terça-feira, 17 de julho de 2012


9.




Do Natural e da Natureza, que é a casa de Satã



Em Une vie1, a meiguíssima Jeanne Le Perthuis des Vauds, sem suspeitar de que o seu marido, Julien de Lamare (sentido e razão da sua vida), andava lhe traindo com a mulher do conde de Fourville – Gilberte –, de quem pensava tratar-se apenas de “uma boa amizade a ser preservada”, decidiu seguir os cavalos que, mata adentro, transportaram os dois a um determinado local. Julien havia saído desde a manhã, sem avisar aonde iria.
“De repente, atravessando uma longa vereda, depararam-se-lhe dois cavalos, arreados e presos pelas rédeas a uma árvore: eram os animais de montaria de Julien e Gilberte. [...] Ao chegar junto aos pacientes animais, que ruminavam tristemente como habituados às longas paradas”, diz Maupassant,

Jeanne chamou pelos dois. Ninguém respondeu. Na relva, marcada pelos rastros, jaziam uma luva de mulher e dois rebenques. Tinham estado ali, portanto; e certamente se haviam afastado, deixando os cavalos no local. Esperou-os durante um quarto de hora, surpresa, sem poder atinar com o que eles estariam fazendo. Como saltara do cavalo e se deixara ficar imóvel, apoiada a um tronco, dois passarinhos, sem notarem a sua presença, vieram pousar-lhe bem junto aos pés. Saltitando um em torno do outro, de asas abertas e esvoaçantes, trocavam mútuas saudações, pipilando; de repente, o macho saltou sobre a fêmea num longo amplexo. Jeanne surpreendeu-se diante do que via, como se tudo isso fosse estranho para ela. Por fim, disse para si mesma: – Ah! Estamos na primavera!2

A resposta estava aí, no óbvio ofertado. Mas a cópula dos passarinhos, aos olhos inocentes de Jeanne, era motivo para uma única, cândida e ingênua constatação: “Estamos na primavera!” Os que amam cegamente, apaixonados que estão, somente veem o que desejam ver. É como no provérbio: “o amor é cego”. Conclusão ligeira e sem as complexas investigações que são necessárias ao tema. Na verdade, e se exigido uma maior exatidão, o amor é quem faz cegar. Eclipse da razão, a cegueira é um engodo e um artifício da Vontade, em função da vida e sua permanência.
A natureza com seus prodígios e encantamentos; a Lua dos apaixonados e o céu estrelado; as flores campestres que se oferecem às borboletas coloridas que bailam leves e livres sobre os jardins perfumados; e os passarinhos cantando felizes, em coro, celebrando a criação e o seu...
Ah, que grande a ilusão dos nossos sentidos! Não nos basta o mundo assim, dado; precisamos transcendê-lo e, para além do que vemos, vermos algo a mais: maior e mais encantado, razão e limite ilimitado de tudo o que é belo e bom, incorrupto e eterno. Acostumados à imagem romântica do mundo, exaltamos os encantos da natureza; almejamos as perfeitas virtudes dos corações perfeitos – a ação daquele ou daquela que, por amor ao outro, nega-se a si mesmo. Ah, que grande a ilusão do amor desinteressado de si! Com a nossa fala, a mais comum e vulgar expressão do nosso ser, declaramos um amor doce e cândido... visgo que prende o passarinho.
Em “Kinski, meu melhor inimigo” (Mein Liebster Feind, 1999), Werner Herzog põe a nu tal engodo, sutilmente expondo os dois eixos deste grande conflito, nem sempre muito evidente - principalmente aos menos dados às dúvidas, e desarmados de senso crítico. De um lado a visão romântica da Natureza, majoritária (Klaus Kinski > os românticos > os teólogos > os idealistas); de outro, o realismo racionalista, minoritário (Herzog > Schopenhauer > Darwin > Aristóteles, com limites). É o próprio Herzog quem, falando sobre Kinski3, afirma:

Entre Kinski e eu havia algo de irreconciliável: o seu conceito pela natureza. Ele se estilizava como um “homem da Natureza”. Creio que tudo o que ele dizia sobre a selva era afetado. Ele declarava que tudo por aqui [nas selvas do Peru] era erótico, mas nunca entrou na selva. Ele ficou no acampamento por meses, mas nunca deu um passo para dentro da selva. Uma vez ele adentrou cerca de 50 metros, onde uma árvore caíra. É claro que o fotógrafo teve que ir com ele tirando centenas de fotos dele abraçado a essa árvore e fingindo copular com ela. Poses e parafernálias era o que lhe importava. Seu equipamento de alpinismo era mais importante que a própria montanha. Sua roupa camuflada feita por Yves Saint Laurent era mais importante que qualquer selva. Nesse sentido, Kinski era favorecido com uma grande estupidez natural.
A diferença de nossas visões tornou-se mais aparente durante “Fitzcarraldo”. É claro que desafiamos a própria natureza. Mas ela é grandiosa e tivemos que aceitar que ela era mais forte que nós. Kinski sempre diz que ela é cercada de elementos eróticos. Eu não vi nada erótico, vi obscenidades. A natureza como algo violento e vil. Não vi nada erótico aqui. Veria fornicação, asfixia, embate e luta pela sobrevivência, crescimento e putrefação. É lógico que há muita tristeza, mas é a mesma tristeza que nos cerca. As árvores estão tristes, assim como os pássaros, acho que eles não cantam, eles gritam de dor.
Dê uma olhada mais de perto, e verá que há sim uma certa harmonia: harmonia da opressão e morte coletiva. E quando digo isso, o digo cheio de admiração pela selva. Não a odeio, eu a amo, amo muito. Mas amo contra meu próprio julgamento.4

A visão da Natureza, em Kinski, é a visão do senso comum – geralmente inconsciente –, e é também a mais equivocada. Acredita, sem pensar, nas reais e visíveis belezas do Mundo, e na origem divina das relações afetivas, numa hierarquia modelar que põe o homem como “cabeça da criação” – como exposto no livro do Gênesis. Na ordem cósmica, e no sexo, ele é Sol, e ela, Lua; ele, ativo; ela, passiva. Tanto equilíbrio no mundo, supõem os velhos teólogos ortodoxos e mofados, embriagados no idealismo, aponta para uma mente inteligente por trás de tudo – como o relógio, que supõe o relojoeiro.5
Noutro filme, incompreensível para alguns – “Anticristo” (Antichrist, 2009), do dinamarquês Lars von Trier –, há uma cena em que uma raposa6, como em uma fábula de horror, sentencia: “O caos reina”. É o prenúncio do “Desespero”. Onde? Na natureza. No Anticristo, os personagens não têm nomes, são apenas Ele e Ela, e estão instalados em uma cabana no meio da Floresta do Éden, onde Ela (uma intelectual que estuda sobre bruxaria e violências históricas contra as mulheres) é tratada por Ele (que é terapeuta), na tentativa de fazê-la superar o trauma deixado pela morte do filho de ambos, que havia caído de uma janela enquanto eles transavam. Se a relação sexo = culpa é óbvia, é porque é óbvia mesmo, imersa na tradição moral cristã. Na inocência do homem no Éden, antes da Queda – Santo Agostinho fantasia –, não havia o desejo do sexo (libidinoso), somente a sua necessidade (à procriação), mas sem os males da paixão, a tirania da vontade. Não havia, ele diz, “a vergonha do desejo”.7 E diz mais:

Os membros genitais obedeceriam ao arbítrio da vontade tal como os demais, e o marido ter-se-ia introduzido nas entranhas da esposa sem o aguilhão arrebatador da paixão libidinosa, na tranquilidade da alma e sem corrupção alguma da integridade do corpo. [...] E então poderia assim o sémen viril penetrar no útero da esposa mantendo-se a integridade do órgão genital feminino – tal como presentemente o fluxo do sangue menstrual pode sair do útero de uma virgem sem prejuízo para a sua integridade. De fato, é pela mesma via que um se introduz e o outro sai.8

