terça-feira, 24 de julho de 2012


10.





Do amor que ainda há, quando não há amor




Ninguém escapa ao amour de soi, mesmo quando pensa, contra qualquer afecção, não haver mais amor nenhum. O amour de soi está no sentimento de “amor romântico”, seu melhor e mais mundano disfarce. Está também no ágape, mas apenas como discurso acerca do transcendente, perdido em conceitos metafísicos e delírios teológicos. O celeste, aí, é mero discurso religioso, ou liberdade poética... mosca que não vai além da janela de vidro de nossa sala, em nossa casa. Amour de soi → Eros → ágape ↔ Vontade. São vários os nomes para a Vontade, fundamento de todos os conceitos de amor que conhecemos e que, em uma tirada poética de Bukowski, “é um cão dos diabos!” Por quê? Porque ele – ou os efeitos de sua ação – pode aparecer nas horas mais inesperadas; inclusive enquanto dormimos.
Aquela garota a quem você não dava a menor atenção, aparece em seus sonhos, assim, do nada: fantasiada de estrelas, de mar e mistérios, de paraíso oferecido, aureolada de idílicas delícias secretas que pedem por descobrimentos. Ao acordar, e sem que perceba, você ainda está sonhando com ela, e dizendo o seu nome baixinho, quase inaudivelmente, sussurrado por entre os lábios. E aquelas imagens oníricas vêm todas de uma vez, em um flash-back atordoante e, estranhamente, bom. Você que não estava “nem aí para essas coisas”, sente as saudades do que nunca teve, que não viveu: dessa moça ou moço que veio morar em seus sonhos, em sua fantasia, em seu desejo, em sua vontade. Mas, ah!, a Vontade está em você, mas não é sua. E há uma presença, sim: da falta dela. Cupido lhe flechou. Que loucura! Inesperadamente, numa espontaneidade magnética, você sente uma enorme vontade de vê-la, vê-lo; está apaixonado/a.  
Eros age de modos vários e misteriosos; e quase sempre de modo irônico, inesperado. Não envia recados, age na Vontade, e por ela – da qual é um simples braço.
O Amor pode estar, mais que na tranquilidade da planície e no cício suave dos ventos que acariciam trigais, na fúria das ondas que despedaçam a penha, e nos espasmos dos trovões que estremecem o mundo, ou na violência dos raios que iluminam o breu das noites... quando na presença físico-material do seu alvo. Sim, demônio que é, e sem corpo, ele precisa de um em que possa habitar. Nem os deuses estão a salvo. “Eros [é] o mais belo dos deuses imortais, que afrouxa os membros, e vindo ao coração de todo ser, homem ou deus, domina a razão e o discreto conselho”, afirma Hesíodo em sua Teogonia1. Mas, aí daqueles que amam, permitindo-se ao Amor. É que Eros, realizando-se, abandona a casa à sua própria sorte, e parte em busca de novas habitações – é o discurso contundente de Diotima, repetido por Sócrates, n’O Banquete de Platão.2 
E é assim que a garota dos seus sonhos pode ser, também – se você não estiver vacinado com a parábola do Pequeno Príncipe e sua Rosa –, a garota dos seus pesadelos. Como, não? Um exemplo literário, que estampa o cotidiano dos casais românticos. Marjorie, outrora tão linda e desejada, é a mulher de Walter3. Ela, antes tão tudo, é, agora, objeto das suas mais tristes tristezas.

– Não vais voltar tarde? – Havia ansiedade na voz de Marjorie Carling, qualquer coisa que parecia uma súplica.
– Não, eu não voltarei tarde – respondeu Walter, com a certeza infeliz e criminosa de que não estava dizendo a verdade. A voz dela o aborrecia. Era um pouco arrastada, tinha um refinamento excessivo, mesmo na dor.
– Não passes da meia-noite.
Marjorie podia ter-lhe lembrado o tempo em que nunca saía à noite sem ela. Podia ter feito isso; mas não queria; era contra os seus princípios; não pretendia forçar de nenhum modo o amor de Walter.4

Amor realizado é amor perdido, ou amordaçado – e a mordaça mata o sentido daquilo que, em sua antropomorfia, é dotado de grandes asas. No livro de Rosa Montero, Paixões, ela fala sobre Wilde, Oscar Wilde:

Segundo todos os testemunhos, no começo de seu casamento [com Constance Lloyd], Wilde [então com 29 anos] estava muito apaixonado. Devia sentir-se feliz ao se imaginar curado de sua homossexualidade: a vida era muito mais confortável na ortodoxia. Em seguida teve dois filhos com Constance; Wilde os adorava e escreveu lidos contos de fadas para eles. Mas a mulher-mãe se transformou para ele num objeto sexual impossível de suportar: “Quando casei, minha esposa era moça bonita, branca e esbelta como um lírio. (...) Depois de um ano, havia se transformado em uma coisa pesada, informe e disforme (...) com seu espantoso corpo inchado e doente por culpa de nosso ato de amor.” De alguma forma, conseguiu que Constance aceitasse pôr fim às relações sexuais [...]. No entanto, sempre se tratavam bem; continuaram morando juntos e gostavam um do outro. Pouco depois, Robert Ross, um garoto de 17 anos e já experiente nesses assuntos, seduziu o cândido Wilde, e o levou para a cama.5

