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sexta-feira, 10 de agosto de 2012


12.





Do amor que habita a falta



A sabedoria popular é formada a partir das experiências coletivas com o cotidiano, a posteriori. As suas verdades, no entanto, são aceitas a priori. Da sabedoria popular, pouca coisa é tão rica quanto os cordéis1 que são encontrados nas feiras-livres, bancas de revistas e livrarias em todo o Nordeste do Brasil, principalmente2. Em um desses, de autoria de Manoel Monteiro, os desencontros amorosos são tratados e retratados com maestria. As duas primeiras estrofes de No vai e vem do amor:

Quando eu falava com ela
Ela não me respondia,
Quando ela percebia
Que eu vinha na rua dela
Sequer na porta ou janela
Ela nem aparecia,
Quando eu chorando pedia
Ela sorrindo não dava 
Quando eu ia, ela voltava
Quando eu voltava, ela ia.

Muito difícil dar certo
Um namoro desse jeito
Quando um quer coxa e peito
E o outro nem chega perto;
Vender areia em deserto
Eu vi logo que não dava,
Quanto mais a procurava
Mas a peste escapulia
Quando eu voltava, ela ia
Quando eu ia, ela voltava.3

O amor romântico, para sobreviver enquanto vive – e isso equivale ao “ser eterno enquanto dure”, do Vinicius –, precisa mesmo de tal devir, permanentemente devindo: não, e sempre; contrário a si, por si... Pois que, senão, aniquila-se ainda/já no nascedouro.
Também Alain de Botton, em A natureza do amor4, respirando os ares d’O banquete de Platão, no discurso de Sócrates, reproduzindo ideias de Diotima5, faz coro ao poeta popular – e respalda o dito simplificado, em uma análise não tão simplificada assim. No miniconto, quem aparece é Ben, com as lembranças de suas primeiras aventuras amorosas, até às atuais – já sem aquele encanto inicial, coisa da sua juventude, do tempo em que alimentava a

certeza profunda de que aqui – entre as centenas de seres cuja presença no campus deixavam-no indiferente – estava uma criatura cuja existência, de várias formas, seria correspondente à sua própria, que compartilharia seus entusiasmos, notaria as comoventes vulnerabilidades e aliviaria sua solidão infindável.6  

A mulher amada era Helen Veale. A mesma que ele perseguiria por todos os lugares, mendigando uma mísera centelha do seu olhar; a mesma a quem ele jamais possuiria, mas veria fugir do seu mundo, da sua vida, e casar-se com outro, e ficar gorda, e gerar filhos que não eram seus, e mostrá-los aí, em um álbum do Facebook, com aquele orgulho que algumas mulheres ostentam, triunfantes por haverem cumprido a única função à qual foram colocadas neste mundo: parir.
Mas o amor, ao apaixonado Ben, “significava ansiedade, incapacidade de comer, uma doença, a contínua fantasia sexual e, acima de tudo, uma impressão da retidão única e da preciosidade da amada”7. E o fato de não ter coragem de se apresentar a Helen e declarar os seus sentimentos não o impedia de conhecê-la naquele que é o melhor lugar em que se pode conhecer a pessoa amada: na fantasia8. Mas haveria muitas outras, no início da sua vida adulta.
Uma dessas foi Clare, “uma violoncelista que morava no andar de baixo, a quem ouvia praticando concertos de Bach de manhã cedo”, e Beth, “que era operadora de caixa ao lado dele em um supermercado onde tinha trabalhado durante as férias de verão do segundo ano”, e Rachel, “a irmã mais nova de um amigo”, e uma mulher sem nome que carregava um saco de laranjas da Harolds Food Halls, que lhe sorriu com cálidos olhos castanhos, quando ele saía da estação de metrô Holborn. “Os maiores românticos”, Botton diz, “devem ser aqueles que não têm ninguém em particular com quem ser romântico.9” É platonismo, novamente. É a questão do amor como desejo e falta, e perspectiva. Para Ben, depois de outras tantas relações, “o amor parecia ser algo mais fácil de se experimentar se houvesse a certeza de que ninguém concreto ou presente retribuiria a emoção”10. Botton, aí, faz coro com André Comte-Sponville, interpretando a Diotima de Sócrates, conforme Platão, e associando-os a Schopenhauer11 e Proust, dentre outros: “Lembrem-se de Proust em Em busca do tempo perdido” – Comte-Sponville diz –:

