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segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013


31.





Do desejo que se aloja na raiz de toda a paixão humana...



Talvez nenhuma outra doutrina, mais que a do budismo1, tenha combatido tanto o Eu, e o Desejo, e a tirania dos sentidos. “O caminho do budismo é o caminho da aniquilação do Eu e, portanto, do mundo dos fenômenos.2” Mas, posso pensar de um modo que parece simplista: não há a aniquilação do Eu sem que, também, haja a vontade de que ele seja aniquilado... no próprio Eu. Um contrassenso? Sim. O Eu, naturalmente, não deseja o que é contrário a si, sem que julgue isso, embora cegamente, algum bem. O Eu que deseja escapar do sofrimento, enfrentando seus agentes em direção ao Nirvana, precisa estar a caminho. Mas, que caminho? O caminho do Buda3. É como se pode ler no Visuddhi Magga:

Só há sofrimento, não
há sofredor.
Não há agente, só há
o ato.
O Nirvana é, mas não
aquele ou aquela que o
procura.
O caminho existe, mas não
aquele ou aquela que nele anda.4

Mais que o indivíduo, que nada é, que nada deve ser – ao menos aí, em uma clara relação à doutrina brâmane do Eu, ou ātman –, é o sofrimento (duḥkha), e a ação (karmanta), e o Nirvana e seu caminho (aṣṭapāda). Consta que um asceta itinerante chamado Vaccha, diante do Buda, apresentou-lhe as teses e antíteses do que, segundo ele, era a doutrina do Abençoado. O Buda não somente as nega como, para a perplexidade de Vaccha, afirma que era “livre de qualquer teoria”5. Isso, assim negado, não requer uma teoria? Sim, e o Buda tem uma. Ela se revela na pergunta que ele mesmo faz ao errante Vacchagotta: “Para onde vai um fogo que se apagou? Para leste, oeste, sul ou norte?6” Aqui, um parêntese. O fogo, no imaginário popular, também está relacionado às afecções da nossa alma, e ao amor erótico7. Dizemos: “passou o fogo da paixão”, “o fogo apagou”, etc. E daí o trechinho de “Almanaque”, na música do Chico: “Me responde, por favor / Pra onde vai o meu amor / Quando o amor acaba?8” E daí este poeminha, no mesmo espírito:

Quando o amor acaba
O quanto de nós vai junto,
Em pele, unhas, cabelos...?
Ah!, & os livros devolvidos
& os discos do Bob Dylan...

E onde estará, agora,
A presença que enchia a sala
O corpo sobre a cama suada
& o cheiro que ficava...?

E o que vê, agora,
O rosto que enchia o espelho
De rímel, batom & sombra...?

Ah!, repara a porta aberta...
& a casa vazia, esperando 
Olhando a rua silenciosa
De um dia como hoje
– a tarde de um domingo

Ah!, responda, responda: 
Para onde é que vai o amor
Depois que o amor acaba?

Como a chama que se vai, também o fogo das paixões eróticas. A analogia é simples, mas pratiquíssima ao que pretendo, voltando à pergunta do Buda que Vaccha confessa ignorar a resposta, permitindo que o Abençoado compare o arhat (aquele que atingiu o Nirvana) ao fogo extinto. Qualquer que fosse a afirmativa referente à sua existência não seria mais que uma simples conjectura. Claro que, aí, se aceitamos a analogia e a doutrina do Iluminado, caímos também no seu idealismo, e na fé confiante. Foi assim que Schopenhauer permaneceu no idealismo, ao ponto de afirmar que “o verdadeiro filósofo deve ser um idealista”9. Estava errado, miseravelmente. Amo Schopenhauer, mas amo ainda mais a minha verdade. E “o ‘eu’, por trás de nós oculto”, como dizia Emily Dickinson, ainda “é muito mais assustador.”10
Uma das passagens mais famosas da biografia do Buda é aquela em que ele é tentado pelas filhas do demônio Māra – representação do seu Eu oculto, assustador; um tipo de “lado negro”, um demônio interior, a Morte e Diabo conjugados, o Senhor do Ego e da Ilusão. Depois de atingir a iluminação, o Buda permaneceu sob a árvore Bodhi11, com as pernas cruzadas, imóvel por sete dias. “Encontrei a libertação”, ele pensou. Na quarta semana, mergulhado em profunda meditação, ainda sob a bo, Māra – inconsolável com a sua derrota – vai a ao seu encontro, dizendo-lhe:

“Bem-aventurado és tu, por permaneceres e por conheceres o caminho para a libertação. Apague a lâmpada, extingue a sua chama e entre no Nirvana, oh, Bem-Aventurado! É a hora.”
Ao que o Buda lhe respondeu:
“Não, Māra! Eu não extinguirei a chama, nem entrarei no Nirvana. Devo primeiro conquistar muitos discípulos, e eles, por sua vez, devem ganhar outros sob a minha doutrina. Através da palavra e da ação, devo silenciar meus adversários. Não, Māra! Eu não entrarei no Nirvana até que o Buda seja glorificado em todo o mundo, e até que a sua lei benéfica seja reconhecida.”
E Māra o deixou, cabisbaixo. Parecia ouvir as vozes divinas zombando de seu fracasso:
“Você foi derrotado, Māra”, diziam, “e permanece envolto em pensamentos, como uma velha garça-real. Você é impotente, Māra!, como um velho elefante atolado num pântano. Pensou que era um herói, e está mais fraco que um homem doente abandonado na floresta. De que adiantaram as suas palavras insolentes? Foram tão fúteis quanto o murmúrio dos corvos.”
Nisso, Māra pegou um galho seco e, com ele, desenhava figuras na areia. Suas três filhas, Rati, Arati e Trishna viram-lhe assim, aflito, e ficaram abatidas.
“Pai”, Rati falou, “por que você está tão melancólico?”
“Fui derrotado por um homem santo”, ele respondeu. “Ele resistiu à minha força e à minha astúcia”.
“Pai”, disse Trishna, “nós somos belas e os nossos modos são sedutores”.
“Iremos a esse homem”, Arati atalhou, “e o prenderemos com os grilhões do amor, e o traremos até você, humilde e temente.”
E foram ao Buda. Diante dele, dançavam e cantavam:
“Eis a primavera, amigo, a mais linda das estações. As árvores estão em floração; devemos estar felizes. Seus olhos são belos, brilham com uma luz adorável, e você carrega as marcas da onipresença. Olhe-nos: somos feitas para dar prazer e felicidade tanto aos humanos quanto aos deuses. Levanta-te e te junta a nós, amigo; aproveite ao máximo a tua juventude brilhante; afaste os pensamentos sérios da tua mente. Vê nossos cabelos, quão sedosos!, são as flores que emprestam sua fragrância à sua maciez. Vê nossos olhos; neles estão a doçura do amor. Vê nossos lábios; eles são quentes como a fruta amadurecida ao sol. Vê nossos seios, rijos e bem torneados. Deslizamos com a graça majestosa dos cisnes; sabemos canções que encantam e dão prazer, e quando dançamos, os corações aceleram e os pulsos latejam. Vem, amigo!, não nos despreze. Somente um tolo, de fato, jogaria fora todo esse tesouro. Olha-nos, nobre Senhor: somos as suas escravas.”
O Buda, no entanto, permaneceu imóvel às vozes sedutoras. Antes, franziu a testa às lindas donzelas e elas foram transformadas em bruxas.
Desesperadas, elas retornaram a Māra.
“Pai”, Rati gritou, “vê o que ele fez à nossa juventude e beleza.”
“O amor nunca o ferirá”, disse Trishna. “Ele foi capaz de resistir aos nossos encantos.”
“Oh”, suspirou Arati, “quão cruel foi a nossa punição!”
“Pai”, Trishna implorou, “cura-nos desta horrível velhice e feiura.”
“Devolva-nos a juventude!” Rati gritava.
“Devolva-nos a beleza!” Arati implorava.
“Minhas filhas, minhas pobres filhas”, Māra disse à Arati, “compadeço-me de vocês. Sim, ele derrotou o amor. Ele está para além do meu poder, e estou triste por isso. Vocês suplicam que eu lhes devolva a juventude e a beleza... mas, como eu poderia? Somente o Buda poderá desfazer o que o Buda fez. Voltem a ele; admitam que vocês foram culpadas; digam-lhe que estão arrependidas, e talvez ele devolva seus encantos.”
E elas voltaram à presença do Abençoado.
“Bem-aventurado”, imploraram, “perdoe-nos as nossas ofensas. Nossos olhos estavam cegos à luz, e fomos tolas. Perdoai-nos!”
“Sim, vocês foram tolas”, o Abençoado respondeu. “Tentaram destruir uma montanha com as unhas; tentaram morder o ferro com os dentes... Vocês, porém, reconhecem as suas ofensas, e isso já é sinal de sabedoria. Donzelas, ide em paz. Eu vos perdoo!”
E imediatamente as três filhas do Diabo deixaram a sua presença, ainda mais jovens e mais belas do que antes.12

