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segunda-feira, 30 de abril de 2012


62.






Do bebop jazz ao tropicalismo, ou: De quando o autor é o tempo*



– “Nas partes...” Nas partes o caralho!
– Surtou, foi? O que tem as partes do caralho?
– Patativa só quer ser o engraçadinho! – Jorge disse, fechando o livro que lia e me tomando a pequenina peça de artesanato, que eu segurava. – Essa aqui já tem dono, Gafanhoto – era assim que ele me chamava, por causa de uma longa história que não vem ao caso nesta história. – Às vezes penso que os séculos de medo, de ideias dominadas por doutrinas que condenavam o corpo dos escritores ao suplício, aqui na terra, e suas almas, depois daqui, fizeram um estrago muito miserável na alma do Ocidente, em relação à sua literatura.
– Quê que tá pegando, Jorge?
Jorge Hippie era um amigo querido, lá de Crato, Ceará. Um hippie que não acreditava mais na ideologia hippie, e que dava aulas de História na URCA. “Eu ensino para pagar as minhas contas, Gafanhoto; e vendo meu artesanato para me divertir e conversar com as pessoas reais, do mundo real. Diferentemente do Cazuza, eu vivo muito bem sem uma ‘ideologia’. ‘Mas isso é também uma ideologia’, você poderia dizer. Mas eu falo é daquelas pelas quais se vive ou se mata, e pelas quais surgem os mártires, os que querem mudar o mundo. Não sirvo para isso.”
Como eu não dissesse nada, ele, agora trabalhando em um fio de cobre para alguma das suas peças, se explicou:
– Esse... “pudor” que foi imposto pela moral cristã-ocidental, que ainda prende os autores em suas expressões, em seus estilos, em suas maneiras de transmitir ideias é... Olha isso: “Era esse o inconveniente de jogar no gol, embora também tivesse outros tão insuportáveis quanto esse, como receber boladas no meio do peito ou nas partes.” “Nas partes” o caralho! Duvido que se não fosse essa moral e esse medo de falar das coisas como elas são, do modo como são vistas, sem todas essas travas da linguagem, às vezes bem inconscientes, ele escrevesse assim. Escrevia nada! Teria escrito era “nos ovos”; receber “boladas nos ovos”.
Jorge estava lendo, ou começando a ler, As dançarinas mortas1, do espanhol Antonio Soler. Daí lembrei-me do comecinho de A queda, de Camus, quando o advogado (o “juiz-penitente”, como se autodenomina), num bar de Amsterdã, entre os marinheiros, em seu exame de consciência, fala a um anônimo: “Meu senhor, posso oferecer-lhe meus préstimos, sem correr o risco de ser inoportuno?” Também tinha o comecinho de Pantaleón e as Visitadoras, de Mario Vargas Llosa, quando ele fala de um sujeito que, em Leticia, se crucificou para anunciar o fim do mundo. Recolhido ao hospício, foi retirado de lá pelas pessoas que o consideravam santo, etc. Enfim, não era a mesma coisa das “partes” de Soler, da reclamação de Jorge, mas mostrava como, de certo modo, há mesmo essa coisa do pudor, da polidez, dos níveis infra e supralunares da tensão hora santa hora profana: o espectro do cristianismo com a sua moral, juíza e carrasco, como o index provava. O medo havia sobrevivido nas entrelinhas, feito erva daninha ruim e resistente – e mesmo na literatura de autores sádicos como... Sade. E ai de Sade, para a fama de Sade, se não fosse isto: a sua contraparte moral. É como se não houvesse um meio de fugir àquilo que, nas teses sobre a comunicação, possibilita a compreensão das coisas, e das intenções – mesmo quando para contestá-las. Entre o sujeito A (o autor, o escritor, etc.) e o sujeito B (o leitor, o ouvinte, etc.) há uma série de abismos que, para que uma obra – a literária, em nosso caso – faça sentido, precisam ser transpostos. Coisa que nunca é, nunca mesmo, cem por cento.


