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domingo, 3 de junho de 2012


3.






Glória, vergonha e desejo de status



A glória, a vergonha e o uso que fazemos dessas paixões, são os temas dos artigos 204, 205 e 206 da terceira parte d’As paixões da alma (“Das paixões particulares”), de René Descartes, escrito e publicado em 1649.

O que recebe aqui o nome de glória”, ele diz, “é uma espécie de alegria fundada no amor que se tem por si próprio e que provém da opinião ou da esperança de sermos louvados por alguns outros.1

Ah!, que esplêndidos são os franceses nessas análises da alma humana: Descartes, Stendhal, Montaigne, Camus, Sartre, Comte-Sponville, et cetera. Nosso desejo da glória, como nosso desejo de status (Alain De Botton), é o desejo de sermos amados, notados por alguma posição superior que ocupemos, nos elevando acima do nível comum dos simples mortais2. A vergonha, é o contrário: o fracasso diante do intento falho, da conquista frustrada, do plano falido; o olhar recriminatório por uma ação malfada. É, nas palavras de Descartes, “uma espécie de tristeza também fundada no amor a si próprio e que provém da opinião ou do temos de sermos censurados”.3 Pascal diz algo muito semelhante, também ligado à finalidade do status: “Somos tão presunçosos que desejaríamos ser conhecidos por toda a terra, e até pelas pessoas que vierem quando nela não estivermos mais, e somos tão vãos que a estima de cinco ou seis pessoas que nos cercam nos diverte e nos contenta.”4
No início e no começo de tudo, está o Eu (consciente). É daí que nos lançamos de encontro ao Outro e ao Mundo, nossos objetos – para o bem ou para o mal, e para o nosso bem, de um jeito ou de outro5. Nenhuma ação nossa – incluindo a autopunição, a comiseração ou mesmo o suicídio (como outro francês, Pascal, dizia6) – visa à infelicidade, mas somente o nosso bem, a nossa felicidade (Platão)7, finalidade de todas as nossas ações (Aristóteles)8.
Descartes acerta quando diz que ambas as paixões – glória e vergonha – têm o mesmo uso (do modo que falamos); erra, porém, quando afirma que esse mesmo uso está no fato de ambas “nos incitarem à virtude, uma pela esperança, outra pelo temor”9. A virtude, aí, ainda é aquela que o bom filósofo – segundo Aristóteles – mira como prêmio, confundindo-a com a própria sabedoria10. Estamos no século XVII, e a Modernidade nascente é filha, filha e dependente, da Antiguidade e Antiguidade Clássica. Não é fácil ser original e revolucionário.   
Acontece que Descartes, também, não conseguiu fugir do socratismo-platônico, e nem da influência moral da cristandade-ocidental. Esse é o grande erro de quase todos os grandes escritores que são a favor ou contra o cristianismo; é o erro vulgar dos que mantém concepções dualistas sobre o certo e o errado, o bem e o mal, et cetera. Nietzsche foi o autor que mais se aproximou de tal proposta, lançando-se para Além do bem e do mal, anunciando uma filosofia para o futuro11; com que sucesso?
É preciso criar uma nova maneira de tratar sobre as paixões, contemplando o Eu não como coisa nociva à alguma virtude moral, ou contrário a ela, mas como inevitabilidade dinâmico-natural do humano – e condição unívoca: além do bem e do mal. O amor romântico, nisso tudo, é apenas uma interface da coisa toda. E quando falo de amor, não é nenhuma outra coisa que não a Vontade, mascarada pelo idealismo romântico como coisa supralunar, transcendente, etc.
Novamente a afirmação, essencial: ideias fazem amor, pessoas fazem sexo. Viver na mentira é uma opção, mas não é a melhor – por mais que os apelos de todos os lados digam o contrário.





