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sexta-feira, 30 de novembro de 2012




24.






De uma hermenêutica para o sublime




A alma da vastíssima literatura romancesca que entope livrarias, sebos e bancas de revistas – com os acessíveis pocket books e brochuras1 –, está na mesma linha vertical da ortodoxia teológica, que consigna a veracidade do amor à imediata experiência do numinoso, na subjetividade natural do sentimento de “sublime”, preso à ideia platônico-cristã de um Sumo Bem – mesmo que isso somente se dê no nível do inconsciente. O Summum Bonum seria a finalidade e a fonte originária de onde surgem e por onde se mensuram todos os corações perfeitos, e os bons pensamentos, e os nobres sentimentos das almas piedosas, etc.
“Nós o amamos porque ele nos amou primeiro”, é são João evangelista quem diz2. E Sócrates, repetindo o que teria escutado de Diotima de Mantinéia:

[...] Quando então alguém, subindo a partir do que aqui é belo, através do correto amor aos rapazes, começa a contemplar aquele belo, quase que estaria a atingir o ponto final. Eis, com efeito, em que consiste o proceder corretamente nos caminhos do amor ou por outro se deixar conduzir: em começar do que aqui é belo e, em vista daquele belo, subir sempre, como que se servindo de degraus, de um só para dois e de dois para todos os corpos belos, e dos belos corpos para os belos ofícios, e dos belos ofícios para as belas ciências, até que das ciências acabe naquela ciência que nada mais é senão daquele próprio belo, e conheça enfim o que em si mesmo é belo.3

Justino de Roma, depois de procurar um mestre pitagórico e ser rejeitado, procura outro, um platônico. E logo “julgava ter-me tornado um sábio”, ele diz, “um sábio em tão pouco tempo, e totalmente esperava em breve ver o próprio Deus – pois tal é o fim da filosofia platônica.4” O “belo em si mesmo”, na fala de Sócrates, transforma-se, com Justino, no próprio Deus, Summum Bonum. Foi assim que a “filosofia cristã” se apoderou da filosofia pagã (e da teologia judaica) e recriou o mundo, rebaixando o Eros grego em favor do seu ágape: “Quem ama é nascido de Deus e conhece a Deus. Aquele que não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor.5” É João, novamente. E o amor, aí, somente é perfeito se estiver ligado ao ágape, que é perfeito, e medido por ele.
Inventamos o sublime porque não desejamos a realidade tal qual é ela: nua, fria, insensível, desesperada e... mortal. Sim, basta que Eu morra para que a realidade de tudo, inclusive de Deus e do seu Espírito, despareça comigo. “Sei que sem mim Deus não pode viver um instante sequer / Se eu for aniquilado, também o seu espírito tem de necessariamente extinguir-se.6” A sensação da finitude temporal nos apavora e, conhecendo a não-eternidade deste mundo, inventamos a eternidade de um mundo extramundano, com um novo destino após o nosso tempo no mundo de agora. No tempo passado, o que morre são as consciências da realidade, individuais ou coletivas... históricas. E o mundo continuará, sem mim. E daí a permanente mudança de valores morais, de preferências estéticas, de ideias e ideologias: políticas, religiosas, etc. Nada é estanque, no mundo.
Para sobreviver ao espírito do tempo (Zeitgeist) e para fortalecerem-se diante das ameaças atrativas das minorias em oposições, em transformações, religiões e partidos políticos, dentre outros grupos ideológico-sociais, carecem da adesão dos diferentes, dos avulsos, dos contrários ou indiferentes. Para tanto, prometem em suas confissões de fé ou estatutos: felicidade, algum tipo de riqueza, algum tipo de liberdade e, naturalmente, a satisfação do espírito... com um objetivo dado à sua vida – imergido o indivíduo na coletividade dos que professam o mesmo ânimo, respirando (conspiram) os mesmos ares de fé na verdade da verdade do que acreditam.
O método teológico – aqui referido enquanto “ponte para o sublime” e, naturalmente, para a vaga noção romântico-idealista fundamental –, funciona através de saltos: da fé, pela fé (os absurdos escandalosos, paradoxais)7, e cosmológico/ontológicos (como na grande crítica de Kant)8. O que a hermenêutica teológica aplicada à matéria de bibliologia, ensinada em academias teológicas, prova, por exemplo? Que a Bíblia é um livro antigo escrito por muitas mãos, em várias épocas, com estilos variados e em línguas diferentes; que alguns dos seus relatos têm fundamentação histórica comprovada; que alguns dos seus personagens foram pessoas que realmente viveram e sentiram o peso deste mundo, como qualquer humano comum, etc. É quando parte daí, do puramente horizontal – exigindo fé na fé que esses homens e mulheres antigos tinham, conforme surgem no antigo livro –, que ocorre o salto: na verticalidade que a fé propõe, cortando a linha que prende a pipa ao chão e ao seu dono. Quanto ao seu voo, porém, quem sabe ao certo para onde os ventos a levará? A hermenêutica bíblica, na analogia, é o vento.
Na palestra de Vattimo, A tentação do realismo, uma frase de Nietzsche abre, de cara, o primeiro parágrafo, e depois reaparece por toda parte: “Não existem fatos, somente interpretações; e esta também é uma interpretação.9” E o próprio Vattimo revela a sua intenção com o uso que faz da referida: “Não estou [...] pretendendo que a hermenêutica, sintetizada na frase de Nietzsche, seja a descrição mais adequada da cultura tardo-moderna”, ele diz. “Defendo, pelo contrário, que ela é a interpretação mais razoável.10” Acontece que toda interpretação parte de um universo particular, aquele ao qual é preso o seu intérprete: língua, história, geografia, existencialidade, situação psicológica, et cetera. É nesse sentido que “o argumento lógico contra o cético nunca convenceu alguém a abandonar as próprias ‘convicções’ céticas.11” Sim, de fato. Nas palavras de um desses, Paul Valéry:

Repugna-me a todos que querem me convencer – Um partido, uma religião em procura adeptos, que desejam o nome e a propagação, são cheios (para mim) de ignomínia. Uma doutrina deve, para ser nobre, em nada ceder ao desejo de ser compartilhada. Que ela seja como ela é, ou que ela não seja.
Eu não desejo fazer aos outros o que eu não quero que me façam.
[...] – Ter razão. Desejo de ter razão – Propagar. Desejar convencer
Isso conduz aos milagres... à “publicidade”.12

E:

“Toda emoção, todo sentimento é uma marca de defeito de adaptação.13” Ou: “Toda a vida afetiva não passa de besteira e circulo vicioso.14” Noutra parte, a sentença “Quem faz o bem por dever o faz mal, e o faz sem arte”15, depõe tanto contra a ética autônoma kantiana quanto a heterônoma, da filosofia/teologia Clássico-Antiga. Valéry chuta conceitos e explode consensos, anunciando que “Tudo o que é humano me é estranho.16” Mas, ainda assim, ah!, eis aí o homem; o homem que estranha.
Com Valéry, e no que toca à certeza das palavras que apontam para uma realidade final e absoluta, mergulhamos em um fosso conceitual, sem escadas ou fendas por onde possamos nos animar à escalada, em direção a alguma luz anunciada ou que se anuncie. As palavras, como o mundo, o tempo e a nossa compreensão de mundo e tempo, estão em movimento.
O sentimento imediato, ante o objeto – real ou imaginário – fenomenologicamente dado, é a única realidade que possuo, e sem outras garantias que não as sensuais. Por isso, no final, ainda é o Eu quem fala e aparece, também alterado: amando, odiando, desejando isso ou aquilo; ora inventando deuses e afecções sublimadas, ora destruindo velhos ídolos à base de marteladas. De um jeito ou de outro, é a realidade da vida o que se vê, aí, lançada e desnuda na casa cheia de convivas famintos, vorazes. No mais, é o escape delirante (através da arte, da religião, da esperança na esperança, da fé na fé, etc.) contra o concreto... Como na frase que vi em algum lugar: Acreditamos na utopia, porque a realidade nos parece inacreditável.
Inventamos o cotidiano e, com ele, impressos no papel ou em nosso inconsciente, os romances bons e baratos e preciosos – as doses diárias do ópio que nos mantém sedados –, contra a realidade da vida, que é dor, deserto e desolação. O Caeiro de Fernando Pessoa dizia que “sentir é estar distraído”. Sim, é; e amar, também.