O resto da história amorosa de Wilde com Robert, é de desastre sobre desastre; e a única vítima é o próprio Wilde: enganado, traído, usado, preso, doente, esquecido e... apaixonado.
A realização de um grande amor é a melhor de todas as coisas, e a pior. Lembre-se de Shaw: “Há duas catástrofes na existência: a primeira é quando nossos desejos não são satisfeitos; a segunda é quando são.6” Quando o sonho vira realidade, deixa de ser sonho, é coisa concreta, longe da fantasia... que é o alimento dos sonhos, da vontade do objeto que falta, e do amor romântico-ideal.  Sim, Eros se alimenta de sonhos, e das vontades que o sonho traz; e aí daquele que tem sonhos muito altos... como Ícaro, o enlouquecido Ícaro com as suas asas de cera. Pode haver coisa mais certa? Pode haver coisa mais triste?
Lição de Diotima a Sócrates, n’O banquete: o amor é vontade de amar, e somente há enquanto é falta. Mas o amor romântico, ideal, sonha com a eternidade do seu prazer7. É, também, desejo, e fé, e falta. Não há amores, embora os níveis distintos; o que há são as maneiras de descrever essa mesmíssima falta: sua expectativa ou sua realização, e a nossa frustração, por um ou outro viés. A realização de um amor é a realização da sua Vontade, e a morte do nosso desejo... a Vontade está aí ainda, mas já sonhando com outros objetos. A expectativa amorosa é o que chamamos de “paixão” (passio), que é o mesmo que “sofrimento”.
Não há saída contra o Amor, contra a Vontade. É a primeira constatação de Buda, tratando sobre a condição humana, e ensinando a primeira das suas quatro Verdades Santas: “Eis, ó monges, a Verdade Santa acerca da dor: o nascimento é dor, a velhice é dor, a doença é dor, a morte é dor, a união com aquilo de que não gostamos é dor, não lograr um desejo é dor...8” E, como vimos, lograr também. Não há saída.





1 HESÍODO, Teogonia 116 ss. HESÍODO. Teogonia: a origem dos deuses. São Paulo: Iluminuras, 1991.
2 “Muita tolice seria não considerar uma só e a mesma beleza em todos os corpos; e depois de entender isso, deve ele fazer-se amante de todos os belos corpos e largar esse amor violento de um só, após desprezá-lo e considerá-lo mesquinho...” (O banquete, 210 b). PLATÃO. O banquete. In: _____. Diálogos. 2. ed. São Paulo: Abril Cultural, 1983. p. 41. (Col. Os Pensadores). Tommaso Campanella, em sua A Cidade do Sol, de 1602, inspirado na obra de Platão, procura excluir da sua cidade ideal a “ideia de família”, e do sentimento de pertence – do marido à sua mulher, ou aos seus filhos –, julgando que tal sentimento, mesquinho, é um desserviço ao progresso e à felicidade dos solares, da cidade perfeita. Tudo é de todos (incluindo as mulheres), e todos são por todos – subscrevendo o que, aí, através de Sócrates, Diotima diz em respeito à geração dos mais belos (de melhor saúde) à geração dos mais belos, etc. O amor realizado, isto é: gerado o filho, parte do seu objeto em direção a outro (conforme certos regulamentos que Campanella anota em sua descrição das relações sexuais entre os solares), se o apego a um indivíduo, por amor ao todo. O sacrifício do desapego é dom da virtude, do homem virtuoso, da mulher virtuosa. Cf. CAMPANELLA, Tommaso. A Cidade do Sol. São Paulo: Abril Cultural, 1983. (Col. Os Pensadores).
3 Personagens de Point counter point (1928), de Aldous Huxley (1894-1963).
4 HUXLEY, Aldous. Contraponto. São Paulo: Abril Cultural, 1982. p. 7. (Col. Grandes Sucessos). A novela Contraponto é “uma descrição crua da vida de vários casais que se amam, mas não conseguem demonstrar o seu amor; que se detestam, mas não têm coragem de exprimir seu ódio; que não se suportam, mas não ousam abandonar o comodismo e a rotina da existência que levam ao lado daquele – ou daquela – que um dia escolheram.” (Da contracapa).
5 MONTERO, Rosa. Oscar Wilde e Lorde Alfred Douglas: dançando descalço no sangue. In: _____. Paixões: amores e desamores que mudaram a história. Rio de Janeiro: PocketOuro, 2009. p. 57-8.
6 George Bernard Shaw (1856-1950), citado em: COMTE-SPONVILLE, André. A felicidade, desesperadamente. São Paulo: Martins Fontes, 2001. p. 36.
7 “Pois quer todo o prazer – eternidade!” (NIETZSCHE, Friedrich. O canto ébrio. In: _____. Assim falou Zaratustra: um livro para todos e para ninguém. São Paulo: Círculo do Livro, [s.d.]. p. 324 [§ 11]).
8 BUDA, citado em: ARVON, Henry. O budismo. Lisboa: Publicações Europa-América Ltda., [s.d.]. p. 41-1. (Col. Saber).


terça-feira, 17 de julho de 2012


9.




Do Natural e da Natureza, que é a casa de Satã



Em Une vie1, a meiguíssima Jeanne Le Perthuis des Vauds, sem suspeitar de que o seu marido, Julien de Lamare (sentido e razão da sua vida), andava lhe traindo com a mulher do conde de Fourville – Gilberte –, de quem pensava tratar-se apenas de “uma boa amizade a ser preservada”, decidiu seguir os cavalos que, mata adentro, transportaram os dois a um determinado local. Julien havia saído desde a manhã, sem avisar aonde iria.
“De repente, atravessando uma longa vereda, depararam-se-lhe dois cavalos, arreados e presos pelas rédeas a uma árvore: eram os animais de montaria de Julien e Gilberte. [...] Ao chegar junto aos pacientes animais, que ruminavam tristemente como habituados às longas paradas”, diz Maupassant,

Jeanne chamou pelos dois. Ninguém respondeu. Na relva, marcada pelos rastros, jaziam uma luva de mulher e dois rebenques. Tinham estado ali, portanto; e certamente se haviam afastado, deixando os cavalos no local. Esperou-os durante um quarto de hora, surpresa, sem poder atinar com o que eles estariam fazendo. Como saltara do cavalo e se deixara ficar imóvel, apoiada a um tronco, dois passarinhos, sem notarem a sua presença, vieram pousar-lhe bem junto aos pés. Saltitando um em torno do outro, de asas abertas e esvoaçantes, trocavam mútuas saudações, pipilando; de repente, o macho saltou sobre a fêmea num longo amplexo. Jeanne surpreendeu-se diante do que via, como se tudo isso fosse estranho para ela. Por fim, disse para si mesma: – Ah! Estamos na primavera!2