1 DESCARTES, Les Passions de l’Âme (§ 204). Na tradução que utilizo (de J. Guinsburg e Bento Prado Júnior): DESCARTES, René. As paixões da alma. São Paulo: Nova Cultural, 1996. p. 236. (Col. Os Pensadores). 
2 “Nossa posição na escala social é o cerne desse desejo”, Botton afirma, e completa: “porque a concepção que temos de nós mesmos depende muito do que os outros pensam de nós. Excetuando uns raros exemplos (Sócrates, Jesus), precisamos de sinais de respeito do mundo para nos considerarmos toleráveis”. (BOTTON, Alain de. Desejo de status. Rio de Janeiro: Rocco, 2005. p. 8). E, mais adiante: “Dinheiro, fama e influência podem ser avaliados mais como provas de amor – e um meio de se chegar a ele – do que como fins em si mesmos.” (BOTTON, 2005, p. 15).
3 Passions (§ 205). DESCARTES, 2006, p. 237.
4 Pens., § 148. PASCAL, Blaise. Pensamentos. 4. ed. São Paulo: Nova Cultural, 1998. p. 77. [Col. Os Pensadores]).
5 Algo bem próximo ao que é dito por Cioran em sua História e utopia: “Viver verdadeiramente é recusar os outros; para aceita-los, é preciso saber renunciar, violentar-se, agir contra a sua própria natureza, enfraquecer-se; só se concebe a liberdade para si mesmo; só se estende ao próximo à custa de esforços extenuantes.” (CIORAN, E. M. Histoire et utopie. Paris: Editions Gallimard, 1960. p. 12). É evidente que a má compreensão de tal individualidade, como nota Henry Méchoulan, pode ter consequências terríveis (cf. MÉCHOULAN, Henry. Liberdade de consciência e liberdade de religião. In: _____. Dinheiro & liberdade: Amsterdam no tempo de Spinoza. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1992. p. 116-17). Eu não chegaria a tanto, e nem levarei o tema adiante – por hora. 
6 “Todos os homens procuram ser felizes; não ha exceção. [...] Esse é o motivo de todas as ações de todos os homens, até mesmo dos que vão se enforcar.” (Pens., § 425. PASCAL, Pens., 1998. p. 137).
7 No Eutidemo (278e), Platão, antes de Aristóteles e muito mais ainda de Pascal, perguntava: “Não é verdade que nós, homens, desejamos todos ser felizes?” E a resposta, de tão evidente, como nota o próprio Platão, quase não vale a resposta: “De fato, quem não deseja ser feliz?” (Eutidemo, 278e). Daí a afirmação de Comte-Sponville, “a busca da felicidade é a coisa mais bem distribuída do mundo” (COMTE-SPONVILLE, André. A felicidade, desesperadamente. São Paulo: Martins Fontes, 2001. p. 2), parafraseando Descartes – no primeiro parágrafo d’O Discurso do Método: “O bom senso é a coisa do mundo melhor partilhada”. (DESCARTES. Discurso do método. São Paulo: Nova Cultural, 1996. p. 65. [Col. Os Pensadores]).
8 “Parece que a felicidade, mais que qualquer outro bem, é tida como este bem supremo, pois a escolhemos sempre por si mesma, e nunca por causa de algo mais, embora as escolhamos por si mesmas (escolhe-las-íamos ainda que nada resultasse delas), escolhemo-las por causa da felicidade, pensando que através delas seremos felizes. Ao contrário, ninguém escolhe a felicidade por causa das várias formas de excelência, nem, de outro modo geral, por qualquer coisa além dela mesma.” (Et. Nic., 1097b, 5. ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. São Paulo: Nova Cultural, 1996. p. 125. [Col. Os Pensadores]). E, na introdução d’A política: “Todas as ações dos homens têm por fim aquilo que consideram um bem.” (ARISTÓTELES. A política. São Paulo: Martins Fontes, 2000. p. 1).
9 Passions (§ 206). DESCARTES, 2006, p. 237.
10 “O prêmio da virtude é a virtude mesma” (virtus sibi ipsi praemium), Aristóteles afirma (Et. Nic., 1106b-1107a, 1-3) e, nisso, inaugura uma nova fase à filosofia, que irá descambar na afirmação da certeza do Eu individual (Agostinho, Lutero, Descartes). “Com Aristóteles”, diz Roberto Rossi, “a filosofia começa a se estruturar como um todo unitário, uma visão completa do real, do homem e do seu destino, um conjunto articulado logicamente, um sistema indiscutivelmente modelar para a filosofia. Nele o pensamento filosófico seguinte procurará ‘aprisionar’ a realidade e com ela a verdade, chegando a identificar esta última com o próprio sistema, o pensamento com o seu objeto. A verdade assume, assim, as características imanentes do instrumento racional e do seu uso correto. Ela não parece mais alter do filosofar, mas é identificada com ele e com a sua articulação e conclusão coerentes”. (ROSSI, Roberto. Introdução à filosofia: história e sistemas. São Paulo: Loyola, 1996. p. 46).
11 No prólogo de Para além do bem e do mal (Jenseits von Gut und Böse. Vorspiel einer Philosophie der Zukunft, 1886), escrito em junho de 1885: “O cristianismo é platonismo para o ‘povo’.” Nietzsche denuncia o fracasso da empresa cristã, viciada nos erros da infantilidade humana; era preciso amadurecê-la, torná-la adulta; mas não havia como apressar as etapas, desconsiderando o fator “tempo”: salto cego adiante... e ele dizia haver nascido póstumo. Aliás, o título do livro, acima, já é, em si, mensagem e anúncio dessa boa-nova, “evangelho sem evangelho”. (NIETZSCHE, Friedrich. Além do bem e do mal: prelúdio a uma filosofia do futuro. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. p. 8).


