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quinta-feira, 1 de novembro de 2012


21.





Do que fazemos, que é por amor




Nada do que foi feito de grande ou pequeno, na arte, na política, na religião, no mundo ou na história do mundo, se realizou sem amor; e, sem ele, nada do que foi feito se fez. O único problema, nisso, é entender claramente o que se diz ou se quer dizer com “o amor” – a grande palavra encobridora.
O maior, melhor e mais claro tratado já feito sobre ele veio à lume em 1818, pelo gênio de Arthur Schopenhauer1, à sombra do espectro de Charles Darwin e mergulhado em um “novo budismo”, sob o título Die Welt als Wille und Vorstellung, ou: “O mundo como vontade e como representação”2. Nietzsche, em posse do referido, e fascinado com o que lia, reverenciou o seu autor como sendo seu “primeiro e único educador”, embora tenha se distanciado dele depois, por outras questões.

Nietzsche relata que seu encontro com O mundo como vontade e como representação, obra máxima de Schopenhauer, se deu ao entrar num antiquário em Leipzig, ano de 1865, e ter sua atenção chamada para o livro ali exposto. Comprou-o e teve a sua vida mudada para sempre. Ao iniciar a leitura, não mais conseguiu se desapegar das páginas. Sentia-se embriagado com as revelações ali feitas. Encontrara o seu ‘primeiro e único educador’, que tinha escrito aquele livro para ele e lhe falava intimamente numa linguagem perfeitamente clara. Sua confiança naquela forma de pensamento foi completa.3

Tudo o que Nietzsche, Lou-Salomé ou Sigmund Freud dirão sobre Desejo, Eros, Vontade ou Pulsão, é mera repetição e/ou acréscimo... quando não descarrilam para afirmações pioradas.
Recentemente, no Brasil, foi publicado um excerto de A origem das espécies (The origin of species, de 1859), pela Pocket Ouro, com o título: “A luta pela sobrevivência”. Nas 265 páginas do livreto, Darwin explica porque prefere esse termo e não o de Herbert Spencer4, “a persistência do mais apto”, embora a considere “mais exata e algumas vezes mais cômoda”.5

Nada mais fácil que admitir a verdade deste princípio: a luta universal pela sobrevivência; nada mais difícil – e falo por experiência – do que ter este princípio sempre presente no espírito, pois, caso contrário, ou se vê mal toda a economia da natureza, ou se atribui sentido errado a todos os casos relativos à distribuição, à raridade, à extinção e às variações dos seres organizados.6

 A “A luta pela sobrevivência”, aqui, é a “Vontade de vida”, ali (em Schopenhauer), partindo de um aspecto menos científico – no sentido de a posteriori. Vê a Vontade geral (consciência geral subjetiva: a espécie), sob a ótica do individual, mais fácil de análise objetiva (o indivíduo). Na descrição do “amor” que os animais selvagens têm por suas crias, ao ponto de, por elas, sacrificarem-se, é essa “consciência geral subjetiva que aparece”, e não há amor nenhum aí – no sentido romântico do termo7. Assim também o pai ou a mãe, pelo filho, ou, antes, por si mesmos; ou, de modo mais geral: pela espécie humana. É a Vontade agindo, no instinto, cego ou não. Deveras, o suicídio – como já foi dito com a citação de Pascal8 – não é uma demonstração de desapego à Vontade de vida, mas, ao contrário, demonstração da Vontade no limite de uma experiência finalíssima. Um trecho do Livro terceiro de (“Do mundo como representação”), do Die Welt...:

Nada mais difere tão amplamente da negação da Vontade de vida exposta suficientemente nos limites do nosso modo de consideração, e que constitui o único ato de liberdade da Vontade a entrar em cena no fenômeno, [...] do que a efetiva supressão do fenômeno individual, na efetividade, pelo SUICÍDIO. Este, longe de ser negação da Vontade, é um acontecimento que vigorosamente a afirma. Pois a essência da negação da Vontade reside não em os sofrimentos mas em os prazeres repugnarem. O suicida quer a vida; porém está insatisfeito com as condições sob as quais a vive. Quando destrói o fenômeno individual, ele de maneira alguma renuncia à Vontade de vida, mas tão-somente à vida. [...] A Vontade de vida aparece tanto na morte auto-imposta (Shiva), quanto no prazer da conservação pessoal (Vishnu) e na volúpia da procriação (Brahma).9

Se o suicídio é a única questão filosófica realmente séria, como Camus afirma10, a resposta pela continuidade da vida – qualquer que seja ela – é uma resposta à Vontade de vida; e a Vontade de vida, para ser, precisa da continuidade da espécie, além do indivíduo. Assim, e “por mais desinteressada e ideal que pareça [a] admiração por uma pessoa amada, o alvo real é a concepção de um novo indivíduo de determinada natureza.11” Nisso, a beleza do corpo é propaganda da sua saúde, da aptidão à geração do novo indivíduo, pela relação sexual: “A inclinação amorosa, antes de mais nada, procura no sexo oposto um corpo sadio, forte e belo e, por conseguinte, juventude. A Vontade deseja representar, antes de tudo, o caráter geral da espécie humana, como base de toda individualidade.”12
Quando Nietzsche fala da antinatureza cristã, em sua grande crítica ao cristianismo, não é sem considerar tais fundamentos. O ágape, ou o amor ao feio, ao débil, ao aleijado, ao corpo velho, et cetera, é a subjugação do real pelo ideal, a naturalidade invertida, a mentira do romantismo ingênuo, e da pia moral cristã.

O cristianismo tomou o partido de tudo o que é fraco, baixo, malogrado, transformou em ideal aquilo que contraria os instintos de conservação da vida forte; corrompeu a própria razão das naturezas mais fortes de espírito, ensinando-lhes a perceber como pecaminosos, como enganosos, como tentações os valores supremos do espírito. E exemplo mais lamentável – a corrupção de Pascal, que acreditava na corrupção de sua razão pelo pecado original, quando ela fora corrompida apenas pelo seu cristianismo!13

Darwin, Schopenhauer... Nietzsche. É bom que o leitor tenha essa ordem em mente, para o que será dito daqui à frente. No mais, a emergência do indivíduo e do individualismo egotista, desde o século XVIII para cá, somente veio somar pontos ao que fora exposto pelo velho mestre alemão, sobre o Eu individual e sobre a Vontade de vida, a quem me dou como quem abduzido, por amor a mim, em obediência a ela, consciente ou não. Mesmo a nossa ingenuidade sobre o que seja ou não seja “o amor”, ou “aquilo que acreditamos sentir por uma pessoa amada”, é resposta à Vontade de vida que está oculta na presença enganosa da afecção ao Outro, no fito de que continuemos, e sem o falso escape que o suicídio insinua. Quando insistimos no erro de pensar em um amor ideal – às vezes transcendente a nós, e às vezes imanente –, não é por amor ao erro ou ao Outro que assim fazemos, mas por amor a nós mesmos. O Eu, aí, está sempre muito além de qualquer moral, e do bem e do mal. 






