.

– Não vais voltar tarde? – Havia ansiedade na voz de Marjorie Carling, qualquer coisa que parecia uma súplica.
– Não, eu não voltarei tarde – respondeu Walter, com a certeza infeliz e criminosa de que não estava dizendo a verdade. A voz dela o aborrecia. Era um pouco arrastada, tinha um refinamento excessivo, mesmo na dor.
– Não passes da meia-noite.
Marjorie podia ter-lhe lembrado o tempo em que nunca saía à noite sem ela. Podia ter feito isso; mas não queria; era contra os seus princípios; não pretendia forçar de nenhum modo o amor de Walter.4

Amor realizado é amor perdido, ou amordaçado – e a mordaça mata o sentido daquilo que, em sua antropomorfia, é dotado de grandes asas. No livro de Rosa Montero, Paixões, ela fala sobre Wilde, Oscar Wilde:

Segundo todos os testemunhos, no começo de seu casamento [com Constance Lloyd], Wilde [então com 29 anos] estava muito apaixonado. Devia sentir-se feliz ao se imaginar curado de sua homossexualidade: a vida era muito mais confortável na ortodoxia. Em seguida teve dois filhos com Constance; Wilde os adorava e escreveu lidos contos de fadas para eles. Mas a mulher-mãe se transformou para ele num objeto sexual impossível de suportar: “Quando casei, minha esposa era moça bonita, branca e esbelta como um lírio. (...) Depois de um ano, havia se transformado em uma coisa pesada, informe e disforme (...) com seu espantoso corpo inchado e doente por culpa de nosso ato de amor.” De alguma forma, conseguiu que Constance aceitasse pôr fim às relações sexuais [...]. No entanto, sempre se tratavam bem; continuaram morando juntos e gostavam um do outro. Pouco depois, Robert Ross, um garoto de 17 anos e já experiente nesses assuntos, seduziu o cândido Wilde, e o levou para a cama.5

O resto da história amorosa de Wilde com Robert, é de desastre sobre desastre; e a única vítima é o próprio Wilde: enganado, traído, usado, preso, doente, esquecido e... apaixonado.
A realização de um grande amor é a melhor de todas as coisas, e a pior. Lembre-se de Shaw: “Há duas catástrofes na existência: a primeira é quando nossos desejos não são satisfeitos; a segunda é quando são.6” Quando o sonho vira realidade, deixa de ser sonho, é coisa concreta, longe da fantasia... que é o alimento dos sonhos, da vontade do objeto que falta, e do amor romântico-ideal.  Sim, Eros se alimenta de sonhos, e das vontades que o sonho traz; e aí daquele que tem sonhos muito altos... como Ícaro, o enlouquecido Ícaro com as suas asas de cera. Pode haver coisa mais certa? Pode haver coisa mais triste?
Lição de Diotima a Sócrates, n’O banquete: o amor é vontade de amar, e somente há enquanto é falta. Mas o amor romântico, ideal, sonha com a eternidade do seu prazer7. É, também, desejo, e fé, e falta. Não há amores, embora os níveis distintos; o que há são as maneiras de descrever essa mesmíssima falta: sua expectativa ou sua realização, e a nossa frustração, por um ou outro viés. A realização de um amor é a realização da sua Vontade, e a morte do nosso desejo... a Vontade está aí ainda, mas já sonhando com outros objetos. A expectativa amorosa é o que chamamos de “paixão” (passio), que é o mesmo que “sofrimento”.
Não há saída contra o Amor, contra a Vontade. É a primeira constatação de Buda, tratando sobre a condição humana, e ensinando a primeira das suas quatro Verdades Santas: “Eis, ó monges, a Verdade Santa acerca da dor: o nascimento é dor, a velhice é dor, a doença é dor, a morte é dor, a união com aquilo de que não gostamos é dor, não lograr um desejo é dor...8” E, como vimos, lograr também. Não há saída.