– E então, Gafanhoto? Será que é preciso inventar uma nova linguagem para o mundo de hoje?, ou fazer frente aos vícios da atual, que domina não somente os compêndios de teologia e de filosofia, mas a chamada grande literatura?
– Ironia? – perguntei, com sinceridade.
– Não, né?! – ele disse.  – Falo de, quem sabe, uma coisa assim meio, meio Arturo Gouveia. Algo como no “Tânatos também te contempla”, do Santíssimas trevas2; ou como nalguns contos d’O mal absoluto3. Embora também o Arturo...
– Parece que eu preciso ler o Arturo. Pensei nos beats – falei, sem me aprofundar.
– Pois é... “os beats”; você diz. Quando o “pai dos beats” se apresenta, no Lonesome traveler4, ele próprio diz que não foi um deles. E também tem o problema dos gêneros literários, das épocas, do público-alvo e dessas porras todas. Pra tu vê, Gafanhoto: em 1940, a estética da espontaneidade estava, nos Estados Unidos, com os artistas que criticavam o racionalismo, o dualismo e o individualismo ligado ao liberalismo empresarial. E quem eram esses artistas? A maioria era filho de imigrantes judeus, de poloneses, de italianos e de irlandeses. Uma galera meio excluída dos grandes centros, meio fodida mesmo. A “expressão livre” que buscavam, fora dos “cânones culturais anglo-americanos”, na dança, na pintura, na música, na literatura e em outras artes, era um levante contra esse “controle burocrático associado ao liberalismo empresarial”, como li em alguma coisa do Daniel Belgrad.5
– Hummm... – eu não fazia a menor ideia sobre quem era o tal Belgrad.
– É, cara! Falavam em uma “intersubjetividade”. Palavrinha que grudou geral.
– Foi mesmo. Ainda hoje...
– E sabe em quem eles se fundamentavam? Trabalhos de Dewey, Whitehead e Jung, além dos existencialistas, e do surrealismo, e da psicologia gestalt e do zen-budismo. Os caras encaravam a arrogância eurocêntrico-ocidental com um pluriculturalismo que abraçava os índios, entende? A cultura nativa dos índios dos Estados Unidos da América... tipo tomando as dores do Enterrem meu coração na curva do rio, saca?, mesmo tendo sido só depois.6  
– Caramba! Tu se liga mesmo nessas coisas, né?
– Sim, meu broder! É preciso ficar ligado. E o bebop...
– Isso mesmo! Me fala aí sobre o bebop.
– Bebop jazz. O bebop jazz destacava a importância que era dada ao holismo corpo-mente, naquela época; e também estava ligado à estética da espontaneidade.
– Como era isso?
– Construído no idioma afro-americano, era uma conversação espontânea de vozes prosódicas...
– Vozes o quê? – foi uma pergunta honesta.
– Prosódicas, Gafanhoto. Tu não se liga? De “prosódia”, saca? Que tem a ver com o ritmo, a entonação, a métrica, etc. Então, com base nisso, os caras entendiam que os sentidos de uma elocução verbal estavam em sua produção corporal, e não na sua simbologia.
– Ok!, mas estávamos falando de literatura, não? – eu tinha a impressão de que estávamos entrando num papo meio... gramático-musical, e confesso que estava bem perdido naquilo tudo.
– Meu irmão!, se ligue! É dai que nasce a famosa escrita espontânea de Kerouac, tá entendendo? O cara ligava o consciente ao inconsciente e disparava, integrando coisas à coisa, e essas coisas todas. Como é que tu acha que nasceu o On the road, hem? Foi assim, nessa vibe aí.
– Hummm... Me passei! – tive de admitir. Jorge continuou, cheio de empolgação:
– Na década de 1950, essas propostas de espontaneidade estavam voltadas contra a Guerra Fria, e era uma crítica social muito viva e abrangente. A prosódia espontânea dos beats, do mesmo modo que foi no bebop jazz, via o liberalismo empresarial como o grande vilão da cultura enlatada, plastificada em fórmulas e modelos estanques, prontos para vender fácil, expandir o consumo e deixar tudo no status quo de sempre, e a cabeça das pessoas, principalmente. Mas esses caras, ah!, meu irmão!, Esses caras queriam arrebentar com isso tudo; queriam incendiar a coisa toda. Tem uma frase, acho que é de Kerouac: “Só me agrada aquilo que uma pessoa escreveu com o seu próprio sangue. Eu só confio em autores que escrevem com o sangue7.”  Pronto!, está aí, eram esses caras. Não foi por acaso que, depois dos beats, e pela influência que eles tiveram, surgiu a new left. Essa, por sua vez, pariu a contracultura dos hippies loucos e coloridos, em 1960. Tu se liga que está tudo encadeado?  