Amor, aí, é apelação erótica... e sofrimento. Mas a douta ignorância13 tem um prêmio, após o erro confessado, na voz do arrependido. É o que não aparece em Vaccha – no trecho que utilizei. Não há “erro”, apenas equívoco. É preciso luz. Longe de ser um mal interpretado “pessimismo”, a Doutrina do Abençoado é uma não afirmação, antes de tudo... mas não pessimista, como querem alguns intérpretes14. Dizer que “tudo é sofrimento” significa, também, saber o que seja o não-sofrer, ou o prazer. A consciência (do Eu e suas consequências) não vem antes da Ignorância e da Informação Inata – alguns reflexos do platonismo, coincidentemente, são muito perceptíveis. A Ignorância produz a Informação Inata; a Informação Inata, a Consciência; a Consciência, os Nomes-e-formas; os Nomes-e-Formas, os Seis Órgãos dos Sentidos; os Seis Órgãos dos Sentidos, o Contato; o Contato, a Sensação; a Sensação, o Desejo; o Desejo, o Apego; o Apego, a Existência; a Existência, o Nascimento; o Nascimento, a Velhice e a Morte. Está tudo ligado: a Sensação, o Desejo, o Apego... a Vida e a Morte. Contra a Morte, a Velhice e tudo aquilo que lhes precede, o remédio é fazer cessar a Ignorância, que está no início de tudo: no Eu que, portador da Informação Inata, porta e produz a Consciência do Eu15 – como está na doutrina do Buda, referente ao Dharma16: “Se o desejo, que se aloja na raiz de toda a paixão humana, puder ser removido, aí então, morrerá esta paixão e desaparecerá, consequentemente, todo o sofrimento humano.17” Também no cristianismo, quanto menos for o cristão – o seu Eu, naturalmente –, tanto maior será a presença do Cristo e do Espírito, nele18. O budismo “apresenta elementos comuns com os theioi andres19 dos gregos e com as biografias míticas mais tardias de outros fundadores de religiões, como Jesus, Mani, etc.20” Diminuir o Eu, dominar as paixões, sufocar o desejo... idealismos, delírios febris alimentados pela fé no Outro, que pode ser tanto o “não-Eu” quanto Aquele que é maior e melhor que que EU, que é de onde venho, como “coisa causada”. Ah!, as minhas projeções – como na afirmação lúcida e desencantada de Feuerbach21. Já mostrei que a própria propaganda de tais modelos doutrinários é, em si, apelo ao Eu que pode compreendê-la – do contrário, que sentido teria? –, e decidir e desejar... isto ou aquilo.  
Quando Siddhārtha – agora Buda – retorna à Shakya e à casa de seu pai (o rei Shuddhodana), depois de oito anos, Yashodhara, sua esposa, orienta a Rahula, seu filho, que lhe peça a sua herança, antes que o Shakyamuni22 parta novamente, em uma jornada de pregações e ensinos que duraria quarenta anos. O Buda, porém, afirma que tem algo maior e melhor para o seu filho: a sua Doutrina. O menino torna-se monge.
Não havendo o Eu, o laço político-tribal ou familiar – e o próprio nome do filho do Shakyamuni, Rahula23, revela isso –, não há também a identidade, nenhuma. Não haveria razão de o Buda retornar à sua casa, aos seus. Para o bem ou para o mal, é o Eu quem age, consciente ou não, por loucura ou por paixão, na ação e na inação, na fala e na escrita... mesmo naquela dos livros “santos”. Também a regra da piedade cristã ensina que não se deve, a título de estilo e ética, sobrevalorar o Eu, que fala ou escreve – “eu assim”, “eu assado” –; mas, ao contrário, mortificá-lo, reduzi-lo a nada ou, como em um discurso solene, soterrá-lo em uma terça no plural: “Nós estamos aqui hoje...” Sim, porque a carne (os mEus apetites) milita contra o espírito, mEu “homem interior”, mEu “Eu interior”.24  
E é por isso que, no início do Walden, Thoreau anota:

A maioria dos livros omite o eu ou a primeira pessoa; aqui ele será mantido; em relação egocentrismo, esta é a principal diferença. Geralmente não lembramos que, afinal, é sempre a primeira pessoa que está falando. Eu não falaria tanto sobre mim mesmo se existisse alguma outra pessoa que eu conhecesse tão bem.25

Thoreau, o “pai do anarquismo” e rebelde ao estilo hipócrita dos seus contemporâneos, quer sobrepor os modelos e a “regra da piedade”25. Ora, não há quem conheçamos melhor do que nós mesmos, embora, para nós mesmos, sejamos o nosso maior enigma. No entanto – e juntamente com os conceitos de Stirner, Marx, Feuerbach, Freud e outros que tenho mostrado seguidamente –, essa parece ser a “perspectiva” mais plausível, e certamente a mais mundana. A verdade pode muito bem nada ter a ver com... religiões. E, afinal, o que não é mundano? Verdade, mentira, candura, leviandade, justiça... Está tudo em mim, em minha mente e em minhas ações, para o meu deus ou para meu companheiro, pai, irmão, amigo, mulher... meu céu e meu inferno. Aqui, em minha mente, como em uma catedral, sou santo ou herege... mas a doutrina é minha, sempre minha. Sim, pois depende da minha fé, da minha hermenêutica, da minha vida e dos lugares e coisas e pessoas que me fazem ser como eu sou, agora, enquanto penso sobre tudo isso. Em tudo e sobre tudo, o amour-propre – ou meu instinto de preservação – é o que me mantém, no desejo ou no desejo de não ter desejo. Não há saída, e tanto a liberdade quanto a culpa por sua ausência, etc., é minha.