1 HESÍODO, Teogonia 116 ss. HESÍODO. Teogonia: a origem dos deuses. São Paulo: Iluminuras, 1991.
2 “Muita tolice seria não considerar uma só e a mesma beleza em todos os corpos; e depois de entender isso, deve ele fazer-se amante de todos os belos corpos e largar esse amor violento de um só, após desprezá-lo e considerá-lo mesquinho...” (O banquete, 210 b). PLATÃO. O banquete. In: _____. Diálogos. 2. ed. São Paulo: Abril Cultural, 1983. p. 41. (Col. Os Pensadores). Tommaso Campanella, em sua A Cidade do Sol, de 1602, inspirado na obra de Platão, procura excluir da sua cidade ideal a “ideia de família”, e do sentimento de pertence – do marido à sua mulher, ou aos seus filhos –, julgando que tal sentimento, mesquinho, é um desserviço ao progresso e à felicidade dos solares, da cidade perfeita. Tudo é de todos (incluindo as mulheres), e todos são por todos – subscrevendo o que, aí, através de Sócrates, Diotima diz em respeito à geração dos mais belos (de melhor saúde) à geração dos mais belos, etc. O amor realizado, isto é: gerado o filho, parte do seu objeto em direção a outro (conforme certos regulamentos que Campanella anota em sua descrição das relações sexuais entre os solares), se o apego a um indivíduo, por amor ao todo. O sacrifício do desapego é dom da virtude, do homem virtuoso, da mulher virtuosa. Cf. CAMPANELLA, Tommaso. A Cidade do Sol. São Paulo: Abril Cultural, 1983. (Col. Os Pensadores).
3 Personagens de Point counter point (1928), de Aldous Huxley (1894-1963).
4 HUXLEY, Aldous. Contraponto. São Paulo: Abril Cultural, 1982. p. 7. (Col. Grandes Sucessos). A novela Contraponto é “uma descrição crua da vida de vários casais que se amam, mas não conseguem demonstrar o seu amor; que se detestam, mas não têm coragem de exprimir seu ódio; que não se suportam, mas não ousam abandonar o comodismo e a rotina da existência que levam ao lado daquele – ou daquela – que um dia escolheram.” (Da contracapa).
5 MONTERO, Rosa. Oscar Wilde e Lorde Alfred Douglas: dançando descalço no sangue. In: _____. Paixões: amores e desamores que mudaram a história. Rio de Janeiro: PocketOuro, 2009. p. 57-8.
6 George Bernard Shaw (1856-1950), citado em: COMTE-SPONVILLE, André. A felicidade, desesperadamente. São Paulo: Martins Fontes, 2001. p. 36.
7 “Pois quer todo o prazer – eternidade!” (NIETZSCHE, Friedrich. O canto ébrio. In: _____. Assim falou Zaratustra: um livro para todos e para ninguém. São Paulo: Círculo do Livro, [s.d.]. p. 324 [§ 11]).
8 BUDA, citado em: ARVON, Henry. O budismo. Lisboa: Publicações Europa-América Ltda., [s.d.]. p. 41-1. (Col. Saber).


terça-feira, 17 de julho de 2012


9.




Do Natural e da Natureza, que é a casa de Satã



Em Une vie1, a meiguíssima Jeanne Le Perthuis des Vauds, sem suspeitar de que o seu marido, Julien de Lamare (sentido e razão da sua vida), andava lhe traindo com a mulher do conde de Fourville – Gilberte –, de quem pensava tratar-se apenas de “uma boa amizade a ser preservada”, decidiu seguir os cavalos que, mata adentro, transportaram os dois a um determinado local. Julien havia saído desde a manhã, sem avisar aonde iria.
“De repente, atravessando uma longa vereda, depararam-se-lhe dois cavalos, arreados e presos pelas rédeas a uma árvore: eram os animais de montaria de Julien e Gilberte. [...] Ao chegar junto aos pacientes animais, que ruminavam tristemente como habituados às longas paradas”, diz Maupassant,