– Tu fala desse jeito, com os teus alunos?
– Ihhh!, qualé o problema, véi?! Os caras são descolados e não se ligam nessa coisa de “formalidade” não. Claro que tem os limites, né? Porque senão... 
– Jorge, desculpa perguntar – disse, confessando minha ignorância –: o que tu quer dizer com new left é mais do que “nova esquerda”, não é? Ou, melhor: o que era essa new left, aí?
– Tu pensa logo em política, né? E tem. Mas acho que eu não saberia explicar isso direito; não agora.8
– Então – procurei retomar o tema –, você falava dessa progressão dos movimentos e tal, e como isso afetava a produção literária, etc.
– Então, maluco?! No começo dos anos 60 os caras entraram numa de dadaísmo, explorando e ironizando expressões artísticas anteriores, substituídas pelo expressionismo abstrato e a pop art, como o crítico inglês Lawrence Alloway chamou a escola, parece que iniciada a partir de uma colagem de Richard Hamilton, chamada: “O que exatamente torna os lares de hoje tão diferentes, tão atraentes?”, de 1956. Doidera, né?
– Ôoo!...
– Daí só foi viagem e delírio: um parque de diversões na cabeça. Aqui houve, antes, a semana de arte moderna; lá, o jazz dava lugar ao rock-and-roll; e veio a LSD e as experiências transacionais, e aquelas viagens loucas à Índia, e o louco do Timothy Leary, e o festival de Woodstock, e Os Mutantes, e O Terço, o tropicalismo e o escambal. Um desbunde na cultura indie-alternativa, para cima e para baixo.  
– Voltando aos beats – chamei a palavra para mim. – Mesmo eles, como você falou, foram homens de seu tempo. Na desambiguação desses portraits instantâneos, como posso ver em poemas de Ferlinghetti ou na prosa espontânea de... Burroughs, por exemplo, há o experimentalismo que, hoje, sabermos os efeitos...  e, talvez por isso, uma inibição quanto ao repetir dos processo já... gasto. Sei lá! – eu não tinha, naquele tempo, o vocabulário do Jorge, e nem a sua bagagem cultural, e menos ainda a sua desenvoltura em falar as coisas que pensava, com ordem e clareza. – Acho que não sei dizer tudo como quero – confessei, embaraçado. – Penso que a novidade dessa literatura dos anos 50/60, ainda bem atual, foi soma de muito ácido mais o holismo que não ignorou obras não ocidentais, como a poesia haiku, o Kama Sutra, os koans, o I Ching, o Bhagavad-Gita e a ioga, dentre outras. Logo, um tipo de fórmula. Mesmo assim, como você também sugeriu, estava lá o “tempo ocidental”, e os seus signos, por toda a parte, nas entrelinhas. E como poderia ser diferente? A pergunta é bem simples, mas a resposta, não. Que “nova literatura” poderia estar livre disso?
– É! Mesmo assim, e se não é possível criar uma nova linguagem, é preciso desafiar as estruturas da narrativa convencional, quando elas parecerem engessar a criatividade, a ousadia que salta mais longe. Sem pólemos não há progresso; e a beleza estagnada, como o pôr-do-sol em um postal ou um rio parado numa pintura, nunca é mais linda que o real.
– Não é – concordei.
Jorge não disse nada por alguns instantes, e nem eu sabia mais o que dizer. Parecia que havíamos andado, andado e, então, voltado ao mesmo lugar de onde antes havíamos saído.
– E essa história toda não implica em ideologia, pregação ideológica; e nem em uma mensagem ou verdade cheia de “valores inegociáveis” e essas coisas todas.
– Tudo bem. Não pensei nisso – deixei que ele acreditasse que eu acreditei, para que ele ficasse tranquilo. – É difícil falar estando sempre do lado de fora, sem os recursos que estão presos no lado dentro... Ah!, você sabe.
– Caralho! Deixa isso pra lá – ele disse.
– É – respondi. – Deixa quieto.