1 Talvez fosse prudente falar em “budismos”, dado às linhas em que ele, hoje, se apresenta. Neste sentido, e como não é a minha intenção fazer um “tratado” sobre velhas e novas escolas – e para não ser desonesto com o leitor –, recomendo o verbete “Budismo”, em: ELIADE, Mircea; COULIANO, Ioan P. Dicionário das religiões. São Paulo: Martins Fontes, 2003. p. 67-85. Ver ainda: ARVON, Henry. O budismo. Lisboa: Publicações Europa-América Ltda., [s.d.]. p. 44-5. (Col. Saber); NIWANO, Nikkyo. Shakyamuni Budda: uma biografia narrativa do Buda histórico. São Paulo: Cidade Nova, 1987; e: LEVENSON, Claude B. Budismo. Porto Alegre: L&PM, 2009. (Col. L&PM Pocket, 758: Enciclopédia). São literaturas de fácil acesso (e leitura) em português.
2 ELIADE; COULIANO, 2003, p. 69.
3 “Atentai a este fato: Buda não é um corpo físico, é a Iluminação. O corpo físico perece, mas a Iluminação subsistirá para sempre na verdade do Dharma e na prática do Dharma. Aquele que apenas vê o meu corpo”, diz o Buda, “não me vê realmente. Somente aquele que aceita meu ensinamento consegue me ver.” (DN 16, sutra Mahaparinibbana. In: A DOUTRINA de Buda. 3. ed. Minato-ku, Tokyo, Japan: Bukkyo Dendo Kyokai, 1984. p. 13. [§ 5]).   
4 Visuddhi Magga, 16.
5 Aqui, é preciso deixar claro que a lógica de Vaccha, simplista, tem a seguinte estrutura: se A não é verdadeiro, então não-A, é. É contra a horizontalidade rasteira de tal raciocínio que o Buda se impõe.
6 ELIADE; COULIANO, 2003. p. 70.
7 E no famoso soneto de Camões: “O amor é um fogo que arde sem se ver...” etc. Cf. CAMÕES, Luís Vaz de. Sonetos. In: _____. Camões: verso e prosa. 2. ed. São Paulo: Paz e Terra, 1996. p. 32. (Col. Leitura).
8 BUARQUE, Chico. Almanaque. In: _____. Almanaque. São Paulo: Abril, 2010. 1 CD player. Faixa 5. (Col. Chico Buarque, 10).
9 Citado em: BARAQUIN, Noëlla; LAFFITTE, Jacqueline. Arthur Shopenhauer. In: _____. Dicionário Universitário dos Filósofos. São Paulo: Martins Fontes, 2007. p. 276.
10 DICKINSON, Emily. Poemas escolhidos. Porto Alegre: L&PM, 2007. p. 57. (Col. L&PM Pocket, 436).
11 Ou bo, em Bodh Gaya, no nordeste da Índia. Por causa da Bodhi é que, segundo consta, o nome de Siddhārtha Gautama é mudado para Buda, que, tanto em páli como em sânscrito, significa “Iluminado”, “Desperto”.
12 Com pequeninas modificações, adaptações e correções, utilizo a obra de: HEROLD, A. Ferdinand. The life of Buddha: according to the legends of Ancient India. Whitefish, Montana - EUA: Kessinger Publishing Company, 2007. p. 123-5.
13 Utilizo o conceito, criado por Nicolau de Cusa (1401-64), livremente, e para o sentido que aparece no texto, simples e definido. Para a sua utilização mais “acadêmica”, e conforme o seu autor, ver: CUSA, Nicolau de. A douta ignorância. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2002. (Col. Filosofia, 148).
14 Cf. ELIADE; COULIANO, 2003. p. 69.
15 Cf. ELIADE; COULIANO, 2003. p. 71.
16 Isto é: a verdadeira Doutrina, os preceitos éticos do budismo.
17 Vinaya, Mahāvagga 1-6 e SN 56-11-12, sutra Dharmmacakrapravartana. In: A DOUTRINA de Buda. 3. ed. Minato-ku, Tokyo, Japan: Bukkyo Dendo Kyokai, 1984. p. 38-9. [§ 1]).
18 No evangelho se são João, por exemplo, João Batista diz aos seus discípulos remanescentes, que reclamam de seus companheiros, agora, estarem seguindo ao Cristo: “Convém que ele [o Cristo] cresça e que eu diminua. O que vem de lá de cima [o Cristo], é superior a todos. O que vem da terra [ele, João], é da terra, e fala da terra. O que vem do céu, é superior a todos.” (João, 4, 30-31, Vulgata). E o apóstolo Paulo, em Colossenses 3, 5: “Fazei, pois, morrer o que em vós pertence à terra: devassidão, impureza, paixão, mau desejo e a tal cupidez que é uma idolatria.” (TEB). Não faltam referências desse tipo, por todo o Novo Testamento, principalmente. E nas obras de todos os moralistas cristãos – que são milhares – é tema esgotado, lugar dos mais comuns.
19 Isto é: “Homens deuses”, como Hercules, etc.
20 ELIADE; COULIANO, 2003. p. 68. Neste sentido, ver em especial os artigos “Akhenaton, o Iluminador”, “Moisés, nosso Mestre”, “Jesus de Nazaré”, “Mani” e “Buda”, em: BRUNNER-TRAUT, Emma. (Org.). Os fundadores das grandes religiões. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 1999.
21 Isto é: “A religião é a cisão do homem consigo mesmo: ele estabelece Deus como um ser anteposto a ele, Deus não é o que o homem é, o homem não é o que Deus é. Deus é o ser infinito, o homem, finito; Deus é perfeito, o homem imperfeito; Deus é eterno, o homem transitório [etc.]. O que deve ser demonstrado é então que esta oposição, que esta cisão entre Deus e homem, com a qual se inicia a religião, é uma cisão do homem com a sua própria essência.” (FEUERBACH, Ludwig. A essência do cristianismo. 2. ed. Campinas, SP: Papirus, 1997. p. 77). 
22 Literalmente: “Sábio (muni) dos Shakyas”.
23 “Na época em que sua esposa, Yashodhara, deu  luz a seu filho, Siddhartha estava num jardim, fora do palácio. Shuddhodana, exultante pela notícia do nascimento, imediatamente enviou um mensageiro para informar o príncipe. Assim que recebeu a mensagem, Siddhartha murmurou para si mesmo: ‘Ah, nasceu Rahula!’ ‘Rahula’ significa obstáculo, ou laço. Tem-se sugerido que quando Siddhartha, inconscientemente, disse ‘Rahula’ queria dizer que, justo quando estava tomando a decisão de renunciar o mundo, surgiu um laço para bloquear seu caminho.” (NIWANO, 1987, p. 22).
24 Como em 2 Coríntios 10, 3, no desiderium intimum do Apóstolo: “De fato [sic], embora vivendo na carne, não militamos segundo a carne.” (Vulgata). E em Romanos 7, 22: “Pois eu me comprazo na lei de Deus, enquanto homem interior, mas em meus membros descubro outra lei que combate contra a lei que a minha inteligência ratifica; ela faz de mim o prisioneiro da lei do pecado que está em meus membros. Infeliz que sou! Quem me livrará deste corpo que pertence à morte?” (TEB). No Novo Testamento, principalmente nas cartas do apóstolo Paulo, referências dessa natureza são bem comuns. 
25 THOREAU, H. D. Walden. Porto Alegre: L&PM, 2011. p. 17. (Col. L&PM Pocket, 884).
25 Mesmo uma leitura desatenta de A desobediência civil, de 1848, mostraria isso. Cf. THOREAU, Henry David. A desobediência civil. 7. ed. Porto Alegre: L&PM, 2009. (Col. L&PM Pocket, 17).


terça-feira, 24 de julho de 2012


10.