Jeanne chamou pelos dois. Ninguém respondeu. Na relva, marcada pelos rastros, jaziam uma luva de mulher e dois rebenques. Tinham estado ali, portanto; e certamente se haviam afastado, deixando os cavalos no local. Esperou-os durante um quarto de hora, surpresa, sem poder atinar com o que eles estariam fazendo. Como saltara do cavalo e se deixara ficar imóvel, apoiada a um tronco, dois passarinhos, sem notarem a sua presença, vieram pousar-lhe bem junto aos pés. Saltitando um em torno do outro, de asas abertas e esvoaçantes, trocavam mútuas saudações, pipilando; de repente, o macho saltou sobre a fêmea num longo amplexo. Jeanne surpreendeu-se diante do que via, como se tudo isso fosse estranho para ela. Por fim, disse para si mesma: – Ah! Estamos na primavera!2

A resposta estava aí, no óbvio ofertado. Mas a cópula dos passarinhos, aos olhos inocentes de Jeanne, era motivo para uma única, cândida e ingênua constatação: “Estamos na primavera!” Os que amam cegamente, apaixonados que estão, somente veem o que desejam ver. É como no provérbio: “o amor é cego”. Conclusão ligeira e sem as complexas investigações que são necessárias ao tema. Na verdade, e se exigido uma maior exatidão, o amor é quem faz cegar. Eclipse da razão, a “cegueira” é um engodo e um artifício da Vontade, em função da vida e sua permanência.
A natureza com seus prodígios e encantamentos; a Lua dos apaixonados e o céu estrelado; as flores campestres que se oferecem às borboletas coloridas que bailam leves e livres sobre os jardins perfumados; e os passarinhos cantando felizes, em coro, celebrando a criação e o seu...
Ah, que grande a ilusão dos nossos sentidos! Não nos basta o mundo assim, dado; precisamos transcendê-lo e, para além do que vemos, vermos algo a mais: maior e mais encantado, razão e limite ilimitado de tudo o que é belo e bom, incorrupto e eterno. Acostumados à imagem romântica do mundo, exaltamos os encantos da natureza; almejamos as perfeitas virtudes dos corações perfeitos – a ação daquele ou daquela que, por amor ao outro, nega-se a si mesmo. Ah, que grande a ilusão do amor desinteressado de si! Com a nossa fala, a mais comum e vulgar expressão do nosso ser, declaramos um amor doce e cândido... visgo que prende o passarinho.
Em “Kinski, meu melhor inimigo” (Mein Liebster Feind, 1999), Werner Herzog põe a nu tal engodo, sutilmente expondo os dois eixos deste grande conflito, nem sempre muito evidente - principalmente aos menos dados às dúvidas, e desarmados de senso crítico. De um lado a visão romântica da Natureza, majoritária (Klaus Kinski > os românticos > os teólogos > os idealistas); de outro, o realismo racionalista, minoritário (Herzog > Schopenhauer > Darwin > Aristóteles, com limites). É o próprio Herzog quem, falando sobre Kinski3, afirma:

Entre Kinski e eu havia algo de irreconciliável: o seu conceito pela natureza. Ele se estilizava como um “homem da Natureza”. Creio que tudo o que ele dizia sobre a selva era afetado. Ele declarava que tudo por aqui [nas selvas do Peru] era erótico, mas nunca entrou na selva. Ele ficou no acampamento por meses, mas nunca deu um passo para dentro da selva. Uma vez ele adentrou cerca de 50 metros, onde uma árvore caíra. É claro que o fotógrafo teve que ir com ele tirando centenas de fotos dele abraçado a essa árvore e fingindo copular com ela. Poses e parafernálias era o que lhe importava. Seu equipamento de alpinismo era mais importante que a própria montanha. Sua roupa camuflada feita por Yves Saint Laurent era mais importante que qualquer selva. Nesse sentido, Kinski era favorecido com uma grande estupidez natural.
A diferença de nossas visões tornou-se mais aparente durante “Fitzcarraldo”. É claro que desafiamos a própria natureza. Mas ela é grandiosa e tivemos que aceitar que ela era mais forte que nós. Kinski sempre diz que ela é cercada de elementos eróticos. Eu não vi nada erótico, vi obscenidades. A natureza como algo violento e vil. Não vi nada erótico aqui. Veria fornicação, asfixia, embate e luta pela sobrevivência, crescimento e putrefação. É lógico que há muita tristeza, mas é a mesma tristeza que nos cerca. As árvores estão tristes, assim como os pássaros, acho que eles não cantam, eles gritam de dor.
Dê uma olhada mais de perto, e verá que há sim uma certa harmonia: harmonia da opressão e morte coletiva. E quando digo isso, o digo cheio de admiração pela selva. Não a odeio, eu a amo, amo muito. Mas amo contra meu próprio julgamento.4