A resposta estava aí, no óbvio ofertado. Mas a cópula dos passarinhos, aos olhos inocentes de Jeanne, era motivo para uma única, cândida e ingênua constatação: “Estamos na primavera!” Os que amam cegamente, apaixonados que estão, somente veem o que desejam ver. É como no provérbio: “o amor é cego”. Conclusão ligeira e sem as complexas investigações que são necessárias ao tema. Na verdade, e se exigido uma maior exatidão, o amor é quem faz cegar. Eclipse da razão, a “cegueira” é um engodo e um artifício da Vontade, em função da vida e sua permanência.
A natureza com seus prodígios e encantamentos; a Lua dos apaixonados e o céu estrelado; as flores campestres que se oferecem às borboletas coloridas que bailam leves e livres sobre os jardins perfumados; e os passarinhos cantando felizes, em coro, celebrando a criação e o seu...
Ah, que grande a ilusão dos nossos sentidos! Não nos basta o mundo assim, dado; precisamos transcendê-lo e, para além do que vemos, vermos algo a mais: maior e mais encantado, razão e limite ilimitado de tudo o que é belo e bom, incorrupto e eterno. Acostumados à imagem romântica do mundo, exaltamos os encantos da natureza; almejamos as perfeitas virtudes dos corações perfeitos – a ação daquele ou daquela que, por amor ao outro, nega-se a si mesmo. Ah, que grande a ilusão do amor desinteressado de si! Com a nossa fala, a mais comum e vulgar expressão do nosso ser, declaramos um amor doce e cândido... visgo que prende o passarinho.
Em “Kinski, meu melhor inimigo” (Mein Liebster Feind, 1999), Werner Herzog põe a nu tal engodo, sutilmente expondo os dois eixos deste grande conflito, nem sempre muito evidente - principalmente aos menos dados às dúvidas, e desarmados de senso crítico. De um lado a visão romântica da Natureza, majoritária (Klaus Kinski > os românticos > os teólogos > os idealistas); de outro, o realismo racionalista, minoritário (Herzog > Schopenhauer > Darwin > Aristóteles, com limites). É o próprio Herzog quem, falando sobre Kinski3, afirma:

Entre Kinski e eu havia algo de irreconciliável: o seu conceito pela natureza. Ele se estilizava como um “homem da Natureza”. Creio que tudo o que ele dizia sobre a selva era afetado. Ele declarava que tudo por aqui [nas selvas do Peru] era erótico, mas nunca entrou na selva. Ele ficou no acampamento por meses, mas nunca deu um passo para dentro da selva. Uma vez ele adentrou cerca de 50 metros, onde uma árvore caíra. É claro que o fotógrafo teve que ir com ele tirando centenas de fotos dele abraçado a essa árvore e fingindo copular com ela. Poses e parafernálias era o que lhe importava. Seu equipamento de alpinismo era mais importante que a própria montanha. Sua roupa camuflada feita por Yves Saint Laurent era mais importante que qualquer selva. Nesse sentido, Kinski era favorecido com uma grande estupidez natural.
A diferença de nossas visões tornou-se mais aparente durante “Fitzcarraldo”. É claro que desafiamos a própria natureza. Mas ela é grandiosa e tivemos que aceitar que ela era mais forte que nós. Kinski sempre diz que ela é cercada de elementos eróticos. Eu não vi nada erótico, vi obscenidades. A natureza como algo violento e vil. Não vi nada erótico aqui. Veria fornicação, asfixia, embate e luta pela sobrevivência, crescimento e putrefação. É lógico que há muita tristeza, mas é a mesma tristeza que nos cerca. As árvores estão tristes, assim como os pássaros, acho que eles não cantam, eles gritam de dor.
Dê uma olhada mais de perto, e verá que há sim uma certa harmonia: harmonia da opressão e morte coletiva. E quando digo isso, o digo cheio de admiração pela selva. Não a odeio, eu a amo, amo muito. Mas amo contra meu próprio julgamento.4

A visão da Natureza, em Kinski, é a visão do senso comum – geralmente inconsciente –, e é também a mais equivocada. Acredita, sem pensar, nas reais e visíveis belezas do Mundo, e na origem divina das relações afetivas, numa hierarquia modelar que põe o homem como “cabeça da criação” – como exposto no livro do Gênesis. Na ordem cósmica, e no sexo, ele é Sol, e ela, Lua; ele, ativo; ela, passiva. Tanto equilíbrio no mundo, supõem os velhos teólogos ortodoxos e mofados, embriagados no idealismo, aponta para uma mente inteligente por trás de tudo – como o relógio, que supõe o relojoeiro.5
Noutro filme, incompreensível para alguns – “Anticristo” (Antichrist, 2009), do dinamarquês Lars von Trier –, há uma cena em que uma raposa6, como em uma fábula de horror, sentencia: “O caos reina”. É o prenúncio do “Desespero”. Onde? Na natureza. No Anticristo, os personagens não têm nomes, são apenas Ele e Ela, e estão instalados em uma cabana no meio da Floresta do Éden, onde Ela (uma intelectual que estuda sobre bruxaria e violências históricas contra as mulheres) é tratada por Ele (que é terapeuta), na tentativa de fazê-la superar o trauma deixado pela morte do filho de ambos, que havia caído de uma janela enquanto eles transavam. Se a relação sexo = culpa é óbvia, é porque é óbvia mesmo, imersa na tradição moral cristã. Na inocência do homem no Éden, antes da Queda – Santo Agostinho fantasia –, não havia o desejo do sexo (libidinoso), somente a sua necessidade (à procriação), mas sem os males da paixão, a tirania da vontade. Não havia, ele diz, “a vergonha do desejo”.7 E diz mais:

Os membros genitais obedeceriam ao arbítrio da vontade tal como os demais, e o marido ter-se-ia introduzido nas entranhas da esposa sem o aguilhão arrebatador da paixão libidinosa, na tranquilidade da alma e sem corrupção alguma da integridade do corpo. [...] E então poderia assim o sémen viril penetrar no útero da esposa mantendo-se a integridade do órgão genital feminino – tal como presentemente o fluxo do sangue menstrual pode sair do útero de uma virgem sem prejuízo para a sua integridade. De fato, é pela mesma via que um se introduz e o outro sai.8