Do amor que ainda há, quando não há amor




Ninguém escapa ao amour de soi, mesmo quando pensa, contra qualquer afecção, não haver mais amor nenhum. O amour de soi está no sentimento de “amor romântico”, seu melhor e mais mundano disfarce. Está também no ágape, mas apenas como discurso acerca do transcendente, perdido em conceitos metafísicos e delírios teológicos. O celeste, aí, é mero discurso religioso, ou liberdade poética... mosca que não vai além da janela de vidro de nossa sala, em nossa casa. Amour de soi → Eros → ágape ↔ Vontade. São vários os nomes para a Vontade, fundamento de todos os conceitos de amor que conhecemos e que, em uma tirada poética de Bukowski, “é um cão dos diabos!” Por quê? Porque ele – ou os efeitos de sua ação – pode aparecer nas horas mais inesperadas; inclusive enquanto dormimos.
Aquela garota a quem você não dava a menor atenção, aparece em seus sonhos, assim, do nada: fantasiada de estrelas, de mar e mistérios, de paraíso oferecido, aureolada de idílicas delícias secretas que pedem por descobrimentos. Ao acordar, e sem que perceba, você ainda está sonhando com ela, e dizendo o seu nome baixinho, quase inaudivelmente, sussurrado por entre os lábios. E aquelas imagens oníricas vêm todas de uma vez, em um flash-back atordoante e, estranhamente, bom. Você que não estava “nem aí para essas coisas”, sente as saudades do que nunca teve, que não viveu: dessa moça ou moço que veio morar em seus sonhos, em sua fantasia, em seu desejo, em sua vontade. Mas, ah!, a Vontade está em você, mas não é sua. E há uma presença, sim: da falta dela. Cupido lhe flechou. Que loucura! Inesperadamente, numa espontaneidade magnética, você sente uma enorme vontade de vê-la, vê-lo; está apaixonado/a.  
Eros age de modos vários e misteriosos; e quase sempre de modo irônico, inesperado. Não envia recados, age na Vontade, e por ela – da qual é um simples braço.
O Amor pode estar, mais que na tranquilidade da planície e no cício suave dos ventos que acariciam trigais, na fúria das ondas que despedaçam a penha, e nos espasmos dos trovões que estremecem o mundo, ou na violência dos raios que iluminam o breu das noites... quando na presença físico-material do seu alvo. Sim, demônio que é, e sem corpo, ele precisa de um em que possa habitar. Nem os deuses estão a salvo. “Eros [é] o mais belo dos deuses imortais, que afrouxa os membros, e vindo ao coração de todo ser, homem ou deus, domina a razão e o discreto conselho”, afirma Hesíodo em sua Teogonia1. Mas, aí daqueles que amam, permitindo-se ao Amor. É que Eros, realizando-se, abandona a casa à sua própria sorte, e parte em busca de novas habitações – é o discurso contundente de Diotima, repetido por Sócrates, n’O Banquete de Platão.2 
E é assim que a garota dos seus sonhos pode ser, também – se você não estiver vacinado com a parábola do Pequeno Príncipe e sua Rosa –, a garota dos seus pesadelos. Como, não? Um exemplo literário, que estampa o cotidiano dos casais românticos. Marjorie, outrora tão linda e desejada, é a mulher de Walter3. Ela, antes tão tudo, é, agora, objeto das suas mais tristes tristezas.

– Não vais voltar tarde? – Havia ansiedade na voz de Marjorie Carling, qualquer coisa que parecia uma súplica.
– Não, eu não voltarei tarde – respondeu Walter, com a certeza infeliz e criminosa de que não estava dizendo a verdade. A voz dela o aborrecia. Era um pouco arrastada, tinha um refinamento excessivo, mesmo na dor.
– Não passes da meia-noite.
Marjorie podia ter-lhe lembrado o tempo em que nunca saía à noite sem ela. Podia ter feito isso; mas não queria; era contra os seus princípios; não pretendia forçar de nenhum modo o amor de Walter.4

Amor realizado é amor perdido, ou amordaçado – e a mordaça mata o sentido daquilo que, em sua antropomorfia, é dotado de grandes asas. No livro de Rosa Montero, Paixões, ela fala sobre Wilde, Oscar Wilde:

Segundo todos os testemunhos, no começo de seu casamento [com Constance Lloyd], Wilde [então com 29 anos] estava muito apaixonado. Devia sentir-se feliz ao se imaginar curado de sua homossexualidade: a vida era muito mais confortável na ortodoxia. Em seguida teve dois filhos com Constance; Wilde os adorava e escreveu lidos contos de fadas para eles. Mas a mulher-mãe se transformou para ele num objeto sexual impossível de suportar: “Quando casei, minha esposa era moça bonita, branca e esbelta como um lírio. (...) Depois de um ano, havia se transformado em uma coisa pesada, informe e disforme (...) com seu espantoso corpo inchado e doente por culpa de nosso ato de amor.” De alguma forma, conseguiu que Constance aceitasse pôr fim às relações sexuais [...]. No entanto, sempre se tratavam bem; continuaram morando juntos e gostavam um do outro. Pouco depois, Robert Ross, um garoto de 17 anos e já experiente nesses assuntos, seduziu o cândido Wilde, e o levou para a cama.5

O resto da história amorosa de Wilde com Robert, é de desastre sobre desastre; e a única vítima é o próprio Wilde: enganado, traído, usado, preso, doente, esquecido e... apaixonado.
A realização de um grande amor é a melhor de todas as coisas, e a pior. Lembre-se de Shaw: “Há duas catástrofes na existência: a primeira é quando nossos desejos não são satisfeitos; a segunda é quando são.6” Quando o sonho vira realidade, deixa de ser sonho, é coisa concreta, longe da fantasia... que é o alimento dos sonhos, da vontade do objeto que falta, e do amor romântico-ideal.  Sim, Eros se alimenta de sonhos, e das vontades que o sonho traz; e aí daquele que tem sonhos muito altos... como Ícaro, o enlouquecido Ícaro com as suas asas de cera. Pode haver coisa mais certa? Pode haver coisa mais triste?
Lição de Diotima a Sócrates, n’O banquete: o amor é vontade de amar, e somente há enquanto é falta. Mas o amor romântico, ideal, sonha com a eternidade do seu prazer7. É, também, desejo, e fé, e falta. Não há amores, embora os níveis distintos; o que há são as maneiras de descrever essa mesmíssima falta: sua expectativa ou sua realização, e a nossa frustração, por um ou outro viés. A realização de um amor é a realização da sua Vontade, e a morte do nosso desejo... a Vontade está aí ainda, mas já sonhando com outros objetos. A expectativa amorosa é o que chamamos de “paixão” (passio), que é o mesmo que “sofrimento”.
Não há saída contra o Amor, contra a Vontade. É a primeira constatação de Buda, tratando sobre a condição humana, e ensinando a primeira das suas quatro Verdades Santas: “Eis, ó monges, a Verdade Santa acerca da dor: o nascimento é dor, a velhice é dor, a doença é dor, a morte é dor, a união com aquilo de que não gostamos é dor, não lograr um desejo é dor...8” E, como vimos, lograr também. Não há saída.





1 HESÍODO, Teogonia 116 ss. HESÍODO. Teogonia: a origem dos deuses. São Paulo: Iluminuras, 1991.
2 “Muita tolice seria não considerar uma só e a mesma beleza em todos os corpos; e depois de entender isso, deve ele fazer-se amante de todos os belos corpos e largar esse amor violento de um só, após desprezá-lo e considerá-lo mesquinho...” (O banquete, 210 b). PLATÃO. O banquete. In: _____. Diálogos. 2. ed. São Paulo: Abril Cultural, 1983. p. 41. (Col. Os Pensadores). Tommaso Campanella, em sua A Cidade do Sol, de 1602, inspirado na obra de Platão, procura excluir da sua cidade ideal a “ideia de família”, e do sentimento de pertence – do marido à sua mulher, ou aos seus filhos –, julgando que tal sentimento, mesquinho, é um desserviço ao progresso e à felicidade dos solares, da cidade perfeita. Tudo é de todos (incluindo as mulheres), e todos são por todos – subscrevendo o que, aí, através de Sócrates, Diotima diz em respeito à geração dos mais belos (de melhor saúde) à geração dos mais belos, etc. O amor realizado, isto é: gerado o filho, parte do seu objeto em direção a outro (conforme certos regulamentos que Campanella anota em sua descrição das relações sexuais entre os solares), se o apego a um indivíduo, por amor ao todo. O sacrifício do desapego é dom da virtude, do homem virtuoso, da mulher virtuosa. Cf. CAMPANELLA, Tommaso. A Cidade do Sol. São Paulo: Abril Cultural, 1983. (Col. Os Pensadores).
3 Personagens de Point counter point (1928), de Aldous Huxley (1894-1963).
4 HUXLEY, Aldous. Contraponto. São Paulo: Abril Cultural, 1982. p. 7. (Col. Grandes Sucessos). A novela Contraponto é “uma descrição crua da vida de vários casais que se amam, mas não conseguem demonstrar o seu amor; que se detestam, mas não têm coragem de exprimir seu ódio; que não se suportam, mas não ousam abandonar o comodismo e a rotina da existência que levam ao lado daquele – ou daquela – que um dia escolheram.” (Da contracapa).
5 MONTERO, Rosa. Oscar Wilde e Lorde Alfred Douglas: dançando descalço no sangue. In: _____. Paixões: amores e desamores que mudaram a história. Rio de Janeiro: PocketOuro, 2009. p. 57-8.
6 George Bernard Shaw (1856-1950), citado em: COMTE-SPONVILLE, André. A felicidade, desesperadamente. São Paulo: Martins Fontes, 2001. p. 36.
7 “Pois quer todo o prazer – eternidade!” (NIETZSCHE, Friedrich. O canto ébrio. In: _____. Assim falou Zaratustra: um livro para todos e para ninguém. São Paulo: Círculo do Livro, [s.d.]. p. 324 [§ 11]).
8 BUDA, citado em: ARVON, Henry. O budismo. Lisboa: Publicações Europa-América Ltda., [s.d.]. p. 41-1. (Col. Saber).


domingo, 1 de julho de 2012

7.



