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segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013


31.





Do desejo que se aloja na raiz de toda a paixão humana...



Talvez nenhuma outra doutrina, mais que a do budismo1, tenha combatido tanto o Eu, e o Desejo, e a tirania dos sentidos. “O caminho do budismo é o caminho da aniquilação do Eu e, portanto, do mundo dos fenômenos.2” Mas, posso pensar de um modo que parece simplista: não há a aniquilação do Eu sem que, também, haja a vontade de que ele seja aniquilado... no próprio Eu. Um contrassenso? Sim. O Eu, naturalmente, não deseja o que é contrário a si, sem que julgue isso, embora cegamente, algum bem. O Eu que deseja escapar do sofrimento, enfrentando seus agentes em direção ao Nirvana, precisa estar a caminho. Mas, que caminho? O caminho do Buda3. É como se pode ler no Visuddhi Magga:

Só há sofrimento, não
há sofredor.
Não há agente, só há
o ato.
O Nirvana é, mas não
aquele ou aquela que o
procura.
O caminho existe, mas não
aquele ou aquela que nele anda.4

Mais que o indivíduo, que nada é, que nada deve ser – ao menos aí, em uma clara relação à doutrina brâmane do Eu, ou ātman –, é o sofrimento (duḥkha), e a ação (karmanta), e o Nirvana e seu caminho (aṣṭapāda). Consta que um asceta itinerante chamado Vaccha, diante do Buda, apresentou-lhe as teses e antíteses do que, segundo ele, era a doutrina do Abençoado. O Buda não somente as nega como, para a perplexidade de Vaccha, afirma que era “livre de qualquer teoria”5. Isso, assim negado, não requer uma teoria? Sim, e o Buda tem uma. Ela se revela na pergunta que ele mesmo faz ao errante Vacchagotta: “Para onde vai um fogo que se apagou? Para leste, oeste, sul ou norte?6” Aqui, um parêntese. O fogo, no imaginário popular, também está relacionado às afecções da nossa alma, e ao amor erótico7. Dizemos: “passou o fogo da paixão”, “o fogo apagou”, etc. E daí o trechinho de “Almanaque”, na música do Chico: “Me responde, por favor / Pra onde vai o meu amor / Quando o amor acaba?8” E daí este poeminha, no mesmo espírito:

Quando o amor acaba
O quanto de nós vai junto,
Em pele, unhas, cabelos...?
Ah!, & os livros devolvidos
& os discos do Bob Dylan...

E onde estará, agora,
A presença que enchia a sala
O corpo sobre a cama suada
& o cheiro que ficava...?

E o que vê, agora,
O rosto que enchia o espelho
De rímel, batom & sombra...?

Ah!, repara a porta aberta...
& a casa vazia, esperando 
Olhando a rua silenciosa
De um dia como hoje
– a tarde de um domingo

Ah!, responda, responda: 
Para onde é que vai o amor
Depois que o amor acaba?

Como a chama que se vai, também o fogo das paixões eróticas. A analogia é simples, mas pratiquíssima ao que pretendo, voltando à pergunta do Buda que Vaccha confessa ignorar a resposta, permitindo que o Abençoado compare o arhat (aquele que atingiu o Nirvana) ao fogo extinto. Qualquer que fosse a afirmativa referente à sua existência não seria mais que uma simples conjectura. Claro que, aí, se aceitamos a analogia e a doutrina do Iluminado, caímos também no seu idealismo, e na fé confiante. Foi assim que Schopenhauer permaneceu no idealismo, ao ponto de afirmar que “o verdadeiro filósofo deve ser um idealista”9. Estava errado, miseravelmente. Amo Schopenhauer, mas amo ainda mais a minha verdade. E “o ‘eu’, por trás de nós oculto”, como dizia Emily Dickinson, ainda “é muito mais assustador.”10
Uma das passagens mais famosas da biografia do Buda é aquela em que ele é tentado pelas filhas do demônio Māra – representação do seu Eu oculto, assustador; um tipo de “lado negro”, um demônio interior, a Morte e Diabo conjugados, o Senhor do Ego e da Ilusão. Depois de atingir a iluminação, o Buda permaneceu sob a árvore Bodhi11, com as pernas cruzadas, imóvel por sete dias. “Encontrei a libertação”, ele pensou. Na quarta semana, mergulhado em profunda meditação, ainda sob a bo, Māra – inconsolável com a sua derrota – vai a ao seu encontro, dizendo-lhe:

“Bem-aventurado és tu, por permaneceres e por conheceres o caminho para a libertação. Apague a lâmpada, extingue a sua chama e entre no Nirvana, oh, Bem-Aventurado! É a hora.”
Ao que o Buda lhe respondeu:
“Não, Māra! Eu não extinguirei a chama, nem entrarei no Nirvana. Devo primeiro conquistar muitos discípulos, e eles, por sua vez, devem ganhar outros sob a minha doutrina. Através da palavra e da ação, devo silenciar meus adversários. Não, Māra! Eu não entrarei no Nirvana até que o Buda seja glorificado em todo o mundo, e até que a sua lei benéfica seja reconhecida.”
E Māra o deixou, cabisbaixo. Parecia ouvir as vozes divinas zombando de seu fracasso:
“Você foi derrotado, Māra”, diziam, “e permanece envolto em pensamentos, como uma velha garça-real. Você é impotente, Māra!, como um velho elefante atolado num pântano. Pensou que era um herói, e está mais fraco que um homem doente abandonado na floresta. De que adiantaram as suas palavras insolentes? Foram tão fúteis quanto o murmúrio dos corvos.”
Nisso, Māra pegou um galho seco e, com ele, desenhava figuras na areia. Suas três filhas, Rati, Arati e Trishna viram-lhe assim, aflito, e ficaram abatidas.
“Pai”, Rati falou, “por que você está tão melancólico?”
“Fui derrotado por um homem santo”, ele respondeu. “Ele resistiu à minha força e à minha astúcia”.
“Pai”, disse Trishna, “nós somos belas e os nossos modos são sedutores”.
“Iremos a esse homem”, Arati atalhou, “e o prenderemos com os grilhões do amor, e o traremos até você, humilde e temente.”
E foram ao Buda. Diante dele, dançavam e cantavam:
“Eis a primavera, amigo, a mais linda das estações. As árvores estão em floração; devemos estar felizes. Seus olhos são belos, brilham com uma luz adorável, e você carrega as marcas da onipresença. Olhe-nos: somos feitas para dar prazer e felicidade tanto aos humanos quanto aos deuses. Levanta-te e te junta a nós, amigo; aproveite ao máximo a tua juventude brilhante; afaste os pensamentos sérios da tua mente. Vê nossos cabelos, quão sedosos!, são as flores que emprestam sua fragrância à sua maciez. Vê nossos olhos; neles estão a doçura do amor. Vê nossos lábios; eles são quentes como a fruta amadurecida ao sol. Vê nossos seios, rijos e bem torneados. Deslizamos com a graça majestosa dos cisnes; sabemos canções que encantam e dão prazer, e quando dançamos, os corações aceleram e os pulsos latejam. Vem, amigo!, não nos despreze. Somente um tolo, de fato, jogaria fora todo esse tesouro. Olha-nos, nobre Senhor: somos as suas escravas.”
O Buda, no entanto, permaneceu imóvel às vozes sedutoras. Antes, franziu a testa às lindas donzelas e elas foram transformadas em bruxas.
Desesperadas, elas retornaram a Māra.
“Pai”, Rati gritou, “vê o que ele fez à nossa juventude e beleza.”
“O amor nunca o ferirá”, disse Trishna. “Ele foi capaz de resistir aos nossos encantos.”
“Oh”, suspirou Arati, “quão cruel foi a nossa punição!”
“Pai”, Trishna implorou, “cura-nos desta horrível velhice e feiura.”
“Devolva-nos a juventude!” Rati gritava.
“Devolva-nos a beleza!” Arati implorava.
“Minhas filhas, minhas pobres filhas”, Māra disse à Arati, “compadeço-me de vocês. Sim, ele derrotou o amor. Ele está para além do meu poder, e estou triste por isso. Vocês suplicam que eu lhes devolva a juventude e a beleza... mas, como eu poderia? Somente o Buda poderá desfazer o que o Buda fez. Voltem a ele; admitam que vocês foram culpadas; digam-lhe que estão arrependidas, e talvez ele devolva seus encantos.”
E elas voltaram à presença do Abençoado.
“Bem-aventurado”, imploraram, “perdoe-nos as nossas ofensas. Nossos olhos estavam cegos à luz, e fomos tolas. Perdoai-nos!”
“Sim, vocês foram tolas”, o Abençoado respondeu. “Tentaram destruir uma montanha com as unhas; tentaram morder o ferro com os dentes... Vocês, porém, reconhecem as suas ofensas, e isso já é sinal de sabedoria. Donzelas, ide em paz. Eu vos perdoo!”
E imediatamente as três filhas do Diabo deixaram a sua presença, ainda mais jovens e mais belas do que antes.12