1 Arthur Schopenhauer (1788-1860). Gênio que não foi reconhecido por sua mãe, por exemplo. Consta que, em 1813, depois de redigir e publicar a tese A quádrupla raiz do princípio da razão suficiente – que será, depois, completamente absorvida em O mundo como vontade e como representação –, ouviu a mãe (Johanna Henriette Trosina) zombar do conteúdo, dizendo que a obra não era mais que um livro para farmacêuticos. Schopenhauer reage dizendo que os romances dela não sobreviveriam à posteridade, e que ela somente seria lembrada por ser “a mãe de Schopenhauer”. Parece que ele, afinal, tinha razão.
2 Há duas boas traduções para a obra, no Brasil. A melhor, sem dúvida, é a de Jair Barbosa, em: SCHOPENHAUER, Arthur. O Mundo como Vontade e como Representação, I tomo. São Paulo: Editora UNESP, 2005. 695 p.
3 BARBOSA, Jair. Apresentação: um livro que embriaga. In: SCHOPENHAUER, Arthur. O Mundo como Vontade e como Representação, I tomo. São Paulo: Editora UNESP, 2005. p. 7.
4 O britânico Herbert Spencer (1820-1903) é um dos mais ilustres representantes do positivismo. Admirador da obra de Darwin, Spencer cunhou o termo “sobrevivência do mais apto”, aplicando um darwinismo às vezes bem pessoal, pelos níveis que propunha às análises que fazia da atividade humana. Por isso, e embora não tenha falado de um “darwinismo social”, o termo veio a calhar à sua própria obra – pela tentativa de justificar a divisão social (classes) com base na seleção natural.
5 DARWIN, Charles. A luta pela sobrevivência. Rio de Janeiro: PocketOuro, 2009. p. 7.
6 DARWIN, 2009, p. 7.
7 “A lontra, quando perseguida, pega seu filhote, mergulha com seu corpo e enfrenta as flechas dos caçadores enquanto a sua cria se salva. Fere-se um filhote de baleia apenas para atrair a mãe, que acode em seu socorro, e raramente dele se separa enquanto este viver, mesmo que seja atingida por diversos arpões – Na ilha dos Três Reis, na Nova Zelândia, vivem focas colossais chamadas de ‘elefantes marinhos’. Nadam ao redor da ilha em bando organizado e alimentam-se de peixes. Têm, porém, sob a água certos inimigos cruéis e desconhecidos que muitas vezes os ferem gravemente. Por isto, o seu nado em comum exige uma tática especial. As fêmeas dão cria nas margens, e depois, enquanto amamentam, o que demora de sete a oito semanas, todos os machos formam um círculo em seu redor, para impedi-las de ir ao mar, impelidas pela fome. Quando, porém, o tentam, são repelidas a dentadas. Assim, durante sete ou oito semanas, todos juntos passam fome e emagrecem muito, tudo isto para impedir a saída dos filhotes ao mar, antes que sejam capazes de nadar bem e obedecer à usual técnica de natação, que lhes é ensinada a trancos e dentadas. Isto demonstra também, até que ponto o amor dos pais pelos filhos, como qualquer outra forte manifestação da Vontade, aumenta a inteligência. Patos selvagens, toutinegras e muitos outros pássaros, quando o caçador se aproxima do ninho, voam com altos alaridos e se precipitam aos seus pés, esvoaçando de um lado para o outro, como se estivessem paralisadas suas asas, tudo isto para chamar sobre si a atenção do caçador e desviá-la dos filhotes. A cotovia entrega-se ao cão, procurando com isto fazer com que ele se afaste do ninho. Também corças e veados procuram atrair a si a atenção da caçada e fim de salvaguardar os filhos. Voaram andorinhas até casas em chamas para salvas seus filhotes, ou para morrer com eles. Em Delft, uma cegonha deixou-se queimar no ninho, num violento incêndio, para não abandonar seus filhotes que ainda não sabiam voar. Pássaros selvagens, ao chocar, deixam-se apanhar no ninho. A muscicapa tyrannus defende seu ninho com grande valentia, e enfrenta até a águia. Cortou-se uma formiga ao meio e viu-se a sua metade dianteira pôr ainda a salvo os ovos. Uma cadela, de cujo corpo se cortaram os filhotes, arrastou-se moribunda até eles, lambeu-os com amor, e começou só a gemer horrivelmente quando lhos tiraram.” (SHOPENHAUER, Arthur. O instinto sexual. São Paulo: Edições INEDOS, 1951. p. 37-8). O cuidado, aí, é mais à espécie que ao indivíduo – embora seja nele que mais parece aparecer. É de igual modo no homem, e na mulher, e na espécie humana. O impulso não é pela morte, mas pela vida.
8 “Todos os homens procuram ser felizes; não há exceção. Por diferentes que sejam os meios que empregam, tendem todos a esse fim. O que leva uns a irem para a guerra e outros a não irem é esse mesmo desejo que está em todos, acompanhado de diferentes pontos de vista. A vontade nunca efetua a menor diligência, senão com esse objetivo. Esse é o motivo de todas as ações de todos os homens, até mesmo do que vão enforcar-se.” (Pens., VII, 425. PASCAL, Blaise. Pensamentos. 4. ed. São Paulo: Nova Cultural, 1998. p. 137. [Col. Os Pensadores]).
9 SCHOPENHAUER, 2005, p. 504 (§ 69).
10 “Só existe um problema filosófico realmente sério: o suicídio. Julgar se a vida vale ou não vale a pena ser vivida é responder à pergunta fundamental da filosofia.” (CAMUS, Albert. O mito de Sísifo. Rio de Janeiro: Edições BestBolso, 2010. p. 19).
11 SCHOPENHAUER, 1951, p. 44.
12 SCHOPENHAUER, 1951, p. 46.
13 NIETZSCHE, Friedrich. O anticristo: Maldição do cristianismo: Ditirambos de Dionísio. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. p. 12 (§ 5).





terça-feira, 11 de setembro de 2012


17.






De como Ghiraldelli não explica nada sobre o amor (Parte 2, e final)




Rio de Janeiro, 25 de outubro de 2011, 05:35. Aeroporto Internacional do Galeão, aquele do “Samba do avião”, música do Tom Jobim; e que, por isso, também tem o nome dele, como homenagem.