Orígenes de Alexandria, o maior dos alegoristas da Antiguidade cristã, interpretando literalmente um versículo no Evangelho de Mateus9, chega ao ponto de se emascular, para lançar fora o “instrumento do mal”, o seu próprio pênis. Assim, pensava, poderia viver mais santamente, sem que o seu órgão reprodutor-sexual10 fosse outro senhor, contra o Senhor. 
Ele, Ela. Aí, no Éden, era como se fosse um recomeço para ambos. Mas, para Ela, a natureza é a “igreja do Demônio”. Não há lugar para a tradicional imagem idílica da selva – onde o animal devora o outro, e é devorado, sem misericórdia, sem culpa e sem juízos morais. Na cena incomum, em que a raposa anuncia o caos e o seu reinado – na imagem medonha de um medonho animal falante –, a ordem está pervertida. O caos, porém, não reclama súditos aos quais possa comandar – o que seria uma nova ordem. O diferente se apresenta, mas não é fixo, jamais instalado: ser loucura, ser absurdo em um mundo absurdo de absurdos. “Lars Von Trier é um diretor atormentado!” Bodejaram, quase unânimes, os críticos da indústria cinematográfica de Hollywood, engessados nos modelos que seguem e defendem a antiga ordem: a que produz lucros enormes. Mais que a arte e o pensamento, a indústria visa o lucro – como pode ser visto em Rojeck, Mailer, Biskind e Adorno & Horkhaimer.11
No Anticristo de Lars von Trier, como n’O Anticristo (Der Antichrist. Fluch auf das Christentum, 1888), de Nietzsche, há um enfretamento dos modelos românticos, dominantes: a estética imanente-transcendente e os conceitos bom/mau são, ao menos em tese, transvalorados. No Anticristo de Lars von Trier, há três capítulos (além do prelúdio e do prólogo) bem definidos. Não há culto a essa Trindade nada divina, que comanda o Mundo natural – como é visto e descrito por Herzog, em sua oposição a Kinski. O capítulo quarto (“Os três mendigos”) reforça os três anteriores, no sentido da trindade referida, em sua tese de transvaloração. De fato, na suposta razão que procura ordenar o caos, é onde se instala o delírio e o culto à ordem, para fazer surgir alguma coisa à qual eu não saberia dar um nome; mas que é mais que niilismo, que mero niilismo.
N’O Anticristo de Nietzsche, por outro viés, a crítica é muito mais clara, e totalmente direcionada contra a moral cristã, e contra aquilo que ela santificou: a fraqueza da fé. A “fé”, ele afirma, é um “não querer saber o que é verdadeiro.12” Contra tal espírito, é a transgressão do niilismo que se propõe para além do bem e do mal, no fatum, a partir do fatum. “Nosso fatum [fado, destino]”, ele diz, “– era a plenitude, a tensão, a contenção das forças. Éramos ávidos de relâmpagos e atos, ficávamos o mais longe possível da felicidade dos fracotes, da ‘resignação’... Um temporal estava em nosso ar, a natureza que somos escureceu – pois não tínhamos caminho. A fórmula de nossa felicidade: um Sim, um Não, uma linha reta, uma meta...13” Ela, Ele... E então: Ah!, os dualismos que mantivemos (Apolo/Dionísio): para a verdade, para o amor, para a filosofia, para a teologia, etc. Nós nos esquecemos do que somos, em função do que gostaríamos ser, e nos perdemos de nós mesmos, em alguma parte do caminho. 
“Suponhamos que a verdade seja uma mulher”, Nietzsche dizia, no prefácio de Para além do bem e dom mal (Jenseits Von Gut Und Böse. Vorspiel Einer Philosophie, 1886).14 Suponhamos que a Verdade seja um conceito, ou uma construção psicológico-político-social, como a condição da “mulher”, na obra de Simone de Beauvoir, de 1949, contra a tirania do masculino – também exaltada e beatificada pela Igreja.15 Se o gênero vale à Natura, e se ela pode ser personificada de algum modo – a Terra, nas mais variadas mitologias, é representada como mulher, feminina e fecunda –, então a imagem de uma mulher lhe cai muito bem, e sem forçamentos. Assim também se pode falar da Verdade, o que quer que ela seja... como Nietzsche fez.
Sim, suponhamos então que a verdade seja uma mulher, como Ela. Ela conhece a figura masculina, tal qual a do marido (terapeuta, psicólogo, psicanalista, figura da ordem mental desejada pela moderna ciência moderna, e pelo status da razão aplicada ao saber e ao progresso); também conhece as forças da natureza, irracionais, das quais tem medo. Passiva às ações dEle, que assume o lugar da Natureza, domesticando-a para que Ela, através dele, também a enfrente e, assim, vença os seus medos – ou chegue à ordem (psíquica), à razão –, Ela, a princípio, se deixa levar, obediente à técnica dEle:

– Gostaria de fazer mais um exercício – Ele diz. – É como fazer de conta. Meu papel será todos os pensamentos que te dão medo. O seu será o do pensamento racional.
Ela assente, com a cabeça.
– Eu sou a natureza. Todas as coisas que você chama de natureza.
Ela se mostra maleável, deixando que Ele assuma o seu papel, e diz:
– Ok, senhor Natureza. O que você quer?
– Machucá-la tanto quanto eu puder.
– Como?
– Como você acha?
– Me amedrontando?
Ele balança a cabeça, negando que seja somente isso.
– Matando você – responde.
– A natureza não pode me machucar. Você é só o verde lá fora.
– Não, eu sou mais.
– Eu não entendo – Ela parece confusa, realmente.
– Estou no exterior, mas também... dentro.
Sim, pois é certo que, da Natureza, ou na Natureza, todos somos partes. E tanto que, para elucidar o que Ele tenciona, continua:
– Eu sou a natureza de todos os seres humanos.
– Ah, esse tipo de natureza. O tipo de natureza que faz pessoas fazerem coisas ruins contra as mulheres.
– É exatamente o que sou.
– Esse tipo de natureza me interessou quando eu estava aqui. Esse tipo de natureza era o tema da minha tese. Mas você não deve subestimar Éden.
– O que Éden fez? – Ele pergunta.
– Encontrei algo mais que o que esperava. Se a natureza humana é má, então isso vale também para a natureza das mulheres.
– Natureza feminina.
– A natureza de todas as irmãs [bruxas]. As mulheres não têm controle de seus corpos, a natureza tem. E eu tenho isso por escrito nos meus livros.
– A literatura que você usou em sua pesquisa era sobre coisas ruins cometidas contra as mulheres, e você a leu como prova da maldade das mulheres? – Isso lhe parecia um contrassenso, um paradoxo às pretensões da tese à qual ela, antes, propunha defender. – Você deveria ser crítica com esses textos, essa era sua tese! Ao invés disso, você os abraçou. Você entende o que está dizendo?
– Esqueça – Ela diz. – Não sei porque eu disse isso.16

Ela é uma metáfora da Natureza: hostil, caótica. Ele é o sexo dominante – aquele que tenta colocá-la em ordem, dominando-a, vencendo o caos. Ele, razão; ela, emoção. Razão = ordem; emoção = caos. Trazer a ordem supõe o domínio dEle sobre Ela; supõe também a status rebaixado do Segundo Sexo, como o feminino é definido por Beauvoir, em oposição ao domínio do masculino. “Todo ser humano do sexo feminino não é, portanto, necessariamente mulher; cumpre-lhe participar dessa realidade misteriosa e ameaçada que é a feminilidade”17, diz Beauvoir. Ser mulher é sentir-se mulher.18 Na igualdade genérica, não pode haver um sexo – mas isso também não supõe um equilíbrio. As cenas de mutilação genital, masculina e feminina (Ela decepa o próprio clitóris com uma tesoura enferrujada), estão na ordem do conflito. Quando perguntado sobre o porquê de tanta violência, em uma entrevista, Lars von Trier respondeu: “Simplesmente achei que seria errado não mostrar. Sou um cineasta que acredita que devemos colocar na tela tudo o que pensamos. Sei que é doloroso ver, mas esse filme tem muito a ver com essas dores.” Na mesma entrevista, ele afirma que não acredita em Deus, e que o filme é uma forma de devolver a Deus tudo o que aprendeu sobre ele.       
Não há amor aí, e nem beleza, somente o fatum e o pólemos, o conflito – “Não a satisfação, mas mais poder; sobretudo não a paz, mas a guerra.19” Ela é a Natureza, com a qual ele luta, para domesticá-la; mas acaba destruindo-a, para não ser destruído. No “Epílogo”, Ele encontra alimento nesta nova Natureza, da qual é parte: sua natureza capaz de “matar o amor, a paixão” (Ela), por amor a si mesmo: amour de soi.
Eis um anticristo. Sim, a moral cristã ensina que o marido deve ser capaz de, por amor à sua mulher, morrer por ela, como exemplificado no Cristo, que morre por sua noiva, a Igreja.20 A moral anticristã, ao contrário, ensina o amor fati, o amour de soi, a fidelidade à Terra – na apreciação do realismo, contra o idealismo romântico e sua embriaguez. O sentimento de comunidade e de um amor ideal, recíproco, antes de ser uma fraqueza, é um equívoco. Ademais, e contra um amor “tão altruísta” (e fantasioso), Nietzsche afirmaria: “O amor é o estado em que as pessoas mais veem as coisas como não são.”21
Na alegoria, a velha Natureza está ali, nos tantos corpos femininos que jazem no Éden, as almas ancestrais. Expulsas (ou libertas) para este novo Éden, seguem em direção a... Quem saberia? O caos continua reinando; e anticristãos são todos e todas que ousam superar o domínio ancestral da ordem, do sexo dominante e da sua posição inferior – e louvada na piedade subserviente da pia doctrina christiana. Mas, ah!, não há culpa senão a nossa culpa, e pelos nossos erros.   
Suponha que Jeanne, na novela de Maupassant, seja uma vítima da tradição histórico-político-social à qual estava submetida, no tempo que não era seu; suponha. Ainda assim, e por sua inocência, ela é culpada. É uma vítima de si mesma. Como poderia dizer, depois de tudo: “A vida não é tão boa nem tão má como as pessoas julgam.22” Como? Nascer na condição de escravo não é uma opção nossa, e nem uma culpa contra a qual mereçamos punições; o nosso agir como escravos, no entanto, é.
  