1 Agora mesmo (novembro de 2011), enquanto escrevo, um livro de Natalie Anderson, Brilho no olhar, compõe o volume 51 da Coleção Modern Sexy, da série Maverick Millionaires, da editora Harlequin. Na apresentação editorial: “Ela não deveria se aproximar de seu chefe mal-humorado… Os opostos se atraem? Rude e rebelde, Lorenzo Hall é um homem que construiu a própria fortuna começando do nada. E agora ele tem um novo objetivo na vida: descobrir se sua assistente pessoal é tão certinha e recatada quanto parece. É claro que Sophy deveria fazer de tudo para não deixá-lo se aproximar. Mas com aquele corpo e aquele brilho no olhar, seria muito difícil não ceder à tentação…” Esse é tom de tais romances – e sem desmerecê-los, pelo fato de serem populares –, com suas naturais variações. A questão, como eu a coloco aqui, também não poupa os romances clássicos, de capa-dura, vendidos em lojas chiques e livrarias de shoppings. Nas bancas, além das brochuras da série Maverick Millionaires, as séries Bianca, Julia, Super Julia, Sabrina – que apareceram no início dos anos sessenta – e Best-Sellers, sempre alcançaram tiragens enormes, e até hoje, quando os novos títulos e séries, seguindo o nicho sempre renovado, surgem.
2 1 João, 4, 19. In: A Bíblia Sagrada: Antigo e Novo Testamento. Deerfield, EUA: Vida, 1993. Edição Contemporânea.
3 PLATÃO. O banquete, 211c. In: _____. Diálogos. 2. ed. São Paulo: Abril Cultural, 1983. (Col. Os Pensadores).
4 ROMA, Justino de. Diálogo com Trifão, 112; P.G. 6, 460-66. GOMES, C. Folch. Antologia dos Santos Padres: páginas seletas dos antigos escritores eclesiásticos. 2. ed. São Paulo: Edições Paulinas, 1979. p. 70.
5 1 João, 4, 7b-8.
6 Citado em: SCHOPENHAUER, Arthur. O mundo como vontade e como representação. São Paulo: Editora UNESP, 2005. p. 190. (II, § 25).
7 Aqui, novamente, volto a Kierkegaad, na leitura de Camus: “O cristianismo é o escândalo, e o que Kierkegaard pede com simplicidade é o terceiro sacrifício exigido por Inácio de Loyola, aquele com o qual Deus mais se delicia: ‘o sacrifício do Intelecto.’ Esse efeito do ‘salto’ é bizarro, mas não deve nos surpreender mais. ele faz do absurdo o critério do outro mundo, enquanto não passa de um resíduo da experiência deste mundo. ‘Em seu fracasso’, diz Kierkegaard, “o crente encontra [como em Abraão] o seu triunfo’.” (CAMUS, Albert. O mito de Sísifo. Rio de Janeiro: Edições BestBolso, 2010. p. 47). Paradoxo porque o movimento da fé, uma vez compreendido pelo intelecto, não pode mais efetivar o seu sacrifício: “Não posso realizar o movimento da fé, não posso cerrar os olhos e lançar-me de cabeça, pleno de confiança, no absurdo; tal coisa é impossível, mas não me vanglorio por isso.” (KIERKEGAARD, Sören. Temor e tremor. Lisboa: Guimarães Editores, 1990. p. 47).