* Trata-se de um brevíssimo diálogo sobre a transmissão de conteúdos, e conteúdos morais, na literatura engessada (inclusive na  “prosa espontânea” da literatura beat); e, embora malfadada, a proposta de uma literatura realmente livre, honesta e de vanguarda. Nele, no diálogo, sou mais espectador que ator, papel que cabe ao meu bom e querido amigo Jorge Hippie – de quem espero não haver corrompido as falas, e a honesta intenção.  
1 Publicado no Brasil em 1998, com tradução de Sérgio Molina, para a Companhia das Letras.
2 Cf. GOUVEIA, Arturo. Santíssimas trevas. João Pessoa: Editora Idéia, 2008. 
3 Cf. GOUVEIA, Arturo. O mal absoluto. São Paulo: Iluminuras, 1996. 
4 Jorge se referia, certamente, a esta confissão: “Na verdade, não sou um beat, mas sim um estanho e solitário católico, louco e místico...” Não saberia dizer como ele teria tido acesso ao livro (provavelmente em inglês, já que o citou pelo título original), uma vez que a primeira edição, em português, somente apareceu em 2005, com tradução de Eduardo Bueno, para a L&PM. Quanto à citação, ver: KEROUAC, Jack. Viajante solitário. Porto Alegre: L&PM, 2005. p. 10. Penso, igualmente, que o sentido do “não ser beat”, aí, de Kerouack, tem a mesma natureza do “não ser um autêntico vagabundo”, como ele diz de si mesmo, na mesma obra – no último capítulo: “O vagabundo americano em extinção” –: “Eu próprio fui um vagabundo, mas só até certo ponto, como se vê, porque sabia que algum dia meus esforços seriam recompensados com a proteção social – não fui um vagabundo autêntico, sem esperanças...” (p. 208); ou seja: um beat, um legítimo beat.   
5 Depois soube que se tratava do livro: The culture of spontaneity: improvisation and the arts in the post-war America (Chicago: The University of Chicago Press, 1998). Estamos em agosto de 2009, e eu não sei se já há alguma tradução para o português.
6 Lançado em 1970, Enterrem meu coração na curva do rio (Bury my heart at wounded knee), livro do americano Dee Brown (1908-2002), relata a destruição sistemática e progressiva dos índios da América do Norte. O livro reúne registros oficiais, autobiografias, depoimentos e descrições de primeira mão, nas palavras dos grandes chefes e guerreiros das tribos Dakota, Ute, Soiux, Cheyenne, dentre outras. É um livro triste, honesto e incrivelmente belo. No Brasil, a primeira edição é a do Círculo do Livro. Cf. BROWN, Dee. Enterrem meu coração na curva do rio. São Paulo: Círculo do Livro, 1974. 
7 A frase, na verdade, é de Nietzsche, na primeira parte de Assim falou Zaratustra (Do ler e escrever). Completa: “De todo o escrito só me agrada aquilo que uma pessoa escreveu com o seu sangue. Escreve com sangue e aprenderás que o sangue é espírito. Eu só confio em autores que escrevem com o sangue.” (NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Assim falou Zaratustra: um livro para todos e para ninguém. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. p. 40). A citação de Kerouac: “Eu só confio nas pessoas loucas, aquelas que são loucas pra viver, loucas para falar, loucas para serem salvas, desejosas de tudo ao mesmo tempo, que nunca bocejam ou dizem uma coisa corriqueira, mas queimam, queimam, queimam, como fabulosas velas amarelas romanas explodindo como aranhas através das estrelas.” (KEROUAC, Jack. On the road. London: Penguin Books, 1976. p. 12). Jorge, naturalmente e involuntariamente, deve ter trocado uma citação por outra.
8 Fundada em 1960, no Reino Unido, a New Left Review resulta da fusão de dois outros periódicos, o New Reasoner e o Left Review, ambos de tendência marxista. O nome vem de um texto de 1960, do sociólogo americano Charles W. Mills, Open letter to the new left, em que ele acusava a “Old Left”, tanto a comunista como a reformista (e também os liberais radicais) de haverem traído os ideais de liberdade e justiça. Fundamentando-se na Teórica da Alienação, do Jovem Marx, Mills provocou grande impacto entre os jovens intelectuais das décadas de 1960 e 70, principalmente. 


