segunda-feira, 23 de abril de 2012


60.






De quando a flor tem um nome




Dizem que ele andava apaixonado e, pelo campo, antes de chegar à casa da moça, colheu as flores que lhe daria.
Era um dia de sol claro e bom, e a terra parecia respirar sossegada das guerras, da fome e das tristezas que assolam os continentes. Tudo estava em seu lugar, como deveria sempre ser.
Ele nem chegou à varanda e ela, vendo-o, saiu correndo para encontrá-lo, apressada em obedecer aos impulsos do seu coração enamorado; rindo feliz à luz do dia azul e ao sopro leve de uma brisa primaveril muito perfumada.
Ele escondeu o ramalhete de flores atrás de si e esperou que ela lhe alcançasse, hipnotizado com a sua beleza, olhando-a deslizar sobre a relva respingada de belas-emílias. Ela notou seu gracejo apaixonado e parou no meio do caminho, para que ele também fosse ao seu encontro e, enfim, pudessem trocar abraços e beijos, e passear pelo campo.
Vencido pelo desejo, ele atendeu à sua solicitação silenciosa, e mais que depressa saiu ao encontro dela, que era a flor mais linda de todas aquelas paragens. Mas...
... nem ao menos deu sete passos e, infeliz, sentiu o chão ceder sob seus pés, despencando na ribanceira amolecida nas águas do rio que ficava entre o bosque e a casa dela. Agarrou-se como pode em uma raiz protuberante, mas a correnteza o arrastava. Não conseguia largar o ramalhete de flores que era dela, que correu para ajudá-lo, mas sem nada poder fazer. Aos prantos, gritou por socorro; mas os homens haviam saído ou para o campo ou para a cidade, e a sua velha mãe não poderia fazer nada, infelizmente. Ele pediu que ela agarrasse as flores que ele iria jogar. Assim, dizia, poderia ficar com a mão livre e, se Deus a ajudasse, sair a salvo dali. Quando tomou impulso para lançar as flores, coisa que conseguiu, a pequenina raiz em que ele agarra-se partiu. Com as flores nas mãos, e chorando, ela ouviu quando ele implorou:
– Vergis mein nitcht...
... que, na língua do moço, em alemão, queria dizer: “não te esqueças de mim”.
Sem conseguir ouvir direito, pelo barulho das águas e pelo canto feliz dos passarinhos, ela pensou ter ouvido apenas “miosótis”, e julgou que ele dizia o nome das flores que lhe presenteara. Nunca mais veria o rosto alegre do seu amado..  
* * * * *
E é por isso que até hoje, e mesmo que a moça não tenha compreendido, o miosótis é conhecido como “não-te-esqueças-de-mim”, ou “não-me-esqueças”. Além de ser recomendado contra a depressão pós-parto, e àqueles que tenham perdido o gosto pela vida, ou um ente querido que se foi e que jamais voltará.




sexta-feira, 20 de abril de 2012

59.






Da paixão do socialismo e outros ismos que amam mais...



Devidamente acomodado em minha poltrona, saquei da mochila um exemplar d’A paixão do socialismo & outras histórias, de Jack London, publicado pela L&PM. A senhora gorda, no banco ao meu lado, no outro lado do corredor do avião, parecia capaz de dar o braço direito para ver o que eu estava lendo. “Mas é curiosa a criatura!”, pensei, disfarçando não ver a risível cena de contorcionismo. Como se não me desse por conta, deixei que ela visse de uma vez a capa do livrinho, enquanto eu fingia ler a contracapa:

Então, voltei à classe operária, na qual havia nascido e à qual pertencia. Não me preocupava mais em subir. O imponente edifício da sociedade não guarda delícias para mim acima da minha cabeça. São os alicerces do edifício que me interessam. Lá, eu estou contente de trabalhar, de ferramenta na mão, ombro a ombro com intelectuais, idealistas e operários com consciência de classe, reunindo uma força sólida agora para mais uma vez pôr o edifício inteiro a balançar. Algum dia, quando tivermos poucas mãos e alavancas a mais para trabalhar, vamos derrubá-lo, com toda sua vida em putrefação e sua morte insepulta, seu egoísmo monstruoso e seu materialismo estúpido. Então vamos limpar os porões e construir uma nova moradia para a espécie humana, onde não haverá andar de luxo, na qual todos os quartos serão claros e arejados, e onde o ar para respirar será limpo, nobre e vivo. 