8 Os argumentos “cosmológicos”, reduzidos a ontológicos, segundo Kant (1724-1804) – na linha dos de Anselmo de Cantuária (c. 1033/1034-1109) e Tomás de Aquino (c. 1225-1274), entre os autores principais –, são argumentos do tipo a priori, e são falhos. Uma prova cosmológica, segundo Kant, “formula-se assim: se algo existe, deve existir, também, um ser absolutamente necessário. Ora, pelo menos existo eu próprio; logo, existe um ser absolutamente necessário... Mas a prova prossegue e conclui que o ser necessário só pode ser determinado de uma única maneira, isto é, somente mediante um dos predicados, de entre todos os predicados opostos possíveis, e, por conseguinte, deverá ser integralmente determinada pelo seu conceito. Ora, só pode haver um único conceito de coisa que determine a priori esta coisa, ou seja, o conceito de ens realissimum; portanto o conceito de ser soberanamente real é o único pelo qual pode ser pensado um ser necessário, isto é, existe necessariamente um Ser supremo.” Kant continua: “Neste argumento cosmológico reúnem-se tantos princípios sofísticos que, a razão especulativa, parece, aqui, ter desenvolvido a sua arte dialética, a fim de produzir a máxima aparência transcendental possível... Para bem, ao assegurar o seu fundamento, a prova estriba-se na experiência, dando assim a impressão de se distinguir da prova ontológica, que deposita toda a confiança em conceitos puros a priori. Mas a prova cosmológica só serve desta experiência para dar um único passo, a saber, para se elevar à existência de um ser necessário em geral. O fundamento empírico da prova nada nos pode ensinar acerca dos atributos deste ser; então a razão afasta-se dele, inteiramente, e por detrás de simples conceitos investiga os atributos que um ser absolutamente necessário em geral deve possuir... Mas, é claro, pressupõe-se, aqui, que um ser dotado da realidade suprema satisfaz plenamente o conceito de necessidade absoluta na existência... eis uma proposição sustentada pelo argumento ontológico, que assim se admite e dá por fundamento ao argumento cosmológico, o que se pretendera evitar.” (KANT, Immanuel. Kritik der reinen Vernunft. Leipzig: Felix Meiner, 1926. p. 576-78).
9 VATTIMO, Gianni. A tentação do realismo. Rio de Janeiro: Lacerda Ed.: Instituto Italiano di Cultura, 2001. p. 17. (Col. Conferências Italianas, 1).
10 VATTIMO, 2001, p. 28.
11 VATTIMO, 2001, p. 21. Ou: “Como tentei mostrar em Oltre I’interpretazione, a hermenêutica se configura como puro e perigoso relativismo só se não se leva bastante a sério as próprias implicações niilistas. Posto que a ‘verdade da hermenêutica’ como teoria alternativa a outras (e antes de tudo ao conceito de verdade como ‘reflexo’ dos ‘fatos’) não pode se legitimar pretendendo valer como uma descrição adequada de um estado de coisas metafisicamente estabelecido (‘não existem fatos, somente interpretações’) mas deve reconhecer-se também como uma interpretação, a sua única possibilidade é a de argumentar-se como tal, quer dizer, como uma ‘descrição’ interna ou leitura sui generis da condição histórica na qual é lançada e que escolhe orientar numa direção determinada, pela qual não existem outros critérios a não ser os que herda, interpretando, desta mesma proveniência.” (VATTIMO, 2001, p. 29-30). 
12 VALÉRY, Paul. Au sujet du ‘Cimetière Marin’. In: _____. Œuvres. Paris: Bibliothèque de la Pléiade / Gallimard, 1973. p. 132-133. v. 1.
13 VALÉRY, 1997, p. 354. v. 2.
14 VALÉRY, 1997, p. 382. v. 2.
15 VALÉRY, 1973, p. 620. v. 1.
16 VALÉRY, 1997, p. 320. v. 2.