– Tá gostando?
– Ah!?
– Do livro.
Um homem de barba rala, já quase toda branca, alto e de aspecto sisudo, porém gentil, apontava para o livro que eu segurava com alguma atenção. Daí notei quem era: Paulo Ghiraldelli Jr., autor de Como a filosofia pode explicar o amor. O livro que, por acaso, eu tinha em mãos. Não vou mentir dizendo que não fiquei meio constrangido e, talvez por isso, não soube bem o que dizer além de um honesto:
– É para ser honesto?
– Sim! Por favor! – Ghiraldelli disse, parecendo confiante e muito animado.
No automático, lembrei-me da crítica de Nietzsche ao cristão materialista David Friedrich Strauss, por seu livro A antiga e a nova fé, de 1872, que fizera aumentar o alarde já iniciado com a publicação de A vida de Jesus, de 1836. O impacto dessas obras na sociedade europeia da época, e o modo como o nome de Strauss estava ligado ao de Hegel, foi o que fez Nietzsche se opor ao referido pensador. Na Primeira consideração intempestiva: David Strauss, sectário e escritor, Nietzsche o acusa de, dentre outras, desconhecer a filosofia, não fundamentar consistentemente a sua ideologia cristã materialista-evolucionista e, de muitos modos, ser débil em suas argumentações, além de dominar precariamente a língua alemã, escrevinhando frases desconexas e sem sentido, mal elaboradas e, às vezes, ofensivas à mínima estrutura de um sistema linguístico que preze pela divulgação de ideias e alguma cultura. Também acusa os leitores de Strauss. Esses, ludibriados pela água turva do poço, deixam-se enganar por sua pretensa profundidade. A coletividade alemã é despreparada culturalmente e, por isso, incapaz de demonstrar senso crítico contra escritores como Strauss; é, igualmente, incapaz de acatar verdadeiras críticas e novas propostas de pensadores sérios; assim, e pelo modo como consomem tais obras, favorecem o surgimento e a proliferação de autores mesquinhos e ávidos por fama e fortuna, como o esperto Strauss.
– Na verdade – eu disse, agora pensando em outros espertos, como Ghiraldelli ou Gabriel Chalita –, penso que o senhor realmente não mostra como a filosofia pode explicar o amor. Com exceção do trecho que fala sobre Freud... – procurei o sumário – ... no capítulo 8, e que nem é lá tão extenso, não creio que autores como Schopenhauer, citado apressadamente, Lou-Salomé e Stendhal, somente para lembrar alguns dos mais relevantes, devessem ser ignorados em um livro que, ao menos no título, tanto promete.
– Mas eu falo de Stendhal...
– “Menciona”, e quase por acidente, e o faz em referência a’O vermelho e o negro. E quando o Do amor aparece, acho que é no capítulo 13 – lembrava bem disso porque havia associado o tal capítulo à passagem famosa da carta de são Paulo Aos coríntios –, é em uma referência muito discreta, como não deveria ser; para ele, pelo menos um capítulo, inteiro... e não pequeno.
– Nossa! – Ele disse –, você leu mesmo, hem?
– ...
– Mas, melhor assim. Ao menos mostra que leu. Fale mais.
– No capítulo dedicado a Freud, é O mal-estar na civilização que aparece. Penso que, para falar sobre o amor romântico, que está no mesmo nível da religião, pela sublimação que fazem das afecções, delirando sobre a pureza e a eternidade da sua Fonte, seria mais adequado utilizar O futuro de uma ilusão e...
– Mas – ele atalhou –, já que você prestou tanta atenção, deve ter notado que, até pela quase ausência de referências, notas de rodapé, índice anosmático e temático, é uma obra que se destina a um público, digamos, um público mais leigo.
– E não por acaso eu o comprei em uma banca de revistas.
– Foi? Onde?
– Lá em João Pessoa, na Paraíba.
– Olha aí! – Parecia contente. – Vejam só onde chegamos!
– ...
– Mas, você esta vindo de onde para onde?
Disse que era de João Pessoa mesmo, e esperava uma conexão para Porto Alegre. O voo, por ventura ou por azar, estava atrasado e sem perspectiva de chegada, devido ao mau tempo.
– Porto Alegre! – Ele disse, repetindo a minha última frase. – Desculpe, acho que não perguntei teu nome.
– Antonio Patativa de...
– De Assaré?!
– ... de Sales.
Sempre me impressiono de como as pessoas fazem essa piadinha, tão sem graça. Mas eu nunca fui deselegante por isso, e não seria, agora, com um colega de ofício. Assim, somente acrescentei:
– O de Assaré morreu em julho de... 2002; eu, ao contrário...
– Que Deus o tenha! – Ele disse.
– Duvido muito! – Respondi.
– Não acredita em Deus, Antônio?
– E nem no amor; ao menos como está escrito aqui, em seu livro. É sério: por que é que a gente tem tanto medo de dizer que... o rei está nu? Diga aí, companheiro.
– Hummm... Antônio, se você olhar bem aí... Posso pegar? – Entreguei o livro e deixei que ele procurasse o que, parece, queria me mostrar. Demorou um pouco a que achasse o trecho, e vibrou discretamente ao encontrá-lo, um leve riso de satisfação. – Aqui, ó! Página 58, capítulo 8: “Freud trouxe à baila algo que Schopenhauer e Nietzsche intuíram: que deveríamos prestar mais atenção à ideia de amor como algo vindo do mundo terreno, por mais espiritualizado e/ou idealizado que este pudesse parecer, como de fato se fez representar no chamado amor romântico.”
– ...
– Bem, é alguma coisa; não é? – parecia meio desapontado.
– “Freud trouxe à baila algo que Schopenhauer e Nietzsche intuíram...” Intuíram, nada! – Eu disse. – Eles foram bem além da mera “intuição”. Capítulos como Leben der Gattung, Methaphysik der Geschlechtsliebe e Die Pederastie, de O Mundo como Vontade e como Representação, não são, de forma alguma, mera “intuição” – desenhei as aspas no ar, com as pontas dos dedos, aproveitando que ele ainda segurava o meu/seu livro. – Uma geração antes de Darwin e 60 anos antes de Freud ou Nietzsche – continuei –, Schopenhauer foi o primeiro a apontar as razões inconscientes e biológicas para o amor. Coisa que, hoje, parece bem óbvia às pessoas mais entendidas e menos dadas às fantasias românticas.
– É – ele disse –, parece que tenho de admitir que não me detive o suficiente no velho Schopenhauer, embora tenha, de certo modo, apontado um pouco sobre o seu pensamento amoroso ao falar sobre Freud, sobre o Eu,  o corpo e...
– Foi Schopenhauer quem identificou o eu ao corpo: Eu-corpo; e o corpo ao mundo: corpo-mundo. Daí concluiu, partindo dos sentimentos imediatos deste último, que a essência íntima de cada coisa é a Vontade. Ele partiu da própria subjetividade egótica, como também fizeram os demais filósofos do idealismo alemão, mas lhe imprimiu uma dimensão novíssima de tratamento. Faz isso ao acrescentar, nela, a sua qualidade corpórea. A novidade que isso trouxe ao idealismo não foi percebida por seus contemporâneos. E ainda hoje se coloca a Nietzsche e Freud como promotores dessa descoberta decisiva. O mesmo se dá, de acordo com Roberto Rodríguez Aramayo, em relação à descoberta dos impulsos sexuais, relacionados à vontade de vida, etc.
– Roberto?...
– ... Rodríguez Aramayo, no “Estúdio preliminar” que faz à edição castelhana de Metafísica de las costumbres, de Schopenhauer. Parece que editado pela... não lembro a editora.
– Vou verificar isso.
– Lembro ainda que, no mesmo Estudo, falando sobre a influência da “teoria do amor” de Schopenhauer sobre Freud, Aramayo diz que esse não parecia muito disposto a ver em Schopenhauer o muito da sua inspiração, como registra em sua Autobiografía. E ele cita o trecho – reproduzi o mais fielmente que pude, conforme lembrei –: “A ampla convergência da psicanálise com a filosofia de Schopenhauer, que não somente reconheceu a primazia da emoção e da extraordinária importância da sexualidade, mas também o mecanismo de repressão, não pode ser atribuído ao meu conhecimento de suas teorias, como vi em Schopenhauer, mas em uma época muito avançada em minha vida.” Freud preferia confessar déficits ignorantes de leitura a dar a glória de uma “descoberta atribuída”. Enfim.
Ghiraldelli parecia entediado; e eu acabei ficando. Ele devolveu o livro, dizendo:
– Mais alguma observação? Esse nosso voo parece que vai demorar mais que o esperado.
– Pior que é. Então você está indo à PoA também?
– Pois é.
– Ah!, lembrei de uma coisa que, putz!, não poderia deixar passar.
Ele riu, como a dizer “lá vem você de novo”, e fez sinal para que eu prosseguisse.