Acabei relendo todo o texto, e lembrando que foi por causa dele que, em 1997, ano em que essa versão foi lançada, comprei a referida, que é de uma coisa assim meio... beat, meio “sei lá o quê”. “Negócio lindo da porra!”, eu pensava. Como me tornei socialista e A paixão do socialismo são dois ensaios, e o relato mais vívido e fiel que o autor de O chamado da floresta já produziu, e são uma delícia. Em De vagões e vagabundos, que é um conto, London ensina como você podia se infiltrar clandestinamente nos trens que atravessavam o país; é praticamente um manual de como fazê-lo. É ainda um relato muito vivo de como os vagabundos e os viajantes clandestinos eram tratados pelos guardas e fiscais das estações. Há uma cena de Na natureza selvagem (Into the wild, 2007), filme de Sean Penn, em que Chris McCandless (interpretado por Emile Hirsch) experimenta esse tratamento – ele que era leitor de Jack London. Eu não tinha dúvida: A paixão do socialismo & outras histórias era o melhor de todos os livros que eu já havia lido, de Jack London.
Sem se fazer de rogada, e exibindo a sua verve de leitora exemplar, a senhora gorda sacou de sua bolsa grande e dourada um exemplar de Tempo de esperas (Editora Planeta, 2011), do padre Fábio de Melo. Impressionou-me o fato de ela não largar o livro – coisa que fiz, depois de umas 6 ou 7 páginas – até que chegássemos ao Aeroporto Internacional de Brasília, onde nos separamos pela conexão. Na noite do mesmo dia vi uma citação de uma reflexão do mesmo padre, elogiada como coisa muito inspirada e muito profunda.

Só dê ouvidos a quem te ama. Outras opiniões, se não fundamentadas no amor, podem representar perigo. Tem gente que vive dando palpite na vida dos outros. O faz porque não é capaz de viver bem a sua própria vida. É especialista em receitas mágicas de felicidade, de realização, mas quando precisa fazer a receita dar certo na sua própria história, fracassa.
Tem gente que gosta de fazer da vida alheia a pauta principal de seus assuntos. Tem solução para todos os problemas da humanidade, menos para os seus. Dá conselhos, propõe soluções, articula, multiplica, subtrai, faz de tudo para que o outro faça o que ele quer.
Só dê ouvidos a quem te ama, repito.

São os três primeiros parágrafos de Só dê ouvidos a quem te ama1. O padre Fábio mantém uma coluna no site da Comunidade Canção Nova, da qual faz parte, encompridando a fila dos textos fúteis de autoajuda espiritual, cafonice piegas e senso comum barato. Nela, ele é apresentado como professor em curso de teologia, cantor, compositor, escritor e apresentador do programa “Direção espiritual”, na TV Canção Nova2. Lembrei na hora de algo que eu havia lido em Stendhal. Algo que, embora também imerso no romantismo idealista, era menos delirante, pelo menos: “No meio de operações tão enganosas para o desejo da felicidade, a cabeça se perde”, ele diz; e completa: “A partir do momento em que ama, o homem mais sábio já não vê nenhum objeto tal como é. Ele exagera para menos suas próprias vantagens e para mais ao menores favores do objeto amado3.” A ênfase, em itálico, é do próprio Stendhal. Ele, em uma nota de rodapé ao que aí afirma, e referindo-se ao sentimento romanesco (de wayward) na literatura francesa do século XVIII e anterior, se lança para o futuro, em um século.