“Albertine presente, Albertine desaparecida...” Quando ela não está presente, ele sofre atrozmente: está disposto a tudo para que ela volte. Quando ela está presente, ele se entedia: está disposto a tudo para que ela vá embora. Não há nada mais fácil do que amar quem não temos, quem nos falta: isso se chama estar apaixonado, e está ao alcance de qualquer um. Mas amar quem temos, aquele ou aquela com quem vivemos, é outra coisa!12

Ama-se a fantasia, que se alimenta no desejo, que é a falta... e a perspectiva (ou esperança, como alguns preferem). Mas amor romântico realizado é amor perdido, fadado à perdição.  
Ben agora estava casado com Eloise, e tinha dois filhos com ela: uma menina de seis anos, e um menino, com quatro. Morava em um subúrbio ao norte de Londres. A presença de Eloise, no entanto, em muitos momentos da sua vida, era igual a de um móvel imóvel depositado na sala, e ao qual somente se procura quando necessário.

Ele tinha, por vezes, um profundo sentimento por Eloise, mas, se analisasse o padrão de suas emoções, teria que admitir que seu desejo só aparecia em um contexto determinado. Apesar de quase uma década ter se passado, o epicentro do seu amor continuou sendo o tempo em que Eloise era quase uma estranha, logo depois do primeiro encontro em um bar em Notting Hill, quando conversaram sobre a tese que ela tinha acabado de entregar na universidade (rituais de parentesco em Bornéu); ela, brincando, o acusou de ignorar sua amiga, e ele imaginou como seria abrir os botões da blusa de algodão.13

O tempo em que ele mais a amou foi aquele em que a sua presença não era coisa vulgar, aí, dada à mão; como nos primeiros encontros, em que ela insistia que eles deveriam esperar mais um pouco, enquanto ele enfiava a mão dentro do seu jeans; ou como quando passaram um final de semana em Yorkshire, que foi onde transaram pela primeira vez. Depois, em suas lembranças, ele não sentia mais o amor, não sentia nada... Eloise, um móvel na sala.
Um dia ela caiu na rua, quando passeava com Hannah, a filha mais velha. Levada ao hospital, diagnosticou-se uma intoxicação aguda no sangue, e o médico lhe disse que ela chegou o mais próximo que se pode chegar da morte. Eloise estava na UTI do Hospital St Mary, respirando dolorosamente com uma máscara de oxigênio, tinha tubos enfiados em seus braços e um monitor cardíaco sob a camisola. Assim, e na iminência de perdê-la, Ben a amou, novamente. Como viveria sem ela, se ela morresse? Onde encontraria alegria? Foram tantos os momentos bons e ruins com ela, e isso, de certo modo, fazia com que ela fosse parte dele e... Daí pensou também que, se ela morresse, a amaria para sempre, definitivamente; mas, se se recuperasse, como tudo indicava que fosse ocorrer, voltaria a ser o que era antes: um móvel na sala14. Eloise presente; Eloise desaparecida.

Então, Ben sentiu a dificuldade peculiar de amar alguém que não está comprometido com outra pessoa, desinteressado, saindo da estação em direção a um destino desconhecido ou inexistente. Ele viu que o maior desafio para o amor poderia nascer da realização do surpreendente sonho inicial: que se pode viver e possuir o ser amado até o fim.15
            
O que não temos, o que não somos, o que nos falta... eis aí os objetos do nosso desejo, do nosso amor16. Parece que a saúde do nosso amor repousa no caminho do meio – mas, quem conheceria tanto equilíbrio?