– E quando... deixa eu ver aqui... – Localizei o trecho, que ficava no comecinho do referido capítulo “dedicado a Freud”, e li –: “Não canso de admirar as músicas de Rita Lee. As dela ou as que ela escolhe para interpretar. ‘Amor é isso, sexo é aquilo’, de ‘Amor e sexo’, é uma das frases mais fantásticas que eu ouvi. – Olhei para Ghiraldelli, com cara de “ah, tá!, senta lá, Cláudia!” Ele não disse nada. Continuei: – “Leva à verdade, à reflexão e, mesmo fazendo tanto, mantém uma simplicidade estonteante. O amor é o que está perto, isto aqui, ora, mas que o sexo fique bem longe, que seja aquilo lá. ‘Amor é isso’, veja que bonito!” – Fechei o livro, inconformado:
– A beleza, aí, não é mais que uma vontade que ela seja, para além do feioso “aquilo lá”. “I believe the common denominator of the universe is not harmony; but chaos, hostility and murder.” Herzog acredita como Schopenhauer; e eu os sigo, nisso. Não há beleza alguma na procriação, na luta pela vida. O Pequeno Príncipe pensando em sua Rosa vaidosa... é a tradição romântica inteira mantida, sob a máscara de um Eros domado. Solum poeticae litterae, tantum fidem. Ademais, a letra nem é de Rita Lee, mas do Arnaldo Jabor. Pelo amor de Deus!...
– Eiii...!, e quando eu falo em “as dela ou as que ela escolhe para interpretar”? Isso não conta, não?
– Sim!, até conta. Ou melhor: até contaria, se, depois, logo na página seguinte, não estivesse assim – reabri o livro, na página 58, e mostrei-lhe o trecho que eu havia grifado com grafite –: “Sob essa luz dupla, sua atividade poderia ser descrita como uma tentativa de modificar a frase de Rita Lee.” Rita Lee? E que frase seria essa?
– “Amor é cristão, sexo é pagão...”
– Exatamente! Pode até ser bonita a frase (que não é da Rita), mas não tem nada de verdadeiro nela. E é exatamente isso que, parece, poderia ter sido mostrado, através de Schopenhauer, Freud, Nietzsche ou mesmo Lou-Salomé, dente outros e outras. E tem mais...
– ... Pode falar.
– ... Você diz que o livro é destinado ao público leigo, et cetera. Se é, para que utilizar, e sem tradução, termos latinos como par excellence e mutatis mutandis? E isso, a utilização deles, bem mais de uma vez. Soam deslocados e... deselegantes, dentro do grande contexto. E quando, aqui... – mostrei-lhe a página 50 – ... você cita Luc Ferry, a referência que aparece (“Aquele que é consciente do seu pensamento e responsável pelos seus atos”) é a uma obra sua, em que você já havia citado a citação, e a gente acaba sem saber onde foi mesmo que o danado do Luc Ferry disse isso. Há mais referência e referências às tuas próprias obras, Ghiraldelli. É como se, para justificar algo que você diz, você recorresse à sua própria autoridade. E por falar em autoridade: quando você faz referência ao “amor cristão”, baseado na obra de Hannah Arendt, é pensando n’A condição humana, e subscrevendo-a, como se o que ela diz aí fosse certo e acabado. Para falar de amor, em Arendt, eu escolheria O conceito de amor em Santo Agostinho, que é onde isso parece estar bem mais claro e fundamentado, embora equivocado... por afirmar coisas como esta, que está em seu livro: “Diz Arendt que foram os romanos, e não os gregos, que lançaram a ideia de comutar penas, em especial a pena de morte. O hábito de governar povos conquistados, a partir de províncias, obrigou os romanos a introduzir formas de amenização de penas. Todavia, foi só com o Evangelho de Jesus que surgiu o conceito de perdão.” É como se a história do mundo se resumisse à história do Ocidente, e fosse toda ela cristianizada. Naturalmente que é preciso destacar a noção de perdão, na perspectiva jurídica, e o perdão, na perspectiva teológico-salvífica, como aparece na cristandade, et cetera. Agora, confundir o perdão com o amor, e sublimá-lo, como se a coisa sublimada fosse real e fundamento de fundamentos, aí é que está o mais do mesmo do livro, e a manutenção do status quo do pensamento e do erro mais comum a tantos e tantos que escrevem sobre o amor. Essa é a grande novidade em Schopenhauer, ausente em teu livro. Ele, apesar de também ter se voltado a’O banquete de Platão, como você também faz, e ao Fedro, supera-os, depois de elogiá-lo, dizendo que ele foi o que mais se dedicou ao tema do amor sexual. Mas o que Platão dizia sobre o tema, conforme Schopenhauer, não passava de mitos, de fábulas e anedotas que se referiam, geralmente, à pederastia. Assim, sobre o tema do amor, Schopenhauer não teve predecessores a copiar; e os seus contemporâneos nada diziam que fosse digno de grandes comentários...
– Boa observação! Não tenho o que contestar. Admito que deveria ter dado mais atenção a pormenores como esses...
– E outros.
– Outros? Quais?
– Tem um que é central, superior a todos. Foi por causa dele que, logo de cara, vi que o teu livro não me seria lá de muita ajuda.
– Uau! Isso me pareceu bem imodesto.
– O que é a modéstia?
– Ok! OK! Evitemos essa digressão. O que foi que deixou o meu livro tão... rebaixado em teu conceito?
– Logo no primeiro capítulo, quando você descreve os tipos de amor, na literatura, et cetera. Os que aparecem: Eros, philia e ágape. Você não vai, em nenhum capítulo depois, dizer que esses amores, todos eles, são apenas meios de falar, por outro viés, do amour de soi, do amor-próprio, ou o stergein dos gregos, e nosso, naturalmente. Não foi por acaso que eran e stergein, no Novo Testamento, foram evitados. Você não somente subscreve o Novo Testamento como subscreve a quem o subscreve, como Agostinho e Arendt, exaltando festivamente as sublimidades de philein e agapan. Não posso aceitar isso senão como uma espécie de manutenção ad infintum das histórias da carochinha, dos contos de fadas, do amor do Pequeno Príncipe à sua Rosa, e mais do mesmo... um equívoco milenar. Hoje, na emergência do sujeito, não precisamos mais de subterfúgios como “egotismo”, para driblar o velho sentido pejorativo do Eu supervalorado. No início do Walden, de Thoreau, ele diz que “a maioria dos livros omite o eu ou a primeira pessoa”, daí, e como justificativa, o seu eu, ali, será mantido; e essa é a sua diferença, em relação egocentrismo. “Geralmente não lembramos que, afinal”, ele diz, “é sempre a primeira pessoa que está falando.” E, “eu não falaria tanto sobre mim mesmo se existisse alguma outra pessoa que eu conhecesse tão bem.” No amor ou no ódio, para o amor ou para o ódio, a nós mesmos ou aos outros, é o nosso Eu-messsmo que aparece – falei assim, esticando o “s” bem muito, e metendo um excessivo “nosso Eu-messsmo” para enfatizar a ênfase. – O que fazemos disso é que são outros quinhentos e, daí, a importância atual da ética, mas a autônoma, nunca heterônoma. Madre Teresa de Calcutá: ágape ou stergein? Não há dúvida: stergein. Mil vezes stergein! Quanto mais amor, tanto mais egoísmo. Santa Teresa D’Ávila, o piedoso Padre Pio, Adolf Hitler, Pol Pot, Pinochet, Reverendo Moon, Billy Graham... tudo stergein, de um jeito ou de outro...
– “Atenção, senhores passageiros do voo...”
Era a voz no sistema de som do aeroporto, informando que a aeronave já estava se preparando para pousar e que, em breve, anunciariam os procedimentos para o nosso embarque.
– Ufa!, finalmente! – ele disse.
O seu “ufa!”, desconfiei, tinha uma dupla causa: a chegada do nosso avião e a pausa que isso impôs à minha falação sem fim. Eu realmente havia me empolgado naquilo, e não era por acaso que havia comprado o bendito livro do Ghiraldelli, que eu parecia querer depenar por tanto, sim, haver me decepcionado.
– Posso falar só mais uma coisa?
– Mas você nem deixou espaço para as minhas respostas, Antônio.
– Hum... foi mesmo. Desculpe.
– Nada! – ele ziguezagueou com a mão, sinalizando que não havia nada a ser desculpado. – Na verdade, prefiro ouvir as suas colocações... elas podem ajudar a, quem sabe, melhorar uma próxima edição, me fazer rever alguns pontos.
– Pois, se você for rever alguma coisa, pelo amor de deus, companheiro!, exclua aquele monte de referências ao homem de Platão, segundo Aristóteles, só na “sacanation”. “Bípede sem plumas”... é muito clichê, e usado e abusado como você faz, é muito deselegante.
– “Senhores passageiros do voo...”
Era o nosso. Despedimo-nos em um aperto de mão amistoso, como convém aos cavalheiros. Entre filósofos, diferentemente do que ocorre entre os teólogos, a discórdia não aponta para fogueiras, nem condenações eternas. Poderíamos ter ido, inclusive, à fila de embarque; mas desejei ir ao banheiro antes. Depois disso, nunca mais encontrei Ghiraldelli; nem em aeroportos, nem em congressos de filosofia, nem em nada... e duvido muito que ele se lembre de alguma coisa dessa nossa conversa chata e tediosa. Melhor assim.