Orígenes de Alexandria, o maior dos alegoristas da Antiguidade cristã, interpretando literalmente um versículo no Evangelho de Mateus9, chega ao ponto de se emascular, para lançar fora o “instrumento do mal”, o seu próprio pênis. Assim, pensava, poderia viver mais santamente, sem que o seu órgão reprodutor-sexual10 fosse outro senhor, contra o Senhor. 
Ele, Ela. Aí, no Éden, era como se fosse um recomeço para ambos. Mas, para Ela, a natureza é a “igreja do Demônio”. Não há lugar para a tradicional imagem idílica da selva – onde o animal devora o outro, e é devorado, sem misericórdia, sem culpa e sem juízos morais. Na cena incomum, em que a raposa anuncia o caos e o seu reinado – na imagem medonha de um medonho animal falante –, a ordem está pervertida. O caos, porém, não reclama súditos aos quais possa comandar – o que seria uma nova ordem. O diferente se apresenta, mas não é fixo, jamais instalado: ser loucura, ser absurdo em um mundo absurdo de absurdos. “Lars Von Trier é um diretor atormentado!” Bodejaram, quase unânimes, os críticos da indústria cinematográfica de Hollywood, engessados nos modelos que seguem e defendem a antiga ordem: a que produz lucros enormes. Mais que a arte e o pensamento, a indústria visa o lucro – como pode ser visto em Rojeck, Mailer, Biskind e Adorno & Horkhaimer.11
No Anticristo de Lars von Trier, como n’O Anticristo (Der Antichrist. Fluch auf das Christentum, 1888), de Nietzsche, há um enfretamento dos modelos românticos, dominantes: a estética imanente-transcendente e os conceitos bom/mau são, ao menos em tese, transvalorados. No Anticristo de Lars von Trier, há três capítulos (além do prelúdio e do prólogo) bem definidos. Não há culto a essa Trindade nada divina, que comanda o Mundo natural – como é visto e descrito por Herzog, em sua oposição a Kinski. O capítulo quarto (“Os três mendigos”) reforça os três anteriores, no sentido da trindade referida, em sua tese de transvaloração. De fato, na suposta razão que procura ordenar o caos, é onde se instala o delírio e o culto à ordem, para fazer surgir alguma coisa à qual eu não saberia dar um nome; mas que é mais que niilismo, que mero niilismo.
N’O Anticristo de Nietzsche, por outro viés, a crítica é muito mais clara, e totalmente direcionada contra a moral cristã, e contra aquilo que ela santificou: a fraqueza da fé. A “fé”, ele afirma, é um “não querer saber o que é verdadeiro.12” Contra tal espírito, é a transgressão do niilismo que se propõe para além do bem e do mal, no fatum, a partir do fatum. “Nosso fatum [fado, destino]”, ele diz, “– era a plenitude, a tensão, a contenção das forças. Éramos ávidos de relâmpagos e atos, ficávamos o mais longe possível da felicidade dos fracotes, da ‘resignação’... Um temporal estava em nosso ar, a natureza que somos escureceu – pois não tínhamos caminho. A fórmula de nossa felicidade: um Sim, um Não, uma linha reta, uma meta...13” Ela, Ele... E então: Ah!, os dualismos que mantivemos (Apolo/Dionísio): para a verdade, para o amor, para a filosofia, para a teologia, etc. Nós nos esquecemos do que somos, em função do que gostaríamos ser, e nos perdemos de nós mesmos, em alguma parte do caminho. 
“Suponhamos que a verdade seja uma mulher”, Nietzsche dizia, no prefácio de Para além do bem e dom mal (Jenseits Von Gut Und Böse. Vorspiel Einer Philosophie, 1886).14 Suponhamos que a Verdade seja um conceito, ou uma construção psicológico-político-social, como a condição da “mulher”, na obra de Simone de Beauvoir, de 1949, contra a tirania do masculino – também exaltada e beatificada pela Igreja.15 Se o gênero vale à Natura, e se ela pode ser personificada de algum modo – a Terra, nas mais variadas mitologias, é representada como mulher, feminina e fecunda –, então a imagem de uma mulher lhe cai muito bem, e sem forçamentos. Assim também se pode falar da Verdade, o que quer que ela seja... como Nietzsche fez.
Sim, suponhamos então que a verdade seja uma mulher, como Ela. Ela conhece a figura masculina, tal qual a do marido (terapeuta, psicólogo, psicanalista, figura da ordem mental desejada pela moderna ciência moderna, e pelo status da razão aplicada ao saber e ao progresso); também conhece as forças da natureza, irracionais, das quais tem medo. Passiva às ações dEle, que assume o lugar da Natureza, domesticando-a para que Ela, através dele, também a enfrente e, assim, vença os seus medos – ou chegue à ordem (psíquica), à razão –, Ela, a princípio, se deixa levar, obediente à técnica dEle:

– Gostaria de fazer mais um exercício – Ele diz. – É como fazer de conta. Meu papel será todos os pensamentos que te dão medo. O seu será o do pensamento racional.
Ela assente, com a cabeça.
– Eu sou a natureza. Todas as coisas que você chama de natureza.
Ela se mostra maleável, deixando que Ele assuma o seu papel, e diz:
– Ok, senhor Natureza. O que você quer?
– Machucá-la tanto quanto eu puder.
– Como?
– Como você acha?
– Me amedrontando?
Ele balança a cabeça, negando que seja somente isso.
– Matando você – responde.
– A natureza não pode me machucar. Você é só o verde lá fora.
– Não, eu sou mais.
– Eu não entendo – Ela parece confusa, realmente.
– Estou no exterior, mas também... dentro.
Sim, pois é certo que, da Natureza, ou na Natureza, todos somos partes. E tanto que, para elucidar o que Ele tenciona, continua:
– Eu sou a natureza de todos os seres humanos.
– Ah, esse tipo de natureza. O tipo de natureza que faz pessoas fazerem coisas ruins contra as mulheres.
– É exatamente o que sou.
– Esse tipo de natureza me interessou quando eu estava aqui. Esse tipo de natureza era o tema da minha tese. Mas você não deve subestimar Éden.
– O que Éden fez? – Ele pergunta.
– Encontrei algo mais que o que esperava. Se a natureza humana é má, então isso vale também para a natureza das mulheres.
– Natureza feminina.
– A natureza de todas as irmãs [bruxas]. As mulheres não têm controle de seus corpos, a natureza tem. E eu tenho isso por escrito nos meus livros.
– A literatura que você usou em sua pesquisa era sobre coisas ruins cometidas contra as mulheres, e você a leu como prova da maldade das mulheres? – Isso lhe parecia um contrassenso, um paradoxo às pretensões da tese à qual ela, antes, propunha defender. – Você deveria ser crítica com esses textos, essa era sua tese! Ao invés disso, você os abraçou. Você entende o que está dizendo?
– Esqueça – Ela diz. – Não sei porque eu disse isso.16

Ela é uma metáfora da Natureza: hostil, caótica. Ele é o sexo dominante – aquele que tenta colocá-la em ordem, dominando-a, vencendo o caos. Ele, razão; ela, emoção. Razão = ordem; emoção = caos. Trazer a ordem supõe o domínio dEle sobre Ela; supõe também a status rebaixado do Segundo Sexo, como o feminino é definido por Beauvoir, em oposição ao domínio do masculino. “Todo ser humano do sexo feminino não é, portanto, necessariamente mulher; cumpre-lhe participar dessa realidade misteriosa e ameaçada que é a feminilidade”17, diz Beauvoir. Ser mulher é sentir-se mulher.18 Na igualdade genérica, não pode haver um sexo – mas isso também não supõe um equilíbrio. As cenas de mutilação genital, masculina e feminina (Ela decepa o próprio clitóris com uma tesoura enferrujada), estão na ordem do conflito. Quando perguntado sobre o porquê de tanta violência, em uma entrevista, Lars von Trier respondeu: “Simplesmente achei que seria errado não mostrar. Sou um cineasta que acredita que devemos colocar na tela tudo o que pensamos. Sei que é doloroso ver, mas esse filme tem muito a ver com essas dores.” Na mesma entrevista, ele afirma que não acredita em Deus, e que o filme é uma forma de devolver a Deus tudo o que aprendeu sobre ele.       
Não há amor aí, e nem beleza, somente o fatum e o pólemos, o conflito – “Não a satisfação, mas mais poder; sobretudo não a paz, mas a guerra.19” Ela é a Natureza, com a qual ele luta, para domesticá-la; mas acaba destruindo-a, para não ser destruído. No “Epílogo”, Ele encontra alimento nesta nova Natureza, da qual é parte: sua natureza capaz de “matar o amor, a paixão” (Ela), por amor a si mesmo: amour de soi.
Eis um anticristo. Sim, a moral cristã ensina que o marido deve ser capaz de, por amor à sua mulher, morrer por ela, como exemplificado no Cristo, que morre por sua noiva, a Igreja.20 A moral anticristã, ao contrário, ensina o amor fati, o amour de soi, a fidelidade à Terra – na apreciação do realismo, contra o idealismo romântico e sua embriaguez. O sentimento de comunidade e de um amor ideal, recíproco, antes de ser uma fraqueza, é um equívoco. Ademais, e contra um amor “tão altruísta” (e fantasioso), Nietzsche afirmaria: “O amor é o estado em que as pessoas mais veem as coisas como não são.21
Na alegoria, a velha Natureza está ali, nos tantos corpos femininos que jazem no Éden, as almas ancestrais. Expulsas (ou libertas) para este novo Éden, seguem em direção a... Quem saberia? O caos continua reinando; e anticristãos são todos e todas que ousam superar o domínio ancestral da ordem, do sexo dominante e da sua posição inferior – e louvada na piedade subserviente da pia doctrina christiana. Mas, ah!, não há culpa senão a nossa culpa, e pelos nossos erros 
Suponha que Jeanne, na novela de Maupassant, seja uma vítima da tradição histórico-político-social à qual estava submetida, no tempo que não era seu; suponha. Ainda assim, e por sua inocência, ela é culpada. É uma vítima de si mesma. Como poderia dizer, depois de tudo: “A vida não é tão boa nem tão má como as pessoas julgam.22” Como? Nascer na condição de escravo não é uma opção nossa, e nem uma culpa contra a qual mereçamos punições; o nosso agir como escravos, no entanto, é.
  