Amor, aí, é apelação erótica... e sofrimento. Mas a douta ignorância13 tem um prêmio, após o erro confessado, na voz do arrependido. É o que não aparece em Vaccha – no trecho que utilizei. Não há “erro”, apenas equívoco. É preciso luz. Longe de ser um mal interpretado “pessimismo”, a Doutrina do Abençoado é uma não afirmação, antes de tudo... mas não pessimista, como querem alguns intérpretes14. Dizer que “tudo é sofrimento” significa, também, saber o que seja o não-sofrer, ou o prazer. A consciência (do Eu e suas consequências) não vem antes da Ignorância e da Informação Inata – alguns reflexos do platonismo, coincidentemente, são muito perceptíveis. A Ignorância produz a Informação Inata; a Informação Inata, a Consciência; a Consciência, os Nomes-e-formas; os Nomes-e-Formas, os Seis Órgãos dos Sentidos; os Seis Órgãos dos Sentidos, o Contato; o Contato, a Sensação; a Sensação, o Desejo; o Desejo, o Apego; o Apego, a Existência; a Existência, o Nascimento; o Nascimento, a Velhice e a Morte. Está tudo ligado: a Sensação, o Desejo, o Apego... a Vida e a Morte. Contra a Morte, a Velhice e tudo aquilo que lhes precede, o remédio é fazer cessar a Ignorância, que está no início de tudo: no Eu que, portador da Informação Inata, porta e produz a Consciência do Eu15 – como está na doutrina do Buda, referente ao Dharma16: “Se o desejo, que se aloja na raiz de toda a paixão humana, puder ser removido, aí então, morrerá esta paixão e desaparecerá, consequentemente, todo o sofrimento humano.17” Também no cristianismo, quanto menos for o cristão – o seu Eu, naturalmente –, tanto maior será a presença do Cristo e do Espírito, nele18. O budismo “apresenta elementos comuns com os theioi andres19 dos gregos e com as biografias míticas mais tardias de outros fundadores de religiões, como Jesus, Mani, etc.20” Diminuir o Eu, dominar as paixões, sufocar o desejo... idealismos, delírios febris alimentados pela fé no Outro, que pode ser tanto o “não-Eu” quanto Aquele que é maior e melhor que que EU, que é de onde venho, como “coisa causada”. Ah!, as minhas projeções – como na afirmação lúcida e desencantada de Feuerbach21. Já mostrei que a própria propaganda de tais modelos doutrinários é, em si, apelo ao Eu que pode compreendê-la – do contrário, que sentido teria? –, e decidir e desejar... isto ou aquilo.  
Quando Siddhārtha – agora Buda – retorna à Shakya e à casa de seu pai (o rei Shuddhodana), depois de oito anos, Yashodhara, sua esposa, orienta a Rahula, seu filho, que lhe peça a sua herança, antes que o Shakyamuni22 parta novamente, em uma jornada de pregações e ensinos que duraria quarenta anos. O Buda, porém, afirma que tem algo maior e melhor para o seu filho: a sua Doutrina. O menino torna-se monge.
Não havendo o Eu, o laço político-tribal ou familiar – e o próprio nome do filho do Shakyamuni, Rahula23, revela isso –, não há também a identidade, nenhuma. Não haveria razão de o Buda retornar à sua casa, aos seus. Para o bem ou para o mal, é o Eu quem age, consciente ou não, por loucura ou por paixão, na ação e na inação, na fala e na escrita... mesmo naquela dos livros “santos”. Também a regra da piedade cristã ensina que não se deve, a título de estilo e ética, sobrevalorar o Eu, que fala ou escreve – “eu assim”, “eu assado” –; mas, ao contrário, mortificá-lo, reduzi-lo a nada ou, como em um discurso solene, soterrá-lo em uma terça no plural: “Nós estamos aqui hoje...” Sim, porque a carne (os mEus apetites) milita contra o espírito, mEu “homem interior”, mEu “Eu interior”.24  
E é por isso que, no início do Walden, Thoreau anota:

A maioria dos livros omite o eu ou a primeira pessoa; aqui ele será mantido; em relação egocentrismo, esta é a principal diferença. Geralmente não lembramos que, afinal, é sempre a primeira pessoa que está falando. Eu não falaria tanto sobre mim mesmo se existisse alguma outra pessoa que eu conhecesse tão bem.25

Thoreau, o “pai do anarquismo” e rebelde ao estilo hipócrita dos seus contemporâneos, quer sobrepor os modelos e a “regra da piedade”25. Ora, não há quem conheçamos melhor do que nós mesmos, embora, para nós mesmos, sejamos o nosso maior enigma. No entanto – e juntamente com os conceitos de Stirner, Marx, Feuerbach, Freud e outros que tenho mostrado seguidamente –, essa parece ser a “perspectiva” mais plausível, e certamente a mais mundana. A verdade pode muito bem nada ter a ver com... religiões. E, afinal, o que não é mundano? Verdade, mentira, candura, leviandade, justiça... Está tudo em mim, em minha mente e em minhas ações, para o meu deus ou para meu companheiro, pai, irmão, amigo, mulher... meu céu e meu inferno. Aqui, em minha mente, como em uma catedral, sou santo ou herege... mas a doutrina é minha, sempre minha. Sim, pois depende da minha fé, da minha hermenêutica, da minha vida e dos lugares e coisas e pessoas que me fazem ser como eu sou, agora, enquanto penso sobre tudo isso. Em tudo e sobre tudo, o amour-propre – ou meu instinto de preservação – é o que me mantém, no desejo ou no desejo de não ter desejo. Não há saída, e tanto a liberdade quanto a culpa por sua ausência, etc., é minha.





