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sexta-feira, 8 de junho de 2012


4. 





Da Vontade objetiva de todo amor, de todo amar




“O bebê que toma o peito, você tira o peito, ele chora, está infeliz. Você lhe devolve o peito, ele se acalma. Há anos uns e outros buscaram nosso peito. Queríamos um ‘bom objeto’, como dizem os psicanalistas, que pudéssemos possuir, que nos saciasse, que fizesse que nada nos faltasse... Que azar: somos desmamados, essa história acabou, ponto final.” São palavras tristes, mas verdadeiras, de André Comte-Sponville.1
Por que os homens gostam tanto dos peitos das mulheres? Porque eles procuram, aí, aquilo que não podem mais ter em suas mães. E as mulheres? O que elas mais procuram, nos homens, é a segurança; e há, nisso, muito bem sedimentado, toda uma história de dominação: psicobiológica, política, social, et cetera. Um homem rico, mesmo carente de atributos estéticos favoráveis, é, por tal fortuna, externa, propaganda de uma segurança que o “ouro” pode dar. Claro que isso pode parecer machista e feio, pela objetividade; não é, porém, superficial. No final das contas, não e nem esse homem feio (o mesmo vale para o bonito) e nem o seu dinheiro que ela quer, mas a segurança. Como se vê, há mais: por trás das intenções, das afecções, disso e daquilo que movem as nossas vontades e decisões.  
Os homens querem “voltar” às barrigas das suas mães, aos seus peitos (primeira fonte de alimento e segurança); as mulheres, quando não desejam isso em seus pares (lesbianismo), miram recursos externos, artificiais, psicologicamente adequados ao seu conforto e segurança – mesmo que não saibam, não pensem sobre isso. Por outro lado, e como antítese dinâmico-existencial, há a Vontade de vida2, e o instinto animal que, em favor da espécie, deseja mais que a segurança. Não há nenhum amor aí, em nenhum dos casos – ao menos o romântico, isto é: idiotizado, maquiado, sublimado. Por outro lado, e como é mais comum e natural, há o amour de soi. E como não haveria de haver? É somente o que há; é tudo o que há. 
Quando, em 1910, Freud tratou sobre o Complexo de Édipo, descreveu-o como o desejo secreto e inconsciente que a criança tem de “matar o pai”3. É que o pai do menino, de três a cinco anos, é um seu rival em relação ao peito materno. A fase seguinte – que viria depois desta, a fálica – marcaria para sempre a vida (psicológica) do indivíduo macho, “devidamente são”: desapegar-se da mãe, reconciliar-se com o pai, encontrar, para amar, uma que seja idêntica à mãe, e não a própria. “Essas tarefas”, Freud escreve, “cabem a todos, e é notável a pouca frequência com que lidamos com elas de maneira ideal”4. Sua mãe lhe despeja no mundo, e agora é você que está, por toda a vida, grávido dela. 
Outro dia um amigo me disse, jocoso, olhando a mãe novinha que passava: “Se eu tivesse uma mãe dessas, até hoje estaria mamando”. “Mas”, eu lhe disse, “dependendo de outro gosto, outro cara pode dizer a mesma coisa da tua mãe.” “Eiii, rapaz!”, ele disse, me esmurrando de mentirinha; e ficou nisso.
Os bons leitores de John Fante sabem que seus livros são altamente biográficos. Em um deles, de 1938 – seu primeiro romance publicado –, seu nome é Bandini, Arturo Bandini; um menino de doze anos:

Era Arturo e adorava o pai, mas vivia no temor do dia em que cresceria e seria capaz de bater nele. Venerava o pai, mas achava que a mãe era fraca e tola.
Por que sua mãe era diferente das outras mães? [...] Tinha doze anos e tomar consciência de que sua mãe não o excitava fez com que a detestasse secretamente. Sempre observava a mãe com o rabo do olho. Amava a mãe, mas a odiava.5