1 Novela de Guy de Maupassant, escrita em 1883; excelente exemplo de realismo fantástico.
2 MAUOASSANT, Guy de. Uma vida. São Paulo: Nova Cultural, 2003. p. 188.
3 Com quem teve uma parceria errática e duradoura, ao longo de cinco filmes: Aguirre, der Zom Gottes (1972), Woyzeck (de 1979, baseado na peça de Georg Büchner), Nosferatu: Phantom der Nacht (1979), Fizcarraldo (1982) e Cobra Verde (1987).
4 Filmado em 1982, Fitzcarraldo é uma produção teuto-peruano, baseada na história verídica de Brian Sweeney Fitzgerald, “Fitzcarraldo”, na pronúncia dos nativos. Fã de Enrico Caruso, Fitzcarraldo investe na construção de uma casa de ópera, na cidade de Iquitos, no alto Amazonas, fracassa. Antes, investira em uma estrada de ferro, a Transandina, também sem sucesso. Praticamente falido, tenta conseguir recursos com um novo empreendimento: uma fábrica de gelo; novo fracasso. Pelos improváveis e malfadados empreendimentos, foi chamado de “O conquistador do inútil”. Conseguiu algum dinheiro com sua amante, a dona do bordel da cidade. Com o recurso, compra um grande barco fluvial. Nele, tentará encontrar uma nova rota para transportar borracha, das terras às quais obteve autorização governamental para explorar. Esperançoso e alucinado, Fitzcarraldo, em seu barco, transpõe morros e matas, ao custo de muito sofrimento e da vida da tripulação. O trecho com as impressões de Herzog sobre a floresta, que aparecem nesse documentário, é recortado de outro, Burden of dreams, de 1982, com direção de Les Blank, e pode ser encontrado no YouTube. Disponível em: <http://www.youtube.com/watch?v=mYBA0yvmwGc> Acesso em: 10 abr. 2011.
5 E daí os tantos argumentos tradicionais em prol da existência de Deus (axiológico, cosmológico, henológico, do bom senso, moral, teleológico, etc.), como o argumento ontológico de Anselmo de Aosta (1033-1109) ou as cinco vias de Tomás de Aquino (1225-1274), dentre os mais conhecidos; e daí o famoso argumento do relógio, de William Paley (1743-1805). Para os argumentos ontológicos, resumidos e comentados, ver: TOMATIS, Francesco. O argumento ontológico: a existência de Deus de Anselmo a Schelling. São Paulo: Paulus, 2003. (Col. Filosofia). O argumento de Paley aparece em sua Natual Theology, de 1802 (ainda sem tradução em português). Também pode ser visto, na íntegra, com contra argumentações, em: SORLEY, W. R. Moral Values and the Idea of God. 2. ed. Cambridge: Cambridge University Press, 1921. p. 326.
6 O mais esperto dos animais, conforme a tradição literária.
7 De Civ. Dei, XIII, XXIV.7. Afinal: “A beleza do corpo, obra de Deus sem dúvida, mas bem ínfimo, carnal e temporal, é mal amada quando Deus, bem eterno, interior e sempiterno é posto em segundo plano.” (De Civ. Dei, XV, XXII). AGOSTINHO, Santo. A Cidade de Deus. 2. ed. Lisboa: Serviço de Educação e Bolsas / Fundação Calouste Gulbenkian, 2000. v. 2.
8 De Civ. Dei, XIV, XXVI.
9 Mateus 19, 12: “Porque há eunucos que assim nasceram do ventre da mãe; há eunucos que foram castrados pelos homens; e há eunucos que se castraram a si mesmos por causa do Reino dos céus. Quem pode receber que o receba.”
10 O relato é registrado por Eusébio de Cesaréia (265-340), em sua Historia ecclesiastica (talvez escrita entre 303 e 323): “Entendeu as palavras: ‘E há eunucos que se fizeram eunucos por causa do reino dos céus’ (Mt 19,12), de modo simplista e juvenil, seja por julgar que assim cumpria a palavra do Senhor, seja porque, sendo jovem, pregava as coisas divinas, não somente a homens, mas ainda a mulheres, e querendo tirar aos infiéis todo pretexto de calúnia vergonhosa, foi impelido a cumprir realmente a palavra do Senhor.” (CESARÉIA, Eusébio de. História Eclesiástica. São Paulo: Paulus, 2000. p. 289-90 [VI, 8.2]. [Col. Patrística, 15]).   
11 Os autores citados, e suas obras, por ordem: ROJEK, Chris. Celebridade. Rio de Janeiro: Rocco, 2008. (Col. Idéias Contemporâneas). MAILER, Norman. Um sonho americano. Porto Alegre: L&PM, 2011. (Col. L&PM Pocket, 572). BISKIND, Peter. Como a geração sexo-drogas-e-rock’n’roll salvou Hollywood. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2009. ADORNO, Theodor; HORKHEIMER, Max. A Dialética do Esclarecimento. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.
12 NIETZSCHE, Friedrich. O anticristo: Maldição do cristianismo: Ditirambos de Dionísio. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. p. 63 (§ 52). Ou, dito de outro modo: “A esse instinto de teólogo eu faço guerra: encontrei sua pista em toda parte. Quem possui sangue de teólogo no corpo, já tem ante todas as coisas uma atitude enviesada e desonesta.” (NIETZSCHE, 2007, p. 15 [§ 9]). Ou, por fim: “A melhor maneira de enganar a humanidade é com a moral!” (NIETZSCHE, 2007, p. 52 [§ 44]).
13 NIETZSCHE, 2007, p. 10 (§ 1).
14 NIETZSCHE, Friedrich. Além do bem e do mal: prelúdio a uma filosofia do futuro. São Paulo: Companhia das Letras, 2001. p. 63 (Prólogo).
15 “Não é a natureza que define a mulher: esta é que se define retomando a natureza em sua afetividade.” (BEAUVOIR, Simone de. O segundo sexo: 1 – fatos e mitos. 4. ed. São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1970. p. 59). E, antes: “As religiões forjadas pelos homens refletem essa vontade de domínio: buscaram argumentos nas lendas de Eva, de Pandora, puseram a filosofia e a teologia a serviço de seus desígnios, como vimos pelas frases citadas de Aristóteles e Sto. Tomás. Desde a Antiguidade, moralistas e satíricos deleitaram-se com pintar o quadro das fraquezas femininas.” (BEAUVOIR, 1970, p. 16).
16 Anticristo. Direção: Lars von Trier. Califórnia Filmes, 2009. 1 DVD (98 min). NSTC, color. Título original: Antichrist.  
17 BEAUVOIR, 1970, p. 7. “O termo ‘fêmea’ é pejorativo, não porque enraíze a mulher na Natureza, mas porque a confina no seu sexo.” (BEAUVOIR, 1970, p. 25). Convém à mulher, pois, emancipar-se – que não corresponde à renúncia do seu sexo, mas em assumi-lo, exigindo os direitos iguais ao outro, o masculino. 
18 “A mulher é uma fêmea na medida em que se sente fêmea.” (BEAUVOIR, 1970, p. 59).
19 NIETZSCHE, 2007, p. 11 (§ 2).
20 Na epístola Aos Efésios 5, 25: “Maridos, amai as vossas mulheres como Cristo amou a Igreja e se entregou por ela.” (TEB).
21 NIETZSCHE, 2007, p. 28 (§ 23).
22 MAUPASSANT, 2003, p. 318.


quarta-feira, 11 de julho de 2012




8.