domingo, 1 de julho de 2012

7.



Do morrer por amor: um equívoco



No fundo, houve apenas um cristão, e ele morreu na cruz.
O “evangelho” morreu na cruz.

– Friedrich Nietzsche

  
Quando Eco viu Narciso, moço lindo como um Apolo ou um Dionísio, enlouqueceu de paixão. Estava amando. Estava perdida. Por quê? Porque o amor é desejo, e desejo é falta, e falta é sofrimento. É Sócrates quem diz, n’O banquete, de Platão – que reforça: “O que não temos, o que não somos, o que nos falta, eis os objetos do desejo e do amor”1, reaparecendo depois, em Sartre: “O homem é fundamentalmente desejo de ser”, e “desejo é falta.”2
“Todo sofrimento vem do amor e da inclinação [desejo].” Mestre Eckhart ensina3. “Tudo é dor, e toda dor vem do desejo de não sentirmos dor.” É doutrina budista, simplificada na letra de “Quando o sol bater na janela do teu quarto”, de Renato Russo4. Desde cedo somos doutrinados a acreditar que a ausência da dor seja uma felicidade5, e que a verdadeira felicidade é prêmio do amor, resposta positiva ao Amor6. Assim, no que tem de puro e venturoso, o amor mundano é reflexo imperfeito e difuso daquele Outro, supramundano, perfeito e eterno. “Mas”, alguém pode dizer, “você está confundindo amor com paixão; e amor não é paixão”. É o mesmo alguém que, de tantas certezas quanto à diferença, vacila duvidoso quando procura conceituar o que seja esse mesmo... “amor”, e também a paixão. Quem pensa assim, comum das vezes, garante que amor é coisa divina (e daí procedente), diferentemente da paixão, que é coisa rasteira, cá da terra, dos homens. Tal vício e engodo vêm de longe, e parece que durará para sempre – pois o amor romântico é um ótimo produto para o mercado literário7 e cinematográfico, e para a Indústria Cultural, em seu sentido mais abrangente.
Na segunda das Quatro Nobres Verdades do Budismo, “a causa do sofrimento é o desejo ardente da vida individual”, ou do Eu consciente-individual: “toda a nossa infelicidade decorre de um eterno querer-viver”8. Na lição de Panchadasi, o resultado do desejo realizado, é o retorno ao Eu – e ele não é um lugar feliz: “[O objeto do meu desejo...] Como farei para agarrá-lo? Não o agarre. O que sobra, quando não se agarra mais nada, é o Eu.9” Comte-Sponville cita Bernard Shaw: “Há duas catástrofes na existência: a primeira é quando nossos desejos não são satisfeitos; a segunda é quando são.10” Não há saída. A não ser que não exista mais o Eu... Mas aí, consequentemente, não haveria a minha consciência sobre o prazer ou a dor. No mundo, e somente nele, conhecemos o céu e o inferno: em nossos sentidos, em nossa consciência. Depois é o vazio, o silêncio, o nada (do Eu). Nada de desejo, nada de sofrimento, nada de amor, nada de paixão.
A “paixão” somente surgiu no segundo século, quando o satírico e médio-platônico Lucius Apuleio, no De Deo Socratis, escreveu sobre a possibilidade da alma, e sobre as perturbações que ela sofre, advindas do mundo externo11. Derivado de pati (suportar, sofrer), passio nomeia o πάθος (de onde “patologia”): a afecção acidental que o corpo (ou a alma) suporta. É esse sofrimento que, às vezes insuportável, enlouquece os apaixonados, e os condena. Veja Tristão, Werther, Romeu, Édipo, Pedro Abelardo; veja... Eco. 
Πάσχειν (sofrer) é o estado natural e mais espontâneo do animal que responde aos impulsos da Vontade, obedecendo-lhe cegamente. Na natureza, onde não há o pensamento, tudo é πάσχειν, e o desconhecimento do seu conhecimento, das fontes do πάσχειν. As criaturas ou são levadas pelo impulso que lhes impele ao outro, objetivado – e às falas12 que narram o impulso, no caso das racionais –, ou condicionadas ao impulso cego, à ação irrefletida: pura paixão, pura animalidade. No processo civilizatório, tal animalidade foi domesticada, amansada, tornada servil às ideais superiores, supramundanos. Assim se falseou a realidade (crua) pela ideia de outra verdade melhor que... esta. Autores mais ortodoxos – como Gianni Vattimo, por exemplo – veem tais provocações como coisas perigosas, “tentadoras”, dizem. O realismo: uma tentação.13 
O idealismo foi, desde cedo, o modo mais seguro de mascarar o real, concedendo-lhe o status derivativo de melhor, do mais verdadeiro e, por isso, “menos pior”, menos falso. Feuerbach enxergou tal inversão (“A religião é a cisão do homem consigo mesmo...”)14, e o jovem Marx o seguiu, contra Hegel15; e depois Nietzsche, contra tudo o que representava o espírito cristão16; e depois Unamuno, sumariado por Rubem Alves17; e Thomas Paine, para quem a única Igreja viva e verdadeira era a sua própria mente18; e mais uma plêiade de pensadores que ousaram ir além do idealismo socrático-platônico... E todos eles pagaram, cada qual à sua maneira, pela posição de vanguarda, e do pensamento livre – contra a tirania ideológica de uma “razão”, envenenada, enlameada e entorpecida no vinho santo da santa ceia cristã.
Deus, ao homem de fé, como o amor (do qual ele é fonte19, na teologia cristã), também é objeto20; e sendo desejo, é falta. Não procura Deus aquele que já o tem. Enquanto pre-sença, Deus também é ausência. “É a eternidade do desejo, a imensidão da nostalgia, os espaços sem fim. O Pai nosso quem ora nos céus, onde voam as aves, espaço vazio, pura permissão, ausência. Presença de uma ausência.21” E possível falar de Deus para além da licença poética? Teopoesia. Parece que aí, no misticismo poético, também está a casa do amor romântico: modo enviesado de falar do homem mesmo, colocado de cabeça para baixo. Sim, a relação Deus/Amor, para o cristão, é a relação Desejo/Amor, para Platão, conforme vemos n’O banquete, em que Sócrates reproduz os conceitos de Diotima22. Mas, sendo a fé paradoxal ao pensamento – à Vontade, não –, há conflitos, bem muitos. O pensamento, aplicado à Vontade – que mascarada no ideal romântico –, funciona perfeitamente. É o que nota Comte-Sponville:

Em outras palavras, o amor [romântico] só é salvo pela religião – eis o segredo de Diotima, eis o segredo de Platão: se o amor é falta, sua lógica é sempre tender mais para o que falta, para o que falta cada vez mais, para o que falta absolutamente, que é o Bem (de que o Belo nada mais é que a deslumbrante manifestação), que é a transcendência, que é Deus, e aí se abolir, enfim saciado, enfim apaziguado, enfim morto e feliz! Ainda é amor, se mais nada lhe falta? Não sei. Platão talvez diria que então há apenas a beleza, como Plotino dirá que há apenas o Uno, como os místicos dirão que há apenas Deus... Mas, se Deus não é amor, para que Deus? E do que Deus poderia ter falta?23