Há uma causa física, um início de loucura, uma afluência do sangue ao cérebro, uma desordem nos nervos e no centro cerebral. Ver a coragem efêmera dos cervos e a cor dos pensamentos de um soprano. Em 1922 [o De l’amour foi escrito entre 1820/22], a fisiologia nos dará a descrição da parte física deste fenômeno.4

O autor antevê a explicação mecânica do amor-gosto – referindo-se ao romanesco, presente na obra de autores como Crébillon, Lauzum, Duclos, Marmontel, Chamfort, madame d’Épinay, etc. –, que desnuda a dependência confiante nos sentidos, na tirania da afecção, elucidada à força da razão, contra o sentimento confiante da/na primeira infância do amor-paixão. Sim, pois o amor romântico, diferentemente disso, é semelhante à fé, que não tem – e nem pode – argumentos. Para Esmé, com amor e sordidez, é conto de J. D. Salinger. Nele, um soldado americano de passagem pela Inglaterra, prestes a embarcar para o Dia-D, narra a sua conversa com a menina que dá nome ao conto:

Esmé lançou um olhar demorado, vagamente clínico.
- Você tem um senso de humor muito apurado, não é? - falou, suspirosa. - Papai dizia que eu não tinha nem um pouco de senso de humor. Que eu estava despreparada para enfrentar a vida porque não tinha senso de humor.
Encarando-a, acendi um cigarro e disse-lhe não acreditar que o senso de humor tivesse qualquer utilidade numa hora de aperto.
- Papai disse que tinha.
Tratava-se de uma afirmação de fé, não de um contra-argumento, por isso resolvi bater rapidamente em retirada.5