Do morrer por amor: um equívoco



No fundo, houve apenas um cristão, e ele morreu na cruz.
O “evangelho” morreu na cruz.

– Friedrich Nietzsche

  
Quando Eco viu Narciso, moço lindo como um Apolo ou um Dionísio, enlouqueceu de paixão. Estava amando. Estava perdida. Por quê? Porque o amor é desejo, e desejo é falta, e falta é sofrimento. É Sócrates quem diz, n’O banquete, de Platão – que reforça: “O que não temos, o que não somos, o que nos falta, eis os objetos do desejo e do amor”1, reaparecendo depois, em Sartre: “O homem é fundamentalmente desejo de ser”, e “desejo é falta.”2
“Todo sofrimento vem do amor e da inclinação [desejo].” Mestre Eckhart ensina3. “Tudo é dor, e toda dor vem do desejo de não sentirmos dor.” É doutrina budista, simplificada na letra de “Quando o sol bater na janela do teu quarto”, de Renato Russo4. Desde cedo somos doutrinados a acreditar que a ausência da dor seja uma felicidade5, e que a verdadeira felicidade é prêmio do amor, resposta positiva ao Amor6. Assim, no que tem de puro e venturoso, o amor mundano é reflexo imperfeito e difuso daquele Outro, supramundano, perfeito e eterno. “Mas”, alguém pode dizer, “você está confundindo amor com paixão; e amor não é paixão”. É o mesmo alguém que, de tantas certezas quanto à diferença, vacila duvidoso quando procura conceituar o que seja esse mesmo... “amor”, e também a paixão. Quem pensa assim, comum das vezes, garante que amor é coisa divina (e daí procedente), diferentemente da paixão, que é coisa rasteira, cá da terra, dos homens. Tal vício e engodo vêm de longe, e parece que durará para sempre – pois o amor romântico é um ótimo produto para o mercado literário7 e cinematográfico, e para a Indústria Cultural, em seu sentido mais abrangente.
Na segunda das Quatro Nobres Verdades do Budismo, “a causa do sofrimento é o desejo ardente da vida individual”, ou do Eu consciente-individual: “toda a nossa infelicidade decorre de um eterno querer-viver”8. Na lição de Panchadasi, o resultado do desejo realizado, é o retorno ao Eu – e ele não é um lugar feliz: “[O objeto do meu desejo...] Como farei para agarrá-lo? Não o agarre. O que sobra, quando não se agarra mais nada, é o Eu.9” Comte-Sponville cita Bernard Shaw: “Há duas catástrofes na existência: a primeira é quando nossos desejos não são satisfeitos; a segunda é quando são.10” Não há saída. A não ser que não exista mais o Eu... Mas aí, consequentemente, não haveria a minha consciência sobre o prazer ou a dor. No mundo, e somente nele, conhecemos o céu e o inferno: em nossos sentidos, em nossa consciência. Depois é o vazio, o silêncio, o nada (do Eu). Nada de desejo, nada de sofrimento, nada de amor, nada de paixão.
A “paixão” somente surgiu no segundo século, quando o satírico e médio-platônico Lucius Apuleio, no De Deo Socratis, escreveu sobre a possibilidade da alma, e sobre as perturbações que ela sofre, advindas do mundo externo11. Derivado de pati (suportar, sofrer), passio nomeia o πάθος (de onde “patologia”): a afecção acidental que o corpo (ou a alma) suporta. É esse sofrimento que, às vezes insuportável, enlouquece os apaixonados, e os condena. Veja Tristão, Werther, Romeu, Édipo, Pedro Abelardo; veja... Eco. 
Πάσχειν (sofrer) é o estado natural e mais espontâneo do animal que responde aos impulsos da Vontade, obedecendo-lhe cegamente. Na natureza, onde não há o pensamento, tudo é πάσχειν, e o desconhecimento do seu conhecimento, das fontes do πάσχειν. As criaturas ou são levadas pelo impulso que lhes impele ao outro, objetivado – e às falas12 que narram o impulso, no caso das racionais –, ou condicionadas ao impulso cego, à ação irrefletida: pura paixão, pura animalidade. No processo civilizatório, tal animalidade foi domesticada, amansada, tornada servil às ideais superiores, supramundanos. Assim se falseou a realidade (crua) pela ideia de outra verdade melhor que... esta. Autores mais ortodoxos – como Gianni Vattimo, por exemplo – veem tais provocações como coisas perigosas, “tentadoras”, dizem. O realismo: uma tentação.13 
O idealismo foi, desde cedo, o modo mais seguro de mascarar o real, concedendo-lhe o status derivativo de melhor, do mais verdadeiro e, por isso, “menos pior”, menos falso. Feuerbach enxergou tal inversão (“A religião é a cisão do homem consigo mesmo...”)14, e o jovem Marx o seguiu, contra Hegel15; e depois Nietzsche, contra tudo o que representava o espírito cristão16; e depois Unamuno, sumariado por Rubem Alves17; e Thomas Paine, para quem a única Igreja viva e verdadeira era a sua própria mente18; e mais uma plêiade de pensadores que ousaram ir além do idealismo socrático-platônico... E todos eles pagaram, cada qual à sua maneira, pela posição de vanguarda, e do pensamento livre – contra a tirania ideológica de uma “razão”, envenenada, enlameada e entorpecida no vinho santo da santa ceia cristã.
Deus, ao homem de fé, como o amor (do qual ele é fonte19, na teologia cristã), também é objeto20; e sendo desejo, é falta. Não procura Deus aquele que já o tem. Enquanto pre-sença, Deus também é ausência. “É a eternidade do desejo, a imensidão da nostalgia, os espaços sem fim. O Pai nosso quem ora nos céus, onde voam as aves, espaço vazio, pura permissão, ausência. Presença de uma ausência.21” E possível falar de Deus para além da licença poética? Teopoesia. Parece que aí, no misticismo poético, também está a casa do amor romântico: modo enviesado de falar do homem mesmo, colocado de cabeça para baixo. Sim, a relação Deus/Amor, para o cristão, é a relação Desejo/Amor, para Platão, conforme vemos n’O banquete, em que Sócrates reproduz os conceitos de Diotima22. Mas, sendo a fé paradoxal ao pensamento – à Vontade, não –, há conflitos, bem muitos. O pensamento, aplicado à Vontade – que mascarada no ideal romântico –, funciona perfeitamente. É o que nota Comte-Sponville:

Em outras palavras, o amor [romântico] só é salvo pela religião – eis o segredo de Diotima, eis o segredo de Platão: se o amor é falta, sua lógica é sempre tender mais para o que falta, para o que falta cada vez mais, para o que falta absolutamente, que é o Bem (de que o Belo nada mais é que a deslumbrante manifestação), que é a transcendência, que é Deus, e aí se abolir, enfim saciado, enfim apaziguado, enfim morto e feliz! Ainda é amor, se mais nada lhe falta? Não sei. Platão talvez diria que então há apenas a beleza, como Plotino dirá que há apenas o Uno, como os místicos dirão que há apenas Deus... Mas, se Deus não é amor, para que Deus? E do que Deus poderia ter falta?23