1 Talvez fosse prudente falar em “budismos”, dado às linhas em que ele, hoje, se apresenta. Neste sentido, e como não é a minha intenção fazer um “tratado” sobre velhas e novas escolas – e para não ser desonesto com o leitor –, recomendo o verbete “Budismo”, em: ELIADE, Mircea; COULIANO, Ioan P. Dicionário das religiões. São Paulo: Martins Fontes, 2003. p. 67-85. Ver ainda: ARVON, Henry. O budismo. Lisboa: Publicações Europa-América Ltda., [s.d.]. p. 44-5. (Col. Saber); NIWANO, Nikkyo. Shakyamuni Budda: uma biografia narrativa do Buda histórico. São Paulo: Cidade Nova, 1987; e: LEVENSON, Claude B. Budismo. Porto Alegre: L&PM, 2009. (Col. L&PM Pocket, 758: Enciclopédia). São literaturas de fácil acesso (e leitura) em português.
2 ELIADE; COULIANO, 2003, p. 69.
3 “Atentai a este fato: Buda não é um corpo físico, é a Iluminação. O corpo físico perece, mas a Iluminação subsistirá para sempre na verdade do Dharma e na prática do Dharma. Aquele que apenas vê o meu corpo”, diz o Buda, “não me vê realmente. Somente aquele que aceita meu ensinamento consegue me ver.” (DN 16, sutra Mahaparinibbana. In: A DOUTRINA de Buda. 3. ed. Minato-ku, Tokyo, Japan: Bukkyo Dendo Kyokai, 1984. p. 13. [§ 5]).   
4 Visuddhi Magga, 16.
5 Aqui, é preciso deixar claro que a lógica de Vaccha, simplista, tem a seguinte estrutura: se A não é verdadeiro, então não-A, é. É contra a horizontalidade rasteira de tal raciocínio que o Buda se impõe.
6 ELIADE; COULIANO, 2003. p. 70.
7 E no famoso soneto de Camões: “O amor é um fogo que arde sem se ver...” etc. Cf. CAMÕES, Luís Vaz de. Sonetos. In: _____. Camões: verso e prosa. 2. ed. São Paulo: Paz e Terra, 1996. p. 32. (Col. Leitura).
8 BUARQUE, Chico. Almanaque. In: _____. Almanaque. São Paulo: Abril, 2010. 1 CD player. Faixa 5. (Col. Chico Buarque, 10).
9 Citado em: BARAQUIN, Noëlla; LAFFITTE, Jacqueline. Arthur Shopenhauer. In: _____. Dicionário Universitário dos Filósofos. São Paulo: Martins Fontes, 2007. p. 276.
10 DICKINSON, Emily. Poemas escolhidos. Porto Alegre: L&PM, 2007. p. 57. (Col. L&PM Pocket, 436).
11 Ou bo, em Bodh Gaya, no nordeste da Índia. Por causa da Bodhi é que, segundo consta, o nome de Siddhārtha Gautama é mudado para Buda, que, tanto em páli como em sânscrito, significa “Iluminado”, “Desperto”.
12 Com pequeninas modificações, adaptações e correções, utilizo a obra de: HEROLD, A. Ferdinand. The life of Buddha: according to the legends of Ancient India. Whitefish, Montana - EUA: Kessinger Publishing Company, 2007. p. 123-5.
13 Utilizo o conceito, criado por Nicolau de Cusa (1401-64), livremente, e para o sentido que aparece no texto, simples e definido. Para a sua utilização mais “acadêmica”, e conforme o seu autor, ver: CUSA, Nicolau de. A douta ignorância. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2002. (Col. Filosofia, 148).
14 Cf. ELIADE; COULIANO, 2003. p. 69.
15 Cf. ELIADE; COULIANO, 2003. p. 71.
16 Isto é: a verdadeira Doutrina, os preceitos éticos do budismo.
17 Vinaya, Mahāvagga 1-6 e SN 56-11-12, sutra Dharmmacakrapravartana. In: A DOUTRINA de Buda. 3. ed. Minato-ku, Tokyo, Japan: Bukkyo Dendo Kyokai, 1984. p. 38-9. [§ 1]).
18 No evangelho se são João, por exemplo, João Batista diz aos seus discípulos remanescentes, que reclamam de seus companheiros, agora, estarem seguindo ao Cristo: “Convém que ele [o Cristo] cresça e que eu diminua. O que vem de lá de cima [o Cristo], é superior a todos. O que vem da terra [ele, João], é da terra, e fala da terra. O que vem do céu, é superior a todos.” (João, 4, 30-31, Vulgata). E o apóstolo Paulo, em Colossenses 3, 5: “Fazei, pois, morrer o que em vós pertence à terra: devassidão, impureza, paixão, mau desejo e a tal cupidez que é uma idolatria.” (TEB). Não faltam referências desse tipo, por todo o Novo Testamento, principalmente. E nas obras de todos os moralistas cristãos – que são milhares – é tema esgotado, lugar dos mais comuns.
19 Isto é: “Homens deuses”, como Hercules, etc.
20 ELIADE; COULIANO, 2003. p. 68. Neste sentido, ver em especial os artigos “Akhenaton, o Iluminador”, “Moisés, nosso Mestre”, “Jesus de Nazaré”, “Mani” e “Buda”, em: BRUNNER-TRAUT, Emma. (Org.). Os fundadores das grandes religiões. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 1999.
21 Isto é: “A religião é a cisão do homem consigo mesmo: ele estabelece Deus como um ser anteposto a ele, Deus não é o que o homem é, o homem não é o que Deus é. Deus é o ser infinito, o homem, finito; Deus é perfeito, o homem imperfeito; Deus é eterno, o homem transitório [etc.]. O que deve ser demonstrado é então que esta oposição, que esta cisão entre Deus e homem, com a qual se inicia a religião, é uma cisão do homem com a sua própria essência.” (FEUERBACH, Ludwig. A essência do cristianismo. 2. ed. Campinas, SP: Papirus, 1997. p. 77). 
22 Literalmente: “Sábio (muni) dos Shakyas”.
23 “Na época em que sua esposa, Yashodhara, deu  luz a seu filho, Siddhartha estava num jardim, fora do palácio. Shuddhodana, exultante pela notícia do nascimento, imediatamente enviou um mensageiro para informar o príncipe. Assim que recebeu a mensagem, Siddhartha murmurou para si mesmo: ‘Ah, nasceu Rahula!’ ‘Rahula’ significa obstáculo, ou laço. Tem-se sugerido que quando Siddhartha, inconscientemente, disse ‘Rahula’ queria dizer que, justo quando estava tomando a decisão de renunciar o mundo, surgiu um laço para bloquear seu caminho.” (NIWANO, 1987, p. 22).
24 Como em 2 Coríntios 10, 3, no desiderium intimum do Apóstolo: “De fato [sic], embora vivendo na carne, não militamos segundo a carne.” (Vulgata). E em Romanos 7, 22: “Pois eu me comprazo na lei de Deus, enquanto homem interior, mas em meus membros descubro outra lei que combate contra a lei que a minha inteligência ratifica; ela faz de mim o prisioneiro da lei do pecado que está em meus membros. Infeliz que sou! Quem me livrará deste corpo que pertence à morte?” (TEB). No Novo Testamento, principalmente nas cartas do apóstolo Paulo, referências dessa natureza são bem comuns. 
25 THOREAU, H. D. Walden. Porto Alegre: L&PM, 2011. p. 17. (Col. L&PM Pocket, 884).
25 Mesmo uma leitura desatenta de A desobediência civil, de 1848, mostraria isso. Cf. THOREAU, Henry David. A desobediência civil. 7. ed. Porto Alegre: L&PM, 2009. (Col. L&PM Pocket, 17).