1 “O cordel usa tudo, ou quase tudo, como motivo para criação dos folhetos dos poetas populares. Desde os romances tradicionais – Carlos Magno e os Doze Pares de França, a Imperatriz Porcina, João de Calais etc –, que nos chegaram da idade média, através do romanceiro ibérico, sendo aqui adaptado à ecologia e aos sentimentos nordestinos, até assuntos históricos brasileiros, fatos ligados à religiosidade, ao misticismo, à vida campestre, crimes, acontecimentos mais recentes da atualidade universal.” (MEDEIROS, Irani. Introdução. In: _____. [Org.]. BARROS, Leandro Gomes de. No reino da poesia sertaneja. João Pessoa: Idéia, 2002. p. 13. [Col. Boi Misterioso]).
2 Na introdução que faz à coleção Biblioteca de Cordel, da editora Hedra, Joseph M. Luyten afirma que, “embora a imensa maioria dos autores [de cordéis] seja de origem nordestina, não serão esquecidos outros polos produtores de poesia popular, como a região sul-riograndense e a antiga capitania de São Vicente, que hoje abrange o interior de São Paulo, Norte do Paraná, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, parte de Minas Gerais e Goiás.” (LUYTEN, Joseph M. Biblioteca de cordel. In: SILVA, Minelvino Francisco. Cordel. São Paulo: Hedra, 2000. p. 5-6. [Biblioteca de Cordel]).  
3 MONTEIRO, Manoel. No vai e vem do amor. Campina Grande – PB, 2004. p. 1. Cordel.  
4 BOTTON, Alain. A natureza do amor. In: Bravo!, São Paulo, ano 13, n. 171. p. 96-98. 2011.
5 Cf. PLATÃO. O banquete. In: _____. Diálogos. 2. ed. São Paulo: Abril Cultural, 1983. p. 1-53. (Col. Os Pensadores).
6 BOTTON, 2011, p. 96.
7 BOTTON, 2011, p. 96.
8 “A falta de informação sobre Helen não fora um impedimento para os seus sentimentos – na verdade, possibilitou sua intensidade particular. Assim como podemos facilmente identificar um rosto com apenas alguns traços de lápis e construir a ideia de uma personagem fictícia com apenas algumas linhas, seu conhecimento fragmentado foi suficiente para construir o retrato de alguém que poderia passar umas férias com ele nas ilhas gregas, alguém com quem ele dividiria um sorriso cúmplice ao final de festas, com quem faria amor em trens e compartilharia o resto de sua vida.” (BOTTON, 2011, p. 96).
9 BOTTON, 2011, p. 96.
10 BOTTON, 2011, p. 96.
11 “Sua vida oscila como um pêndulo, para aqui e para acolá, entre a dor e o tédio.” (SCHOPENHAUER, Arthur. O Mundo como Vontade e como Representação. São Paulo: Editora UNESP, 2005. p. 402. [IV, 57]).
12 COMTE-SPONVILLE, André. A felicidade, desesperadamente. São Paulo: Martins Fontes, 2001. p. 34. Mario Quintana também trata sobre a dinâmica da presente ausência do amor ao objeto amado, concreto: “É preciso a saudade para eu te sentir / como sinto – em mim – a presença misteriosa da vida... / Mas quando surges és tão outra e múltipla e imprevista / que nunca te pareces com o teu retrato... / E eu tenho de fechar meus olhos para ver-te!” (QUINTANA, Mario. Presença. In: _____. Quintana de bolso: Rua dos Cataventos e outros poemas. Porto Alegre: L&PM, 2011. p. 59. [Col. L&PM Pocket, 71]).
13 BOTTON, 2011, p. 97-8.
14 “Tinha entendido que nunca mais conheceria significado ou alegria sem Eloise ao seu lado – uma sensação que, no entanto, diminuía estranhamente quanto mais parecia que esse privilégio lhe seria de fato negado.” (BOTTON, 2011, p. 98).
15 BOTTON, 2011, p. 98. “Há duas catástrofes na existência: a primeira é quando nossos desejos não são satisfeitos; a segunda é quando são.” (Bernard Shaw, citado em: COMTE-SPONVILLE, 2001, p. 36).
16 PLATÃO. O banquete, 200 e.


segunda-feira, 30 de julho de 2012


11.