segunda-feira, 27 de agosto de 2012


15.





Da palavra que o amor esconde, e do seu contrário



“Mudança de comportamento”, composição do Edgard Scandurra, tem o refrão: “Eu morreria por você / na guerra ou na paz. / Eu morreria por você / sem saber como sou capaz”1. É poesia, discurso de poeta, idealismo romântico. No mundo real, sem a fantasia, vale o dito pascalino – embora Pascal tivesse, aqui, outras intenções:

Todos os homens procuram ser felizes; não há exceção. Por diferentes que sejam os meios que empregam, tendem todos a esse fim. O que leva uns a irem para a guerra e outros a não irem é esse mesmo desejo que está em todos, acompanhado de diferentes pontos de vista. A vontade nunca efetua a menor diligência, senão com esse objetivo. Esse é o motivo de todas as ações de todos os homens, até mesmo do que vão enforcar-se.2

Sem o recurso da (licença) poética (ou do idealismo romântico, ou da teologia), não há ninguém, além de nós mesmos, por quem queiramos realmente viver ou morrer; e nisso, para bem viver, está a nossa felicidade, como fim... quer nos pensemos vivos ou mortos. Para o “ninguém, além de nós mesmos”, não há mistério algum, e nenhuma profundidade. Coisas evidentes, de tão evidentes, às vezes soam obscuras, profundas, misteriosas. “Estava o tempo todo aí”, dizemos; “o tempo todo diante dos meus olhos”, “se fosse uma cobra tinha me mordido”. Na distração, parece que entramos no estado de caça do para além do dado, fora do fenômeno, do real do mundo real – como se, por trás das coisas, houvesse o... mistério.
Alberto Caeiro (Fernando Pessoa), sobre o mistério das coisas e da sua profundidade, era sentencioso:

O mistério das cousas! Sei lá o que é mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério.
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o sol
E a pensar muitas cousas cheias de calor.3

E bastava ver, e sentir o visto.
As coisas do mundo (e nós entre elas) são o que são (aparecem), no fenômeno simples: o real do imediato. Pensar sobre as coisas – constituição físico-atômica, substância, forma, gênero, procedência, etc. – é o mesmo que distanciar-se delas4. Nada existe para ser compreendido; tudo existe a ser visto, vivido na experiência imediata do encontro: com o Outro e com o Mundo – com as coisas do mundo, em que o Outro está incluído e, naturalmente, as relações (de amor ou ódio) que mantemos. O “compreender”, aí, tem a ver com o sentido profundo de um “objetivo exterior ao Mundo”, supralunar, fundante/fundamental. Mesmo o já, fenomenicamente dado, conhecido como é (ou como aparece), imediatamente desnudo pelos nossos sentidos, é impenetrável – como a palavra sobre a palavra, qualquer que seja ela. Não é por acaso que Paul Valéry, evocando mais do que a constituição etimológica das palavras – dando ênfase àquilo que está por trás delas, quando escritas, pensadas ou pronunciadas –, afirma não haver uma só palavra que possamos compreender, se buscamos os seus limites5. Não é por acaso que Sartre, depois, retoma a sentença, ilustrando-a:

Esta frase: “Partirei amanhã para o campo” envolve o infinito. Primeiramente, é preciso que haja um “amanhã”, isto é, um sistema solar, constantes físicas e químicas. É preciso também que eu ainda viva, que nenhum acontecimento grave tenha abalado minha família ou a sociedade em que vivo. Estas condições são, sem dúvida, implicitamente requeridas por essa simples frase. Além disso, Binet6 disse muito bem, o sentido da palavra “campo” é inesgotável; seria preciso acrescentar: o sentido da palavra eu e o das palavras “partir” e “amanhã”. Finalmente, recuamos assustados diante da profundidade dessa inocente pequena frase. É o caso de recordar a observação de Valéry: não há uma palavra que possamos compreender, se vamos até o fundo.7