sexta-feira, 20 de abril de 2012

59.






Da paixão do socialismo e outros ismos que amam mais...



Devidamente acomodado em minha poltrona, saquei da mochila um exemplar d’A paixão do socialismo & outras histórias, de Jack London, publicado pela L&PM. A senhora gorda, no banco ao meu lado, no outro lado do corredor do avião, parecia capaz de dar o braço direito para ver o que eu estava lendo. “Mas é curiosa a criatura!”, pensei, disfarçando não ver a risível cena de contorcionismo. Como se não me desse por conta, deixei que ela visse de uma vez a capa do livrinho, enquanto eu fingia ler a contracapa:

Então, voltei à classe operária, na qual havia nascido e à qual pertencia. Não me preocupava mais em subir. O imponente edifício da sociedade não guarda delícias para mim acima da minha cabeça. São os alicerces do edifício que me interessam. Lá, eu estou contente de trabalhar, de ferramenta na mão, ombro a ombro com intelectuais, idealistas e operários com consciência de classe, reunindo uma força sólida agora para mais uma vez pôr o edifício inteiro a balançar. Algum dia, quando tivermos poucas mãos e alavancas a mais para trabalhar, vamos derrubá-lo, com toda sua vida em putrefação e sua morte insepulta, seu egoísmo monstruoso e seu materialismo estúpido. Então vamos limpar os porões e construir uma nova moradia para a espécie humana, onde não haverá andar de luxo, na qual todos os quartos serão claros e arejados, e onde o ar para respirar será limpo, nobre e vivo. 

Acabei relendo todo o texto, e lembrando que foi por causa dele que, em 1997, ano em que essa versão foi lançada, comprei a referida, que é de uma coisa assim meio... beat, meio “sei lá o quê”. “Negócio lindo da porra!”, eu pensava. Como me tornei socialista e A paixão do socialismo são dois ensaios, e o relato mais vívido e fiel que o autor de O chamado da floresta já produziu, e são uma delícia. Em De vagões e vagabundos, que é um conto, London ensina como você podia se infiltrar clandestinamente nos trens que atravessavam o país; é praticamente um manual de como fazê-lo. É ainda um relato muito vivo de como os vagabundos e os viajantes clandestinos eram tratados pelos guardas e fiscais das estações. Há uma cena de Na natureza selvagem (Into the wild, 2007), filme de Sean Penn, em que Chris McCandless (interpretado por Emile Hirsch) experimenta esse tratamento – ele que era leitor de Jack London. Eu não tinha dúvida: A paixão do socialismo & outras histórias era o melhor de todos os livros que eu já havia lido, de Jack London.
Sem se fazer de rogada, e exibindo a sua verve de leitora exemplar, a senhora gorda sacou de sua bolsa grande e dourada um exemplar de Tempo de esperas (Editora Planeta, 2011), do padre Fábio de Melo. Impressionou-me o fato de ela não largar o livro – coisa que fiz, depois de umas 6 ou 7 páginas – até que chegássemos ao Aeroporto Internacional de Brasília, onde nos separamos pela conexão. Na noite do mesmo dia vi uma citação de uma reflexão do mesmo padre, elogiada como coisa muito inspirada e muito profunda.