Pobre e desmamado Arturo, sem o peito da mãe, sem o seu sexo. Era preciso buscar outros peitos, outras fontes lícitas de excitação. Talvez a mãe Jack Hawley, ou a de Jim Toland, ou a de Carl Molla6, ou talvez... Rosa7. Mas, ah! Não é a beleza que buscamos, afinal. A beleza é tão somente o atrativo, a propaganda. Buscamos é a vida, atiçados pela Vontade que, nos animais – e principalmente nos que não pensam sobre essas coisas – é cega, faz cegar. Já ouviu aquilo de “o amor é cego”?, é por aí.
Por trás do desejo erótico-estético está o desejo de segurança, da saciedade daquela fome mais primitiva – que está acompanhada de todos os nossos vícios e paixões, domados ou não8. No fim de tudo, reverbera silenciosa a voz do nosso instinto mais básico, comum a todos os bichos: autopreservação. Aquilo que ocorre ao bebê, ocorre também conosco: não ter um peito deixa-nos infeliz... é a tristeza. Quando o peito não nos falta, a vida está assegurada... somente o tédio, agora, nos assedia. Em De rerum natura, Lucrécio faz uma afirmação dolorosa: “Giramos sempre no mesmo círculo sem nunca poder sair... Enquanto o objeto de nossos desejos permanece distante, ele nos parece superior a todo o resto; se ele é nosso, passamos a desejar outra coisa, e a mesma sede da vida nos mantém em permanente tensão...9” E daí Schopenhauer, valendo-se de Lucrécio, dizer que a “vida [do homem], [...] oscila como um pêndulo, para aqui e para acolá, entre a dor e o tédio”10. E Sartre, n’O Ser e o Nada: “O prazer é a morte e o fracasso do desejo”11, e é por isso que “o desejo está fadado ao fracasso.12” Nessa historia toda, parece que não temos muitas escolhas, ou escolha.
A razão, por esse viés, nunca é suficiente, libertadora. Acima de tudo, da própria razão, da própria autopreservação, ela: a Vontade. A única liberdade estaria no suicídio, mas isso seria uma vontade contra a Vontade e, logo, um reflexo da própria. 





1 COMTE-SPONVILLE, André. A felicidade, desesperadamente. São Paulo: Martins Fontes, 2001. p. 114-5.
2 “O querer tende à vida (olho que se abre para a luz), desde as mais elementares formações até as mais complexas. Onde houver Vontade, haverá vida. Por conseguinte, para o autor [Schopenhauer], a expressão ‘Vontade de vida’ é um pleonasmo, e nada melhor a simboliza, em seu ímpeto tempestuoso, do que os órgãos genitais. Esses são o seu ‘foco’. A vida quer viver, nem que para isso o particular tenha de ser sacrificado em favor do universal (como muitas vezes, pensa-se, ocorre nos casos de paixão amorosa, ou dos animais em luta pela fêmea, e ainda de parceiros mortos após a cópula).” (BARBOSA, Jair. Schopenhauer. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003. p. 34. [Col. Passo-a-Passo, 16]).
3 “Quando um garoto (com idade de dois ou três anos) entra na fase fálica de seu desenvolvimento libidinal, ele tem sensações prazerosas em seu órgão sexual, aprende a obter prazer pela estimulação manual e vê-se como amante de sua mãe. Ele deseja possuí-la fisicamente das maneiras que imaginou por suas observações e intuições sobre a vida sexual, e procura então seduzi-la mostrando o seu órgão masculino com orgulho. Em poucas palavras, com o despertar da masculinidade, ele procura ocupar o lugar de seu pai diante de sua mãe. [...] Seu pai transforma-se então em um rival que atrapalha seu caminho e do qual ele gostaria de se livrar.” (FREUD, Sigmund. In: STRCHEY, James [Ed.]. The Standard Edition of the Complete Psychological Works of Sigmund Freud. Hogarth Press / Institute of Psychoanalysis, 1953-74. p. 189, 423-4. vols. 23, 15).   
4 FREUD, apud RAEPER, William; SMITH, Linda. Introdução ao estudo das idéias: religião e filosofia no passado e no presente. São Paulo: Edições Loyola, 1997. p. 91.
5 FANTE, John. Espere a primavera, Bandini. 2. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2003. p. 26-7.
6 “A mãe de Jack Hawley o excitava: tinha um jeito de lhe dar bolinhos que fazia seu coração ronronar. A mãe de Jim Toland tinha pernas sensacionais. A mãe de Carl Molla nunca usava nada além de um vestido riscadinho; quando varria o chão da cozinha ele ficava na varanda dos fundos em êxtase, vendo a sra. Molla varrer, os olhos ávidos engolindo o movimento dos seus quadris.” (FANTE, 2003, p. 26-7).
7 A colega de classe, no colégio, por quem ele delirava: “Uma voz como um violino suave, emitindo vibrações através de sua carne. Lá estava ela, diante dele – sua bela Rosa Pinelli, seu amor, sua garota. [...] Oh, Rosa, como você é maravilhosa. Eu te amo, Rosa, te amo, te amo, te amo! [...] Oh, olhem para os seus cabelos! Olhem para os seus ombros! Olhem para aquele bonito vestido verde! Ouçam aquela voz! Oh, você rosa!” (FANTE, 2003, p. 38).
8 E como afirma Frank Cioffi, nas anotações que faz ao manuscrito do livro de Richard Webster – Freud, escrito para a The Great Philosophers Series, editada por Ray Monk e Frederic Raphael, e publicada pela inglesa Taylor & Francis Group, em 2003 –, mencionado pelo próprio: “[Freud tem o mérito de ter tido] a coragem de desenterrar o subconsciente, solo de todo egoísmo, cobiça, luxúria, destrutividade, covardia, preguiça, ódio e inveja que cada um de nós carrega como herança do mundo animal.” (CIOFFI, apud WEBSTER, Richard. Freud. São Paulo: Editora UNESP, 2006. p. 8 [Col. Grandes Filósofos])
9 LUCRÉCIO. De rerum natura, III, 1080-1084; citado em: COMTE-SPONVILLE, 2001, p. 29.
10 SCHOPENHAUER, Arthur. O Mundo como Vontade e como Representação. São Paulo: Editora UNESP, 2005. p. 402. (IV, 57).
11 SARTRE, Jean-Paul. L’être et le néant. Paris: Gallimard, 1969. p. 467.
12 SARTRE, 1969, p. 466.