Fé não é e nem pode ser argumento (racional), uma vez que, como nota Kierkegaard, é paradoxo: o grande Paradoxo, o Paradoxo Absoluto24. Do “Deus é”, não se pode falar senão como “eu acredito que seja”; e o “não-é” (“eu acredito que ele não seja...”) é o seu contrário. “Deus é definitivamente; o demo é o contrário Dele”, diz Riobaldo, teologizando25. Poesia, literatura romancesca... Na filosofia, porém, não se deve ir a tanto. A fé é o contrário da filosofia, do filosofar – São Paulo e Tertuliano, nisso, são consentes, contra a “fé pensada” da/na Igreja, na Patrística, Idade Média e até hoje. Hoje, porém, não se trata mais do “milagre da fé”, mas do milagre na fé, na invenção de um sentido para os tantos sem sentidos do mundo, do Eu no mundo. O mesmo Eu que, de si, para si, procura apaixonadamente por seus sentidos. Uma tola procura, porém. Mas, quem consegue viver sem alguma paixão?, sem alguma loucura?
No humano, a passio responde ao Eros Vulgar (πάνδημος ἔρως) – não mais que um conceito contra aquela nudez da pulsão (Trieb) primitiva, feia, crua, bruta, “incivilizada” –, efeito de sua causa. Em resposta ao Eros Vulgar, o humano entrega-se àquilo que o atrai, em, pelo mesmo caminho das bestas, resposta à Vontade – em sua voluptuosidade, no entorpecimento dos sentidos. Passio, paixão, passional. Contra os excessos da Vontade, e ainda mais contra tal entorpecimento, a doutrina moral cristã, principalmente, procurou sublimar o conceito de “amor” ao plano do ideal (puro, perfeito, etc.), tratando (ou maquiando) as manifestações eróticas como derivações imperfeitas do perfeito Ágape, por quem (e a partir de quem) deveriam endireitar-se, corrigirem-se, serem mensuradas na matemática do mais ou menos, no verdadeiro, no puro e no bom26. Assim, e pelo enorme sucesso que a doctrina christiana obteve – principalmente do século II em diante –, o Eros Vulgar foi relegado a um plano ainda mais vulgar, inferior.
No Novo Testamento, Eros é preterido, em favor de ágape. O erótico – referente a Eros, divindade pagã da mitologia grega – foi tomado não como alguma boa beleza, e saúde do corpo e da mente (um corpo belo é um corpo saudável, e mens sana, corpore sano), mas como libidinagem pecaminosa, doença da alma, sensualizada, corrompida, etc. Daí não ser estranho que o “hedonismo” epicurista tenha sido, no Ocidente, satanizado; e a eudaimonía (“ter um bom demônio-guardião” junto a si)27, enquanto termo, não soa bem até hoje, aos cristãos menos dados ao pensamento. “Afirmar a bondade do prazer é escândalo no Ocidente”, é Octavio Paz28. E Rubem Alves:

A espiritualidade ocidental foi construída sobre a negação do prazer. As feridas e lacerações que a espiritualidade católica elegeu como objetos de adoração são expressões plásticas desse fato. E o ascetismo e disciplina de trabalho, virtudes supremas do protestantismo, são a sua manifestação racional e moral.29

Mesmo o Eros Celeste (οὐράνιος ἔρως), muito superior ao Vulgar – como aparece n’O banquete, de Platão – não escapou a tal sublimação divinatória; aliás, serviu-a muito bem, com ligeiras e sutis adequações... Como também se fez ao Hades/inferno, à relegio/religião30, à psyché/alma, et cetera. A análise histórico-filológica desses termos mostra a crueza (nada cristã) de seus primeiros sentidos, e utilizações.
Ao se introduzir (e conceituar) o ágape (ἀγάπη) no Novo Testamento, em substituição a Eros (ἔρως), fez-se, muito provavelmente, o maior de todos os desvios conceituais que um termo já teve na Grande História do Ocidente – que estendeu tentáculos etimológicos e filológicos por onde chegou. Ágape: celeste, perfeito, modelo; Eros: mundano, dado aos enganos das paixões, e à corrupção dos sentidos. Por ágape – no qual e pelo qual tudo deveria ser mensurado como bom ou ruim –, era legítimo viver, era legítimo morrer31. O próprio Filho de Deus... que maior e melhor exemplo?32
Acontece que Eros está em tudo e, em tudo e por tudo, manifesta-se – principalmente no inevitável stergein (amor próprio): o combatido egoísmo; que é a perversão de ágape, da sua imagem distorcida, como em um espelho mal polido... o espelho da fé33. Enquanto o ágape recomenda um ideal que resumiria toda a doctrina: “Toda a lei se cumpre numa só palavra, a saber: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo”34, Eros aproxima-se do real: “Não é, com efeito, o que é seu que cada um estima?” É Diotima, perguntando a Sócrates, e respondendo logo em seguida: “Pois nada mais há que amem os homens senão o bem; [...] por amor a si mesmos.35” Para que a “realidade mais real” do amor se manifestasse, porém, foi necessário que se esperasse chegar à segunda metade do século XIX, com o inglês Charles Darwin, o austríaco Sigmund Freud e o alemão Arthur Schopenhauer, principalmente; e, depois desses dois últimos, seus discípulos mais brilhantes, Friedrich Nietzsche, Lou Salomé, e os discípulos dos seus discípulos... muito mais que doze.
O amor mundano (erótico-físico), eles dizem de um modo ou de outro, não é mais que uma resposta à Vontade, para a geração e permanência da espécie humana – pois os amimais não amam (e, logo, não conceituam suas vontades [pulsões] erroneamente) –; e o amor divino, o perfeito e metafísico ágape, não mais que um suspiro do aflito, preso às esperanças; não é mais que, ah!, não é mais que um delírio da razão, ou o seu sono.
Assim, e até aqui: ágape foi uma adequação do Eros Urânio, e um desvio conceitual impetrado contra o Eros Vulgar, que é uma resposta positiva à Vontade – evidenciada no convite que a beleza dos corpos propaga, lançando indivíduos contra indivíduos (na paixão), com a finalidade da cópula, para a geração de espécies saudáveis e igualmente belas –, que foi varrida para debaixo do tapete na sala da sra. Mente Superior, que ordenaria a natureza de forma lógica e dinâmica. Esta Mente Superior, amor perfeito e fonte do perfeito amor (fora do qual outros “amores” são imperfeitos), ordenaria as afecções e as más vontades, premiando-as ou punindo-as. 
Foi assim que, no sentido vulgar do termo, Eco amou a Narciso, que era, por sua vez, metáfora do amour de soi, em seu sentido mais pungente. Era o “amor ao outro” contra o “amor a si mesmo”; esse, fartamente combatido na moral cristã, e normalmente aprisionado em nosso Eu inconsciente, mas sempre muito ativo em nossas maiores ou menores ações. De um modo ou de outro, e como já foi dito, era o Eu encontrando-se com o Eu, mesmo quando equivocado sobre o encontro com o (ou no) Outro. Não poderia haver um final feliz, evidentemente.  
Onde quer que Narciso fosse, Eco o seguia – mesmo que tão somente para ganhar um pálido raio do seu olhar –, arriscando-se. Narciso, no entanto, apenas amava a si mesmo, a sua imagem refletida nas cristalinas águas de uma fonte. Não vendo o seu amor correspondido – pois que os amores nunca são correspondidos, quando confiados à resposta positiva do Outro –, Eco retirou-se para uma caverna, desolada, humilhada. Aí definharia, até o fim. Dela, restaria somente uma voz triste e distante, perdida pelos espaços ermos.
Na mitologia, Eco torna-se a repetição de si-mesma, não sendo a própria, porém. Do mesmo modo é o amor que dizemos sentir por outrem. No amor ao Outro (ou “pelo Outro”), ele não é casa, não é porto e nem destino, mas um abismo do Eu que aponta para o Super-Eu, para um cair-em-mim. No final das contas, e quando penso que o Outro é meu objeto (a quem devo amar, ou amo), vejo-me aqui, em mim mesmo, qual sonâmbulo despertado diante do espelho: reflexo difuso, eco dissonante. O que eu amava no Outro era, afinal, o reflexo de mim mesmo. Daí que, afinal, ninguém morre por ninguém, por amor a esse alguém. Todo morrer de amor, ou por amor, é um morrer por si mesmo, por amor a si. Nada mais egoísta que o morrer por amor.
O “estar preso a alguém”, por isso, é outro equívoco conceitual.
Sim, estou condenado a mim mesmo e ao meu próprio amor – que não posso jamais, e mesmo que desejasse, dispensar a outrem, ao meu “próximo”: ele ou ela.
Descumprir a lei evangélica não é um pecado, é uma inevitabilidade.