quarta-feira, 14 de novembro de 2012


23.





Da sublimação e da desconfiança



O oposto natural de tudo o que é sublimado é a desconfiança.
Na língua grega e na retórica da Antiguidade, paixão (“sofrimento”) e paixões (“apelos sensoriais”, “vontades”, etc.) são designadas por uma só palavra: pathe. Ambas apontam para a convivência e o confronto de um texto (escrito) com a realidade do que ele pretende expor (a realidade humana), caracterizada especialmente na categoria subjetivo-corporal. O que isso significa? Que o sofrimento e a emoção somente existem no nível corporal, individual, mesmo quando expressos através de um discurso oral ou um texto escrito – um romance, por exemplo. Ainda na categoria subjetivo-corporal, o mesmo vale para os sentimentos de fé, de esperança e de amor – as três virtudes teologais da Igreja Católica. E por falar em Igreja Católica, um dos seus místicos mais famosos, Angelus Silesius1, escreveu: “Sei que sem mim Deus não pode viver um instante sequer / Se eu for aniquilado, também o seu espírito tem de necessariamente extinguir-se.2” Outro místico católico, Heinrich Seuse3, vai além, dizendo que “a alma humana cantará no céu um hino que irá soar melhor do que o de todos os anjos, porque os anjos não sabem o que é sofrimento.4” Em Silesius, não há nada percebido ou desejado sem o Eu que percebe, e deseja. Que me importa a fé, a esperança e o amor, se Eu não sou?, que me importa Deus ou o seu Espírito? Acima de tudo e para tudo, Eu – ao menos para, daí, desejar, ter esperanças, amar, sofrer, et cetera. Em Seuse, a experiência da pathe humana (em qualquer que seja a sua designação), no céu – e aí aparecem as três virtudes teologais, nas entrelinhas –, torna o Eu individual, salvo, muito mais bem-aventurado do que os anjos, que não têm a pathe. A perspectiva mística de ambos tem a verticalidade que se eleva a partir do horizonte humano, daquela esperança na fé em Deus, fincada no horizonte do Eu – como a pipa que, no céu, está presa àquele que é, na terra. Em Seuse, o Eu já “está em outro plano”, voado do chão, sem linha, sem horizonte e sem verticalidades. Há, porém, ainda, em ambos, o idealismo romântico.
Enquanto categoria hermenêutica, a paixão tem essa relação muito direta com a história humana. Dessa paixão, inapelavelmente, é que surge a História – a escrita, em que se incluem todos os gêneros (literários), concebidos ou que se possa conceber. Quando Marx e Engels, na primeira frase do primeiro parágrafo do Manifesto do Partido Comunista, afirmam que “a história de toda sociedade até hoje é a história de lutas de classes”5, é da paixão que tratam; paixão que mostra, por trás de tudo, a luta pela sobrevivência, e a Vontade de vida. Não há História sem o Eu “historial”: a consciência individual de si, sobre si, dentro ou fora da coletividade humana. Sim, pois o que não é humano não tem história, ou existencialidade, ou paixão – no sentido romântico do termo, e no que toca às suas relações temporais com o Outro.6
No Eu historial é que habita a fala do Numinoso7, sobre ele, anteposto na experiência imediata das consciências individuais e da antecipação de mim-mesmo – pois o pensamento ou a experiência com o Numinoso somente pode ser a partir de mim-mesmo. Aquele autor antes do artista e sua arte, representação falseada do Real, se Platão não tem razão8, aparece invertido. Caio na tentação do realismo9, defendendo a tal inversão, na afirmação imodesta (mas não festiva) de que mesmo o antinatural (ou metafísico) é obra da naturalidade, e que a cultura é fabricação social, substrato psicológico. Como nos poemas homéricos, também o romance escrito é arte de um artista, figurando ou pretendendo figurar e expor a realidade humana. E se isso distancia o seu autor em três graus do Real10, é que uma interpretação realista aí foi privilegiada... o que não quer dizer, sob qualquer hipótese, que ela seja real além da sua própria realidade, isto é: o seu si-mesma, no fenômeno humano.
À pergunta: “Que fazer com o Ego?”, Jacob Needleman responde:

Obviamente, se procuramos o crescimento interior, devemos encarar a questão do que fazer com as emoções do ego. E a resposta que nos chega de todos os grandes ensinamentos interiores é que existe algo dentro de nós que pode se libertar dessas emoções. Existe uma capacidade de mente que pode fugir delas, uma capacidade da consciência de existir independentemente das emoções egoístas.11