quarta-feira, 9 de maio de 2012


65.






Solidão, solidão! (Um jogral existencial)




CAETANO VELOSO
Existirmos, a que será que se destina?...

ALBERT CAMUS
Ah!, a expressão da arte, através do artista! A obra de arte surge da renúncia do raciocínio contra o concreto, que é absurdo, em reação a ele – como fizeram os gregos, contra o trágico do mundo que impera sobre o mundo. Mas a verdadeira expressão artística somente pode começar onde o pensamento houver terminado, e o resultante vazio preenchido pelo não-ser do que é comumente chamado de amor: amor à arte, amor ao Outro, amor a isso e àquilo. Certamente não é ao amor que nos destinamos. Se fosse, tudo seria claro, quente e luminoso. No mundo, e se o mundo fosse assim – claro, quente e luminoso –, não haveria a arte; e se amar bastasse, tudo o mais seria simples, muito simples. O destino de todo homem, na gratuidade absurda do mundo, é a completa, enorme e absoluta solidão...

EMMANUEL LEVINAS
Solidão do ser que é finitude e transcendência, na relação que o lança para além de si, na...

CORO
Solidão!!!

ALBERT CAMUS
Sim!, sim!, oh!, sim! Solidão! Não há saída! Aqui somos, absurdamente, estrangeiros errantes à caça de sentidos que não existem, ou liberdades idealizadas pelo delírio inequívoco da prisão, da vida que é morte... e, a não ser pelo suicídio, não há saída. Há quem prefira, aqui, pensar-se peregrino, cidadão de terras além, para onde deve retornar depois da morte: para a vida eterna e bem-aventurada. E há quem pense que, no Outro, também esteja alguma beatitude, encontrada no bom êxito de uma relação afetiva. Mas, ah!, imaginar a felicidade no encontro com o Outro é, também, absurdo – pois o Outro, como nós mesmos, também padece de ridículos inevitáveis; pois o Outro, como nós, também está vivo.

KARL JASPERS
As questões que realmente valem a pena são as que eu devo responder em minha vida real, sem a visão contemplativa e sem as fantasias. Existir é escolher, e escolher é o dever que me lança à situação-limite, aquela que, com o Outro, também solitário, me une a ele em nossa solidão.

CORO
Solidão!!!

KARL JASPERS
O Outro sou eu-mesmo, que me vejo ao espelho. Aí, diante da visão, decido-me, de-cido. O Outro se tornou o meu reflexo, o mais difuso: distorção do eu-real que nunca volta para mim como é, mas sempre outro-não-eu, com-fuso. Nele, é a mim que me vejo, e de mim-mesmo me perco. A salvação está na transcendência; mas a transcendência, novamente, me força voltar a mim mesmo, que é de onde devo partir. E eis aí, novamente, eu e a minha enorme e triste solidão...

CORO
Solidão!!!