Só dê ouvidos a quem te ama. Outras opiniões, se não fundamentadas no amor, podem representar perigo. Tem gente que vive dando palpite na vida dos outros. O faz porque não é capaz de viver bem a sua própria vida. É especialista em receitas mágicas de felicidade, de realização, mas quando precisa fazer a receita dar certo na sua própria história, fracassa.
Tem gente que gosta de fazer da vida alheia a pauta principal de seus assuntos. Tem solução para todos os problemas da humanidade, menos para os seus. Dá conselhos, propõe soluções, articula, multiplica, subtrai, faz de tudo para que o outro faça o que ele quer.
Só dê ouvidos a quem te ama, repito.

São os três primeiros parágrafos de Só dê ouvidos a quem te ama1. O padre Fábio mantém uma coluna no site da Comunidade Canção Nova, da qual faz parte, encompridando a fila dos textos fúteis de autoajuda espiritual, cafonice piegas e senso comum barato. Nela, ele é apresentado como professor em curso de teologia, cantor, compositor, escritor e apresentador do programa “Direção espiritual”, na TV Canção Nova2. Lembrei na hora de algo que eu havia lido em Stendhal. Algo que, embora também imerso no romantismo idealista, era menos delirante, pelo menos: “No meio de operações tão enganosas para o desejo da felicidade, a cabeça se perde”, ele diz; e completa: “A partir do momento em que ama, o homem mais sábio já não vê nenhum objeto tal como é. Ele exagera para menos suas próprias vantagens e para mais ao menores favores do objeto amado3.” A ênfase, em itálico, é do próprio Stendhal. Ele, em uma nota de rodapé ao que aí afirma, e referindo-se ao sentimento romanesco (de wayward) na literatura francesa do século XVIII e anterior, se lança para o futuro, em um século.

Há uma causa física, um início de loucura, uma afluência do sangue ao cérebro, uma desordem nos nervos e no centro cerebral. Ver a coragem efêmera dos cervos e a cor dos pensamentos de um soprano. Em 1922 [o De l’amour foi escrito entre 1820/22], a fisiologia nos dará a descrição da parte física deste fenômeno.4

O autor antevê a explicação mecânica do amor-gosto – referindo-se ao romanesco, presente na obra de autores como Crébillon, Lauzum, Duclos, Marmontel, Chamfort, madame d’Épinay, etc. –, que desnuda a dependência confiante nos sentidos, na tirania da afecção, elucidada à força da razão, contra o sentimento confiante da/na primeira infância do amor-paixão. Sim, pois o amor romântico, diferentemente disso, é semelhante à fé, que não tem – e nem pode – argumentos. Para Esmé, com amor e sordidez, é conto de J. D. Salinger. Nele, um soldado americano de passagem pela Inglaterra, prestes a embarcar para o Dia-D, narra a sua conversa com a menina que dá nome ao conto:

Esmé lançou um olhar demorado, vagamente clínico.
- Você tem um senso de humor muito apurado, não é? - falou, suspirosa. - Papai dizia que eu não tinha nem um pouco de senso de humor. Que eu estava despreparada para enfrentar a vida porque não tinha senso de humor.
Encarando-a, acendi um cigarro e disse-lhe não acreditar que o senso de humor tivesse qualquer utilidade numa hora de aperto.
- Papai disse que tinha.
Tratava-se de uma afirmação de fé, não de um contra-argumento, por isso resolvi bater rapidamente em retirada.5