1 O banquete, 200 e. PLATÃO. O banquete. In: _____. Diálogos. 2. ed. São Paulo: Abril Cultural, 1983. (Col. Os Pensadores).   
2 SARTRE, Jean-Paul. L’être et néant. Paris: Gallimard, 1969. p. 652.
3 “Portanto”, ele continua, “se sofro por causa de coisas transitórias, a razão disso está em que eu, com meu coração, continuo a amar e pender para [essas mesmas] coisas.” (ECKHART, Mestre. O livro da Divina Consolação e outros textos seletos. 5. ed. Bragança Paulista: Editora Universitária São Francisco, 2005, p. 58. [Col. Pensamento Humano]).
4 RUSSO, Renato. Quando o sol bater na janela do teu quarto. In: Legião Urbana – As quatro estações. São Paulo: EMI Music Brasil Ltda., 1989. 1 disco sonoro. Faixa 4 (3 min 10 s). O próprio Renato, no encarte, confessa: “Todo hotel que se preze tem catálogo telefônico na gaveta perto do telefone e Bíblia. Só teve uma vez que no hotel não tinha nada, outra que em vez da Bíblia era o livro de Mórmon e um belo dia chegamos em... (não me lembro) e o que tinha junto com o TELESP (?) era A doutrina de Buda. Gostei tanto que quis levar um exemplar para casa comigo. (Era um hotel grande, eles deviam ter centenas de doutrinas de Buda). E por algum motivo, em vez de roubar um (levar sem avisar) desci até a recepção e perguntei do livro e eles disseram: tudo bem. Pode levar um com você. [...] Toda parte sobre dor e desejo de ‘Quando o sol’ é do livro.”
5 Como diz Epicuro em sua carta A Meneceu, defendendo sua doutrina: “Quando então dizemos que o fim último é o prazer, não nos referimos aos prazeres intemperantes ou aos que consistem no gozo dos sentidos, como acreditam certas pessoas que ignoram o nosso pensamento, ou não concordam com ele, ou o interpretam erroneamente, mas o prazer que é a ausência de sofrimentos físicos e de perturbações da alma.” (EPICURO. Carta sobre a felicidade (a Meneceu). São Paulo: Editora UNESP, 1997. p. 43). E ninguém duvidaria que, em relação às perturbações da alma, as coisas do amor sejam as que mais se apresentam.
6 É assim em Agostinho, o mestre do ocidente (como é dito por: HIRSHBERGER, Johannes. História da filosofia na Idade Média. 2. ed. São Paulo: Editora Herder, 1966. p. 29.): “Tu nos fizeste para ti, e nosso coração está inquieto enquanto não repousar em ti.” (Conf., I, I,1), e “a vida feliz consiste em sentir alegria junto de ti, vinda de ti, graças a ti: esta é a vida feliz e não há outra.” (Conf., X, XXII,32; AGOSTINHO, Santo. Confissões. Lisboa: Centro de Literatura e Cultura Portuguesa e Brasileira / Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2001. p. 5, 257, respectivamente. [Col. Clássicos da Filosofia]). “Depois de São Paulo”, Le Goff afirma, “Santo Agostinho é o personagem mais importante para a instalação e o desenvolvimento do cristianismo. É o grande professor da Idade Média.” (LE GOFF, Jacques. As raízes medievais da Europa. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 2007. p. 31).
7 Inclusive nas obras que, aparentemente, nada têm a ver com romantismo: de matemática e/ou arquitetura, por exemplos. Em respaldo ao afirmado, nem é preciso grande esforço. Dois livros de Alain de Botton tratam sobre isso, magistralmente. Cf. BOTTON, Alain de. Desejo de status. Rio de Janeiro: Rocco, 2005. 301 p; _____. A arquitetura da felicidade. Rio de Janeiro: Rocco, 2007. 271 p.
8 Cf. ARVON, Henry. O budismo. Lisboa: Publicações Europa-América Ltda., [s.d.]. p. 44-5. (Col. Saber). O Eu é a consciência (do Eu). Se há pleonasmo, aí, é na intenção de facilitar o sentido restrito à percepção imediato-existencial do sujeito pensante, coisa pensante (res cogitans); ou do pensamento que se volta sobre si mesmo: um cérebro em um corpo, do qual se serve e é parte.   
9 Citado em: HUXLEY, Aldous. A filosofia perene. São Paulo: Círculo do Livro, [s.d.]. p. 248. Panchadasi é um livro de textos (organizados em 15 capítulos) de Swâmi Vidyaranya, para esclarecimento e aprofundamento do Vedanta, à semelhança dos Upanishads.
10 COMTE-SPONVILLE, André. A felicidade, desesperadamente. São Paulo: Martins Fontes, 2001. p. 36.
11 Lucius Apuleius foi um escritor Berbere, nascido em Madaura (atual Argélia), por volta de 125, antes de Cristo. Em Cartago, estudou gramática e retórica; e em Atenas, Platão e Aristóteles. Aí, casou-se com Pudentila, uma viúva muito rica. Por isso, e pelos parentes da mesma, foi acusado de utilizar-se de magia para conquista-la. Sua defesa está na Apologia, obra que está conservada até hoje. Ainda jovem, regressou a Cartago, onde morre, por volta de 180.
12 Como demonstrado na empolgada reação do Sargento – na novela de Trevisan –, ao ver Maria, sua ex-namorada, descendo as escadas metida em um minúsculo short, antes de saírem para passear: “Você me atiça. Que boa você assim. Como é gostosa.” (TREVISAN, Dalton. Nem te conto, João. Porto Alegre: L&PM, 2011. p. 107. [Col. L&PM POCKET, 934]). Os itálicos são do próprio autor. 
13 VATTIMO, Gianni. A tentação do realismo. Rio de Janeiro: Lacerda Ed.: Instituto Italiano di Cultura, 2001. 57 p. (Col. Conferências Italianas, 1).
14 “A religião é a cisão do homem consigo mesmo: ele estabelece Deus como um ser anteposto a ele, Deus não é o que o homem é, o homem não é o que Deus é. Deus é o ser infinito, o homem, finito; Deus é perfeito, o homem imperfeito; Deus é eterno, o homem transitório [etc.]. O que deve ser demonstrado é então que esta oposição, que esta cisão entre Deus e homem, com a qual se inicia a religião, é uma cisão do homem com a sua própria essência.” (FEUERBACH, Ludwig. A essência do cristianismo. 2. ed. Campinas, SP: Papirus, 1997. p. 77). 
15 “No que diz respeito à Alemanha, a crítica da religião está, no essencial [com Feuerbach], terminada, e a crítica da religião é a condição preliminar de toda a crítica. [...] O fundamento da crítica irreligiosa é: foi o homem quem fez a religião, não foi a religião que fez o homem. Realmente, a religião é a consciência de si e o sentimento de si que possui o homem que ainda não se encontrou, ou que se tornou a perder. Mas o homem não é um ser abstrato escondido algures fora do mundo. O homem é o mundo do homem, o Estado, a sociedade. Este estado, esta sociedade, produzem a religião, consciência invertida do mundo, porque eles próprios são um mundo invertido.” (MARX, Karl. Crítica da Filosofia do Direito de Hegel. In: _____ & ENGELS, Friedrich. Sobre a religião. Lisboa: Edições 70, 1975. p. 47-8). E, noutra parte: “Até aqui, os homens têm sempre criado representações falsas sobre si próprios, e daquilo que são ou devem ser. Segundo as suas representações de Deus, do homem normal, etc., têm instituído as suas relações. Os filhos da sua cabeça cresceram-lhes acima da cabeça, diante de suas criaturas. Libertemo-los das ficções do cérebro, das ideias, dos dogmas, das essências imaginadas sob cujo jugo se atrofiam.” (MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Do prefácio. In: _____. A ideologia alemã – 1º capítulo, seguido das teses sobre Feuerbach. São Paulo: Centauro Editora, [s.d.]. p. 7).