A visão da Natureza, em Kinski, é a visão do senso comum – geralmente inconsciente –, e é também a mais equivocada. Acredita, sem pensar, nas reais e visíveis belezas do Mundo, e na origem divina das relações afetivas, numa hierarquia modelar que põe o homem como “cabeça da criação” – como exposto no livro do Gênesis. Na ordem cósmica, e no sexo, ele é Sol, e ela, Lua; ele, ativo; ela, passiva. Tanto equilíbrio no mundo, supõem os velhos teólogos ortodoxos e mofados, embriagados no idealismo, aponta para uma mente inteligente por trás de tudo – como o relógio, que supõe o relojoeiro.5
Noutro filme, incompreensível para alguns – “Anticristo” (Antichrist, 2009), do dinamarquês Lars von Trier –, há uma cena em que uma raposa6, como em uma fábula de horror, sentencia: “O caos reina”. É o prenúncio do “Desespero”. Onde? Na natureza. No Anticristo, os personagens não têm nomes, são apenas Ele e Ela, e estão instalados em uma cabana no meio da Floresta do Éden, onde Ela (uma intelectual que estuda sobre bruxaria e violências históricas contra as mulheres) é tratada por Ele (que é terapeuta), na tentativa de fazê-la superar o trauma deixado pela morte do filho de ambos, que havia caído de uma janela enquanto eles transavam. Se a relação sexo = culpa é óbvia, é porque é óbvia mesmo, imersa na tradição moral cristã. Na inocência do homem no Éden, antes da Queda – Santo Agostinho fantasia –, não havia o desejo do sexo (libidinoso), somente a sua necessidade (à procriação), mas sem os males da paixão, a tirania da vontade. Não havia, ele diz, “a vergonha do desejo”.7 E diz mais:

Os membros genitais obedeceriam ao arbítrio da vontade tal como os demais, e o marido ter-se-ia introduzido nas entranhas da esposa sem o aguilhão arrebatador da paixão libidinosa, na tranquilidade da alma e sem corrupção alguma da integridade do corpo. [...] E então poderia assim o sémen viril penetrar no útero da esposa mantendo-se a integridade do órgão genital feminino – tal como presentemente o fluxo do sangue menstrual pode sair do útero de uma virgem sem prejuízo para a sua integridade. De fato, é pela mesma via que um se introduz e o outro sai.8

