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quarta-feira, 2 de maio de 2012


63.





Do Amor de Maria de Lourdes



A primeira vez que fui a Salvador foi em 2004. Eu fazia, na época, mestrado em Filosofia, na UFPB, e havia inscrito uma comunicação – “Algumas considerações sobre o ‘cogito’ agostiniano”  – no XI Encontro Nacional de Filosofia da ANPOF (Associação Nacional de Pós-Graduação em Filosofia).
Em uma das noites, no alojamento, acordei com barulhos abafados e ofegantes. Debaixo dos cobertores e acoitados pela escuridão, um casal de amigos fazia sexo, sem se importar de estar ao meu lado, separados por menos de quatro palmos. “Ó os maluco tudo fazendo maluquice, meu!”, pensei, enquanto virava para o outro lado, deixando que os dois ficassem “na boa”. “Essa galera está ficando sem limites.” E não me lembro de haver pensado em mais nada naquela noite.
Na noite do segundo dia houve o lançamento de alguns livros. Um deles foi o da professora Maria de Lourdes Borges, Amor, da coleção passo-a-passo, da carioca Jorge Zahar Editores. Comprei pelo título, sem ao menos folheá-lo. “Talvez seja útil às minhas pesquisas sobre as várias faces do amor ao longo dos séculos”, pensei. Ha ha, me enganei.  
O livrinho, de apenas 64 páginas, é dedicado “a um certo A.”, que ela revela ser o seu “estóico preferido”. “Uma fala da paixão”, foi a primeira impressão que tive, tão logo abri o referido. Ironicamente, é contra a paixão – que, do latim, pode ser traduzida como perturbatio, “perturbação” –, ou aqueles apetites que trazem intranquilidades à nossa alma, que a filosofia estoica mais se posiciona, se impõe. “Maria de Lourdes deve saber disso”, pensei. Na interpretação que faz a um texto de Sêneca, ela afirma: “Toda perturbação da alma é nociva para a vida do sábio, logo, toda perturbação deve ser aniquilada. Se todo o amor for perturbação, então o sábio deve tentar extingui-lo”. “Bem”, concluí, “ela não disse em lugar algum que era estoica”. No mais, e em uma leitura bastante superficial, estava clara a confusão que ela fazia entre o que poderíamos chamar de amor romântico (produto do idealismo), amor sensual (resposta favorável dos sentidos aos apelos do mundo externo) e a pura paixão – a perturbatio interna que, conforme os estoicos e a doctrina christiana, deve ser domada, seja por uma ética própria (autônoma) ou sublimada (heterônoma). A ética estoica – a mais autônoma, antes de Kant – é profundamente marcada por essa objetivação da vontade no equilíbrio que condiciona a própria vontade ao curso da vida, do modo mais natural possível; isto é: sem os extremos excessivos que nos fazem despencar ou na intrepidez estúpida ou na covardia confessa, ou no amor idiotizado ou no ódio irracional. O ideal estoico visa a ataraxía, a imperturbabilidade. O amour de soi, no Amor de Maria de Lourdes, não entra nem em nota de rodapé. Como “não entra”? Entra sim. Está em todas as páginas, mas não é tratado como tal – o que é uma pena. Uma falha lamentável.
Desprezei o Amor de Maria de Lourdes; sem julgar, porém, que fosse um desperdício de papel. Mas, afinal, de que vale repetir ideias e conceitos de pensadores velhos e mofados, sem que se faça qualquer crítica às diferenças dessas mesmas ideias e conceitos, à luz da contemporaneidade? E mais: que relevância tem o “filósofo” que deita e rola emparedado no mais elementar do senso comum? Há livros feitos para melhorar a vida das pessoas, e livros feitos para melhorar a vida dos editores e dos autores. O seu é assim, como esses últimos.
Em meu exemplar de Amor, a dedicatória que me foi feita, com caneta BIC azul, tem cara de ironia: “Para Antônio, para que aprenda um pouco sobre o amor, Mª de Lourdes”. Se for para aprender assim, não quero não.
. . . . .
Hoje é o último dia da primavera de 2009. É um dia quente. Vejo à minha frente, sempre que ergo a cabeça, o quadro que tem uma borboleta pintada por minha mulher, Mabel, ainda quando criança. Na pintura, a borboleta não tem flor alguma, não repousa sobre nada. O amor romântico, Maria de Lourdes, é uma borboleta pintada; o mais, a ele ligado, desejado como transzendez, é fantasia de criança.



terça-feira, 20 de dezembro de 2011

20.



Do amor ideal e dos amores possíveis


Maria Eloísa, depois de um ano de casada, largou do João Carlos. Seis meses depois, quando estive em São Paulo, ela me apresentou o seu terceiro namorado pós-divórcio.
“Estou procurando alguém que seja ideal para mim.” Confidenciou-me, como quem se justificava.
“Ora, Eloísa”, respondi, na maior serenidade estoica, e armado com o realismo aristotélico, “se você encontrar alguém que seja ideal para você, então esse alguém não poderá ser seu; porque, senão, será alguém real. E você deve saber que alguém real nunca é o que a gente quer que ele, ou ela, realmente seja”.
Eloísa ficou confusa, fez gestos de quem estava tonta, e riu da brincadeira. Depois esboçou um chorinho, como se a ficha tivesse caído.
“É foda!, né, Patativa? Parece que a gente nunca acerta essa porra!, ou, quando acerta, não sabe que acertou. E a gente vai vivendo assim, nessa eterna insatisfação.”
“C’est la vie, mon petit.” Disse-lhe, enquanto ela me abraçava, soluçando. “E é bom que seja assim, para que a gente aprenda a respeitar os amores possíveis.” Não lembro se disse mais alguma coisa. 
Eloísa, semana passada, enviou-me um convite para o seu novo casamento. O nome do homem que vem impresso, nele, não é daquele a quem fui apresentado. No envelope branco, enfeitado de maritacas, está escrito, com a letra dela: “Meu lindo!, mais vale um pássaro na mão do que dois na contramão; não é?”
Melhor definição de “amor possível”, impossível.
A vida quer viver, e a Vontade da vida impera sobre tudo.


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