Fé não é e nem pode ser argumento (racional), uma vez que, como nota Kierkegaard, é paradoxo: o grande Paradoxo, o Paradoxo Absoluto24. Do “Deus é”, não se pode falar senão como “eu acredito que seja”; e o “não-é” (“eu acredito que ele não seja...”) é o seu contrário. “Deus é definitivamente; o demo é o contrário Dele”, diz Riobaldo, teologizando25. Poesia, literatura romancesca... Na filosofia, porém, não se deve ir a tanto. A fé é o contrário da filosofia, do filosofar – São Paulo e Tertuliano, nisso, são consentes, contra a “fé pensada” da/na Igreja, na Patrística, Idade Média e até hoje. Hoje, porém, não se trata mais do “milagre da fé”, mas do milagre na fé, na invenção de um sentido para os tantos sem sentidos do mundo, do Eu no mundo. O mesmo Eu que, de si, para si, procura apaixonadamente por seus sentidos. Uma tola procura, porém. Mas, quem consegue viver sem alguma paixão?, sem alguma loucura?
No humano, a passio responde ao Eros Vulgar (πάνδημος ἔρως) – não mais que um conceito contra aquela nudez da pulsão (Trieb) primitiva, feia, crua, bruta, “incivilizada” –, efeito de sua causa. Em resposta ao Eros Vulgar, o humano entrega-se àquilo que o atrai, em, pelo mesmo caminho das bestas, resposta à Vontade – em sua voluptuosidade, no entorpecimento dos sentidos. Passio, paixão, passional. Contra os excessos da Vontade, e ainda mais contra tal entorpecimento, a doutrina moral cristã, principalmente, procurou sublimar o conceito de “amor” ao plano do ideal (puro, perfeito, etc.), tratando (ou maquiando) as manifestações eróticas como derivações imperfeitas do perfeito Ágape, por quem (e a partir de quem) deveriam endireitar-se, corrigirem-se, serem mensuradas na matemática do mais ou menos, no verdadeiro, no puro e no bom26. Assim, e pelo enorme sucesso que a doctrina christiana obteve – principalmente do século II em diante –, o Eros Vulgar foi relegado a um plano ainda mais vulgar, inferior.
No Novo Testamento, Eros é preterido, em favor de ágape. O erótico – referente a Eros, divindade pagã da mitologia grega – foi tomado não como alguma boa beleza, e saúde do corpo e da mente (um corpo belo é um corpo saudável, e mens sana, corpore sano), mas como libidinagem pecaminosa, doença da alma, sensualizada, corrompida, etc. Daí não ser estranho que o “hedonismo” epicurista tenha sido, no Ocidente, satanizado; e a eudaimonía (“ter um bom demônio-guardião” junto a si)27, enquanto termo, não soa bem até hoje, aos cristãos menos dados ao pensamento. “Afirmar a bondade do prazer é escândalo no Ocidente”, é Octavio Paz28. E Rubem Alves:

A espiritualidade ocidental foi construída sobre a negação do prazer. As feridas e lacerações que a espiritualidade católica elegeu como objetos de adoração são expressões plásticas desse fato. E o ascetismo e disciplina de trabalho, virtudes supremas do protestantismo, são a sua manifestação racional e moral.29

Mesmo o Eros Celeste (οὐράνιος ἔρως), muito superior ao Vulgar – como aparece n’O banquete, de Platão – não escapou a tal sublimação divinatória; aliás, serviu-a muito bem, com ligeiras e sutis adequações... Como também se fez ao Hades/inferno, à relegio/religião30, à psyché/alma, et cetera. A análise histórico-filológica desses termos mostra a crueza (nada cristã) de seus primeiros sentidos, e utilizações.
Ao se introduzir (e conceituar) o ágape (ἀγάπη) no Novo Testamento, em substituição a Eros (ἔρως), fez-se, muito provavelmente, o maior de todos os desvios conceituais que um termo já teve na Grande História do Ocidente – que estendeu tentáculos etimológicos e filológicos por onde chegou. Ágape: celeste, perfeito, modelo; Eros: mundano, dado aos enganos das paixões, e à corrupção dos sentidos. Por ágape – no qual e pelo qual tudo deveria ser mensurado como bom ou ruim –, era legítimo viver, era legítimo morrer31. O próprio Filho de Deus... que maior e melhor exemplo?32
Acontece que Eros está em tudo e, em tudo e por tudo, manifesta-se – principalmente no inevitável stergein (amor próprio): o combatido egoísmo; que é a perversão de ágape, da sua imagem distorcida, como em um espelho mal polido... o espelho da fé33. Enquanto o ágape recomenda um ideal que resumiria toda a doctrina: “Toda a lei se cumpre numa só palavra, a saber: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo”34, Eros aproxima-se do real: “Não é, com efeito, o que é seu que cada um estima?” É Diotima, perguntando a Sócrates, e respondendo logo em seguida: “Pois nada mais há que amem os homens senão o bem; [...] por amor a si mesmos.35” Para que a “realidade mais real” do amor se manifestasse, porém, foi necessário que se esperasse chegar à segunda metade do século XIX, com o inglês Charles Darwin, o austríaco Sigmund Freud e o alemão Arthur Schopenhauer, principalmente; e, depois desses dois últimos, seus discípulos mais brilhantes, Friedrich Nietzsche, Lou Salomé, e os discípulos dos seus discípulos... muito mais que doze.
O amor mundano (erótico-físico), eles dizem de um modo ou de outro, não é mais que uma resposta à Vontade, para a geração e permanência da espécie humana – pois os amimais não amam (e, logo, não conceituam suas vontades [pulsões] erroneamente) –; e o amor divino, o perfeito e metafísico ágape, não mais que um suspiro do aflito, preso às esperanças; não é mais que, ah!, não é mais que um delírio da razão, ou o seu sono.
Assim, e até aqui: ágape foi uma adequação do Eros Urânio, e um desvio conceitual impetrado contra o Eros Vulgar, que é uma resposta positiva à Vontade – evidenciada no convite que a beleza dos corpos propaga, lançando indivíduos contra indivíduos (na paixão), com a finalidade da cópula, para a geração de espécies saudáveis e igualmente belas –, que foi varrida para debaixo do tapete na sala da sra. Mente Superior, que ordenaria a natureza de forma lógica e dinâmica. Esta Mente Superior, amor perfeito e fonte do perfeito amor (fora do qual outros “amores” são imperfeitos), ordenaria as afecções e as más vontades, premiando-as ou punindo-as. 
Foi assim que, no sentido vulgar do termo, Eco amou a Narciso, que era, por sua vez, metáfora do amour de soi, em seu sentido mais pungente. Era o “amor ao outro” contra o “amor a si mesmo”; esse, fartamente combatido na moral cristã, e normalmente aprisionado em nosso Eu inconsciente, mas sempre muito ativo em nossas maiores ou menores ações. De um modo ou de outro, e como já foi dito, era o Eu encontrando-se com o Eu, mesmo quando equivocado sobre o encontro com o (ou no) Outro. Não poderia haver um final feliz, evidentemente.  
Onde quer que Narciso fosse, Eco o seguia – mesmo que tão somente para ganhar um pálido raio do seu olhar –, arriscando-se. Narciso, no entanto, apenas amava a si mesmo, a sua imagem refletida nas cristalinas águas de uma fonte. Não vendo o seu amor correspondido – pois que os amores nunca são correspondidos, quando confiados à resposta positiva do Outro –, Eco retirou-se para uma caverna, desolada, humilhada. Aí definharia, até o fim. Dela, restaria somente uma voz triste e distante, perdida pelos espaços ermos.
Na mitologia, Eco torna-se a repetição de si-mesma, não sendo a própria, porém. Do mesmo modo é o amor que dizemos sentir por outrem. No amor ao Outro (ou “pelo Outro”), ele não é casa, não é porto e nem destino, mas um abismo do Eu que aponta para o Super-Eu, para um cair-em-mim. No final das contas, e quando penso que o Outro é meu objeto (a quem devo amar, ou amo), vejo-me aqui, em mim mesmo, qual sonâmbulo despertado diante do espelho: reflexo difuso, eco dissonante. O que eu amava no Outro era, afinal, o reflexo de mim mesmo. Daí que, afinal, ninguém morre por ninguém, por amor a esse alguém. Todo morrer de amor, ou por amor, é um morrer por si mesmo, por amor a si. Nada mais egoísta que o morrer por amor.
O “estar preso a alguém”, por isso, é outro equívoco conceitual.
Sim, estou condenado a mim mesmo e ao meu próprio amor – que não posso jamais, e mesmo que desejasse, dispensar a outrem, ao meu “próximo”: ele ou ela.
Descumprir a lei evangélica não é um pecado, é uma inevitabilidade.