É evidente que Needleman, aí, pensa em apenas um sentido para o que chama de “ego”, e as emoções ligadas a ele são as piores. Needleman se mantém na tradição, e no equívoco da tradição. A sua noção de “libertação” é, na verdade, um duplo equívoco: primeiro porque ela não é mais que um desvio meditativo, uma tentativa de fuga daquela “realidade humana” ou “emoção existente no nível corporal e individual” de que, a pouco, me referi; é como se alguém tentasse fugir de uma dor do futuro, através de algum exercício doloroso, antecipando a dor real contra aquela outra, suposta. Depois – como também encontrado na fenomenologia ontológica do budismo12 –, o escapar do Eu, por alguma extinção consciente (?) da Vontade de vida (as paixões, as pulsões), somente é possível mediante o não-Eu, ou a não-consciência imediata de ser. Mas, ora!, onde não há consciência, também não há o Eu. O livro de Needleman, Sobre o amor (A little book on love), de 1996, não tem muito a dizer sobre o seu tema, realmente; não além do que já foi dito por todos os autores românticos e religiosos de todos os tempos, gripados de Platão, afogados no Romantismo do século XVIII. E não é nada espantoso que Needleman termine o seu livro com uma citação do apóstolo Paulo: “Podemos então dizer, sem qualquer traço de sentimentalismo ou pretensão de pensamento, que o amor é mais forte do que a morte. Nas palavras de São Paulo: ‘O amor permanece’.13” Jacob Needleman, dispensável.
Para Max Scheler, porém, o amor é uma maneira original e imediata do comportamento afetivo-emocional, por um lado; por outro, está relacionado per se com a individualidade da qual falamos. O amor, ele diz, é “um compreensivo ir ao encontro da outra individualidade, de um ser tão diferente do eu que vai ao encontro, como de uma outra e diferente [individualidade].14” Assim, dando e recebendo individualidades, concedendo liberdade e autonomia, o amor é uma “afirmação dolorosa”, pois está voltado “para um cerne individual das coisas.15” E como não seria? Ele te amava e, com os olhos brilhando e emocionado, dizia que não saberia mais viver sem você. Hoje, porém, passa ao seu lado, feliz, sorrindo abraçado à outra, sem notar a sua miserável existência... Ainda é amor. O amor, nisso tudo, não é conhecimento individual, localizado em um indivíduo, mas anúncio do anteposto ao conhecer, ao acontecer – enquanto realização da manifestação da Vontade e do seu valor mais alto, a partir de um valor dado. “Amor”, qualquer que seja o nome que você utilize para ele, é, antes de tudo, e principalmente, manifestação da Vontade.16
Essa leitura antimetafísica do amor romântico soará, sim, estranha – pois está fora da opinião dominante; principalmente a do “Mercado Romântico”.
Para Klaus Berger, “o estranho é o oprimido que não se quer ver. O estranho está fora da opinião dominante e fora do alcance da visão dos dominantes. Ele é, em todo caso, individualidade afastada.17” Em um trecho de “O movimento romântico”, estranho mesmo é o comportamento de ovelha dos amantes, “consumidores” da ração kitsch18 ofertada pelo Mercado da Cultura romântica (dominante), no pastiche do romantismo:19

O bom senso é uma coisa das mais incomuns...
Casar por amor é invenção de dois séculos, só.
O “romance ideal” serve bem ao Mercado
Pra vender livros, filmes e novelas,
Pra fazer canções como esta.20
               
Quero, por fim, manter esta recomendação: tenha medo, muito medo daquele ou daquela que diz “eu te amo”. Encare-os com desconfiança, sabendo: tanto mais amor “ao outro” – você, no caso –, tanto mais amor a “si mesmo”, agora ele, ela. E se o amante insistir, desafine-lhe o coro feliz com a pergunta final e infalível: por quê?
                
                




1 Pseudônimo de Johannes Scheffler (1624-1667), poeta germânico nascido em Breslau, na Polônia – onde também faleceu. Místico cristão, Silesius também foi filósofo, médico e jurista.
2 Citado em: SCHOPENHAUER, Arthur. O mundo como vontade e como representação. São Paulo: Editora UNESP, 2005. p. 190. (II, § 25).   
3 Heinrich Seuse (c. 1295/1297-1366), ou Heinrich von Berg, foi um místico medieval, frade e teólogo dominicano. Estudou a obra de Mestre Eckhart e a teologia negativa de Dionísio – Pseudo-Areaopagita. Com base nos ensinamentos de Eckhart, escreveu dois tratados teológico-místicos: Buch der Wahrheit (Livro da Verdade) e Büchlein der ewigen Weisheit (Livro da sabedoria Eterna).  
4 Citado em: SÖLLE, D. Die Hinreise: zur religiösen erfahrung: text und überlegungen. Stuttgard: Kreuz, 1975. p. 181.
5 ENGELS, Friedrich; MARX, Karl. Manifesto do Partido Comunista. 10 ed. Petrópolis: Vozes, 2000. p. 66. [Col. Clássicos do Pensamento Político, 24]). Em uma nota de Engels à edição inglesa de 1888, do Manifesto, consta que a referência à história, aí, é a “toda a história escrita”, que trata da luta de classes contra classes – camponeses contra burgueses, por exemplo –, na intenção de melhorias econômico-sociais, etc. No Germinal (produzido no final do século XIX, em 1881, e às vezes chamado – criticamente – de um conto da “civilização”), Émile Zola faz um relato do que foi e como foi a greve dos mineiros do norte da França, ocorrida no final do século XIX, motivada pelas precárias condições de trabalho às quais os mineiros estavam submetidos, e animada pela ideologia socialista da época. A fim de obter um relato fidedigno, Zola fez inúmeras pesquisas, transitando nas vilas e nas minas de carvão, conversando com mineiros e com a pequena burguesia local. Germinal, por isso, é um dos melhores retratos do que a citação de Engels e Marx quer dizer. (Cf. ZOLA, Émile. Germinal. São Paulo: Cia. das Letras, 2000).
6 “A existencialidade ou transcendência – na terminologia heideggeriana – é constituída pelos atos de apropriação das coisas do mundo, por parte de cada indivíduo. O termo ‘existencialidade’ não é empregado no mesmo sentido em que se diz que uma pedra ou a Lua ‘existem’, mas como antecipação de suas próprias possibilidades.” (CHAUÍ, Marilena de Souza. Vida e obra. In: HEIDEGGER, Martin. Conferências e escritos filosóficos. São Paulo: Abril Cultural, 2006. p. 7. [Col. Os Pensadores]). E, nas palavras do próprio Heidegger: “O que é primeiro filosoficamente não é uma teoria da conceituação da história, nem a teoria do conhecimento histórico e nem a epistemologia do acontecer histórico enquanto objeto da ciência histórica, mas sim a interpretação daquele ente propriamente histórico em sua historicidade [o homem].” (HEIDEGGER, Martin. Ser e tempo. Petrópolis: Vozes, 2002. p. 37 [§ 3, Introdução]).
7 Para usar a terminologia de Rudolf Otto (OTTO, Rudolf. O Sagrado: os aspectos irracionais na noção do divino e sua relação com o racional. São Leopoldo: Sinodal/EST; Petrópolis: Vozes, 2007), relativo ao Sagrado e à sua manifestação na experiência religiosa, que ilustra bem essa categoria do “salto ontológico”, ou aquela transcendentalidade tão presente na maioria das obras dos autores religiosos e/ou romântico-idealistas.   
8 Referência ao Livro X de A república, de Platão. Especialmente na parte em que Sócrates afirma o grande artífice, que será chamado de demiurgo pelos neoplatônicos, e, na tradição cristã, Logos – o próprio Cristo-Deus criador. “Efetivamente”, Sócrates diz, “esse artífice não só é capaz de executar todos os objetos, como também modela todas as plantas e fabrica todos os seres animados, incluindo a si mesmo, e, além disso, faz a terra, o céu, os deuses e tudo quanto existe no céu e no Hades, debaixo da terra.” (PLATÃO, A república, 596 a-e; PLATÃO. A república. 9 ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2001).
9 Faço uma referência direta ao livrinho de Gianni Vattimo, em que a sua “inspiração religiosa-política” inspira sua filosofia, mantendo-o no nível do realismo. Cf. VATTIMO, Gianni. A tentação do realismo. Rio de Janeiro: Lacerda Ed.: Instituto Italiano di Cultura, 2001. (Col. Conferências Italianas, 1).
10 À maneira grega de contar os extremos, sem a literalidade numérica.
11 NEEDLEMAN, Jacob. Sobre o amor. Rio de Janeiro: Ediouro, 1998. p. 56-7.
12 “A quarta Verdade Santa enumera as diferentes etapas da ‘Nobre Via das oito Virtudes’. [...] Estamos assente que o mundo fenomenal [no sentido platônico-husserliano] é irreal, e que é precisamente na medida em que o homem se apercebe desta vacuidade que ele se aproxima da libertação, é óbvio que é a ‘meditação pura’ (dhyâna) que constitui a suprema virtude do budismo.” (ARVON, Henry. O budismo. Lisboa: Publicações Europa-América, [s.d.]. p. 46-7. [Col. Saber, 165]). É de se perguntar, ao budista radical: mas, afinal, o que é o Buda?, senão a “consciência de Buda”.
13 NEEDLEMAN, 1998. p. 156.
14 SCHELER, Max. Wesen und der sympathie. 6. ed. Bern/München: Francke Verlag, 1973. p. 109. (Schriften, VII).
15 SCHELER, 1973, p. 152.
16 PLATE, B. Die erfahrung, die zeit uns das mit-dasein. München: Bertelsmann, 1966. p. 163s.
17 BERGER, Klaus. Hermenêutica do Novo Testamento. São Leopoldo: Sinodal, 1999. p. 118.
18 No sentido da atitude geral e complacente, na supressão do senso crítico que, aqui, tem a ver com questão da exploração do romantismo enquanto produto.
19 Com referência à insistência de certos “modelos”, presentes no movimento das últimas décadas do século XVIII, na Europa, e que durou quase todo o século XX – principalmente por sua “visão romântica do mundo”, ao contrário das propostas do racionalismo da Ilustração, etc.
20 “O movimento romântico” é título de uma música que fiz para o álbum “Universal Park” (Independente, 2009), da banda Madalena Moog. É também o nome de um livro do suíço Alain de Botton – que foi de onde retirei o título, embora não reproduza as ideias da referida obra.