Orígenes de Alexandria, o maior dos alegoristas da Antiguidade cristã, interpretando literalmente um versículo no Evangelho de Mateus9, chega ao ponto de se emascular, para lançar fora o “instrumento do mal”, o seu próprio pênis. Assim, pensava, poderia viver mais santamente, sem que o seu órgão reprodutor-sexual10 fosse outro senhor, contra o Senhor. 
Ele, Ela. Aí, no Éden, era como se fosse um recomeço para ambos. Mas, para Ela, a natureza é a “igreja do Demônio”. Não há lugar para a tradicional imagem idílica da selva – onde o animal devora o outro, e é devorado, sem misericórdia, sem culpa e sem juízos morais. Na cena incomum, em que a raposa anuncia o caos e o seu reinado – na imagem medonha de um medonho animal falante –, a ordem está pervertida. O caos, porém, não reclama súditos aos quais possa comandar – o que seria uma nova ordem. O diferente se apresenta, mas não é fixo, jamais instalado: ser loucura, ser absurdo em um mundo absurdo de absurdos. “Lars Von Trier é um diretor atormentado!” Bodejaram, quase unânimes, os críticos da indústria cinematográfica de Hollywood, engessados nos modelos que seguem e defendem a antiga ordem: a que produz lucros enormes. Mais que a arte e o pensamento, a indústria visa o lucro – como pode ser visto em Rojeck, Mailer, Biskind e Adorno & Horkhaimer.11
No Anticristo de Lars von Trier, como n’O Anticristo (Der Antichrist. Fluch auf das Christentum, 1888), de Nietzsche, há um enfretamento dos modelos românticos, dominantes: a estética imanente-transcendente e os conceitos bom/mau são, ao menos em tese, transvalorados. No Anticristo de Lars von Trier, há três capítulos (além do prelúdio e do prólogo) bem definidos. Não há culto a essa Trindade nada divina, que comanda o Mundo natural – como é visto e descrito por Herzog, em sua oposição a Kinski. O capítulo quarto (“Os três mendigos”) reforça os três anteriores, no sentido da trindade referida, em sua tese de transvaloração. De fato, na suposta razão que procura ordenar o caos, é onde se instala o delírio e o culto à ordem, para fazer surgir alguma coisa à qual eu não saberia dar um nome; mas que é mais que niilismo, que mero niilismo.
N’O Anticristo de Nietzsche, por outro viés, a crítica é muito mais clara, e totalmente direcionada contra a moral cristã, e contra aquilo que ela santificou: a fraqueza da fé. A “fé”, ele afirma, é um “não querer saber o que é verdadeiro.12” Contra tal espírito, é a transgressão do niilismo que se propõe para além do bem e do mal, no fatum, a partir do fatum. “Nosso fatum [fado, destino]”, ele diz, “– era a plenitude, a tensão, a contenção das forças. Éramos ávidos de relâmpagos e atos, ficávamos o mais longe possível da felicidade dos fracotes, da ‘resignação’... Um temporal estava em nosso ar, a natureza que somos escureceu – pois não tínhamos caminho. A fórmula de nossa felicidade: um Sim, um Não, uma linha reta, uma meta...13” Ela, Ele... E então: Ah!, os dualismos que mantivemos (Apolo/Dionísio): para a verdade, para o amor, para a filosofia, para a teologia, etc. Nós nos esquecemos do que somos, em função do que gostaríamos ser, e nos perdemos de nós mesmos, em alguma parte do caminho. 
“Suponhamos que a verdade seja uma mulher”, Nietzsche dizia, no prefácio de Para além do bem e dom mal (Jenseits Von Gut Und Böse. Vorspiel Einer Philosophie, 1886).14 Suponhamos que a Verdade seja um conceito, ou uma construção psicológico-político-social, como a condição da “mulher”, na obra de Simone de Beauvoir, de 1949, contra a tirania do masculino – também exaltada e beatificada pela Igreja.15 Se o gênero vale à Natura, e se ela pode ser personificada de algum modo – a Terra, nas mais variadas mitologias, é representada como mulher, feminina e fecunda –, então a imagem de uma mulher lhe cai muito bem, e sem forçamentos. Assim também se pode falar da Verdade, o que quer que ela seja... como Nietzsche fez.
Sim, suponhamos então que a verdade seja uma mulher, como Ela. Ela conhece a figura masculina, tal qual a do marido (terapeuta, psicólogo, psicanalista, figura da ordem mental desejada pela moderna ciência moderna, e pelo status da razão aplicada ao saber e ao progresso); também conhece as forças da natureza, irracionais, das quais tem medo. Passiva às ações dEle, que assume o lugar da Natureza, domesticando-a para que Ela, através dele, também a enfrente e, assim, vença os seus medos – ou chegue à ordem (psíquica), à razão –, Ela, a princípio, se deixa levar, obediente à técnica dEle:

– Gostaria de fazer mais um exercício – Ele diz. – É como fazer de conta. Meu papel será todos os pensamentos que te dão medo. O seu será o do pensamento racional.
Ela assente, com a cabeça.
– Eu sou a natureza. Todas as coisas que você chama de natureza.
Ela se mostra maleável, deixando que Ele assuma o seu papel, e diz:
– Ok, senhor Natureza. O que você quer?
– Machucá-la tanto quanto eu puder.
– Como?
– Como você acha?
– Me amedrontando?
Ele balança a cabeça, negando que seja somente isso.
– Matando você – responde.
– A natureza não pode me machucar. Você é só o verde lá fora.
– Não, eu sou mais.
– Eu não entendo – Ela parece confusa, realmente.
– Estou no exterior, mas também... dentro.
Sim, pois é certo que, da Natureza, ou na Natureza, todos somos partes. E tanto que, para elucidar o que Ele tenciona, continua:
– Eu sou a natureza de todos os seres humanos.
– Ah, esse tipo de natureza. O tipo de natureza que faz pessoas fazerem coisas ruins contra as mulheres.
– É exatamente o que sou.
– Esse tipo de natureza me interessou quando eu estava aqui. Esse tipo de natureza era o tema da minha tese. Mas você não deve subestimar Éden.
– O que Éden fez? – Ele pergunta.
– Encontrei algo mais que o que esperava. Se a natureza humana é má, então isso vale também para a natureza das mulheres.
– Natureza feminina.
– A natureza de todas as irmãs [bruxas]. As mulheres não têm controle de seus corpos, a natureza tem. E eu tenho isso por escrito nos meus livros.
– A literatura que você usou em sua pesquisa era sobre coisas ruins cometidas contra as mulheres, e você a leu como prova da maldade das mulheres? – Isso lhe parecia um contrassenso, um paradoxo às pretensões da tese à qual ela, antes, propunha defender. – Você deveria ser crítica com esses textos, essa era sua tese! Ao invés disso, você os abraçou. Você entende o que está dizendo?
– Esqueça – Ela diz. – Não sei porque eu disse isso.16

Ela é uma metáfora da Natureza: hostil, caótica. Ele é o sexo dominante – aquele que tenta colocá-la em ordem, dominando-a, vencendo o caos. Ele, razão; ela, emoção. Razão = ordem; emoção = caos. Trazer a ordem supõe o domínio dEle sobre Ela; supõe também a status rebaixado do Segundo Sexo, como o feminino é definido por Beauvoir, em oposição ao domínio do masculino. “Todo ser humano do sexo feminino não é, portanto, necessariamente mulher; cumpre-lhe participar dessa realidade misteriosa e ameaçada que é a feminilidade”17, diz Beauvoir. Ser mulher é sentir-se mulher.18 Na igualdade genérica, não pode haver um sexo – mas isso também não supõe um equilíbrio. As cenas de mutilação genital, masculina e feminina (Ela decepa o próprio clitóris com uma tesoura enferrujada), estão na ordem do conflito. Quando perguntado sobre o porquê de tanta violência, em uma entrevista, Lars von Trier respondeu: “Simplesmente achei que seria errado não mostrar. Sou um cineasta que acredita que devemos colocar na tela tudo o que pensamos. Sei que é doloroso ver, mas esse filme tem muito a ver com essas dores.” Na mesma entrevista, ele afirma que não acredita em Deus, e que o filme é uma forma de devolver a Deus tudo o que aprendeu sobre ele.       
Não há amor aí, e nem beleza, somente o fatum e o pólemos, o conflito – “Não a satisfação, mas mais poder; sobretudo não a paz, mas a guerra.19” Ela é a Natureza, com a qual ele luta, para domesticá-la; mas acaba destruindo-a, para não ser destruído. No “Epílogo”, Ele encontra alimento nesta nova Natureza, da qual é parte: sua natureza capaz de “matar o amor, a paixão” (Ela), por amor a si mesmo: amour de soi.
Eis um anticristo. Sim, a moral cristã ensina que o marido deve ser capaz de, por amor à sua mulher, morrer por ela, como exemplificado no Cristo, que morre por sua noiva, a Igreja.20 A moral anticristã, ao contrário, ensina o amor fati, o amour de soi, a fidelidade à Terra – na apreciação do realismo, contra o idealismo romântico e sua embriaguez. O sentimento de comunidade e de um amor ideal, recíproco, antes de ser uma fraqueza, é um equívoco. Ademais, e contra um amor “tão altruísta” (e fantasioso), Nietzsche afirmaria: “O amor é o estado em que as pessoas mais veem as coisas como não são.”21
Na alegoria, a velha Natureza está ali, nos tantos corpos femininos que jazem no Éden, as almas ancestrais. Expulsas (ou libertas) para este novo Éden, seguem em direção a... Quem saberia? O caos continua reinando; e anticristãos são todos e todas que ousam superar o domínio ancestral da ordem, do sexo dominante e da sua posição inferior – e louvada na piedade subserviente da pia doctrina christiana. Mas, ah!, não há culpa senão a nossa culpa, e pelos nossos erros.   
Suponha que Jeanne, na novela de Maupassant, seja uma vítima da tradição histórico-político-social à qual estava submetida, no tempo que não era seu; suponha. Ainda assim, e por sua inocência, ela é culpada. É uma vítima de si mesma. Como poderia dizer, depois de tudo: “A vida não é tão boa nem tão má como as pessoas julgam.22” Como? Nascer na condição de escravo não é uma opção nossa, e nem uma culpa contra a qual mereçamos punições; o nosso agir como escravos, no entanto, é.
  