1 Novela de Guy de Maupassant, escrita em 1883; excelente exemplo de realismo fantástico.
2 MAUOASSANT, Guy de. Uma vida. São Paulo: Nova Cultural, 2003. p. 188.
3 Com quem teve uma parceria errática e duradoura, ao longo de cinco filmes: Aguirre, der Zom Gottes (1972), Woyzeck (de 1979, baseado na peça de Georg Büchner), Nosferatu: Phantom der Nacht (1979), Fizcarraldo (1982) e Cobra Verde (1987).
4 Filmado em 1982, Fitzcarraldo é uma produção teuto-peruano, baseada na história verídica de Brian Sweeney Fitzgerald, “Fitzcarraldo”, na pronúncia dos nativos. Fã de Enrico Caruso, Fitzcarraldo investe na construção de uma casa de ópera, na cidade de Iquitos, no alto Amazonas, fracassa. Antes, investira em uma estrada de ferro, a Transandina, também sem sucesso. Praticamente falido, tenta conseguir recursos com um novo empreendimento: uma fábrica de gelo; novo fracasso. Pelos improváveis e malfadados empreendimentos, foi chamado de “O conquistador do inútil”. Conseguiu algum dinheiro com sua amante, a dona do bordel da cidade. Com o recurso, compra um grande barco fluvial. Nele, tentará encontrar uma nova rota para transportar borracha, das terras às quais obteve autorização governamental para explorar. Esperançoso e alucinado, Fitzcarraldo, em seu barco, transpõe morros e matas, ao custo de muito sofrimento e da vida da tripulação. O trecho com as impressões de Herzog sobre a floresta, que aparecem nesse documentário, é recortado de outro, Burden of dreams, de 1982, com direção de Les Blank, e pode ser encontrado no YouTube. Disponível em: <http://www.youtube.com/watch?v=mYBA0yvmwGc> Acesso em: 10 abr. 2011.
5 E daí os tantos argumentos tradicionais em prol da existência de Deus (axiológico, cosmológico, henológico, do bom senso, moral, teleológico, etc.), como o argumento ontológico de Anselmo de Aosta (1033-1109) ou as cinco vias de Tomás de Aquino (1225-1274), dentre os mais conhecidos; e daí o famoso argumento do relógio, de William Paley (1743-1805). Para os argumentos ontológicos, resumidos e comentados, ver: TOMATIS, Francesco. O argumento ontológico: a existência de Deus de Anselmo a Schelling. São Paulo: Paulus, 2003. (Col. Filosofia). O argumento de Paley aparece em sua Natual Theology, de 1802 (ainda sem tradução em português). Também pode ser visto, na íntegra, com contra argumentações, em: SORLEY, W. R. Moral Values and the Idea of God. 2. ed. Cambridge: Cambridge University Press, 1921. p. 326.
6 O mais esperto dos animais, conforme a tradição literária.
7 De Civ. Dei, XIII, XXIV.7. Afinal: “A beleza do corpo, obra de Deus sem dúvida, mas bem ínfimo, carnal e temporal, é mal amada quando Deus, bem eterno, interior e sempiterno é posto em segundo plano.” (De Civ. Dei, XV, XXII). AGOSTINHO, Santo. A Cidade de Deus. 2. ed. Lisboa: Serviço de Educação e Bolsas / Fundação Calouste Gulbenkian, 2000. v. 2.
8 De Civ. Dei, XIV, XXVI.
9 Mateus 19, 12: “Porque há eunucos que assim nasceram do ventre da mãe; há eunucos que foram castrados pelos homens; e há eunucos que se castraram a si mesmos por causa do Reino dos céus. Quem pode receber que o receba.”
10 O relato é registrado por Eusébio de Cesaréia (265-340), em sua Historia ecclesiastica (talvez escrita entre 303 e 323): “Entendeu as palavras: ‘E há eunucos que se fizeram eunucos por causa do reino dos céus’ (Mt 19,12), de modo simplista e juvenil, seja por julgar que assim cumpria a palavra do Senhor, seja porque, sendo jovem, pregava as coisas divinas, não somente a homens, mas ainda a mulheres, e querendo tirar aos infiéis todo pretexto de calúnia vergonhosa, foi impelido a cumprir realmente a palavra do Senhor.” (CESARÉIA, Eusébio de. História Eclesiástica. São Paulo: Paulus, 2000. p. 289-90 [VI, 8.2]. [Col. Patrística, 15]).   
11 Os autores citados, e suas obras, por ordem: ROJEK, Chris. Celebridade. Rio de Janeiro: Rocco, 2008. (Col. Idéias Contemporâneas). MAILER, Norman. Um sonho americano. Porto Alegre: L&PM, 2011. (Col. L&PM Pocket, 572). BISKIND, Peter. Como a geração sexo-drogas-e-rock’n’roll salvou Hollywood. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2009. ADORNO, Theodor; HORKHEIMER, Max. A Dialética do Esclarecimento. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.
12 NIETZSCHE, Friedrich. O anticristo: Maldição do cristianismo: Ditirambos de Dionísio. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. p. 63 (§ 52). Ou, dito de outro modo: “A esse instinto de teólogo eu faço guerra: encontrei sua pista em toda parte. Quem possui sangue de teólogo no corpo, já tem ante todas as coisas uma atitude enviesada e desonesta.” (NIETZSCHE, 2007, p. 15 [§ 9]). Ou, por fim: “A melhor maneira de enganar a humanidade é com a moral!” (NIETZSCHE, 2007, p. 52 [§ 44]).
13 NIETZSCHE, 2007, p. 10 (§ 1).
14 NIETZSCHE, Friedrich. Além do bem e do mal: prelúdio a uma filosofia do futuro. São Paulo: Companhia das Letras, 2001. p. 63 (Prólogo).
15 “Não é a natureza que define a mulher: esta é que se define retomando a natureza em sua afetividade.” (BEAUVOIR, Simone de. O segundo sexo: 1 – fatos e mitos. 4. ed. São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1970. p. 59). E, antes: “As religiões forjadas pelos homens refletem essa vontade de domínio: buscaram argumentos nas lendas de Eva, de Pandora, puseram a filosofia e a teologia a serviço de seus desígnios, como vimos pelas frases citadas de Aristóteles e Sto. Tomás. Desde a Antiguidade, moralistas e satíricos deleitaram-se com pintar o quadro das fraquezas femininas.” (BEAUVOIR, 1970, p. 16).
16 Anticristo. Direção: Lars von Trier. Califórnia Filmes, 2009. 1 DVD (98 min). NSTC, color. Título original: Antichrist.  
17 BEAUVOIR, 1970, p. 7. “O termo ‘fêmea’ é pejorativo, não porque enraíze a mulher na Natureza, mas porque a confina no seu sexo.” (BEAUVOIR, 1970, p. 25). Convém à mulher, pois, emancipar-se – que não corresponde à renúncia do seu sexo, mas em assumi-lo, exigindo os direitos iguais ao outro, o masculino. 
18 “A mulher é uma fêmea na medida em que se sente fêmea.” (BEAUVOIR, 1970, p. 59).
19 NIETZSCHE, 2007, p. 11 (§ 2).
20 Na epístola Aos Efésios 5, 25: “Maridos, amai as vossas mulheres como Cristo amou a Igreja e se entregou por ela.” (TEB).
21 NIETZSCHE, 2007, p. 28 (§ 23).
22 MAUPASSANT, 2003, p. 318.


quarta-feira, 11 de julho de 2012




8.