Como as afirmações da fé, as afirmações do amante ao seu objeto são comprometidas por uma nuvem sentimental. Essa, em seu pensamento, produz o mesmo resultado que a fé, ao seu coração: obnubila o real, em favor da fantasia, nas atribuições que estão fundamentadas unicamente no desejo (ou no delírio) de uma felicidade referida ao próprio objeto, ao qual se prende – e pensa-o externo a si. É um equívoco pensar assim. Não há liberdade no amor romântico, somente prisões.
Amar é achar-se preso ao objeto amado, e querer continuar preso a ele, por “vontade própria” – como diz Camões, imitando os versos de Petrarca, pedra fundamental da poesia lírica italiana. A sã consciência não desejaria, jamais, qualquer prisão. O que ama, porém, não tem sã consciência: nem sabe disso, nem deseja compreender e menos ainda pagar o preço de tão dura, fria e pura “liberdade”. Passarinho que cresce em gaiola, se solto, morre. Onde há amor, não há liberdade.
Noutra meditação – A diferença entre amar e estar apegado6 –, o padre Fábio é de opinião contrária a minha: “O amor nos dá aquele sentimento de liberdade, enquanto que o apego nos aprisiona e pensamos que as pessoas devem agir da forma que queremos. O amor é livre! Quando estou apegado a alguém ou a alguma realidade, eu faço do outro meu escravo”, ele afirma.
O “apego”, se levamos mesmo a razão a sério, é somente uma forma vaga de falar livremente sobre um aspecto raso do amour de soi, que é o que há, o que mais há, e o que nós, seres humanos – cheios de fé ou de ceticismos – podemos ter, conhecer. Os “outros amores” não são mais que idealismos romantizados, credulidade infantil, extravagâncias metafísicas. No “Código de amor no século XII”, transcrito no De l’amour, de Stendhal, a regra 9 é a afirmação de que: “Ninguém pode amar se não é levado pela persuasão de amor (pela esperança de ser amado)7.” É o mesmíssimo estado de graça que é encontrado na fé religiosa (cristã): estado de dependência, de prisão: “Nenhum homem pode amar a Deus sem que ele, antes, por sua graça, o ame primeiro e, pelo seu Espírito, persuada a que este, receptor da graça, também o ame.” Assim, do mesmo modo que alguém diz: “Deus me libertou”, poderia também dizer: “Deus me prendeu, tornando-me um servo seu”, ou ainda: “Estou preso à fé, à minha fé, que me foi dada por Deus, e pela qual creio que sou livre.” Equívocos de equívocos! Os juízos sobre tais questões são sempre melindrosos, principalmente porque não partem de uma mente sã, isto é: desapaixonada. “Toda ação do amante termina em pensar na pessoa amada.” É, novamente, o código8.
Foi o amour de soi (amor ao conforto de crer sem refletir com critérios, e com lógica; amor ao direito de voltar logo para casa, com uns trocados no bolso; amor às próprias opiniões, por preguiça de procurar a verdade, etc.) que levou os 360 jurados – de um grupo de 500 – do Tribunal de Heliéia a condenarem Sócrates (em 399 a.C.),  “o mais corajoso, o mais sábio e o mais íntegro de todos os homens”, nas palavras de Fédon9.
Foi o amour de soi (o amor à segurança que as tradições parecem oferecer; o amor à fé que não exige reflexão dura e criteriosa, com lógica; o amor à leveza do depois de depois da cólera; o amor às convicções de líderes que se afirmam portadores das verdades inegociáveis, etc.) que levou a multidão, diante de Pilatos, conforme o evangelista, preterir o Cristo, entregando-o à cruz, e fazendo o próprio Pilatos confessar: “Estou inocente do sague deste justo. Que a culpa da morte dele seja vossa.10”
A multidão dos gregos, a multidão dos judeus, a multidão dos erros, nos erros...
Não é que as opiniões do senso comum estejam sempre erradas. São as minorias que comandam as maiorias, e as minorias podem estar equivocadas, ou com más intenções, ou compradas. O fato de o senso comum gozar de grande aceitação não lhe garante legitimidade, nem validez inquestionável; nem de longe. Aqueles que discordam das multidões, também, nem sempre têm razão. Nas coisas do amor, por exemplo, poucos são os que subscrevem as teses de Freud ou Schopenhauer, e quando às conhece: julgando-as ou lascivas, ou pessimistas, ou equivocadas ou “outras coisas”. Subscrever talvez não seja, aí, a melhor palavra – pois pode dar a entender uma aceitação sem critérios; o que não é o caso, realmente. Esses dois pensadores, no entanto, foram os que mais compreenderam o papel da Vontade (ou da Pulsão) na vida das criaturas. E a ação da Vontade (ou a Pulsão) que foi maquiada com os mais diversos nomes11, todos eles enraizados em algum floreio que terminava no Amor12, e esse sempre querendo ir muito mais além do que as asas de Cupido (pequenas demais para alçarem voo) poderiam oferecer. Preso ao chão, ligado à terra, o amor (qualquer que seja o nome que você dê a ele) é daí, vem daí e aí morre. É como eu já disse no miniconto aí atrás, o De l’amour (que tomei emprestado de Stendhal): ideias fazem amor, e pessoas fazem sexo.
Falando nisso, agora mesmo escuto os gemidos “de amor” da garota que faz sexo aqui no apartamento logo acima do meu. Deus!, como ela grita! Meu último pensamento: “Esses danados deveriam aprender a trepar mais baixo. Isso atrapalha a concentração de qualquer vivente.”