terça-feira, 6 de novembro de 2012


22.






Da apelação estética, do sexo e da moral religiosa    


               

Se Darwin havia provocado a ortodoxia eclesiástica e sacudido a cabeça de cientistas e intelectuais de seu tempo, com a publicação do Sobre a origem das espécies por meio da seleção natural ou a Preservação de raças favorecidas na luta pela vida, em 1859, “O livro que abalou o mundo”, como se referiam a ele, um golpe ainda mais profundo e certeiro veio em 1871, com a publicação de A descendência do homem e seleção em relação ao sexo1. Aí, nas palavras de André Mesquita, “Darwin finalmente coloca o homem como [apenas] mais um entre os seres vivos sujeitos às mesmas leis evolutivas e tinha só uma origem comum com os outros animais como perdia todas as suas regalias como um ser concebido à imagem e semelhança de um deus.2” O homem, no mundo, era um com ele, nele; e como tudo, no mundo: nada divino, nada diabólico, nada sublime, nada desimportante. N’A origem das espécies, a beleza – como a cauda que o pavão ostenta, e como as cores vivas e brilhantes de certas aves, peixes, frutas, etc. – se não é aviso de perigo ou disfarce protetor, é propaganda da saúde e convite ao coito, na exibição com vistas à preferência, na luta pela sobrevivência do mais apto, do melhor. Tanto mais bela a espécie, tanto mais saudável e apta a gerar espécies cada vez mais belas e saudáveis. Tal movimento faz evidente a Vontade de vida, na linguagem schopenhaureana.3

Podemos compreender, até certo ponto, que haja tanta beleza em toda a natureza porque pode, em grande parte, atribuir-se esta beleza à intervenção da seleção. Esta beleza não concorda sempre com as nossas ideias sobre o belo; basta, para nos convencermos, considerar algumas serpentes venenosas, alguns peixes e morcegos horrendos, com uma abjeta distorção da face humana. A seleção sexual deu brilhantes cores, formas esbeltas e outros ornamentos aos machos e também às fêmeas de muitas aves, borboletas e diversos animais.4
               
E, claro, os homens e as mulheres entre eles.
Pensadores e cientistas renomados, como Francis Bacon, por exemplo, viam a ordem e a beleza da natura como manifestações de um poder extramundano, inteligente, criativo e benevolente – conforme acreditavam estar revelado na Bíblia. O Novum organum de Bacon, publicado em 1620, exerceu grande influência sobre o naturalista inglês John Ray, que foi um seu colega na Royal Society of London for the Improvement of Natural Knowledge. Naquela que é, muito certamente, a mais conhecida e célebre obra de Ray, a Historia Plantarum, de 1686, estão classificadas mais de 18.600 tipos de plantas, algumas apontadas como tendo um ancestral comum. Aí aparece, nas classificações (famílias, sementes, tipos, etc.), a estrutura ordenada das coisas no mundo, conforme Bacon. O sueco Carl von Linné5, pai da taxonomia moderna, porém, foi o naturalista que mais exerceu influência sobre Darwin, com a publicação do seu Systema Naturae, em 1765. Mas também Lineu acreditava na existência de uma ordem divina que regia e regulava tudo no mundo, e no universo. Nenhum organismo escapava ao seu controle e, dele, evidentemente, dependia. Ao desenvolver o seu sistema e classificar os seres vivos, foi na intenção de provar o poder por trás dessa ordem. Era comum, na época, que os cientistas pautassem suas teorias em conformidade com a Bíblia. Por que era assim?
Dada à esmagadora influência de Platão e, depois, Aristóteles sobre as concepções cristãs do mundo, da Patrística à Idade Média, Deus aparecia como criador e mantenedor de tudo. A Ideia platônica, pura e incorruptível, era também eterna como é, sem qualquer “evolução”6; o Primum Mobile aristotélico, fim do movimento a que tudo se dirige, na Scala Naturae, na relação entre os seres vivos, sem espaços vazios na cadeia, e sem ligações diversas interespécies. Um ser inferior, na Scala Naturae, não pode ser o antepassado de outro, superior. Todas as formas são imutáveis e necessárias e, logo, não surgem, evoluem ou podem ser destruídas.7
Os Padres – santa conveniência! – logo viram, aí, tudo convergindo para Deus, fundamento e mantenedor do mundo e da ordem no mundo. E tudo o que se podia chamar de belo ou bom, era medido e/ou reconhecido pelo Sumo Bem, também confundido (ou co-fundido) com Deus: medida, verdade e razão de todas as coisas. Justino de Roma (morto por volta de 165 d.C.), um dos mais afoitos, depois de ser rejeitado como discípulo de um pitagórico, volta-se para um mestre platônico e, logo, “julgava ter-me tornado um sábio”, ele diz, “ter-me tornado um sábio em tão pouco tempo, e totalmente esperava em breve ver o próprio Deus – pois tal é o fim da filosofia platônica.8” Que grande, o engano de Justino! A cosmologia9, até Darwin, estava assim: gripada e sofrendo com os delírios dessa febre metafísica: do belo, do bom, do amor, do sublime, et cetara.
No The selfish gene, Richard Dowkins não poderia ser mais claro e extensivo:

Por três bilhões de anos, os organismos vivos haviam existido na Terra sem nunca saber por que razão [porque a fé não é uma explicação], até que a verdade finalmente ocorreu a um deles. Seu nome era Charles Darwin.10

Outro livro, de Daniel C. Dennett, Breaking the spell: religion as a natural phenomenon, de 200611, depõe contra o tal encantamento do mundo, às vezes também assombrado pelos demônios – como no título de outro, de Carl Sagan12. Mais do que nunca, e nunca como antes, a citação colocada na boca do Cristo tem feito sentido: “E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.” Autores modernos, cada vez mais, têm visto as correspondências de um Almeida Garret à Viscondessa da Luz13, por exemplo, como afetação inconsciente da Vontade, atiçando-o contra ela, por amor não à referida, mas por amor a si mesmo, pelo gene egoísta que responde às pulsões, com vistas à geração de outro indivíduo da mesma espécie. O belo e o sublime, louvados... delírio. O romantismo, na iminência da razão, cai na licença poética, na fantasia inquestionada, fazendo o mesmo caminho da fé confiante, na religiosidade popular, e da necessidade mais superficial e imediata de uma resposta ao que poderia ser ou dar um “sentido à vida”, ou ao mundo... ao nosso mundo.
Darwin, cheio de respeito àqueles e àquelas que acreditavam romanticamente no governo divino do mundo, faz a diplomacia entre o que defende e o que de que pode ser acusado:

Não vejo nenhuma razão para que as opiniões expostas neste volume [A origem das espécies] firam o sentimento religioso de quem quer que seja. É satisfatório, para mostrar o quanto estas impressões são passageiras, recordar que a maior descoberta que o homem já efetuou, a lei da gravidade, foi também atacada por Leibnitz14, “como subversiva da religião natural, e, nestas condições, da religião revelada”. Um famoso eclesiástico escreveu-me que acabara por compreender que “acreditar na criação de algumas formas capazes de se desenvolver por si mesmas em outras formas necessárias é ter uma concepção bem mais elevada de Deus do que acreditar que haveria necessidade de novos atos de criação para preencher as lacunas causadas pela ação das leis Dele.”15

Por outro lado, religiosos fundamentalistas e extremados, americanos e ingleses, como Harold Hill (que exibe os louros de haver sido “cientista da NASA”) e Edgar H. Andrews16, dentre outros, vociferando ironias e fazendo piadas infames, sem apresentarem fundamentos pautados na razão pura, mas armados de fé (que geralmente procura provas de si mesma sem sair de si mesma), não pouparam escárnios a esse homem modesto, humilde e, talvez, mais cristão que muitos cristãos modernos – no sentido moral da palavra.
Pululam sites, blogs e artigos pseudo-acadêmicos, nada científicos, que exploram a “piada do macaco”, como “parente remoto do homem”. Coisa que rejeitam jocosamente, e geralmente ignorando (de propósito) que a referência é à classificação, e de uma determinada classe de primatas. Ademais, foi o agnóstico Thomas Henry Huxley17 quem, durante a reunião anual da British Association for the Advancement of Science, em 1860 (numa quinta-feira, 28 de junho), argumentou em favor da Teoria da Evolução do seu amigo Darwin, incluindo o homem entre os referidos primatas18. O debate, acalorado, foi de enorme repercussão. No sábado seguinte, durante nova sessão, o bispo Wilberforce19, obtendo a palavra, tratou de criticar a obra de Darwin – como sempre foi bem comum entre eclesiásticos. E, embora não haja um relato seguro sobre o ocorrido20, sabe-se que ele repetiu os argumentos que havia utilizado em um artigo seu, recente21. Como a exposição fosse oral, o velho bispo, em um gracejo miserável, empolgado em sua oratória perante o grande público, teria perguntado (a Huxley) se o seu parentesco com os macacos era pelo lado materno ou paterno. Huxley, tomando a palavra, disse que preferia ter um macaco como antepassado a uma pessoa – como o bispo, no caso – que usa de recursos da oratória para enganar os ignorantes e impedir que a verdade seja conhecida. “O impacto da resposta de Huxley foi tão grande que Lady Brewster, que assistia à sessão, desmaiou e precisou ser levada para fora da sala.”22   
O velho bispo, porta-voz da moral vitoriana, encontrou em Huxley – coisa que Darwin, por sua postura sóbria e comedida, jamais faria – um adversário consciente e turrão, pronto a peitar o seu prestígio, todo fincado no poder simbólico-secular da Igreja e do teatro romântico do mundo religioso. Darwin, “ao propor uma teoria materialista para a natureza do altruísmo humano”, afirma Mesquita, “se distanciou da teoria da interferência espiritual de Wallace23 e de todas as outras que propunham causas imateriais para o surgimento da moral [como as de Wilberforce, naturalmente]. Ele teria, por fim, quebrado todas as pontes entre as ciências naturais e o sobrenatural”24, tudo o que Huxley, em seus escritos, por outros meios, tentava fazer.
Hoje, há um ditado que se vai tornando cada vez mais popular, e que subscreve bem os ideais de Huxley, apoiado em Darwin e contra a moral religiosa – principalmente a sexual, aureolada pela Igreja, que se autoproclamou sua guardiã, alegando que, não fosse assim, seria a imoralidade e a barbárie: “Eu não preciso de religiões para ser moral, eu tenho a minha consciência.”