1 O banquete, 200 e. PLATÃO. O banquete. In: _____. Diálogos. 2. ed. São Paulo: Abril Cultural, 1983. (Col. Os Pensadores).   
2 SARTRE, Jean-Paul. L’être et néant. Paris: Gallimard, 1969. p. 652.
3 “Portanto”, ele continua, “se sofro por causa de coisas transitórias, a razão disso está em que eu, com meu coração, continuo a amar e pender para [essas mesmas] coisas.” (ECKHART, Mestre. O livro da Divina Consolação e outros textos seletos. 5. ed. Bragança Paulista: Editora Universitária São Francisco, 2005, p. 58. [Col. Pensamento Humano]).
4 RUSSO, Renato. Quando o sol bater na janela do teu quarto. In: Legião Urbana – As quatro estações. São Paulo: EMI Music Brasil Ltda., 1989. 1 disco sonoro. Faixa 4 (3 min 10 s). O próprio Renato, no encarte, confessa: “Todo hotel que se preze tem catálogo telefônico na gaveta perto do telefone e Bíblia. Só teve uma vez que no hotel não tinha nada, outra que em vez da Bíblia era o livro de Mórmon e um belo dia chegamos em... (não me lembro) e o que tinha junto com o TELESP (?) era A doutrina de Buda. Gostei tanto que quis levar um exemplar para casa comigo. (Era um hotel grande, eles deviam ter centenas de doutrinas de Buda). E por algum motivo, em vez de roubar um (levar sem avisar) desci até a recepção e perguntei do livro e eles disseram: tudo bem. Pode levar um com você. [...] Toda parte sobre dor e desejo de ‘Quando o sol’ é do livro.”
5 Como diz Epicuro em sua carta A Meneceu, defendendo sua doutrina: “Quando então dizemos que o fim último é o prazer, não nos referimos aos prazeres intemperantes ou aos que consistem no gozo dos sentidos, como acreditam certas pessoas que ignoram o nosso pensamento, ou não concordam com ele, ou o interpretam erroneamente, mas o prazer que é a ausência de sofrimentos físicos e de perturbações da alma.” (EPICURO. Carta sobre a felicidade (a Meneceu). São Paulo: Editora UNESP, 1997. p. 43). E ninguém duvidaria que, em relação às perturbações da alma, as coisas do amor sejam as que mais se apresentam.
6 É assim em Agostinho, o mestre do ocidente (como é dito por: HIRSHBERGER, Johannes. História da filosofia na Idade Média. 2. ed. São Paulo: Editora Herder, 1966. p. 29.): “Tu nos fizeste para ti, e nosso coração está inquieto enquanto não repousar em ti.” (Conf., I, I,1), e “a vida feliz consiste em sentir alegria junto de ti, vinda de ti, graças a ti: esta é a vida feliz e não há outra.” (Conf., X, XXII,32; AGOSTINHO, Santo. Confissões. Lisboa: Centro de Literatura e Cultura Portuguesa e Brasileira / Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2001. p. 5, 257, respectivamente. [Col. Clássicos da Filosofia]). “Depois de São Paulo”, Le Goff afirma, “Santo Agostinho é o personagem mais importante para a instalação e o desenvolvimento do cristianismo. É o grande professor da Idade Média.” (LE GOFF, Jacques. As raízes medievais da Europa. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 2007. p. 31).
7 Inclusive nas obras que, aparentemente, nada têm a ver com romantismo: de matemática e/ou arquitetura, por exemplos. Em respaldo ao afirmado, nem é preciso grande esforço. Dois livros de Alain de Botton tratam sobre isso, magistralmente. Cf. BOTTON, Alain de. Desejo de status. Rio de Janeiro: Rocco, 2005. 301 p; _____. A arquitetura da felicidade. Rio de Janeiro: Rocco, 2007. 271 p.
8 Cf. ARVON, Henry. O budismo. Lisboa: Publicações Europa-América Ltda., [s.d.]. p. 44-5. (Col. Saber). O Eu é a consciência (do Eu). Se há pleonasmo, aí, é na intenção de facilitar o sentido restrito à percepção imediato-existencial do sujeito pensante, coisa pensante (res cogitans); ou do pensamento que se volta sobre si mesmo: um cérebro em um corpo, do qual se serve e é parte.   
9 Citado em: HUXLEY, Aldous. A filosofia perene. São Paulo: Círculo do Livro, [s.d.]. p. 248. Panchadasi é um livro de textos (organizados em 15 capítulos) de Swâmi Vidyaranya, para esclarecimento e aprofundamento do Vedanta, à semelhança dos Upanishads.
10 COMTE-SPONVILLE, André. A felicidade, desesperadamente. São Paulo: Martins Fontes, 2001. p. 36.
11 Lucius Apuleius foi um escritor Berbere, nascido em Madaura (atual Argélia), por volta de 125, antes de Cristo. Em Cartago, estudou gramática e retórica; e em Atenas, Platão e Aristóteles. Aí, casou-se com Pudentila, uma viúva muito rica. Por isso, e pelos parentes da mesma, foi acusado de utilizar-se de magia para conquista-la. Sua defesa está na Apologia, obra que está conservada até hoje. Ainda jovem, regressou a Cartago, onde morre, por volta de 180.
12 Como demonstrado na empolgada reação do Sargento – na novela de Trevisan –, ao ver Maria, sua ex-namorada, descendo as escadas metida em um minúsculo short, antes de saírem para passear: “Você me atiça. Que boa você assim. Como é gostosa.” (TREVISAN, Dalton. Nem te conto, João. Porto Alegre: L&PM, 2011. p. 107. [Col. L&PM POCKET, 934]). Os itálicos são do próprio autor. 
13 VATTIMO, Gianni. A tentação do realismo. Rio de Janeiro: Lacerda Ed.: Instituto Italiano di Cultura, 2001. 57 p. (Col. Conferências Italianas, 1).
14 “A religião é a cisão do homem consigo mesmo: ele estabelece Deus como um ser anteposto a ele, Deus não é o que o homem é, o homem não é o que Deus é. Deus é o ser infinito, o homem, finito; Deus é perfeito, o homem imperfeito; Deus é eterno, o homem transitório [etc.]. O que deve ser demonstrado é então que esta oposição, que esta cisão entre Deus e homem, com a qual se inicia a religião, é uma cisão do homem com a sua própria essência.” (FEUERBACH, Ludwig. A essência do cristianismo. 2. ed. Campinas, SP: Papirus, 1997. p. 77). 
15 “No que diz respeito à Alemanha, a crítica da religião está, no essencial [com Feuerbach], terminada, e a crítica da religião é a condição preliminar de toda a crítica. [...] O fundamento da crítica irreligiosa é: foi o homem quem fez a religião, não foi a religião que fez o homem. Realmente, a religião é a consciência de si e o sentimento de si que possui o homem que ainda não se encontrou, ou que se tornou a perder. Mas o homem não é um ser abstrato escondido algures fora do mundo. O homem é o mundo do homem, o Estado, a sociedade. Este estado, esta sociedade, produzem a religião, consciência invertida do mundo, porque eles próprios são um mundo invertido.” (MARX, Karl. Crítica da Filosofia do Direito de Hegel. In: _____ & ENGELS, Friedrich. Sobre a religião. Lisboa: Edições 70, 1975. p. 47-8). E, noutra parte: “Até aqui, os homens têm sempre criado representações falsas sobre si próprios, e daquilo que são ou devem ser. Segundo as suas representações de Deus, do homem normal, etc., têm instituído as suas relações. Os filhos da sua cabeça cresceram-lhes acima da cabeça, diante de suas criaturas. Libertemo-los das ficções do cérebro, das ideias, dos dogmas, das essências imaginadas sob cujo jugo se atrofiam.” (MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Do prefácio. In: _____. A ideologia alemã – 1º capítulo, seguido das teses sobre Feuerbach. São Paulo: Centauro Editora, [s.d.]. p. 7).