1 Novela de Guy de Maupassant, escrita em 1883; excelente exemplo de realismo fantástico.
2 MAUOASSANT, Guy de. Uma vida. São Paulo: Nova Cultural, 2003. p. 188.
3 Com quem teve uma parceria errática e duradoura, ao longo de cinco filmes: Aguirre, der Zom Gottes (1972), Woyzeck (de 1979, baseado na peça de Georg Büchner), Nosferatu: Phantom der Nacht (1979), Fizcarraldo (1982) e Cobra Verde (1987).
4 Filmado em 1982, Fitzcarraldo é uma produção teuto-peruano, baseada na história verídica de Brian Sweeney Fitzgerald, “Fitzcarraldo”, na pronúncia dos nativos. Fã de Enrico Caruso, Fitzcarraldo investe na construção de uma casa de ópera, na cidade de Iquitos, no alto Amazonas, fracassa. Antes, investira em uma estrada de ferro, a Transandina, também sem sucesso. Praticamente falido, tenta conseguir recursos com um novo empreendimento: uma fábrica de gelo; novo fracasso. Pelos improváveis e malfadados empreendimentos, foi chamado de “O conquistador do inútil”. Conseguiu algum dinheiro com sua amante, a dona do bordel da cidade. Com o recurso, compra um grande barco fluvial. Nele, tentará encontrar uma nova rota para transportar borracha, das terras às quais obteve autorização governamental para explorar. Esperançoso e alucinado, Fitzcarraldo, em seu barco, transpõe morros e matas, ao custo de muito sofrimento e da vida da tripulação. O trecho com as impressões de Herzog sobre a floresta, que aparecem nesse documentário, é recortado de outro, Burden of dreams, de 1982, com direção de Les Blank, e pode ser encontrado no YouTube. Disponível em: <http://www.youtube.com/watch?v=mYBA0yvmwGc> Acesso em: 10 abr. 2011.
5 E daí os tantos argumentos tradicionais em prol da existência de Deus (axiológico, cosmológico, henológico, do bom senso, moral, teleológico, etc.), como o argumento ontológico de Anselmo de Aosta (1033-1109) ou as cinco vias de Tomás de Aquino (1225-1274), dentre os mais conhecidos; e daí o famoso argumento do relógio, de William Paley (1743-1805). Para os argumentos ontológicos, resumidos e comentados, ver: TOMATIS, Francesco. O argumento ontológico: a existência de Deus de Anselmo a Schelling. São Paulo: Paulus, 2003. (Col. Filosofia). O argumento de Paley aparece em sua Natual Theology, de 1802 (ainda sem tradução em português). Também pode ser visto, na íntegra, com contra argumentações, em: SORLEY, W. R. Moral Values and the Idea of God. 2. ed. Cambridge: Cambridge University Press, 1921. p. 326.
6 O mais esperto dos animais, conforme a tradição literária.
7 De Civ. Dei, XIII, XXIV.7. Afinal: “A beleza do corpo, obra de Deus sem dúvida, mas bem ínfimo, carnal e temporal, é mal amada quando Deus, bem eterno, interior e sempiterno é posto em segundo plano.” (De Civ. Dei, XV, XXII). AGOSTINHO, Santo. A Cidade de Deus. 2. ed. Lisboa: Serviço de Educação e Bolsas / Fundação Calouste Gulbenkian, 2000. v. 2.
8 De Civ. Dei, XIV, XXVI.
9 Mateus 19, 12: “Porque há eunucos que assim nasceram do ventre da mãe; há eunucos que foram castrados pelos homens; e há eunucos que se castraram a si mesmos por causa do Reino dos céus. Quem pode receber que o receba.”