segunda-feira, 16 de abril de 2012

57.





De l’amour



Na primeira vez que li Do amor (De l’amour, escrito em 1820 e publicado em 1822), de Stendhal, Fernanda, uma amiga querida, pensando que se tratava de um romance, perguntou:
– Como é a história?
– Não tem história, Fernandinha – respondi.
– Ué!?
– São textos e análises sobre o amor no Ocidente, de todas as maneiras que, parece, o autor conseguiu tratar.
– Humm. É tu gosta dele?, concorda com ele?
– Gostar, gosto. Concordar, não é bem algo que se concorde ou deixe de concordar, mas...
– Ué!?
– É que Stendhal quase consegue ser mais platônico que o próprio Platão. Suas teses, divagações, digressões, analogias, metáforas, anedotas, máximas, mínimas, fragmentos, os conceitos, as notas e todas as comparações entre as manifestações do amor aqui e acolá, sucumbem sob uma única e impiedosa constatação que faço a máxima das minhas máximas, contra tudo e contra todos que, iludidos pela farsa dos idealismos milenares, sublimam as afecções da alma, romantizando o espírito da corte: ideias fazem amor, pessoas fazem sexo.
– Humm.
E ficou nisso.  



domingo, 15 de abril de 2012

56.





Do “amor ao próximo”, e como exercê-lo



Estou na rodoviária de João Pessoa, em uma fila. Devo comprar uma passagem para o ônibus que sai às 18:30, para Campina Grande.
Assim que cheguei fui abordado por um homem de aspecto bastante cansado. “A vida não foi generosa com esse cidadão”, pensei. Ele, na fila, olha para mim e diz que faz transporte alternativo de João Pessoa à Campina, e que, se eu quiser ir com ele, é o mesmo preço do ônibus, e somente falta mais um passageiro para completar a lotação. Agradeço e digo que vou de ônibus mesmo. Lembro-me de que, em outras vezes que tive de ir assim, os motoristas ligavam o som do carro muito alto, tocando essas bandas que fazem “forró estilizado”, como dizem alguns que tentam fugir da alcunha pejorativa de “forró de plástico”. Fico feliz de ter passagens e a fila não estar muito grande. É uma fila única.
Uma mulher, segurando uma mochila em uma mão e uma marmita na outra, chega logo depois de mim. “Será que ainda tem para as seis, hem?” “Acho que não, senhora. Para as seis e trinta, deve ter”, respondo. O homem da lotação lhe faz a mesma proposta. Mas ela, também, diz que prefere ir de ônibus e, de todo modo, precisa aguardar o filho que logo deve chegar para ir com ela. O homem se afasta, procurando os dois passageiros que faltam.
– Não gosto de ir de alternativo. – Ela me diz. Concordo.
– E alguns são bem irresponsáveis, e mal educados. – Digo. Ela concorda com um sorriso amistoso.
Não demora nada e chega outra mulher. O cabelo dela é curto, estaqueado e precariamente pintado de louro, com a raiz visivelmente enegrecida. É a segunda na fila, depois de mim. Até aí havia dois vendedores nos guichês; agora, somente um. A primeira pessoa da fila, embora o atendimento esteja agora à sua direita, permanece imóvel, com sua cara de Gioconda espelhada no vidro do guichê fechado. A fila inteira se mantém assim, uma pessoa atrás da outra, e todas atrás dessa primeira. Em sinal de inconformismo, mudo de lugar, como se houvesse uma fila invisível entre o guichê e eu. Outros me seguem. Daí a pouco todos notam o movimento da fila e, agora, estão posicionados em frente ao guichê aberto.  
Alguém me cutuca as costas. Olho para trás. É a senhora que não gosta de andar de lotação.
– Licença, moço. O sr. pode levantar o pé? É que...