Da carnavalização dos sentidos



Homens incomuns, doutrinas, festas, ritos, livros e lugares sagrados... Esperança, Desejo... falta. A fé religiosa – bem como as doutrinas político-históricas –, qualquer uma, é toda e inteiramente construída sobre tais fundamentos; que apontam para um ou vários fundamentos. A ideia de uma “medida áurea”, uma referência sobre a qual as coisas possam ser sentadas ou medidas como “isto é melhor que aquilo” ou “isto é pior que aquilo”, etc.
Quando Hemingway afirma que “o amor é infinitamente mais duradouro do que o ódio”1, não é de outra afecção que fala senão do amor romântico, reafirmando o seu status ideal, sem considerar as tantas “barreiras” (ou freios) psicológicas que nos foram dadas pela natura, e sem as quais abraçaríamos a barbárie, celebrando-a em favor do nosso desejo, da sua realização. Há, claro, a “força do contrário”; isto é, do desejo do meu querer que esbarra no querer do Outro, mais forte que eu, que não posso enfrentá-lo, e ao qual me submeto – não por alguma ética ou alguma moral, mas pelo próprio instinto de preservação. Sem a agência do intelecto, é coisa comum de ser observada no mundo natural. Aos que têm o intelecto, não. O perdedor ganhou, em sua memória sentimental (ou orgulhosa), a lembrança da conquista malfadada. Por sua feiura, sua fraqueza, sua debilidade... e há sempre alguma. É preciso, em favor da sanidade da mente e do corpo, encontrar um novo objeto a ser conquistado. Novo desejo, O objeto antigo, agora, parece distante; e o antigo desejo, já, transforma-se em repulsa, ou amizade funcional:  Olá! Como vai? Adeus.” A moça era linda e inteligente, mas tinha um defeito terrível: não gostava de mim. Como não consigo me odiar – por não ser o que desejo que ela deseje –, odeio-a, por amor a mim, por amor de mim. 
Acontece que a lembrança é, às vezes, uma “lembrança encobridora” (Deckerinnerung), um “lembrar-se de esquecer”, inconsciente. Algo que se faz, agora, tem a função de apagar o que foi feito, e que não foi bom – mas eu nem percebo isso, simplesmente faço, em obediência a um comendo mental que existe em favor da minha saúde. “Portanto, se quero viver, devo esquecer...” Algo assim, como é dito por Roland Barthes em sua aula inaugural, como professor na cadeira de semiologia literária, no Collége de France.2
Mais que a lembrança, o esquecimento é tão necessário quanto o comer, o respirar, o beber... O “duradouro”, porém – em nossa memória sentimental, na perspectiva romântica ou realista –, permanece. O “duradouro” é a lembrança esquecida daquilo que me fez ser como sou, e está relacionado ao próprio Eu que se lembra, que se esquece; que se lembra de esquecer, que se lembra de lembrar; este Eu do qual não posso, nunca, escapar... a não ser com o suicídio: a única questão filosófica realmente séria: “Só existe um problema filosófico realmente sério: o suicídio. Julgar se a vida vale ou não vale a pena ser vivida é responder à pergunta fundamental da filosofia.3 E, no poema de Emily Dickinson:

Ourself behind ourself, concealed –
Should startle most –
Assassin hid in our Apartment
Be Horror’s least.4 

A questão – da fuga do Eu, desfavorável a mim, por minha “sorte ruim” e sua memória renitente – é colocada por Camus, de cara, logo no início de O mito de Sísifo (1942); é a primeira frase do primeiro parágrafo. Mais adiante, falando dos “muros absurdos”:

Os grandes sentimentos levam consigo o seu universo, esplêndido ou miserável. Iluminam com sua paixão um mundo exclusivo, onde eles encontram seu ambiente. Há um universo do ciúme, da ambição, do egoísmo ou da generosidade. Um universo significa uma metafísica e uma atitude de espírito. O que é verdade para sentimentos já especializados, será ainda mais para emoções cuja base é tão indeterminada, ao mesmo tempo tão confusas e tão “certas”, tão distantes e tão “presentes” quanto aquelas que a beleza nos oferece ou que o absurdo suscita.5

Grandes sentimentos têm a ver, inescapavelmente, com o Eu, e com a sua fé na possibilidade de... um feliz “mais adiante”. Quando não há esperanças (ou um motivo pelo qual a vida valha a pena), a extinção do Eu aparece como remédio (e corresponde, não por acaso, à salvação, no budismo... mas sem a hipótese do suicídio). Em Émile Durkheim, os suicídios são de três tipos: egoísta, altruísta e anômico6. Todos eles, no final, são reações do Eu (consciente) contra o Eu (às vezes inconsciente), contra a sua condição no Mundo. O louco não comete suicídio sem algum lampejo consciente do Eu, na razão – embora o senso comum julgue isso ao contrário. E quando isso não é assim, é o acidente; como a criança que não vê o perigo, e se lança ao abismo.
Quando Seymour, o personagem mais querido de J. D. Salinger, mete uma bala em sua própria cabeça, no final de “Um dia ideal para os peixes-banana”, não há – e essa é a parte mais feliz do conto – um motivo aparente; ele que, antes, parecia tão feliz, brincando e conversando alegremente, na praia, com a pequenina Sybil Carpenter. Em Seymour, Salinger, parece, realiza o que, em vida, nunca ousou: o suicídio. Salinger morreu com 91 anos, “de causas naturais”, em 28 de janeiro de 2010, em sua casa, em New Hampshire, EUA. Noutro conto, “Para Esmé, com amor e sordidez”, Salinger é, muito claramente, o soldado que conversa com a garota:

– Você tem um senso de humor muito apurado, não é? – falou, suspirosa. – Papai dizia que eu não tinha nem um pouco de senso de humor. Que eu estava despreparada para enfrentar a vida porque não tinha senso de humor.
Encarando-a, acendi um cigarro e disse-lhe não acreditar que o senso de humor tivesse qualquer utilidade numa hora de aperto.
– Papai disse que tinha.
Tratava-se de uma afirmação de fé, não de um contra-argumento, por isso resolvi bater rapidamente em retirada.7

O amor é “amor de nada ou de algo” (de um indivíduo por outro, ou por um objeto; do fiel para com o seu deus, ou à sua Ideia), e “é de consigo ter sempre o bem”, como Sócrates afirma, repetindo Diotima8. O amor é a afirmação da fé daquele que ama, e sua confissão objetiva na subjetividade da vontade: o Eu voltado para si.

– Ama o amante o que é belo; que é que ele ama?
– Tê-lo consigo – respondi-lhe.
– Mas essa resposta – dizia-me ela – ainda requer uma pergunta desse tipo: Que terá aquele que ficar com o que belo?
– Absolutamente – expliquei-lhe – eu não podia mais responder-lhe de pronto essa pergunta.
– Mas é, disse ela, como se alguém tivesse mudado a questão e, usando o bom em vez do belo, perguntasse: Vamos, Sócrates, ama o amante o que é bom; o que é que ele ama?
– Tê-lo consigo – respondi-lhe.9

As declarações de amor ou confissões afetivas sobre o Outro, sobre o tanto que eu gosto dele, têm o fito de mantê-lo enquanto objeto de deleite do meu próprio Eu. No “eu te amo” há, intrinsecamente (e inconscientemente): “amo você não por você mesma, mas porque me amo, e encontro em ti o que me satisfez.” Ou seja: a beleza do corpo (propaganda da saúde, para a geração de indivíduos igualmente bonitos e saudáveis), e da alma: empatia, aspirações correspondentes, et cetera. “Não é o que é seu, penso, que cada um estima? A não ser que se chame o bem de próprio e de seu, e o mal de alheio; pois nada mais há que amem os homens senão o bem [deles mesmos]”10. E, antes: “o Amor é amor pelo belo.11” E, depois: “Por isso, quando do belo se aproxima o que está em concepção, aclama-se, e de júbilo transborda, e dá à luz e gera; quando porém é do feio que se aproxima, sombrio e aflito contrai-se, afasta-se, recolhe-se e não gera, mas, retendo o que concebeu, penosamente o carrega. [...] [O amor é] da geração e da parturição no belo.12” O amor desinteressado – o Eu esquecido de si – é ágape, isto é: idealismo. Isto é: nada é. E é: delírio febril da razão, ou metafísica teológica.  
Na Vontade, a beleza do corpo é saúde, garantia de geração saudável – Eros. A valoração do feio – que está relacionado à administração salvífica da graça, na doctrina christiana – é, em Nietzsche, atraso do progresso da espécie, e seu declínio – ágape. Daí a crítica de Nietzsche ao programa cristão, em O anticristo. Maldição ao cristianismo (Der Antichrist. Fluch auf das Christentum), de 1888:

O cristianismo tomou o partido de tudo o que é fraco, baixo, malogrado, transformou em ideal aquilo que contraria os instintos de conservação da vida forte; corrompeu a própria razão das naturezas mais fortes de espírito, ensinando-lhes a perceber como pecaminosos, como enganosos, como tentações os valores supremos do espírito. E exemplo mais lamentável – a corrupção de Pascal, que acreditava na corrupção de sua razão pelo pecado original, quando ela fora corrompida apenas pelo seu cristianismo!13

No amor romântico, como na teologia clássica, “‘Fé’ significa não querer saber o que é verdadeiro”14, pois a fé não duvida, aceita... pela fé. “Onde está o sábio? [...] Onde está o raciocinador deste século? Acaso Deus não tornou louca a sabedoria deste mundo?15” Pela fé, a razão e o realismo são rebaixados, em favor do idealismo... e do carnaval dos sentidos. 
        