Da carnavalização dos sentidos



Homens incomuns, doutrinas, festas, ritos, livros e lugares sagrados... Esperança, Desejo... falta. A fé religiosa – bem como as doutrinas político-históricas –, qualquer uma, é toda e inteiramente construída sobre tais fundamentos; que apontam para um ou vários fundamentos. A ideia de uma “medida áurea”, uma referência sobre a qual as coisas possam ser sentadas ou medidas como “isto é melhor que aquilo” ou “isto é pior que aquilo”, etc.
Quando Hemingway afirma que “o amor é infinitamente mais duradouro do que o ódio”1, não é de outra afecção que fala senão do amor romântico, reafirmando o seu status ideal, sem considerar as tantas “barreiras” (ou freios) psicológicas que nos foram dadas pela natura, e sem as quais abraçaríamos a barbárie, celebrando-a em favor do nosso desejo, da sua realização. Há, claro, a “força do contrário”; isto é, do desejo do meu querer que esbarra no querer do Outro, mais forte que eu, que não posso enfrentá-lo, e ao qual me submeto – não por alguma ética ou alguma moral, mas pelo próprio instinto de preservação. Sem a agência do intelecto, é coisa comum de ser observada no mundo natural. Aos que têm o intelecto, não. O perdedor ganhou, em sua memória sentimental (ou orgulhosa), a lembrança da conquista malfadada. Por sua feiura, sua fraqueza, sua debilidade... e há sempre alguma. É preciso, em favor da sanidade da mente e do corpo, encontrar um novo objeto a ser conquistado. Novo desejo, O objeto antigo, agora, parece distante; e o antigo desejo, já, transforma-se em repulsa, ou amizade funcional:  “Olá! Como vai? Adeus.” A moça era linda e inteligente, mas tinha um defeito terrível: não gostava de mim. Como não consigo me odiar – por não ser o que desejo que ela deseje –, odeio-a, por amor a mim, por amor de mim. 
Acontece que a lembrança é, às vezes, uma “lembrança encobridora” (Deckerinnerung), um “lembrar-se de esquecer”, inconsciente. Algo que se faz, agora, tem a função de apagar o que foi feito, e que não foi bom – mas eu nem percebo isso, simplesmente faço, em obediência a um comendo mental que existe em favor da minha saúde. “Portanto, se quero viver, devo esquecer...” Algo assim, como é dito por Roland Barthes em sua aula inaugural, como professor na cadeira de semiologia literária, no Collége de France.2
Mais que a lembrança, o esquecimento é tão necessário quanto o comer, o respirar, o beber... O “duradouro”, porém – em nossa memória sentimental, na perspectiva romântica ou realista –, permanece. O “duradouro” é a lembrança esquecida daquilo que me fez ser como sou, e está relacionado ao próprio Eu que se lembra, que se esquece; que se lembra de esquecer, que se lembra de lembrar; este Eu do qual não posso, nunca, escapar... a não ser com o suicídio: a única questão filosófica realmente séria: “Só existe um problema filosófico realmente sério: o suicídio. Julgar se a vida vale ou não vale a pena ser vivida é responder à pergunta fundamental da filosofia.3” E, no poema de Emily Dickinson:

Ourself behind ourself, concealed –
Should startle most –
Assassin hid in our Apartment
Be Horror’s least.4 

A questão – da fuga do Eu, desfavorável a mim, por minha “sorte ruim” e sua memória renitente – é colocada por Camus, de cara, logo no início de O mito de Sísifo (1942); é a primeira frase do primeiro parágrafo. Mais adiante, falando dos “muros absurdos”:

Os grandes sentimentos levam consigo o seu universo, esplêndido ou miserável. Iluminam com sua paixão um mundo exclusivo, onde eles encontram seu ambiente. Há um universo do ciúme, da ambição, do egoísmo ou da generosidade. Um universo significa uma metafísica e uma atitude de espírito. O que é verdade para sentimentos já especializados, será ainda mais para emoções cuja base é tão indeterminada, ao mesmo tempo tão confusas e tão “certas”, tão distantes e tão “presentes” quanto aquelas que a beleza nos oferece ou que o absurdo suscita.5

Grandes sentimentos têm a ver, inescapavelmente, com o Eu, e com a sua fé na possibilidade de... um feliz “mais adiante”. Quando não há esperanças (ou um motivo pelo qual a vida valha a pena), a extinção do Eu aparece como remédio (e corresponde, não por acaso, à “salvação”, no budismo... mas sem a hipótese do suicídio). Em Émile Durkheim, os suicídios são de três tipos: egoísta, altruísta e anômico6. Todos eles, no final, são reações do Eu (consciente) contra o Eu (às vezes inconsciente), contra a sua condição no Mundo. O louco não comete suicídio sem algum lampejo consciente do Eu, na razão – embora o senso comum julgue isso ao contrário. E quando isso não é assim, é o acidente; como a criança que não vê o perigo, e se lança ao abismo.
Quando Seymour, o personagem mais querido de J. D. Salinger, mete uma bala em sua própria cabeça, no final de “Um dia ideal para os peixes-banana”, não há – e essa é a parte mais feliz do conto – um motivo aparente; ele que, antes, parecia tão feliz, brincando e conversando alegremente, na praia, com a pequenina Sybil Carpenter. Em Seymour, Salinger, parece, realiza o que, em vida, nunca ousou: o suicídio. Salinger morreu com 91 anos, “de causas naturais”, em 28 de janeiro de 2010, em sua casa, em New Hampshire, EUA. Noutro conto, “Para Esmé, com amor e sordidez”, Salinger é, muito claramente, o soldado que conversa com a garota:

– Você tem um senso de humor muito apurado, não é? – falou, suspirosa. – Papai dizia que eu não tinha nem um pouco de senso de humor. Que eu estava despreparada para enfrentar a vida porque não tinha senso de humor.
Encarando-a, acendi um cigarro e disse-lhe não acreditar que o senso de humor tivesse qualquer utilidade numa hora de aperto.
– Papai disse que tinha.
Tratava-se de uma afirmação de fé, não de um contra-argumento, por isso resolvi bater rapidamente em retirada.7

O amor é “amor de nada ou de algo” (de um indivíduo por outro, ou por um objeto; do fiel para com o seu deus, ou à sua Ideia), e “é de consigo ter sempre o bem”, como Sócrates afirma, repetindo Diotima8. O amor é a afirmação da fé daquele que ama, e sua confissão objetiva na subjetividade da vontade: o Eu voltado para si.