1 Disponível em: <http://pensador.uol.com.br/autor/padre_fabio_de_melo/> Acesso em: 19 de abr. 2012. 
3 STENDHAL. Do amor. Porto Alegre: L&PM, 2011. p. 29-30. (Col. L&PM Pocket).
4 STENDHAL, 2011. p. 30.
5 SALINGER, J. D. Para Esmé, com amor e sordidez. In: _____. Nove histórias. 3. ed. Rio de Janeiro: Editora do Autor, [s.d.], p. 86.
7 Amare nemo potest, nisi qui amoris suasione compellitur. (Cod., regra 9, fl. 103). STENDHAL, 2011. p. 257.
8 Quilibet amantis actus in coamantis cogitatione finitur. (Cod., regra 34, fl. 103). STENDHAL, 2011. p. 257.
9 PLATÃO. Fédon, 117e-118c. “Os jurados que ocupavam os bancos do Tribunal de Heliéia não eram especialistas. Entre eles havia um número insólito de velhos e feridos de guerra que recorriam àquele tipo de trabalho como um meio fácil de conseguir uma renda extra. O salário era de três óbolos por dia, quantia menor que a recebida por um trabalhador braçal, mas representava uma boa ajuda para aqueles que já contavam 63 anos de vida e estavam entediados. Os únicos requisitos eram cidadania, sanidade mental e ausência de dívidas – embora a sanidade mental não fosse avaliada segundo os critérios socráticos; bastava demonstrar ser capaz de andar em linha reta e saber dizer o próprio nome quando fosse requisitado. Os membros do júri cochilavam durante os julgamentos, raramente possuíam qualquer experiência em casos semelhantes ou leis que fossem relevantes e não recebiam qualquer orientação sobre como chegar a um veredito.” (DE BOTTON, Alain. As consolações da filosofia. Rio de Janeiro: Rocco, 2001. p. 44).
10 Mat., 27, 24.
11 Inclusive o de “moral”, candura, retidão, limpidez, etc.
12 Não mais o Eros, naturalmente. A “redenção” de Eros se deu – no idealismo moral cristão – através do ágape, que doma as paixões carnais, medindo-as e ajustando-as ao equilíbrio equânime (ou à medida) do Bem e do bom, conforme a ortodoxia da doctrina christiana, e segundo as Escrituras.  

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