1 HEMINGWAY, Ernest. Vida. In: HOTCHNER, A. E. (Ed.). A boa vida segundo Hemingway. São Paulo: Larousse do Brasil, 2008. p. 120. 
2 BARTHES, Roland. Aula. São Paulo: Cultrix, 1996. p. 46. O texto de Barthes, naturalmente, não tem a mesma intenção que o meu – embora não seja dissonante. Aproprio-me do mesmo na intenção de ilustrar o que eu mesmo digo, como licença poética. 
3 CAMUS, Albert. O mito de Sísifo. Rio de Janeiro: Edições BestBolso, 2010. p. 19.
4 “O ‘eu’, por trás de nós oculto, / É muito mais assustador, / E um assassino escondido em nosso quarto, / Dentre os horrores, é o menor.” (DICKINSON, Emily. Poemas escolhidos. Porto Alegre: L&PM, 2007. p. 57. [Col. L&PM Pocket, 436]).
5 CAMUS, 2010, p. 25.
6 DURKHEIM, Émile. O suicídio. Rio de Janeiro: Zahar, 1982.
7 SALINGER, J. D. Para Esmé, com amor e sordidez. In: _____. Nove histórias. 3. ed. Rio de Janeiro: Editora do Autor, [s.d.], p. 86.
8 O banquete, 206 a. PLATÃO. O banquete. In: _____. Diálogos. 2. ed. São Paulo: Abril Cultural, 1983. p. 37. (Col. Os Pensadores).   
9 O banquete, 204 d-e.
10 O banquete, 206 a.
11 O banquete, 204 b.
12 O banquete, 206 d-c.
13 NIETZSCHE, Friedrich. O anticristo: Maldição do cristianismo: Ditirambos de Dionísio. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. p. 12 [§ 5]).
14 NIETZSCHE, 2007, p. 63 (§ 52).
15 Romanos, 1, 20 (TEB). Em grego, o substantivo συζητητής também pode ser traduzido como “debatedor”, “questionador”, “inquiridor”, “perguntador”... Enfim, συζητητής é aquele que, de algo e sobre algo, pergunta, duvida, quer saber; isto é: não aceita somente pela fé. E esse é o motivo da crítica do apóstolo.


domingo, 1 de julho de 2012

7.



Do morrer por amor: um equívoco



No fundo, houve apenas um cristão, e ele morreu na cruz.
O “evangelho” morreu na cruz.

– Friedrich Nietzsche

  
Quando Eco viu Narciso, moço lindo como um Apolo ou um Dionísio, enlouqueceu de paixão. Estava amando. Estava perdida. Por quê? Porque o amor é desejo, e desejo é falta, e falta é sofrimento. É Sócrates quem diz, n’O banquete, de Platão – que reforça: “O que não temos, o que não somos, o que nos falta, eis os objetos do desejo e do amor”1, reaparecendo depois, em Sartre: “O homem é fundamentalmente desejo de ser”, e “desejo é falta.”2
“Todo sofrimento vem do amor e da inclinação [desejo].” Mestre Eckhart ensina3. “Tudo é dor, e toda dor vem do desejo de não sentirmos dor.” É doutrina budista, simplificada na letra de “Quando o sol bater na janela do teu quarto”, de Renato Russo4. Desde cedo somos doutrinados a acreditar que a ausência da dor seja uma felicidade5, e que a verdadeira felicidade é prêmio do amor, resposta positiva ao Amor6. Assim, no que tem de puro e venturoso, o amor mundano é reflexo imperfeito e difuso daquele Outro, supramundano, perfeito e eterno. Mas, alguém pode dizer, “você está confundindo amor com paixão; e amor não é paixão”. É o mesmo alguém que, de tantas certezas quanto à diferença, vacila duvidoso quando procura conceituar o que seja esse mesmo... “amor”, e também a paixão. Quem pensa assim, comum das vezes, garante que amor é coisa divina (e daí procedente), diferentemente da paixão, que é coisa rasteira, cá da terra, dos homens. Tal vício e engodo vêm de longe, e parece que durará para sempre – pois o amor romântico é um ótimo produto para o mercado literário7 e cinematográfico, e para a Indústria Cultural, em seu sentido mais abrangente.
Na segunda das Quatro Nobres Verdades do Budismo, “a causa do sofrimento é o desejo ardente da vida individual”, ou do Eu consciente-individual: “toda a nossa infelicidade decorre de um eterno querer-viver”8. Na lição de Panchadasi, o resultado do desejo realizado, é o retorno ao Eu – e ele não é um lugar feliz: “[O objeto do meu desejo...] Como farei para agarrá-lo? Não o agarre. O que sobra, quando não se agarra mais nada, é o Eu.9” Comte-Sponville cita Bernard Shaw: “Há duas catástrofes na existência: a primeira é quando nossos desejos não são satisfeitos; a segunda é quando são.10” Não há saída. A não ser que não exista mais o Eu... Mas aí, consequentemente, não haveria a minha consciência sobre o prazer ou a dor. No mundo, e somente nele, conhecemos o céu e o inferno: em nossos sentidos, em nossa consciência. Depois é o vazio, o silêncio, o nada (do Eu). Nada de desejo, nada de sofrimento, nada de amor, nada de paixão.
A “paixão” somente surgiu no segundo século, quando o satírico e médio-platônico Lucius Apuleio, no De Deo Socratis, escreveu sobre a possibilidade da alma, e sobre as perturbações que ela sofre, advindas do mundo externo11. Derivado de pati (suportar, sofrer), passio nomeia o πάθος (de onde “patologia”): a afecção acidental que o corpo (ou a alma) suporta. É esse sofrimento que, às vezes insuportável, enlouquece os apaixonados, e os condena. Veja Tristão, Werther, Romeu, Édipo, Pedro Abelardo; veja... Eco. 
Πάσχειν (sofrer) é o estado natural e mais espontâneo do animal que responde aos impulsos da Vontade, obedecendo-lhe cegamente. Na natureza, onde não há o pensamento, tudo é πάσχειν, e o desconhecimento do seu conhecimento, das fontes do πάσχειν. As criaturas ou são levadas pelo impulso que lhes impele ao outro, objetivado – e às falas12 que narram o impulso, no caso das racionais –, ou condicionadas ao impulso cego, à ação irrefletida: pura paixão, pura animalidade. No processo civilizatório, tal animalidade foi domesticada, amansada, tornada servil às ideais superiores, supramundanos. Assim se falseou a realidade (crua) pela ideia de outra verdade melhor que... esta. Autores mais ortodoxos – como Gianni Vattimo, por exemplo – veem tais provocações como coisas perigosas, “tentadoras”, dizem. O realismo: uma tentação.13 
O idealismo foi, desde cedo, o modo mais seguro de mascarar o real, concedendo-lhe o status derivativo de melhor, do mais verdadeiro e, por isso, “menos pior”, menos falso. Feuerbach enxergou tal inversão (“A religião é a cisão do homem consigo mesmo...”)14, e o jovem Marx o seguiu, contra Hegel15; e depois Nietzsche, contra tudo o que representava o espírito cristão16; e depois Unamuno, sumariado por Rubem Alves17; e Thomas Paine, para quem a única Igreja viva e verdadeira era a sua própria mente18; e mais uma plêiade de pensadores que ousaram ir além do idealismo socrático-platônico... E todos eles pagaram, cada qual à sua maneira, pela posição de vanguarda, e do pensamento livre – contra a tirania ideológica de uma “razão”, envenenada, enlameada e entorpecida no vinho santo da santa ceia cristã.
Deus, ao homem de fé, como o amor (do qual ele é fonte19, na teologia cristã), também é objeto20; e sendo desejo, é falta. Não procura Deus aquele que já o tem. Enquanto pre-sença, Deus também é ausência. “É a eternidade do desejo, a imensidão da nostalgia, os espaços sem fim. O Pai nosso quem ora nos céus, onde voam as aves, espaço vazio, pura permissão, ausência. Presença de uma ausência.21” E possível falar de Deus para além da licença poética? Teopoesia. Parece que aí, no misticismo poético, também está a casa do amor romântico: modo enviesado de falar do homem mesmo, colocado de cabeça para baixo. Sim, a relação Deus/Amor, para o cristão, é a relação Desejo/Amor, para Platão, conforme vemos n’O banquete, em que Sócrates reproduz os conceitos de Diotima22. Mas, sendo a fé paradoxal ao pensamento – à Vontade, não –, há conflitos, bem muitos. O pensamento, aplicado à Vontade – que mascarada no ideal romântico –, funciona perfeitamente. É o que nota Comte-Sponville:

Em outras palavras, o amor [romântico] só é salvo pela religião – eis o segredo de Diotima, eis o segredo de Platão: se o amor é falta, sua lógica é sempre tender mais para o que falta, para o que falta cada vez mais, para o que falta absolutamente, que é o Bem (de que o Belo nada mais é que a deslumbrante manifestação), que é a transcendência, que é Deus, e aí se abolir, enfim saciado, enfim apaziguado, enfim morto e feliz! Ainda é amor, se mais nada lhe falta? Não sei. Platão talvez diria que então há apenas a beleza, como Plotino dirá que há apenas o Uno, como os místicos dirão que há apenas Deus... Mas, se Deus não é amor, para que Deus? E do que Deus poderia ter falta?23

não é e nem pode ser argumento (racional), uma vez que, como nota Kierkegaard, é paradoxo: o grande Paradoxo, o Paradoxo Absoluto24. Do “Deus é”, não se pode falar senão como “eu acredito que seja”; e o “não-é” (“eu acredito que ele não seja...”) é o seu contrário. “Deus é definitivamente; o demo é o contrário Dele”, diz Riobaldo, teologizando25. Poesia, literatura romancesca... Na filosofia, porém, não se deve ir a tanto. A fé é o contrário da filosofia, do filosofar – São Paulo e Tertuliano, nisso, são consentes, contra a “fé pensada” da/na Igreja, na Patrística, Idade Média e até hoje. Hoje, porém, não se trata mais do “milagre da fé”, mas do milagre na fé, na invenção de um sentido para os tantos sem sentidos do mundo, do Eu no mundo. O mesmo Eu que, de si, para si, procura apaixonadamente por seus sentidos. Uma tola procura, porém. Mas, quem consegue viver sem alguma paixão?, sem alguma loucura?
No humano, a passio responde ao Eros Vulgar (πάνδημος ἔρως) – não mais que um conceito contra aquela nudez da pulsão (Trieb) primitiva, feia, crua, bruta, “incivilizada” –, efeito de sua causa. Em resposta ao Eros Vulgar, o humano entrega-se àquilo que o atrai, em, pelo mesmo caminho das bestas, resposta à Vontade – em sua voluptuosidade, no entorpecimento dos sentidos. Passio, paixão, passional. Contra os excessos da Vontade, e ainda mais contra tal entorpecimento, a doutrina moral cristã, principalmente, procurou sublimar o conceito de “amor” ao plano do ideal (puro, perfeito, etc.), tratando (ou maquiando) as manifestações eróticas como derivações imperfeitas do perfeito Ágape, por quem (e a partir de quem) deveriam endireitar-se, corrigirem-se, serem mensuradas na matemática do mais ou menos, no verdadeiro, no puro e no bom26. Assim, e pelo enorme sucesso que a doctrina christiana obteve – principalmente do século II em diante –, o Eros Vulgar foi relegado a um plano ainda mais vulgar, inferior.
No Novo Testamento, Eros é preterido, em favor de ágape. O erótico – referente a Eros, divindade pagã da mitologia grega – foi tomado não como alguma boa beleza, e saúde do corpo e da mente (um corpo belo é um corpo saudável, e mens sana, corpore sano), mas como libidinagem pecaminosa, doença da alma, sensualizada, corrompida, etc. Daí não ser estranho que o “hedonismo” epicurista tenha sido, no Ocidente, satanizado; e a eudaimonía (“ter um bom demônio-guardião” junto a si)27, enquanto termo, não soa bem até hoje, aos cristãos menos dados ao pensamento. “Afirmar a bondade do prazer é escândalo no Ocidente”, é Octavio Paz28. E Rubem Alves:

A espiritualidade ocidental foi construída sobre a negação do prazer. As feridas e lacerações que a espiritualidade católica elegeu como objetos de adoração são expressões plásticas desse fato. E o ascetismo e disciplina de trabalho, virtudes supremas do protestantismo, são a sua manifestação racional e moral.29

Mesmo o Eros Celeste (οὐράνιος ἔρως), muito superior ao Vulgar – como aparece n’O banquete, de Platão – não escapou a tal sublimação divinatória; aliás, serviu-a muito bem, com ligeiras e sutis adequações... Como também se fez ao Hades/inferno, à relegio/religião30, à psyché/alma, et cetera. A análise histórico-filológica desses termos mostra a crueza (nada cristã) de seus primeiros sentidos, e utilizações.
Ao se introduzir (e conceituar) o ágape (ἀγάπη) no Novo Testamento, em substituição a Eros (ἔρως), fez-se, muito provavelmente, o maior de todos os desvios conceituais que um termo já teve na Grande História do Ocidente – que estendeu tentáculos etimológicos e filológicos por onde chegou. Ágape: celeste, perfeito, modelo; Eros: mundano, dado aos enganos das paixões, e à corrupção dos sentidos. Por ágape – no qual e pelo qual tudo deveria ser mensurado como bom ou ruim –, era legítimo viver, era legítimo morrer31. O próprio Filho de Deus... que maior e melhor exemplo?32
Acontece que Eros está em tudo e, em tudo e por tudo, manifesta-se – principalmente no inevitável stergein (amor próprio): o combatido egoísmo; que é a perversão de ágape, da sua imagem distorcida, como em um espelho mal polido... o espelho da fé33. Enquanto o ágape recomenda um ideal que resumiria toda a doctrina: “Toda a lei se cumpre numa só palavra, a saber: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo”34, Eros aproxima-se do real: “Não é, com efeito, o que é seu que cada um estima?” É Diotima, perguntando a Sócrates, e respondendo logo em seguida: “Pois nada mais há que amem os homens senão o bem; [...] por amor a si mesmos.35” Para que a “realidade mais real” do amor se manifestasse, porém, foi necessário que se esperasse chegar à segunda metade do século XIX, com o inglês Charles Darwin, o austríaco Sigmund Freud e o alemão Arthur Schopenhauer, principalmente; e, depois desses dois últimos, seus discípulos mais brilhantes, Friedrich Nietzsche, Lou Salomé, e os discípulos dos seus discípulos... muito mais que doze.
O amor mundano (erótico-físico), eles dizem de um modo ou de outro, não é mais que uma resposta à Vontade, para a geração e permanência da espécie humana – pois os amimais não amam (e, logo, não conceituam suas vontades [pulsões] erroneamente) –; e o amor divino, o perfeito e metafísico ágape, não mais que um suspiro do aflito, preso às esperanças; não é mais que, ah!, não é mais que um delírio da razão, ou o seu sono.
Assim, e até aqui: ágape foi uma adequação do Eros Urânio, e um desvio conceitual impetrado contra o Eros Vulgar, que é uma resposta positiva à Vontade – evidenciada no convite que a beleza dos corpos propaga, lançando indivíduos contra indivíduos (na paixão), com a finalidade da cópula, para a geração de espécies saudáveis e igualmente belas –, que foi varrida para debaixo do tapete na sala da sra. Mente Superior, que ordenaria a natureza de forma lógica e dinâmica. Esta Mente Superior, amor perfeito e fonte do perfeito amor (fora do qual outros “amores” são imperfeitos), ordenaria as afecções e as más vontades, premiando-as ou punindo-as. 
Foi assim que, no sentido vulgar do termo, Eco amou a Narciso, que era, por sua vez, metáfora do amour de soi, em seu sentido mais pungente. Era o “amor ao outro” contra o “amor a si mesmo”; esse, fartamente combatido na moral cristã, e normalmente aprisionado em nosso Eu inconsciente, mas sempre muito ativo em nossas maiores ou menores ações. De um modo ou de outro, e como já foi dito, era o Eu encontrando-se com o Eu, mesmo quando equivocado sobre o encontro com o (ou no) Outro. Não poderia haver um final feliz, evidentemente.  
Onde quer que Narciso fosse, Eco o seguia – mesmo que tão somente para ganhar um pálido raio do seu olhar –, arriscando-se. Narciso, no entanto, apenas amava a si mesmo, a sua imagem refletida nas cristalinas águas de uma fonte. Não vendo o seu amor correspondido – pois que os amores nunca são correspondidos, quando confiados à resposta positiva do Outro –, Eco retirou-se para uma caverna, desolada, humilhada. Aí definharia, até o fim. Dela, restaria somente uma voz triste e distante, perdida pelos espaços ermos.
Na mitologia, Eco torna-se a repetição de si-mesma, não sendo a própria, porém. Do mesmo modo é o amor que dizemos sentir por outrem. No amor ao Outro (ou “pelo Outro”), ele não é casa, não é porto e nem destino, mas um abismo do Eu que aponta para o Super-Eu, para um cair-em-mim. No final das contas, e quando penso que o Outro é meu objeto (a quem devo amar, ou amo), vejo-me aqui, em mim mesmo, qual sonâmbulo despertado diante do espelho: reflexo difuso, eco dissonante. O que eu amava no Outro era, afinal, o reflexo de mim mesmo. Daí que, afinal, ninguém morre por ninguém, por amor a esse alguém. Todo morrer de amor, ou por amor, é um morrer por si mesmo, por amor a si. Nada mais egoísta que o morrer por amor.
O “estar preso a alguém”, por isso, é outro equívoco conceitual.
Sim, estou condenado a mim mesmo e ao meu próprio amor – que não posso jamais, e mesmo que desejasse, dispensar a outrem, ao meu “próximo”: ele ou ela.
Descumprir a lei evangélica não é um pecado, é uma inevitabilidade.