Do desejo de eternidade, da libertinagem & de outros amores que se equivalem




Angelus Silesius, místico medieval, dizia:

Para, aonde vais correndo, se o céu está em ti?
E procurar Deus alhures é perdê-lo sempre.1

De semelhante modo, Mestre Eckhart dizia, nas Conversações espirituais:

Há pessoas que se afastam totalmente dos homens; gostariam de viver sempre sozinhos ou na igreja e pensam que nisto encontram paz. Perguntaram-me: Isso tudo é o melhor? Eu respondi: Não! Vê por quê: Se alguém está bem, estará bem em todos os lugares e no meio de todo tipo de pessoas. Se está mal, estará mal em todos os lugares e no meio de todo gênero de pessoas.2

São variantes óbvias do que, antes, em Agostinho, estava escrito: “Não saias de ti, volta-te para ti mesmo, a verdade habita no homem interior.3” A perspectiva, nos três autores, é teológica. Mesmo por tal perspectiva, o mergulho no Eu é ponto de partida para o Super-Eu, que chamamos de Deus, Fundamento Último, Absoluto, etc. É a constatação de Feuerbach, pelo viés do materialismo histórico, em que o homem aparece como havendo invertido a sua posição histórico-existencial no mundo, no binômio criador/criatura.4
Para além da ortodoxia teológica, o pensamento livre sobre nós mesmos, sem loucura e sem paixão, aponta para a Vontade de sermos mais que isto: finitude, limite, angústia, desespero, solidão. A ideia de “transcendência” não é mais que a sensação introspectiva, droga natural, nos iludindo com um “ir além de nós mesmos”. Mas, como? Está tudo aí, em nós, em nossa mente. Fora isso, não há mais nada. “A teologia”, Quintana escreve no Caderno H, “é o caminho mais longo para chegar a Deus.5” E isso parece resumir, atualizar e modernizar tanto Agostinho, quanto Silesius e Mestre Eckhart.
O céu, a verdade, o amor, o inferno... Tudo está em nós, de onde não podemos sair, na experiência relacional com o Outro, e com o Mundo. Mesmo quando acreditamos poder enfrentar o nosso Eu, animados pelo discurso moral que procura sufocá-lo, julgando-o impróprio e inadequado ao sentimento de compaixão, às normas da fé e da civilidade. Mas, ah!, que amor conhecemos, senão o nosso?, ou melhor: que está em nós – mesmo quando acreditamos poder devotá-lo às artes, às ciências, às doutrinas, às mulheres e/ou aos homens. Antes do pensamento, a vida. É a constatação do cogito, ergo sum, de Descartes6 – semelhante à outra mais antiga, de, novamente, Agostinho: si fallor, sum7. De fato, “cultivamos o hábito de viver antes de adquirir o de pensar”, afirma Camus, n’O mito de Sísifo8. Sabe-o bem Don Juan, profundamente analisado por Camus, na segundo parte (O homem absurdo) d’O mito. Já em A queda, depois que o seu narrador, Jean-Baptiste Clamence (o “juiz-penitente”), volta a mencionar o lendário amante espanhol, é o desejo da imortalidade do Eu que, aí, afinal, torna a se manifestar, pelo amor – o amour de soi, naturalmente. “Desesperado do amor e da castidade, compreendi, enfim, que restava a libertinagem, que substitui muito bem o amor; faz calar os risos, restabelece o silêncio e, sobretudo, confere a imortalidade.9” Trata-se de uma confissão.
A virtude penitencial (restritivo-punitiva), por amor ao Sumo Bem e à eternidade – no sentido de salvação eterna, aqui –, conforme ensinado pela Igreja Cristã, vê a libertinagem como entrave ao seu sucesso, e procura castigá-la: senão no corpo (vide o sofrido Lutero, antes de revoltar-se contra a Igreja de Roma; vide o atormentado São Francisco Solano... exemplos semelhantes são incalculáveis), no intelecto. “Pois eu sei que em mim – quero dizer em minha carne – o bem não habita”, o apóstolo diz10. De um ou de outro modo, o desiderium é um, somente: salvar a própria pele, a própria alma. Já Nietzsche, no Zaratustra, trata do desejo da eterna beatitude do corpo, para o corpo, contra toda a dor do mundo, e por todo o prazer que ele oferece:

E se quisestes, algum dia, duas vezes o que houve uma vez, se dissestes, algum dia: “Gosto de ti, felicidade! Volve depressa, momento!”, então quisestes a volta de tudo –
Tudo de novo, tudo eternamente, tudo encadeado, entrelaçado, enlaçado pelo amor, então, amastes o mundo –
– Ó vós, seres eternos, o amais eternamente e para todo o sempre; e também vós dizeis ao sofrimento: “Passa, momento, mas volta!” Pois quer todo o prazer – eternidade!11

Retire-se o inferno ou o paraíso da eternidade e a teologia cristã perde o seu sentido, e a própria ideia de Deus. Sim, depois que o corpo morre – é doutrina da Igreja –, o espírito que o habitava, agora está livre12, mas não será somente espírito, eternamente. Na ressureição, o desencarnado recebe um novo corpo: destinado à vida beata ou à danação eterna. Sem o corpo, não há consciência; sem consciência, não há o Eu punido ou premiado. O corpo, mesmo transformado, permanece, precisa permanecer: para o prazer ou para a dor.
Mesmo aos libertinos, aos que não têm fé em Deus, ou na eternidade mal ou bem-aventurada, ainda há um natural desejo de permanência post-mortem. O que isso mostra? Que a vida – que está em nós, fazendo com que desejemos ainda viver quando não houver mais vida – quer viver; vida é Vontade de vida. O “juiz-penitente”, em Camus, faz referência a tal vontade, ilustrada na confissão: “Eu tinha vivido sempre na libertinagem, pois nunca deixei de querer ser imortal. Não seria essa a essência da minha natureza, e também a consequência do grande amor por mim mesmo? Sim, eu morria de vontade de ser imortal. Eu me amava demais para desejar que o precioso objeto de meu amor desaparecesse para sempre.13” E que objeto seria esse? O corpo, e a consciência que nele habita: o Eu consciente-de-mim-mesmo. A dicotomia (tempo/eternidade) é explicada na de-cisão pelo real (ratio) em detrimento do ideal (fides): “Em nosso estado de vigília e em nosso pouco conhecimento, não encontramos razões válidas para que a imortalidade seja conferida a um macaco lascivo; assim, faz-se necessário descobrir substitutos para essa imortalidade. Como eu desejava a vida eterna, dormia com prostitutas e bebia durante noites inteiras.14” O realismo d’A queda é cru, brutal, desesperado.
Mesmo assim, e embora por outro viés, o anseio do “juiz-penitente” não é estranho aos anseios das pessoas mais comuns, no que tange aos nossos destinos – nossos destinos amorosos: Eu > seu objeto (o Tu, o Outro, o Mundo) < Eu. No primeiro capítulo de Essays in Love, de Alain de Botton, podemos ver isso de modo muito bem exposto: “O anseio por um destino não é em nenhuma parte mais forte do que em nossa vida romântica.15” E, para o que se segue, ou se seguirá, as questões: “Por tantas vezes forçados a dividir nossa cama com aqueles que não têm acesso a nossa alma [Don Juan, Jean-Baptiste Clamence, outros...], não podemos ser perdoados se acreditamos (contrariamente a todas as regras de nossa era iluminada) que estamos destinados a um dia encontrar o homem ou mulher de nossos sonhos?16” Perfeitamente!      
Ah, os nossos sonhos! Quem nunca teve de abandonar alguns – a maioria, talvez – quando a realidade da vida, crua, brutal e desesperada, se abateu sobre eles? “Sonhos, sonhos são”, o Chico poetiza, coberto de razão17. O anseio por um destino amoroso – e daí a felicidade mais feliz – é coisa comum aos indivíduos. Nosso objeto, nosso destino, nossa felicidade. Não há nada externo, nem o objeto amado... está tudo em nós: o querer e o realizar, quando possível. “Não podemos ser perdoados por uma certa fé supersticiosa numa criatura que será a solução dos nossos anseios incansáveis?18” Mesmo inconscientes, é o que afirmamos, positivamente. Para encontrar (ou reencontrar19) tal criatura, e com ela a felicidade, nos submetemos às odisseias da conquista, ou ao resgate do antes conquistado, e perdido – como um Odisseu que deseja voltar à sua Ítaca, e aos braços da sua Penélope; como Orfeu que vai ao Hades em busca de sua Eurídice, que é preferível mais que todas as mulheres da Trácia; e como Alceste, morrendo em lugar do amado, a fim de que ele viva20 –, nos submetemos ao inferno do amor romântico, crentes no seu prêmio.
Se o sofrimento é o pagamento por uma grande conquista amorosa – ou a recompensa da nossa fé, ou outra recompensa que dê algum sentindo à nossa vida –, não apenas não o evitamos, como também o buscamos, já felizes.21
Ah, os nossos sonhos!, a nossa paixão!, a nossa loucura! 