É o mesmo Valéry que questiona: “Em que se transforma: Eu penso, e em que se transforma: Eu existo? O que se torna, ou o que volta a ser, esse verbo SER, que fez uma carreira tão grande no vazio?8” E a questão volta ao que, antes, era presente na poesia do nosso Pessoa: pensar é uma coisa; ser, outra. Enfeitiçados pela fé nas capacidades do nosso entendimento, acreditamos em verdades “que se asseguram por si-mesmas”, ou por outra, superior a todas e fonte de todas. Assim fazemos, de nosso intelecto, nosso ídolo, nossa religião, nossa igreja – novamente me vem a máxima de Thomas Paine9. “A filosofia”, dizia Wittgenstein, “é uma luta contra o enfeitiçamento do nosso entendimento pelos meios da nossa linguagem.10” Vencido tal feitiço, temos a liberdade de, por exemplo, rejeitar tal liberdade. Todos os românticos – e aqui o sentido é totalmente abrangente – fazem assim, e são assim. Se não fossem, não seriam românticos. 
As falas do amor (romântico), por isso, são as falas do nosso Eu triplamente iludido: pelas promessas de uma realidade palpável (ou ao menos inteligível) do Amor, por nossa crença na possibilidade de havê-lo e, havendo-o, mantê-lo conosco, mantê-lo em nós. Assim poderemos, afinal, ser felizes. Acreditamos, tolamente, cegamente. “O fim em todas as coisas é o bem e, de modo geral, em toda a natureza o fim é o sumo bem”, Aristóteles garantia.11  
Acontece que, por “amor romântico”, e na impossibilidade de fixação de um único sentido à palavra (ou ao termo), podemos compreender tudo o que, neste ou em outro mundo (conforme a nossa fé), possa ser notado e desejado: ao nosso conhecimento, prazer, utilização, etc.12
O haver “algo” (a ser notado e desejado) é suficiente para que haja a filosofia, pelo espanto (thauma)13 da evidência do além-de-mim (o Mundo, o Outro), e por sua estranheza – naquelas mesmas relações simples de conhecimento, prazer, utilização, dentre outras. É o realismo aristotélico que evocamos, aí. Mas, com Valéry, parece que se pode ir um pouco mais adiante.
Portanto, se se pode falar em um “espanto filosófico valéryano”, ele não é causado pelo fato de haver “alguma coisa ao invés do nada” (como geralmente ocorre no registro do Cristianismo), mas pelo fato de “as coisas serem assim como são, e não de outro modo” (como costuma ocorrer no registro da Antiguidade Clássica, e em Protágoras, dentre os mais antigos). “– O impressionante”, Valéry afirma, “não é que as coisas sejam; mas que elas sejam dessa maneira e não de outra”14. O poeta-pensador vai mais distante que Aristóteles, mas não o suficiente. Acontece que é preciso ir ainda mais, bem mais. Valéry afirma-se como católico, “quase um radical idólatra”, ele diz, em oposição aberta aos jansenistas e calvinistas15. E isso, dito assim, expõe os alicerces do que subjaz ao seu pensamento, em matéria de metafísica e/ou transcendência, no âmbito da filosofia ou teologia – mesmo que existam, como existem, de fato, variantes apontadas contra a tradição de ambas. 
A subjetividade filológico-histórico-conceitual da palavra “amor”, em Valéry, torna-a impossível às definições – mesmo que fragmentada em milhares de conceitos menores, e “dissecada” pela mais fina e arguta das hermenêuticas, das exegeses, etc. E por que é que isso é assim? Porque apesar de professar-se “egotista”16 (que prefere, em lugar de egoísta), no sentido de “somente percebo e posso falar do além-de-mim a partir de mim-mesmo”, Valéry não nega o absoluto extramundano, fundamento ou de sua fé ou sua razão, e o encantamento do mundo-espelho. Nisso, colocar obstáculos no caminho das definições não é mais que, por um artifício filológico-conceitual, afirmar a transcendência do entendimento das referidas definições (que supõem coisas, ideias, etc.), e do que as palavras podem dar a entender... principalmente quando isso se mostra impossível. Do amor, como palavra conceituada, descrição afecção ou propósito na vida (ou para a vida), nenhum outro, ainda, conseguiu superar o velho e rabugento Schopenhauer:

Considere-se o seguinte: todo querer tem de nascer de uma necessidade; toda necessidade, entretanto, é uma carência sentida, a qual é forçosamente um sofrimento. Decerto, toda satisfação põe fim a esse sofrimento. Mas, 1) o desejo retorna rápido e fácil; a satisfação, de modo lento e difícil; para cada desejo satisfeito, permanecem contra ele pelo menos dez que não são. Nossa cobiça dura muito e nossas exigências não conhecem limites; a satisfação, no entanto, é breve e módica: com ela crescem as exigências, porém o contentamento assegurado pela satisfação decresce, devido ao avanço do hábito; 2) a satisfação última de um desejo é, nela mesma, apenas aparente: nada nos torna efetivamente contentes, pois, assim que um desejo é satisfeito, um novo ocupa o seu lugar; o desejo realizado é um erro conhecido, e o novo, um erro ainda desconhecido. Uma satisfação duradoura, invencível, não pode de fato advir de objeto algum alcançado pelo querer, mas se assemelha à esmola que damos ao mendigo, a qual torna sua vida menos miserável, hoje, e no entanto prolonga seu tormento amanhã.17

Seja em qual for o sentido, tempo e espaço que utilizemos as palavras “amor”, “amar”, é a Vontade do amante sobre o amado que aparece; e mesmo quando, ao contrário, o que sentimos pelo Outro, nosso objeto, seja o ódio. Aí também está o querer, a vontade, o desejo: do beijo adocicado ou do escárnio cruel. Tudo é amour de soi, reduzido à objetividade da nossa Vontade, do nosso Eu, amado acima de tudo e de todos; o nosso Eu insatisfeito, eternamente insatisfeito. Tanto mais amor, tanto mais egoísmo.  