Olhei para o chão e vi que estava pisando sobre sua sandália, de couro, muito fina. Se ela não dissesse nada, juro que não teria notado. O meu sorriso se acompanhou de um “opa!, me desculpe; eu não percebi.” Ela riu também, como a dizer que “está tudo bem”. Foi aí que eu notei que a outra mulher, que estava atrás dessa, a de cabelos mal pintados, agora estava bem a minha frente. Tive vontade de perguntar bem alto a todos da fila: “Mais alguém que tomar o meu lugar?, quer furar a fila?” Não disse nada. Mas me irritou profundamente o fato de essa mesma criatura, na hora de comprar a passagem, dizer que “é para as oito horas, moço”, e ainda estar toda atrapalhada com o cartão de crédito, sem saber qual é a senha e tendo de fazer ligações não sei para quem para que este Não Sei Quem lhe dissesse qual era a sua senha. Finalmente ela conseguiu, e se afastou sem olhar para trás.
– Ela passou à nossa frente, não foi? – A mulher da sandália de couro me pergunta, para confirmar ao filho que realmente era isso que havia ocorrido.
– Pois é. – Respondo – E ainda mais para comprar uma passagem somente para às 20:00.
Passagem comprada, disponho ainda de algum tempo antes de partir. Vou a uma banca de revistas que há no piso superior, lá bem à esquerda. Compro um exemplar de Do amor (L&PM, 2011), livro de Stendhal, escrito em 1820, depois de sua frustrada paixão por Matilde Dembowski, uma milanesa que arrasou o seu coração – é só ler o referido livro que, mesmo a alma mais desatenciosa, nota-o. Publicado em 1822, o Do amor faz referência às cortes de amor: “Houve cortes de amor, na França, entre os anos 1150 e 1200. Eis o que se encontra provado. Provavelmente a existência de cortes de amor remonta a uma época bastante anterior.” E por esse período que, conforme nota Stendhal, surge o amor cortês, o cortejar a mulher amada, o romance na corte. “Quantos livros será que eu já tive e estou tendo de comprar novamente?”, me pergunto, lembrando-me de todos os livros que, meus, foram perdidos pelo meu irmão, em sua mudança de São Paulo para Vinhedo. Eu precisava readquirir este livro, se quisesse ser respeitado nos juízos que faço sobre o amor, como venho fazendo neste meu Grande livro do amor. Stendhal foi, desde cedo, e para ele, minha principal referência – se não nas ideias, na estética. Folheei o livro por alguns instantes, até a hora de embarcar.
Ainda no guichê, notei que quase não havia mais assentos à janela. Comprei a poltrona 47, uma das duas que restavam. Quando embarquei, vi que havia uma garota ocupando a referida poltrona, conversando alegremente com outra, sentada ao seu lado. Depois de guardar a mochila, olhei para ela, dizendo: “Com licença. Parece que essa cadeira é minha.” Ela me apontou com olhos as duas cadeiras mais atrás, na outra fila, uma delas ocupado por um senhor de bigodes grisalhos e rosto sereno.
– Tu se incomoda de sentar nessa daí? É que eu e ela...
– Me incomodo, sim. – Interrompi as suas explicações.
– Ok! – Ela levantou e foi para o seu lugar, como tinha de ser. Não me disse mais nada e, parece, também não tinha nada de importante a conversar com outra. Trocaram duas ou três palavras e, ela mesma, ao meu lado, ficou ouvindo música, com fones enfiados em seus ouvidos. Sentei em meu canto e tentei inclinar o banco o tanto que pudesse. “Tomara que eu consiga dormir logo”, pensei. E não preciso dizer que, por toda a viagem, ninguém mais me incomodou.
O melhor do amor ao próximo se resume nisto: não incomodá-lo.



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