16 “O espírito puro é a pura mentira... Enquanto o sacerdote, esse negador, caluniador, envenenador profissional da vida, for tido como uma espécie mais elevada de homem, não haverá resposta para a pergunta: que é verdade? Já se colocou a verdade de cabeça para baixo, quando o consciente advogado do nada e da negação é tido como representante da ‘verdade’.” (NIETZSCHE, Friedrich. O anticristo: Maldição do cristianismo: Ditirambos de Dionísio. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. p. 15 [§ 8]). E: “– Volto atrás, conto agora a história genuína do cristianismo. – Já a palavra ‘cristianismo’ é um mal-entendido – no fundo, houve apenas um cristão, e ele morreu na cruz. O ‘evangelho’ morreu na cruz.” (NIETZSCHE, 2007, p. 45 [§ 39]). E: “‘Fé’ significa não querer saber o que é verdadeiro.” (NIETZSCHE, 2007, p. 63 [§ 52]). E, por fim, mas não finalmente, Nietzsche fala da tensão (político-biológico-moral) que o Ocidente europeu herdou da corrupção do socratismo-platônico, através do movimento cristão, e da sua “luta contra Platão, ou, para dizer dizê-lo de modo mais simples e para o ‘povo’, [d]a luta contra a pressão cristã-eclesiástica de milênios – pois o cristianismo é platonismo para o ‘povo’ – [que] produziu na Europa uma magnifica tensão do espírito, como até então não havia na terra.” (NIETZSCHE, Friedrich. Prólogo. In: Além do bem e do mal: prelúdio a uma filosofia do futuro. 2. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. p. 8. As ênfases são minhas).
17 “Nossos deuses são nossos desejos projetados até os confins do universo. [...] Os deuses das flores são flores. Os deuses das lagartas são lagartas. Os deuses dos cordeiros são cordeiros. Os deuses dos tigres são tigres...” (ALVES, Rubem. Da esperança. Campinas: Papirus, 1987. p. 18).
18 “Minha mente é a minha igreja.” (PAINE, Thomas. The Age of Reason. London: Forgotten Books, 1884. p. 18). Publicado em 1794, The Age of Reason foi interpretado como literatura ateísta, tornando seu autor uma figura muito mal vista, principalmente entre os fundamentalistas americanos, e nos círculos de radicais e livres pensadores. Em 1802, numa viagem que faz aos Estados Unidos, a imprensa federalista anunciou-o como “réptil asqueroso”, “besta semi-humana”, dentre outros impropérios. E, conforme Philip Foner – editor moderno das obras completas de Paine, The complete writtings of Thomas Paine, 1945 (2 v.) –, “... sua morte não foi virtualmente noticiada na imprensa Americana.”
19 Como na pena de João: “Caríssimos, amemo-nos uns aos outros, pois o amor vem de Deus; e todo aquele que ama nasceu de Deus e chega ao conhecimento de Deus.” (I João, 4, 7; TEB. Ênfase minha).
20 De desejo, enquanto objeto (objetivo) a ser alcançado.
21 ALVES, Rubem. Da esperança. Campinas: Papirus, 1987. p. 43.
22 O amor, escreve Platão, “ama aquilo que lhe falta, e que não possui” (Ban., 201 b).
23 COMTE-SPONVILLE, André. Amor. In: _____. Pequeno tratado das grandes virtudes. São Paulo: Martins Fontes, 1997. p. 256. (Col. Mesmo que o céu não exista).
24 Exemplificado, por ele, na doutrina da Encarnação do Verbo, “que exige que acreditemos que existe um momento em que o eterno entra na esfera temporal, assumindo as limitações da existência finita, e isso parece envolver uma impossibilidade manifesta, algo que não pode ser acomodado aos limites do pensamento e da compreensão humanos.” (GARDINER, Patrick. Kierkegaard. São Paulo: Edições Loyola, 2001. p. 81 [Col. Mestres do Pensar]). “Nesse caso a Fé não é tão paradoxal quanto o Paradoxo? Precisamente; de que outra forma ela poderia ter o Paradoxo como seu objeto e ser feliz em sua relação com o Paradoxo? A Fé é um milagre em si mesma, e tudo o que é verdadeiro para o Paradoxo também é para a Fé” (KIERKEGAARD, Sören A. Philosophical fragments. New York: Harper and Row, 1962. [Frag. 81]).  
25 ROSA, João Guimarães. Grande sertão: veredas. 19. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001. p. 58.
26 “A Bíblia não trata dos temas do sexo ou do Éros. Isto não significa que os mesmos sejam excluídos ou descuidados. Pelo contrário, a sã sexualidade, atuada na reta ordem (matrimônio), é claramente reconhecida como dom do Criador. [...] Também o Novo Testamento não é inimigo do sexo ou do matrimônio, ainda que considere a virgindade como um caminho de vida mais excelente. Longe disto, é justamente no matrimônio que se realiza o ‘grande mistério’ que tem seu fundamento típico na comunidade ‘esponsal’ de Cristo com a Igreja (Ef 5, 32), de maneira que também o matrimônio adquire um caráter sagrado. Certamente, não é tanto o amor natural em seu valor próprio ou enquanto ligado a esta terra que é aprovado, mas aquele que é redimido, renovado, purificado e ‘levado à plenitude’ pelo ágape, ou seja, por Deus em sua ação na História.” (WARNACH, V. Amor. In: VV.AA. Dicionário de teologia: conceitos fundamentais da teologia atual. 2. ed. São Paulo: Loyola, 1983. p. 66. v. 1. As ênfases são minhas).    
27 Trato melhor sobre o tema em meu artigo sobre O tema da eudaimonía... Cf. SALES, Antonio Patativa de. O tema da ΕΥΔΑΙΜΟΝΙΑ na carta de Epicuro A Meneceu. In: Revista Ágora filosófica: pensamento Antigo-Tardio e Medieval. Recife: Fundação Antônio dos Santos Abranches – FASA. v. 2, n. 2, p. 21-32, 2004.
28 PAZ, Octavio. Los hijos del limo. Madri: Planeta Editorial, 1996. p. 106.
29 ALVES, Rubem. Variações sobre o prazer: Santo Agostinho, Nietzsche, Marx e Babette. São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2011. p. 83. Em uma nota, Alves diz mais: “Como é bem sabido, segundo Max Weber, o ascetismo intramundano do protestantismo calvinista e a disciplina de trabalho constituíram a essência do espírito do qual o capitalismo nasceu. Me pergunto se essa ideia não lhe veio da leitura dos Manuscritos econômico-filosóficos de 1844, de Marx.” (ALVES, 2011. p. 83).
30 Nesse particular, e para que se veja a corrupção do termo e sua adequação à mensagem do movimento cristão, nos séculos I e II: SACHOT, Maurice. A invenção do Cristo: gênese de uma religião. São Paulo: Loyola, 2004. p. 133-50. (Col. Bíblica Loyola, 40).
31 Veja Tristão, Alceste, Werther, Romeu, Édipo... veja o Cristo.
32 “Maridos, amai [ἀγαπάτε] as vossas mulheres como Cristo amou [ἠγάπησεν] a Igreja e se entregou [morreu] por ela.” (Efésios 5, 25; TEB).
33 Após fazer o elogio ao ágape, Paulo confessa que, sobre ele, “agora [na temporalidade], vemos em espelho e de modo confuso; mas então [pela fé, e na eternidade], será face a face.” (I Coríntios, 13, 12; TEB).
34 Gálatas 5, 14; que subscreve Levíticos 19, 18. No Novo Testamento, a ordenança (de amar – como se pode amar em obediência a uma ordem?) aparece em várias partes: Mateus 19, 19; 22, 39; Marcos 12, 31; Lucas 10, 27; Romanos 13, 9; Tiago 2, 8, etc.  
35 O banquete, 206 a.


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