– Ama o amante o que é belo; que é que ele ama?
– Tê-lo consigo – respondi-lhe.
– Mas essa resposta – dizia-me ela – ainda requer uma pergunta desse tipo: Que terá aquele que ficar com o que belo?
– Absolutamente – expliquei-lhe – eu não podia mais responder-lhe de pronto essa pergunta.
– Mas é, disse ela, como se alguém tivesse mudado a questão e, usando o bom em vez do belo, perguntasse: Vamos, Sócrates, ama o amante o que é bom; o que é que ele ama?
– Tê-lo consigo – respondi-lhe.9

As declarações de amor ou confissões afetivas sobre o Outro, sobre o tanto que eu gosto dele, têm o fito de mantê-lo enquanto objeto de deleite do meu próprio Eu. No “eu te amo” há, intrinsecamente (e inconscientemente): “amo você não por você mesma, mas porque me amo, e encontro em ti o que me satisfez.” Ou seja: a beleza do corpo (propaganda da saúde, para a geração de indivíduos igualmente bonitos e saudáveis), e da alma: empatia, aspirações correspondentes, et cetera. “Não é o que é seu, penso, que cada um estima? A não ser que se chame o bem de próprio e de seu, e o mal de alheio; pois nada mais há que amem os homens senão o bem [deles mesmos]”10. E, antes: “o Amor é amor pelo belo.11” E, depois: “Por isso, quando do belo se aproxima o que está em concepção, aclama-se, e de júbilo transborda, e dá à luz e gera; quando porém é do feio que se aproxima, sombrio e aflito contrai-se, afasta-se, recolhe-se e não gera, mas, retendo o que concebeu, penosamente o carrega. [...] [O amor é] da geração e da parturição no belo.12” O amor desinteressado – o Eu esquecido de si – é ágape, isto é: idealismo. Isto é: nada é. E é: delírio febril da razão, ou metafísica teológica.  
Na Vontade, a beleza do corpo é saúde, garantia de geração saudável – Eros. A valoração do feio – que está relacionado à administração salvífica da graça, na doctrina christiana – é, em Nietzsche, atraso do progresso da espécie, e seu declínio – ágape. Daí a crítica de Nietzsche ao programa cristão, em O anticristo. Maldição ao cristianismo (Der Antichrist. Fluch auf das Christentum), de 1888:

O cristianismo tomou o partido de tudo o que é fraco, baixo, malogrado, transformou em ideal aquilo que contraria os instintos de conservação da vida forte; corrompeu a própria razão das naturezas mais fortes de espírito, ensinando-lhes a perceber como pecaminosos, como enganosos, como tentações os valores supremos do espírito. E exemplo mais lamentável – a corrupção de Pascal, que acreditava na corrupção de sua razão pelo pecado original, quando ela fora corrompida apenas pelo seu cristianismo!13

No amor romântico, como na teologia clássica, “‘Fé’ significa não querer saber o que é verdadeiro”14, pois a fé não duvida, aceita... pela fé. “Onde está o sábio? [...] Onde está o raciocinador deste século? Acaso Deus não tornou louca a sabedoria deste mundo?15” Pela fé, a razão e o realismo são rebaixados, em favor do idealismo... e do carnaval dos sentidos. 
        




1 HEMINGWAY, Ernest. Vida. In: HOTCHNER, A. E. (Ed.). A boa vida segundo Hemingway. São Paulo: Larousse do Brasil, 2008. p. 120. 
2 BARTHES, Roland. Aula. São Paulo: Cultrix, 1996. p. 46. O texto de Barthes, naturalmente, não tem a mesma intenção que o meu – embora não seja dissonante. Aproprio-me do mesmo na intenção de ilustrar o que eu mesmo digo, como licença poética. 
3 CAMUS, Albert. O mito de Sísifo. Rio de Janeiro: Edições BestBolso, 2010. p. 19.
4 “O ‘eu’, por trás de nós oculto, / É muito mais assustador, / E um assassino escondido em nosso quarto, / Dentre os horrores, é o menor.” (DICKINSON, Emily. Poemas escolhidos. Porto Alegre: L&PM, 2007. p. 57. [Col. L&PM Pocket, 436]).
5 CAMUS, 2010, p. 25.
6 DURKHEIM, Émile. O suicídio. Rio de Janeiro: Zahar, 1982.
7 SALINGER, J. D. Para Esmé, com amor e sordidez. In: _____. Nove histórias. 3. ed. Rio de Janeiro: Editora do Autor, [s.d.], p. 86.
8 O banquete, 206 a. PLATÃO. O banquete. In: _____. Diálogos. 2. ed. São Paulo: Abril Cultural, 1983. p. 37. (Col. Os Pensadores).   
9 O banquete, 204 d-e.
10 O banquete, 206 a.
11 O banquete, 204 b.
12 O banquete, 206 d-c.
13 NIETZSCHE, Friedrich. O anticristo: Maldição do cristianismo: Ditirambos de Dionísio. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. p. 12 [§ 5]).
14 NIETZSCHE, 2007, p. 63 (§ 52).
15 Romanos, 1, 20 (TEB). Em grego, o substantivo συζητητής também pode ser traduzido como “debatedor”, “questionador”, “inquiridor”, “perguntador”... Enfim, συζητητής é aquele que, de algo e sobre algo, pergunta, duvida, quer saber; isto é: não aceita somente pela fé. E esse é o motivo da crítica do apóstolo.


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