10 O relato é registrado por Eusébio de Cesaréia (265-340), em sua Historia ecclesiastica (talvez escrita entre 303 e 323): “Entendeu as palavras: ‘E há eunucos que se fizeram eunucos por causa do reino dos céus’ (Mt 19,12), de modo simplista e juvenil, seja por julgar que assim cumpria a palavra do Senhor, seja porque, sendo jovem, pregava as coisas divinas, não somente a homens, mas ainda a mulheres, e querendo tirar aos infiéis todo pretexto de calúnia vergonhosa, foi impelido a cumprir realmente a palavra do Senhor.” (CESARÉIA, Eusébio de. História Eclesiástica. São Paulo: Paulus, 2000. p. 289-90 [VI, 8.2]. [Col. Patrística, 15]).   
11 Os autores citados, e suas obras, por ordem: ROJEK, Chris. Celebridade. Rio de Janeiro: Rocco, 2008. (Col. Idéias Contemporâneas). MAILER, Norman. Um sonho americano. Porto Alegre: L&PM, 2011. (Col. L&PM Pocket, 572). BISKIND, Peter. Como a geração sexo-drogas-e-rock’n’roll salvou Hollywood. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2009. ADORNO, Theodor; HORKHEIMER, Max. A Dialética do Esclarecimento. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.
12 NIETZSCHE, Friedrich. O anticristo: Maldição do cristianismo: Ditirambos de Dionísio. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. p. 63 (§ 52). Ou, dito de outro modo: “A esse instinto de teólogo eu faço guerra: encontrei sua pista em toda parte. Quem possui sangue de teólogo no corpo, já tem ante todas as coisas uma atitude enviesada e desonesta.” (NIETZSCHE, 2007, p. 15 [§ 9]). Ou, por fim: “A melhor maneira de enganar a humanidade é com a moral!” (NIETZSCHE, 2007, p. 52 [§ 44]).
13 NIETZSCHE, 2007, p. 10 (§ 1).
14 NIETZSCHE, Friedrich. Além do bem e do mal: prelúdio a uma filosofia do futuro. São Paulo: Companhia das Letras, 2001. p. 63 (Prólogo).
15 “Não é a natureza que define a mulher: esta é que se define retomando a natureza em sua afetividade.” (BEAUVOIR, Simone de. O segundo sexo: 1 – fatos e mitos. 4. ed. São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1970. p. 59). E, antes: “As religiões forjadas pelos homens refletem essa vontade de domínio: buscaram argumentos nas lendas de Eva, de Pandora, puseram a filosofia e a teologia a serviço de seus desígnios, como vimos pelas frases citadas de Aristóteles e Sto. Tomás. Desde a Antiguidade, moralistas e satíricos deleitaram-se com pintar o quadro das fraquezas femininas.” (BEAUVOIR, 1970, p. 16).
16 Anticristo. Direção: Lars von Trier. Califórnia Filmes, 2009. 1 DVD (98 min). NSTC, color. Título original: Antichrist.  
17 BEAUVOIR, 1970, p. 7. “O termo ‘fêmea’ é pejorativo, não porque enraíze a mulher na Natureza, mas porque a confina no seu sexo.” (BEAUVOIR, 1970, p. 25). Convém à mulher, pois, emancipar-se – que não corresponde à renúncia do seu sexo, mas em assumi-lo, exigindo os direitos iguais ao outro, o masculino. 
18 “A mulher é uma fêmea na medida em que se sente fêmea.” (BEAUVOIR, 1970, p. 59).
19 NIETZSCHE, 2007, p. 11 (§ 2).
20 Na epístola Aos Efésios 5, 25: “Maridos, amai as vossas mulheres como Cristo amou a Igreja e se entregou por ela.” (TEB).
21 NIETZSCHE, 2007, p. 28 (§ 23).
22 MAUPASSANT, 2003, p. 318.


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