1 SCANDURRA, Edgard. Mudança de comportamento. In: Ira!: o melhor do Ira!. São Paulo: WEA Music do Brasil, 1996. 1 disco sonoro. Faixa 3 (2 min 58 s).
2 Pens., VII, 425. PASCAL, Blaise. Pensamentos. 4. ed. São Paulo: Nova Cultural, 1998. p. 137. [Col. Os Pensadores]).
3 PESSOA, Fernando. De “O Guardador de Rebanhos”. In: CAEIRO, Alberto (pseudônimo). Ficções do interlúdio. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. p. 218.
4 “Mas abre os olhos e vê o sol, / E já não pode pensar em nada, / Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos / De todos os filósofos e de todos os poetas. / A luz do sol não sabe o que faz / E por isso não erra e é comum e boa.” (PESSOA, 1998, p. 218).
5 Em Au sujet du ‘Cémitière Marin’, sobre a poética, Valéry formula uma passagem que tornou-se célebre: “Quanto à interpretação da letra [...], não há sentido verdadeiro de um texto. [il n’y a pas de vrai sens d’um texte]. Não há autoridade do autor. Seja o que for que tenha pretendido dizer, escreveu o que escreveu. Uma vez publicado, um texto é como uma máquina que qualquer um pode usar à sua vontade e de acordo com seus meios: não é evidente que o construtor a use melhor que os outros. Do resto, se ele conhece bem o que quis fazer, esse conhecimento sempre perturba, nele, a perfeição daquilo que fez.” (VALÉRY, Paul. Au sujet du ‘Cémitière Marin’. In: _____. Œuvres. Paris: Bibliothèque de la Pléiade / Gallimard, 1997. p. 1507. v. 1)
6 Pedagogo e psicólogo, o francês Alfred Binet (1857-1911) é mais conhecido por sua contribuição à psicometria, tendo inventado o primeiro “teste de inteligência”, base dos nossos modernos testes de QI.
7 SARTRE, Jean-Paul. A imaginação. 6. ed. São Paulo: DIFEL, 1982. p. 60.
8 VALÉRY, 1997, p. 1247. Tal perspectiva, como Jean Sebeski notou (cf. SEBESKI, Jean. Confluenes valeryennes. In: CELEYRETTE-PIETRI, Nicole & SOULEZ, Antonia (Orgs.). Revue Litteraire Bimestrielle – Valéry, la logique et le langage. Paris: Université Paris XII [Val de Marne le 29 novembre 1986], 1988. p. 24-24.) aproxima-se de outra perspectiva, de Carnap, segundo a qual, o metafísico é um “músico sem talento musical”. (CARNAP, Rudolph. Le dépassement de la métaphysique par l’analyse logique du langage. In: SOULEZ, Antonia (Org.). Manifeste du Cercle de Vienne et autres écrists. Paris: PUF, 1985. p. 177).
9 “Minha mente é a minha igreja.” (PAINE, Thomas. The Age of Reason. London: Forgotten Books, 1884. p. 18).
10 WITTGENSTEIN, Ludwing. Investigações filosóficas. São Paulo: Abril Cultural, 1975. p. 54. (Col. Os Pensadores).
11 Metafízica, A 2, 982 b 5. ARISTÓTELES. Metafísica. São Paulo: Loyola, 2002. p. 11. v. 2: texto grego com tradução ao lado.
12 “A linguagem interior cria um Outro no Mesmo.” (VALÉRY, Paul. Caheirs. In: Judith Robinson-Valéry (Org.). Choix de textes. Paris: Bibliothèque de la Pléiade / Gallimard, 1973. p. 461. v. 1).
13 Em Aristóteles (ele, novamente): “De fato, os homens começaram a filosofar, agora como na origem, por causa da admiração [θαυμάζειν], na medida em que, inicialmente, ficavam perplexos [θαυμάσαντες] diante das dificuldades mais simples.” (Met., 982b 10-5; a ênfase é minha).
14 VALÉRY, 1997, p. 1221.
15 Embora não se deva superestimar a influência do Catolicismo sobre Valéry, é fato que, em uma carta de 1890, que ele endereça a Pierre Louis, há claríssimas considerações sobre suas inclinações religiosas – e pelas quais alguns críticos mais ávidos não tardaram em classificá-la como antissemita; qualificativo que, por vezes, pairou ferozmente sobre a imagem do poeta. “Com relação à Bíblia”, ele escreve, “eu creio que você despreza o objeto de minhas preferências místicas. Eu sou, sobretudo, católico, quase idólatra e detesto todo calvinismo e jansenismo, isto é, todas as seitas inartísticas (!). Eu não gosto dos Judeus, pois eles não têm arte. Das raças vizinhas, eles pilharam tudo em matéria de arquitetura, etc.” (VALÉRY, Paul. Lettres à quelques-uns, L’Imaginair. Paris: Gallimard, 1997. p. 13).
16 “Sou um miserável Robinson”, ele se apresenta, “numa ilha de carne e de espírito, rodeado por todas as partes de ignorância, e fabrico generosamente meus utensílios e minhas artes.” (VALÉRY, 1957, p. 961). Ou: “A palavra Eu designa sempre virtualidades — Não há Eu redutível ao atual.” (VALÉRY, Paul. Caheirs. Paris: CNRS, 1957-1961. p. 311. v. 23. [fac-símile]). “O eu – eu o olho como uma propriedade fundamental da consciência – um ponto virtual [...] para o qual [...] o meu conhecimento se ordena.” (VALÉRY, Paul. Caheirs. In: Judith Robinson-Valéry. (Org.). Choix de textes. Paris: Bibliothèque de la Pléiade / Gallimard, 1974. p. 284. v. 2.).
17 SCHOPENHAUER, Arthur. Da parte subjetiva da satisfação estética. In: _____. Metafísica do Belo. São Paulo: Editora UNESP, 2003. p. 90.


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