1 O banquete, 200 e. PLATÃO. O banquete. In: _____. Diálogos. 2. ed. São Paulo: Abril Cultural, 1983. (Col. Os Pensadores).   
2 SARTRE, Jean-Paul. L’être et néant. Paris: Gallimard, 1969. p. 652.
3 “Portanto”, ele continua, “se sofro por causa de coisas transitórias, a razão disso está em que eu, com meu coração, continuo a amar e pender para [essas mesmas] coisas.” (ECKHART, Mestre. O livro da Divina Consolação e outros textos seletos. 5. ed. Bragança Paulista: Editora Universitária São Francisco, 2005, p. 58. [Col. Pensamento Humano]).
4 RUSSO, Renato. Quando o sol bater na janela do teu quarto. In: Legião Urbana – As quatro estações. São Paulo: EMI Music Brasil Ltda., 1989. 1 disco sonoro. Faixa 4 (3 min 10 s). O próprio Renato, no encarte, confessa: “Todo hotel que se preze tem catálogo telefônico na gaveta perto do telefone e Bíblia. Só teve uma vez que no hotel não tinha nada, outra que em vez da Bíblia era o livro de Mórmon e um belo dia chegamos em... (não me lembro) e o que tinha junto com o TELESP (?) era A doutrina de Buda. Gostei tanto que quis levar um exemplar para casa comigo. (Era um hotel grande, eles deviam ter centenas de doutrinas de Buda). E por algum motivo, em vez de roubar um (levar sem avisar) desci até a recepção e perguntei do livro e eles disseram: tudo bem. Pode levar um com você. [...] Toda parte sobre dor e desejo de ‘Quando o sol’ é do livro.”
5 Como diz Epicuro em sua carta A Meneceu, defendendo sua doutrina: “Quando então dizemos que o fim último é o prazer, não nos referimos aos prazeres intemperantes ou aos que consistem no gozo dos sentidos, como acreditam certas pessoas que ignoram o nosso pensamento, ou não concordam com ele, ou o interpretam erroneamente, mas o prazer que é a ausência de sofrimentos físicos e de perturbações da alma.” (EPICURO. Carta sobre a felicidade (a Meneceu). São Paulo: Editora UNESP, 1997. p. 43). E ninguém duvidaria que, em relação às perturbações da alma, as coisas do amor sejam as que mais se apresentam.
6 É assim em Agostinho, o mestre do ocidente (como é dito por: HIRSHBERGER, Johannes. História da filosofia na Idade Média. 2. ed. São Paulo: Editora Herder, 1966. p. 29.): “Tu nos fizeste para ti, e nosso coração está inquieto enquanto não repousar em ti.” (Conf., I, I,1), e “a vida feliz consiste em sentir alegria junto de ti, vinda de ti, graças a ti: esta é a vida feliz e não há outra.” (Conf., X, XXII,32; AGOSTINHO, Santo. Confissões. Lisboa: Centro de Literatura e Cultura Portuguesa e Brasileira / Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2001. p. 5, 257, respectivamente. [Col. Clássicos da Filosofia]). “Depois de São Paulo”, Le Goff afirma, “Santo Agostinho é o personagem mais importante para a instalação e o desenvolvimento do cristianismo. É o grande professor da Idade Média.” (LE GOFF, Jacques. As raízes medievais da Europa. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 2007. p. 31).
7 Inclusive nas obras que, aparentemente, nada têm a ver com romantismo: de matemática e/ou arquitetura, por exemplos. Em respaldo ao afirmado, nem é preciso grande esforço. Dois livros de Alain de Botton tratam sobre isso, magistralmente. Cf. BOTTON, Alain de. Desejo de status. Rio de Janeiro: Rocco, 2005. 301 p; _____. A arquitetura da felicidade. Rio de Janeiro: Rocco, 2007. 271 p.
8 Cf. ARVON, Henry. O budismo. Lisboa: Publicações Europa-América Ltda., [s.d.]. p. 44-5. (Col. Saber). O Eu é a consciência (do Eu). Se há pleonasmo, aí, é na intenção de facilitar o sentido restrito à percepção imediato-existencial do sujeito pensante, coisa pensante (res cogitans); ou do pensamento que se volta sobre si mesmo: um cérebro em um corpo, do qual se serve e é parte.   
9 Citado em: HUXLEY, Aldous. A filosofia perene. São Paulo: Círculo do Livro, [s.d.]. p. 248. Panchadasi é um livro de textos (organizados em 15 capítulos) de Swâmi Vidyaranya, para esclarecimento e aprofundamento do Vedanta, à semelhança dos Upanishads.
10 COMTE-SPONVILLE, André. A felicidade, desesperadamente. São Paulo: Martins Fontes, 2001. p. 36.
11 Lucius Apuleius foi um escritor Berbere, nascido em Madaura (atual Argélia), por volta de 125, antes de Cristo. Em Cartago, estudou gramática e retórica; e em Atenas, Platão e Aristóteles. Aí, casou-se com Pudentila, uma viúva muito rica. Por isso, e pelos parentes da mesma, foi acusado de utilizar-se de magia para conquista-la. Sua defesa está na Apologia, obra que está conservada até hoje. Ainda jovem, regressou a Cartago, onde morre, por volta de 180.
12 Como demonstrado na empolgada reação do Sargento – na novela de Trevisan –, ao ver Maria, sua ex-namorada, descendo as escadas metida em um minúsculo short, antes de saírem para passear: “Você me atiça. Que boa você assim. Como é gostosa.” (TREVISAN, Dalton. Nem te conto, João. Porto Alegre: L&PM, 2011. p. 107. [Col. L&PM POCKET, 934]). Os itálicos são do próprio autor. 
13 VATTIMO, Gianni. A tentação do realismo. Rio de Janeiro: Lacerda Ed.: Instituto Italiano di Cultura, 2001. 57 p. (Col. Conferências Italianas, 1).
14 “A religião é a cisão do homem consigo mesmo: ele estabelece Deus como um ser anteposto a ele, Deus não é o que o homem é, o homem não é o que Deus é. Deus é o ser infinito, o homem, finito; Deus é perfeito, o homem imperfeito; Deus é eterno, o homem transitório [etc.]. O que deve ser demonstrado é então que esta oposição, que esta cisão entre Deus e homem, com a qual se inicia a religião, é uma cisão do homem com a sua própria essência.” (FEUERBACH, Ludwig. A essência do cristianismo. 2. ed. Campinas, SP: Papirus, 1997. p. 77). 
15 “No que diz respeito à Alemanha, a crítica da religião está, no essencial [com Feuerbach], terminada, e a crítica da religião é a condição preliminar de toda a crítica. [...] O fundamento da crítica irreligiosa é: foi o homem quem fez a religião, não foi a religião que fez o homem. Realmente, a religião é a consciência de si e o sentimento de si que possui o homem que ainda não se encontrou, ou que se tornou a perder. Mas o homem não é um ser abstrato escondido algures fora do mundo. O homem é o mundo do homem, o Estado, a sociedade. Este estado, esta sociedade, produzem a religião, consciência invertida do mundo, porque eles próprios são um mundo invertido.” (MARX, Karl. Crítica da Filosofia do Direito de Hegel. In: _____ & ENGELS, Friedrich. Sobre a religião. Lisboa: Edições 70, 1975. p. 47-8). E, noutra parte: “Até aqui, os homens têm sempre criado representações falsas sobre si próprios, e daquilo que são ou devem ser. Segundo as suas representações de Deus, do homem normal, etc., têm instituído as suas relações. Os filhos da sua cabeça cresceram-lhes acima da cabeça, diante de suas criaturas. Libertemo-los das ficções do cérebro, das ideias, dos dogmas, das essências imaginadas sob cujo jugo se atrofiam.” (MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Do prefácio. In: _____. A ideologia alemã – 1º capítulo, seguido das teses sobre Feuerbach. São Paulo: Centauro Editora, [s.d.]. p. 7).