1 Citado em: BRIÈRE, Yveline. (Org.). O livro da sabedoria. São Paulo: Martins Fontes, 2005. p. 182.
2 ECKHART, Mestre. Conversações espirituais. In: _____. O livro da Divina Consolação e outros textos seletos. 5. ed. Bragança Paulista: Editora Universitária São Francisco, 2005. p. 105. (Col. Pensamento Humano).
3 De vera religione, 39, 72. AGOSTINHO, Santo. A verdadeira religião; O cuidado devido aos mortos. São Paulo: Paulus, 2002. (Col. Patrística, 19).
4 “A religião é a cisão do homem consigo mesmo: ele estabelece Deus como um ser anteposto a ele, Deus não é o que o homem é, o homem não é o que Deus é. Deus é o ser infinito, o homem, finito; Deus é perfeito, o homem imperfeito; Deus é eterno, o homem transitório [etc.]. O que deve ser demonstrado é então que esta oposição, que esta cisão entre Deus e homem, com a qual se inicia a religião, é uma cisão do homem com a sua própria essência.” (FEUERBACH, Ludwig. A essência do cristianismo. 2. ed. Campinas, SP: Papirus, 1997. p. 77).  E, sobre isso, o elogio de Marx a Feuerbach: “No que diz respeito à Alemanha, a crítica da religião está, no essencial, terminada, e a crítica da religião é a condição preliminar de toda a crítica. [...] O fundamento da crítica irreligiosa é: foi o homem quem fez a religião, não foi a religião que fez o homem. Realmente, a religião é a consciência de si e o sentimento de si que possui o homem que ainda não se encontrou, ou que se tornou a perder. Mas o homem não é um ser abstrato escondido algures fora do mundo. O homem é o mundo do homem, o Estado, a sociedade. Este estado, esta sociedade, produzem a religião, consciência invertida do mundo, porque eles próprios são um mundo invertido.” (MARX, Karl. Crítica da Filosofia do Direito de Hegel. In: _____ & ENGELS, Friedrich. Sobre a religião. Lisboa: Edições 70, 1975. p. 47-8).
5 QUINTANA, Mario. Caderno H. Porto Alegre: Editora Globo, 2006. p. 219.
6 Ou: “Penso, logo existo.” Cf. DESCARTES, Rene. Discourse on method. New York: The Liberal Arts Press, 1950. p. 20-21. Veja ainda: DESCARTES, René. Meditações. In: Obra escolhida. São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1962. p. 158-9.  Meditação quarta. (Col. Clássicos Garnier).   
7 Ou: “Se me engano, existo.” A fórmula: “Quem duvida que vive, recorda, entende, quer, pensa, conhece e julga. Porque, se duvida, vive; se duvida, lembra-se da dúvida; se duvida, entende que duvida; se duvida, é porque busca a certeza; se duvida, pensa; se duvida, sabe que não sabe; se duvida, é porque julga que não deve concordar temerariamente. E ainda que duvide de todas as outras coisas, não pode duvidar destas, pois, se não existissem, seria impossível qualquer dúvida.” (De Trinitate, X, 10, 14. AGOSTINHO, Santo. A Trindade. 2. ed. São Paulo: Paulus, 1994. (Col. Patrística). “Mersenne, já na primeira leitura do Discurso do Método, e o grande Arnauld, logo depois da publicação das Meditações metafísicas, assinalaram a Descartes a coincidência surpreendente entre certos raciocínios do grande Doutor e o argumento do cogito. Entretanto, é o caso de perguntar se Descartes conheceu efetivamente ou não tais textos?” (MARROU, Henri. Santo Agostinho e o Agostinismo. Rio de Janeiro: Livraria Agir Editora, 1957. p. 173. (Col. Mestres Espirituais).