ALBERT CAMUS
Tudo o que me interessa saber é se é possível viver sem as muletas das religiões, ou sem os apelos sobre os sentidos do mundo, para o mundo e contra a... solidão, a quem estamos condenados.

JEAN-PAUL SARTRE
E a liberdade à qual somos condenados evidencia a máxima: a solidão universal do indivíduo! Ser é ser só: para-si, para-o-outro; ser é ser-aí, e o Outro, meu objeto... E pela consciência sei do Nada que me conta histórias de outras consciências lançadas por aí, e solitárias...

CHARLIE BROWN
Solitárias como eu, escondido atrás de um muro, com medo de encarar a garotinha ruiva que passa por ali. Se não me escondo, ela me vê; vendo-me, estarei obrigado à ação: da fala ou do silêncio. Falando, gaguejarei e tremerei, e parecerei infantil e tolo; não falando, serei tomado como arrogante ou mau educado. Queee puxa!, não acredito que isso está acontecendo! Por causa dessas coisas estou sempre perturbado e...

CORO
Na solidão!!! Taran ran ran, tan ran ram… Charles Monroe Schulz e solidão!

OSWALD DE ANDRADE
Na solidão, e contra ela, fui o maior onanista de meu tempo. Comi todas as mulheres do Brasil e, em meu banquete antropofágico, estava sozinho, preso neste corpo que, como as árvores de uma República Federativa, diz “adeus” e morre...  

AUGUSTO DOS ANJOS
“Morrer!” Ah!, essa libertação do homem cativo!, essa cessação do sonho vão que é a vida, elemento cunvulsionador que se opõe ao quietismo sonolento do Eu, e à inércia da alma – a essência pura: a Falta, a podridão do não-Eu, sombra vinda de outras eras, como um fantasma que se refugia na natureza morta...   

OSWALD DE ANDRADE
Eu fui o maior onanista de meu tempo... Comi todas as mulheres, com as mãos; eu às amei em um pensamento febril e delirante...

AUGUSTO DOS ANJOS

Falas de amor, e eu ouço tudo e calo!
O amor na Humanidade é uma mentira.
E é por isto que na minha lira
De amores fúteis poucas vezes falo.

O amor! Quando virei por fim a amá-lo?!
Quando, se o amor que a Humanidade inspira
É o amor do sibarita e da hetaíra,
De Messalina e de Sardanapalo?!

Pois é mister que, para o amor sagrado,
O mundo fique imaterializado
— Alavanca desviada do seu fulcro —

E haja só amizade verdadeira
Duma caveira para outra caveira,
Do meu sepulcro para o teu sepulcro?!*

MARTIN HEIDEGGER
Sim, o homem é uma fermentação para a morte. Somente ele, ser lançado no mundo, é consciente disso e, por isso e mais, é também histórico e temporal: in der welt sein, Dasein, ser-no-mundo e facticidade. Tal facticidade reside no fato de que o homem é antecipação de si mesmo, projetando-se no mundo, e para fora dele. Mas não se deve confundir o ser-no-mundo com a res-posta não negativa de alguma relação com o Nada, contrário ao Ser. Eis aí, na não com-fusão, a esfera da temporalidade do ser. O Eu é enquanto ser-compreensão do si-mesmo histórico-temporal. E o ser consciente de si é também — e somente ele poderá sê-lo, sim!, sim! — consciente da sua solidão...

TODOS
Sim, sim, ó sim! Solidão! Ahhh, solidão!



(Surge um ator fantasiado de Snoopy, sacudindo o rabo e segurando um enorme cartaz colorido em que se lê “FIM”. A plateia fica de pé e aplaude e assovia “Bravo! Bravo!” Lá no fundo, apanhando o casaco e preparando-se para sair, John Fante reclama: Oh, Deu uta me! La stessa filosofia è una scienza colla quale o senza la quale il mondo diventa tale e quale, è vero. Aos poucos o teatro se esvazia, as cortinas se fecham, as luzes se apagam).   





* Augusto dos Anjos, colocado como personagem, cita o seu soneto “Idealismo”, na íntegra. Ver em: ANJOS, Augusto dos. Eu. João Pessoa: Editora Universitária / UFPB, 1999. p. 59. Exceção feita a ele, todas as falas dos demais personagens (autores) são resumos adaptados daquilo que é mais vulgar em seus pensamentos, e no que diz respeito ao tema do jogral.     

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