16 “O espírito puro é a pura mentira... Enquanto o sacerdote, esse negador, caluniador, envenenador profissional da vida, for tido como uma espécie mais elevada de homem, não haverá resposta para a pergunta: que é verdade? Já se colocou a verdade de cabeça para baixo, quando o consciente advogado do nada e da negação é tido como representante da ‘verdade’.” (NIETZSCHE, Friedrich. O anticristo: Maldição do cristianismo: Ditirambos de Dionísio. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. p. 15 [§ 8]). E: “– Volto atrás, conto agora a história genuína do cristianismo. – Já a palavra ‘cristianismo’ é um mal-entendido – no fundo, houve apenas um cristão, e ele morreu na cruz. O ‘evangelho’ morreu na cruz.” (NIETZSCHE, 2007, p. 45 [§ 39]). E: “‘Fé’ significa não querer saber o que é verdadeiro.” (NIETZSCHE, 2007, p. 63 [§ 52]). E, por fim, mas não finalmente, Nietzsche fala da tensão (político-biológico-moral) que o Ocidente europeu herdou da corrupção do socratismo-platônico, através do movimento cristão, e da sua “luta contra Platão, ou, para dizer dizê-lo de modo mais simples e para o ‘povo’, [d]a luta contra a pressão cristã-eclesiástica de milênios – pois o cristianismo é platonismo para o ‘povo’ – [que] produziu na Europa uma magnifica tensão do espírito, como até então não havia na terra.” (NIETZSCHE, Friedrich. Prólogo. In: Além do bem e do mal: prelúdio a uma filosofia do futuro. 2. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. p. 8. As ênfases são minhas).
17 “Nossos deuses são nossos desejos projetados até os confins do universo. [...] Os deuses das flores são flores. Os deuses das lagartas são lagartas. Os deuses dos cordeiros são cordeiros. Os deuses dos tigres são tigres...” (ALVES, Rubem. Da esperança. Campinas: Papirus, 1987. p. 18).
18 “Minha mente é a minha igreja.” (PAINE, Thomas. The Age of Reason. London: Forgotten Books, 1884. p. 18). Publicado em 1794, The Age of Reason foi interpretado como literatura ateísta, tornando seu autor uma figura muito mal vista, principalmente entre os fundamentalistas americanos, e nos círculos de radicais e livres pensadores. Em 1802, numa viagem que faz aos Estados Unidos, a imprensa federalista anunciou-o como “réptil asqueroso”, “besta semi-humana”, dentre outros impropérios. E, conforme Philip Foner – editor moderno das obras completas de Paine, The complete writtings of Thomas Paine, 1945 (2 v.) –, “... sua morte não foi virtualmente noticiada na imprensa Americana.”
19 Como na pena de João: “Caríssimos, amemo-nos uns aos outros, pois o amor vem de Deus; e todo aquele que ama nasceu de Deus e chega ao conhecimento de Deus.” (I João, 4, 7; TEB. Ênfase minha).
20 De desejo, enquanto objeto (objetivo) a ser alcançado.
21 ALVES, Rubem. Da esperança. Campinas: Papirus, 1987. p. 43.
22 O amor, escreve Platão, “ama aquilo que lhe falta, e que não possui” (Ban., 201 b).
23 COMTE-SPONVILLE, André. Amor. In: _____. Pequeno tratado das grandes virtudes. São Paulo: Martins Fontes, 1997. p. 256. (Col. Mesmo que o céu não exista).
24 Exemplificado, por ele, na doutrina da Encarnação do Verbo, “que exige que acreditemos que existe um momento em que o eterno entra na esfera temporal, assumindo as limitações da existência finita, e isso parece envolver uma impossibilidade manifesta, algo que não pode ser acomodado aos limites do pensamento e da compreensão humanos.” (GARDINER, Patrick. Kierkegaard. São Paulo: Edições Loyola, 2001. p. 81 [Col. Mestres do Pensar]). “Nesse caso a Fé não é tão paradoxal quanto o Paradoxo? Precisamente; de que outra forma ela poderia ter o Paradoxo como seu objeto e ser feliz em sua relação com o Paradoxo? A Fé é um milagre em si mesma, e tudo o que é verdadeiro para o Paradoxo também é para a Fé” (KIERKEGAARD, Sören A. Philosophical fragments. New York: Harper and Row, 1962. [Frag. 81]).  
25 ROSA, João Guimarães. Grande sertão: veredas. 19. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001. p. 58.
26 “A Bíblia não trata dos temas do sexo ou do Éros. Isto não significa que os mesmos sejam excluídos ou descuidados. Pelo contrário, a sã sexualidade, atuada na reta ordem (matrimônio), é claramente reconhecida como dom do Criador. [...] Também o Novo Testamento não é inimigo do sexo ou do matrimônio, ainda que considere a virgindade como um caminho de vida mais excelente. Longe disto, é justamente no matrimônio que se realiza o ‘grande mistério’ que tem seu fundamento típico na comunidade ‘esponsal’ de Cristo com a Igreja (Ef 5, 32), de maneira que também o matrimônio adquire um caráter sagrado. Certamente, não é tanto o amor natural em seu valor próprio ou enquanto ligado a esta terra que é aprovado, mas aquele que é redimido, renovado, purificado e ‘levado à plenitude’ pelo ágape, ou seja, por Deus em sua ação na História.” (WARNACH, V. Amor. In: VV.AA. Dicionário de teologia: conceitos fundamentais da teologia atual. 2. ed. São Paulo: Loyola, 1983. p. 66. v. 1. As ênfases são minhas).    
27 Trato melhor sobre o tema em meu artigo sobre O tema da eudaimonía... Cf. SALES, Antonio Patativa de. O tema da ΕΥΔΑΙΜΟΝΙΑ na carta de Epicuro A Meneceu. In: Revista Ágora filosófica: pensamento Antigo-Tardio e Medieval. Recife: Fundação Antônio dos Santos Abranches – FASA. v. 2, n. 2, p. 21-32, 2004.
28 PAZ, Octavio. Los hijos del limo. Madri: Planeta Editorial, 1996. p. 106.
29 ALVES, Rubem. Variações sobre o prazer: Santo Agostinho, Nietzsche, Marx e Babette. São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2011. p. 83. Em uma nota, Alves diz mais: “Como é bem sabido, segundo Max Weber, o ascetismo intramundano do protestantismo calvinista e a disciplina de trabalho constituíram a essência do espírito do qual o capitalismo nasceu. Me pergunto se essa ideia não lhe veio da leitura dos Manuscritos econômico-filosóficos de 1844, de Marx.” (ALVES, 2011. p. 83).
30 Nesse particular, e para que se veja a corrupção do termo e sua adequação à mensagem do movimento cristão, nos séculos I e II: SACHOT, Maurice. A invenção do Cristo: gênese de uma religião. São Paulo: Loyola, 2004. p. 133-50. (Col. Bíblica Loyola, 40).
31 Veja Tristão, Alceste, Werther, Romeu, Édipo... veja o Cristo.
32 “Maridos, amai [ἀγαπάτε] as vossas mulheres como Cristo amou [ἠγάπησεν] a Igreja e se entregou [morreu] por ela.” (Efésios 5, 25; TEB).
33 Após fazer o elogio ao ágape, Paulo confessa que, sobre ele, “agora [na temporalidade], vemos em espelho e de modo confuso; mas então [pela fé, e na eternidade], será face a face.” (I Coríntios, 13, 12; TEB).
34 Gálatas 5, 14; que subscreve Levíticos 19, 18. No Novo Testamento, a ordenança (de amar – como se pode amar em obediência a uma ordem?) aparece em várias partes: Mateus 19, 19; 22, 39; Marcos 12, 31; Lucas 10, 27; Romanos 13, 9; Tiago 2, 8, etc.  
35 O banquete, 206 a.


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