1 DARWIN, Charles. The descent of man and selection in relation to sex. London: John Murray, Albemarle Street, 1871. “Se A Origem das Espécies já havia causado muita polêmica ao contrariar as origens do mundo segundo o livro do Gênesis, A Descendência do Homem soou como uma declaração de guerra.” (MESQUITA, André Campos. Darwin: o naturalista da evolução das espécies. São Paulo: Lafonte, 2011. p. 157. [Col. Filosofia Comentada]).
2 MESQUITA, 2011, p. 157.
3 A Vontade de vida é o número do mundo, nada tendo de racional: “A Vontade que, considerada puramente em si, destituída de conhecimento, é apenas um ímpeto cego e irresistível – como a vemos aparecer na natureza inorgânica e na natureza vegetal, assim como na parte vegetativa de nossa própria vida.” Logo, “o que a vontade sempre quer é a vida, precisamente porque esta nada é senão a exposição daquele querer para a representação, é indiferente e tão-somente um pleonasmo se, em vez de simplesmente dizermos ‘a Vontade’, dizemos ‘a Vontade de vida’.” (SCHOPENHAUER, Arthur. O mundo como vontade e como representação, I tomo. São Paulo: Editora UNESP, 2005. p. 357-8 [§ 54]). 
4 DARWIN, Charles. A luta pela sobrevivência. Rio de Janeiro: PocketOuro, 2009. p. 239-40. A luta pela sobrevivência é, como foi dito acima, um excerto de A origem das espécies. “O mais importante é que o ponto central da obra [A descendência do homem...] não era exatamente a descendência do homem, mas a seleção em relação ao sexo (subtítulo da obra). Darwin procura refutar opiniões que questionavam a relevância da beleza da plumagem de aves como o pavão na seleção natural, alegando que essas plumagens só poderiam ter sido desenhadas por uma divindade caprichosa.” (MESQUITA, 2011, p. 159).
5 Às vezes Carlos Lineu, ou a versão latinizada de seu nome: Carolus Linnaeus. A Linnean Society of London tem esse nome em sua homenagem; e foi aí que os trabalhos de Darwin foram lidos pela primeira vez, no dia 1º de julho de 1858.
6 No início do Livro X de A república, de Platão, o artífice da “cama ideal” – nas palavras de Sócrates – é quem garante a unidade da Ideia, e a diferença como imitação desta; não real, portanto. “Efetivamente, esse artífice não só é capaz de executar todos os objetos, como também modela todas as plantas e fabrica todos os seres animados, incluindo a si mesmo [Deus como Causa Sui], e, além disso, faz a terra, o céu, os deuses e tudo quanto existe no céu e no Hades, debaixo da terra.” (PLATÃO, A república, 596 a-e; PLATÃO. A república. 9 ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2001).
7 “A alma é causa e princípio do corpo que vive. Mas estas coisas se dizem de muitos modos, e a alma é similarmente causa conforme três dos modos definidos, pois a alma é de onde e em vista de que parte este movimento, sendo ainda causa como substância dos corpos animados. Pois, para todas as coisas, a causa de ser é a substância, e o ser para os que vivem é o viver, e disto a alma é causa e princípio. Além do mais, a atualidade é uma determinação do que é em potência." (ARISTÓTELES, De anima. São Paulo: Editora 34, 2006. p. 81). “A crença na imutabilidade das espécies era quase inevitável, tanto que se atribuía à história do mundo uma duração muito curta, e agora que adquirimos algumas noções de lapso de tempo, admitimos prontamente, e sem provas, que o registro geológico é bastante eficiente para nos fornecer a demonstração evidente da mutação das espécies, se elas sofreram mutação.” (DARWIN, 2009, p. 253).
8 ROMA, Justino de. Diálogo com Trifão, 112; P.G. 6, 460-66. GOMES, C. Folch. Antologia dos Santos Padres: páginas seletas dos antigos escritores eclesiásticos. 2. ed. São Paulo: Edições Paulinas, 1979. p. 70.
9 Termo que, parece, surgiu inicialmente – no sentido de “estudo do universo em sua totalidade, e do homem no mundo, por extensão” – com o filósofo alemão Christian Wolff (1679-1754), na publicação de sua Cosmologia Generali, em 1730.  
10 DAWKINS, Richard. The selfish gene. Oxford: Oxford Press, 1989. p. 1. 
11 No mesmo ano em que saiu a edição americana, publicada pela Viking (marca fantasia da Penguin Books), Helena Londres fez uma tradução para a edição brasileira, da Editora Globo: DENNETT, Daniel C. Quebrando o encanto: a religião como fenômeno natural. São Paulo: Globo, 2006. Dennett, filósofo e cientista cognitivo, é juntamente com Dowkins, Christopher Hitchens e Sam Harris, conhecido como um dos “quatro cavaleiros do ateísmo”.
12 SAGAN, Carl. O mundo assombrado pelos demônios: a ciência vista como uma vela no escuro. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.
13 Cf. GARRET, Almeida. Cartas de amor à Viscondessa da Luz. Introdução, organização, fixação do texto e notas de Sérgio Nazar David. Rio de Janeiro: 7Letras, 2004. O romântico Almeida Garret viveu de 1799 a 1854. No início da carta nº 1, para citar um exemplo do melodrama: “Que suprema felicidade foi hoje e minha, querida desta alma! Como tu estavas linda, terna, amante, incantadora! [sic] Nunca te vi assim, nunca me pareceste tão bela. Que deliciosa variedade há em ti, minha R. adorada! Possuir-te é gozar de um tesouro infinito, inesgotável. Juro-te que já não tenho mérito em te ser fiel, em te protestar e guardar esta lealdade exclusiva que te hei-de consagrar até o último instante da minha vida: não tenho mérito algum nisso.” (GARRET, 2004, p. 85). O objeto amado, como Deus, na religião cristã, é único e digno de lealdade, e é portador de tudo o que é bom e belo e sublime... Romantismo, cristianismo. 
14 Referência a Gottfried Leibnitz (1646-1710), cientista alemão.
15 DARWIN, 2009, p. 252.
16 HILL, Harold. Darwin e sua macacada. Deerfield, Florida: Editora Vida, 1994. ANDREWS, E. A. From nothing to nature: young people's guide to evolution and creation. Hertfordshire, England: Evangelical Press, 1978.  
17 Conhecido como “o Buldogue de Darwin”, pela paixão com que defendia as teses do amigo, o britânico Thomas Henry Huxley (1825-1895) foi um eminente biólogo, e um dos principais cientistas do século XIX. Patriarca de uma família de acadêmicos ilustres, foi avô de Aldous Huxley (1894-1963), autor da famosa distopia Admirável mundo novo; e também de Sir Julian Huxley (1887-1975) – o primeiro diretor da UNESCO, e fundador da World Wildlife Fund – e Sir Andrew Huxley (1917-2012), fisiologista e biofísico, ganhador do Nobel de Fisiologia/Medicina, em 1963.
18 Ponto que Darwin não havia abordado em seu livro.
19 O bispo anglicano Samuel Wilberforce (1805-1873), enquanto educador, foi um defensor obstinado da ortodoxia cristã inglesa, tipificando o ideal moral da Era Vitoriana, de 1837 a 1860. O referido artigo, bem como a sua celeuma com Huxley, foi abordado em um artigo de J. R. Lucas, Wilberforce and Huxley: a legendary encounter. Disponível em: <http://users.ox.ac.uk/~jrlucas/legend.html> Acesso em: 06 out. 2012
20 O próprio Huxley, em uma carta de 9 de setembro de 1860, enviada ao amigo Frederick Dyster, conta do ocorrido. HUXLEY papers, 15.117. Imperial College os Science and Technology.
21 Cf. MARTINS, Roberto de Andrade. Thomas Huxley, o debate entre ciência e religião, e a educação. In: HUXLEY, Thomas Henry. Escritos sobre ciência e religião. São Paulo: Editora UNESP, 2009. p. 11. (Col. Pequenos Frascos).
22 MARTINS, 2009, p.12.
23 Alfred Russel Wallace (1823-1913) foi um naturalista, geógrafo, antropólogo e biólogo britânico, autor de um ensaio no qual praticamente definia as bases da Teoria da Evolução (ainda em 1858), que foi endereçado pelo próprio a Darwin, de quem era amigo, com o pedido de que ele o analisasse. Para defender a originalidade das suas pesquisas de quase 20 anos, Charles Lyell (1797-1875) e o botânico Joseph Dalton Hooker (1817-1911) propuseram que os trabalhos fossem apresentados conjuntamente à Linnean Society, que era então o centro de estudos de história natural mais importante da Grã-Bretanha; a famosa apresentação do 1º de julho de 1858.
24 MESQUITA, 2011, p. 161.


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