8 CAMUS, Albert. O mito de Sísifo. Rio de Janeiro: Edições BestBolso, 2010. p. 23.
9 CAMUS, Albert. A queda. Rio de Janeiro: Edições BestBolso, 2008. p. 77.
10 Romanos 7, 8 (TEB).
11 NIETZSCHE, Friedrich. O canto ébrio. In: _____. Assim falou Zaratustra: um livro para todos e para ninguém. São Paulo: Círculo do Livro, [s.d.]. p. 324 [§ 11].
12 Agostinho, por influência de Platão – que recebeu influência dos pitagóricos e dos órficos –, preserva a ideia de que o corpo é uma prisão à alma. Sócrates diz a Cebes: “É uma coisa bem conhecida dos amigos do saber, que sua alma, quando foi tomada sob os cuidados da filosofia, se encontrava completamente acorrentada a um corpo e como que colada a ele; que o corpo constituía para a alma uma espécie de prisão...” (Fédon, 83d). A interessante história de Er, que aparece no Livro X d’A República, é contada por Sócrates. Er, recolhido morto após uma batalha, ressuscita depois de doze dias. Redivivo, conta o que viu no mundo do além: “Quando a sua alma deixou o seu corpo, pôs-se a caminhar com muitas outras...” E a sequência do relato é incrivelmente semelhante às palavras do Cristo, quando fala sobre o dia do juízo (Mateus 25, 32-46). Quando Mônica – mãe de Agostinho – morre, ele tem ciência de que ela, enfim, tornara-se livre: “Enfim, no nono dia da doença, aos cinquenta e seis anos de idade, e no trigésimo terceiro de minha vida, aquela alma piedosa e santa libertou-se do corpo”. (Confissões, IX, 11,28).
13 CAMUS, 2008, p. 77.
14 CAMUS, 2008, p. 77.
15 BOTTON, Alain de. Petite philosophie de l’amour. Paris: Éditions Denoël, 1994. p. 7. (Pocket).
16 BOTTON, 1994, p. 7.
17 BUARQUE, Chico. Sonhos, sonhos são. In: _____. As cidades. São Paulo: Abril Coleções / Sony Music, 2010. p. 35. 1 disco sonoro. Faixa 3 (3 min 15 s). (Col. Chico Buarque, 16).
18 BOTTON, 1994, p. 7.
19 Neste caso, convém lembrar a recomendação de Nietzsche, sobre a esperança de “felicidade” em reaver o que foi perdido, na esperança de haver a felicidade que, uma vez, pensou-se conhecer – como no ditado: “eu era feliz e não sabia.” –: “E se quisestes, algum dia, duas vezes o que houve uma vez, se dissestes, algum dia: ‘Gosto de ti, felicidade! Volve depressa, momento!’, então quisestes a volta de tudo.” (NIETZSCHE, [s.d.], p. 324 [§ 11]).
20 A referência ao ato de Alceste, julgado superior ao de Orfeu, aparece no Banquete, de Platão, no discurso de Fedro: “A Orfeu, o filho de Eagro, eles [Hades e Perséfone] o fizeram voltar sem o seu objetivo, pois foi um espectro o que eles lhe mostraram da mulher a que vinha, e não lha deram, por lhes parecer que ele se acovardava, citaredo que era, e não ousava por seus amor morrer Alceste, mas maquinava um meio de penetrar vivo no Hades”. (O banquete, 179 d. PLATÃO. O banquete. In: _____. Diálogos. 2. ed. São Paulo: Abril Cultural, 1983. p. 14. [Col. Os Pensadores]).
21 “O homem, o animal mais corajoso e mais habituado ao sofrimento, não nega em si o sofrer, ele o deseja, ele o procura inclusive, desde que lhe seja mostrado um sentido, um para quê no sofrimento.” (NIETZSCHE, Friedrich. Terceira dissertação: o que significam ideais ascéticos. In: _____. Genealogia da moral – uma polêmica. São Paulo: Companhia das Letras, 1999. p. 149 [§ 28]).


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