16 “O espírito puro é a pura mentira... Enquanto o sacerdote, esse negador, caluniador, envenenador profissional da vida, for tido como uma espécie mais elevada de homem, não haverá resposta para a pergunta: que é verdade? Já se colocou a verdade de cabeça para baixo, quando o consciente advogado do nada e da negação é tido como representante da ‘verdade’.” (NIETZSCHE, Friedrich. O anticristo: Maldição do cristianismo: Ditirambos de Dionísio. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. p. 15 [§ 8]). E: “– Volto atrás, conto agora a história genuína do cristianismo. – Já a palavra ‘cristianismo’ é um mal-entendido – no fundo, houve apenas um cristão, e ele morreu na cruz. O ‘evangelho’ morreu na cruz.” (NIETZSCHE, 2007, p. 45 [§ 39]). E: “‘Fé’ significa não querer saber o que é verdadeiro.” (NIETZSCHE, 2007, p. 63 [§ 52]). E, por fim, mas não finalmente, Nietzsche fala da tensão (político-biológico-moral) que o Ocidente europeu herdou da corrupção do socratismo-platônico, através do movimento cristão, e da sua “luta contra Platão, ou, para dizer dizê-lo de modo mais simples e para o ‘povo’, [d]a luta contra a pressão cristã-eclesiástica de milênios – pois o cristianismo é platonismo para o ‘povo’ – [que] produziu na Europa uma magnifica tensão do espírito, como até então não havia na terra.” (NIETZSCHE, Friedrich. Prólogo. In: Além do bem e do mal: prelúdio a uma filosofia do futuro. 2. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. p. 8. As ênfases são minhas).
17 “Nossos deuses são nossos desejos projetados até os confins do universo. [...] Os deuses das flores são flores. Os deuses das lagartas são lagartas. Os deuses dos cordeiros são cordeiros. Os deuses dos tigres são tigres...” (ALVES, Rubem. Da esperança. Campinas: Papirus, 1987. p. 18).
18 “Minha mente é a minha igreja.” (PAINE, Thomas. The Age of Reason. London: Forgotten Books, 1884. p. 18). Publicado em 1794, The Age of Reason foi interpretado como literatura ateísta, tornando seu autor uma figura muito mal vista, principalmente entre os fundamentalistas americanos, e nos círculos de radicais e livres pensadores. Em 1802, numa viagem que faz aos Estados Unidos, a imprensa federalista anunciou-o como “réptil asqueroso”, “besta semi-humana”, dentre outros impropérios. E, conforme Philip Foner – editor moderno das obras completas de Paine, The complete writtings of Thomas Paine, 1945 (2 v.) –, “... sua morte não foi virtualmente noticiada na imprensa Americana.”
19 Como na pena de João: “Caríssimos, amemo-nos uns aos outros, pois o amor vem de Deus; e todo aquele que ama nasceu de Deus e chega ao conhecimento de Deus.” (I João, 4, 7; TEB. Ênfase minha).
20 De desejo, enquanto objeto (objetivo) a ser alcançado.
21 ALVES, Rubem. Da esperança. Campinas: Papirus, 1987. p. 43.
22 O amor, escreve Platão, “ama aquilo que lhe falta, e que não possui” (Ban., 201 b).
23 COMTE-SPONVILLE, André. Amor. In: _____. Pequeno tratado das grandes virtudes. São Paulo: Martins Fontes, 1997. p. 256. (Col. Mesmo que o céu não exista).
24 Exemplificado, por ele, na doutrina da Encarnação do Verbo, “que exige que acreditemos que existe um momento em que o eterno entra na esfera temporal, assumindo as limitações da existência finita, e isso parece envolver uma impossibilidade manifesta, algo que não pode ser acomodado aos limites do pensamento e da compreensão humanos.” (GARDINER, Patrick. Kierkegaard. São Paulo: Edições Loyola, 2001. p. 81 [Col. Mestres do Pensar]). “Nesse caso a Fé não é tão paradoxal quanto o Paradoxo? Precisamente; de que outra forma ela poderia ter o Paradoxo como seu objeto e ser feliz em sua relação com o Paradoxo? A Fé é um milagre em si mesma, e tudo o que é verdadeiro para o Paradoxo também é para a Fé” (KIERKEGAARD, Sören A. Philosophical fragments. New York: Harper and Row, 1962. [Frag. 81]).  
25 ROSA, João Guimarães. Grande sertão: veredas. 19. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001. p. 58.
26 “A Bíblia não trata dos temas do sexo ou do Éros. Isto não significa que os mesmos sejam excluídos ou descuidados. Pelo contrário, a sã sexualidade, atuada na reta ordem (matrimônio), é claramente reconhecida como dom do Criador. [...] Também o Novo Testamento não é inimigo do sexo ou do matrimônio, ainda que considere a virgindade como um caminho de vida mais excelente. Longe disto, é justamente no matrimônio que se realiza o ‘grande mistério’ que tem seu fundamento típico na comunidade ‘esponsal’ de Cristo com a Igreja (Ef 5, 32), de maneira que também o matrimônio adquire um caráter sagrado. Certamente, não é tanto o amor natural em seu valor próprio ou enquanto ligado a esta terra que é aprovado, mas aquele que é redimido, renovado, purificado e ‘levado à plenitude’ pelo ágape, ou seja, por Deus em sua ação na História.” (WARNACH, V. Amor. In: VV.AA. Dicionário de teologia: conceitos fundamentais da teologia atual. 2. ed. São Paulo: Loyola, 1983. p. 66. v. 1. As ênfases são minhas).    
27 Trato melhor sobre o tema em meu artigo sobre O tema da eudaimonía... Cf. SALES, Antonio Patativa de. O tema da ΕΥΔΑΙΜΟΝΙΑ na carta de Epicuro A Meneceu. In: Revista Ágora filosófica: pensamento Antigo-Tardio e Medieval. Recife: Fundação Antônio dos Santos Abranches – FASA. v. 2, n. 2, p. 21-32, 2004.
28 PAZ, Octavio. Los hijos del limo. Madri: Planeta Editorial, 1996. p. 106.
29 ALVES, Rubem. Variações sobre o prazer: Santo Agostinho, Nietzsche, Marx e Babette. São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2011. p. 83. Em uma nota, Alves diz mais: “Como é bem sabido, segundo Max Weber, o ascetismo intramundano do protestantismo calvinista e a disciplina de trabalho constituíram a essência do espírito do qual o capitalismo nasceu. Me pergunto se essa ideia não lhe veio da leitura dos Manuscritos econômico-filosóficos de 1844, de Marx.” (ALVES, 2011. p. 83).
30 Nesse particular, e para que se veja a corrupção do termo e sua adequação à mensagem do movimento cristão, nos séculos I e II: SACHOT, Maurice. A invenção do Cristo: gênese de uma religião. São Paulo: Loyola, 2004. p. 133-50. (Col. Bíblica Loyola, 40).
31 Veja Tristão, Alceste, Werther, Romeu, Édipo... veja o Cristo.
32 “Maridos, amai [ἀγαπάτε] as vossas mulheres como Cristo amou [ἠγάπησεν] a Igreja e se entregou [morreu] por ela.” (Efésios 5, 25; TEB).
33 Após fazer o elogio ao ágape, Paulo confessa que, sobre ele, “agora [na temporalidade], vemos em espelho e de modo confuso; mas então [pela fé, e na eternidade], será face a face.” (I Coríntios, 13, 12; TEB).
34 Gálatas 5, 14; que subscreve Levíticos 19, 18. No Novo Testamento, a ordenança (de amar – como se pode amar em obediência a uma ordem?) aparece em várias partes: Mateus 19, 19; 22, 39; Marcos 12, 31; Lucas 10, 27; Romanos 13, 9; Tiago 2, 8, etc.  
35 O banquete, 206 a.


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