Como as afirmações da fé, as afirmações do amante ao seu objeto são comprometidas por uma nuvem sentimental. Essa, em seu pensamento, produz o mesmo resultado que a fé, ao seu coração: obnubila o real, em favor da fantasia, nas atribuições que estão fundamentadas unicamente no desejo (ou no delírio) de uma felicidade referida ao próprio objeto, ao qual se prende – e pensa-o externo a si. É um equívoco pensar assim. Não há liberdade no amor romântico, somente prisões.
Amar é achar-se preso ao objeto amado, e querer continuar preso a ele, por “vontade própria” – como diz Camões, imitando os versos de Petrarca, pedra fundamental da poesia lírica italiana. A sã consciência não desejaria, jamais, qualquer prisão. O que ama, porém, não tem sã consciência: nem sabe disso, nem deseja compreender e menos ainda pagar o preço de tão dura, fria e pura “liberdade”. Passarinho que cresce em gaiola, se solto, morre. Onde há amor, não há liberdade.
Noutra meditação – A diferença entre amar e estar apegado6 –, o padre Fábio é de opinião contrária a minha: “O amor nos dá aquele sentimento de liberdade, enquanto que o apego nos aprisiona e pensamos que as pessoas devem agir da forma que queremos. O amor é livre! Quando estou apegado a alguém ou a alguma realidade, eu faço do outro meu escravo”, ele afirma.
O “apego”, se levamos mesmo a razão a sério, é somente uma forma vaga de falar livremente sobre um aspecto raso do amour de soi, que é o que há, o que mais há, e o que nós, seres humanos – cheios de fé ou de ceticismos – podemos ter, conhecer. Os “outros amores” não são mais que idealismos romantizados, credulidade infantil, extravagâncias metafísicas. No “Código de amor no século XII”, transcrito no De l’amour, de Stendhal, a regra 9 é a afirmação de que: “Ninguém pode amar se não é levado pela persuasão de amor (pela esperança de ser amado)7.” É o mesmíssimo estado de graça que é encontrado na fé religiosa (cristã): estado de dependência, de prisão: “Nenhum homem pode amar a Deus sem que ele, antes, por sua graça, o ame primeiro e, pelo seu Espírito, persuada a que este, receptor da graça, também o ame.” Assim, do mesmo modo que alguém diz: “Deus me libertou”, poderia também dizer: “Deus me prendeu, tornando-me um servo seu”, ou ainda: “Estou preso à fé, à minha fé, que me foi dada por Deus, e pela qual creio que sou livre.” Equívocos de equívocos! Os juízos sobre tais questões são sempre melindrosos, principalmente porque não partem de uma mente sã, isto é: desapaixonada. “Toda ação do amante termina em pensar na pessoa amada.” É, novamente, o código8.
Foi o amour de soi (amor ao conforto de crer sem refletir com critérios, e com lógica; amor ao direito de voltar logo para casa, com uns trocados no bolso; amor às próprias opiniões, por preguiça de procurar a verdade, etc.) que levou os 360 jurados – de um grupo de 500 – do Tribunal de Heliéia a condenarem Sócrates (em 399 a.C.),  “o mais corajoso, o mais sábio e o mais íntegro de todos os homens”, nas palavras de Fédon9.
Foi o amour de soi (o amor à segurança que as tradições parecem oferecer; o amor à fé que não exige reflexão dura e criteriosa, com lógica; o amor à leveza do depois de depois da cólera; o amor às convicções de líderes que se afirmam portadores das verdades inegociáveis, etc.) que levou a multidão, diante de Pilatos, conforme o evangelista, preterir o Cristo, entregando-o à cruz, e fazendo o próprio Pilatos confessar: “Estou inocente do sague deste justo. Que a culpa da morte dele seja vossa.10”
A multidão dos gregos, a multidão dos judeus, a multidão dos erros, nos erros...
Não é que as opiniões do senso comum estejam sempre erradas. São as minorias que comandam as maiorias, e as minorias podem estar equivocadas, ou com más intenções, ou compradas. O fato de o senso comum gozar de grande aceitação não lhe garante legitimidade, nem validez inquestionável; nem de longe. Aqueles que discordam das multidões, também, nem sempre têm razão. Nas coisas do amor, por exemplo, poucos são os que subscrevem as teses de Freud ou Schopenhauer, e quando às conhece: julgando-as ou lascivas, ou pessimistas, ou equivocadas ou “outras coisas”. Subscrever talvez não seja, aí, a melhor palavra – pois pode dar a entender uma aceitação sem critérios; o que não é o caso, realmente. Esses dois pensadores, no entanto, foram os que mais compreenderam o papel da Vontade (ou da Pulsão) na vida das criaturas. E a ação da Vontade (ou a Pulsão) que foi maquiada com os mais diversos nomes11, todos eles enraizados em algum floreio que terminava no Amor12, e esse sempre querendo ir muito mais além do que as asas de Cupido (pequenas demais para alçarem voo) poderiam oferecer. Preso ao chão, ligado à terra, o amor (qualquer que seja o nome que você dê a ele) é daí, vem daí e aí morre. É como eu já disse no miniconto aí atrás, o De l’amour (que tomei emprestado de Stendhal): ideias fazem amor, e pessoas fazem sexo.
Falando nisso, agora mesmo escuto os gemidos “de amor” da garota que faz sexo aqui no apartamento logo acima do meu. Deus!, como ela grita! Meu último pensamento: “Esses danados deveriam aprender a trepar mais baixo. Isso atrapalha a concentração de qualquer vivente.”






1 Disponível em: <http://pensador.uol.com.br/autor/padre_fabio_de_melo/> Acesso em: 19 de abr. 2012. 
3 STENDHAL. Do amor. Porto Alegre: L&PM, 2011. p. 29-30. (Col. L&PM Pocket).
4 STENDHAL, 2011. p. 30.
5 SALINGER, J. D. Para Esmé, com amor e sordidez. In: _____. Nove histórias. 3. ed. Rio de Janeiro: Editora do Autor, [s.d.], p. 86.
7 Amare nemo potest, nisi qui amoris suasione compellitur. (Cod., regra 9, fl. 103). STENDHAL, 2011. p. 257.
8 Quilibet amantis actus in coamantis cogitatione finitur. (Cod., regra 34, fl. 103). STENDHAL, 2011. p. 257.
9 PLATÃO. Fédon, 117e-118c. “Os jurados que ocupavam os bancos do Tribunal de Heliéia não eram especialistas. Entre eles havia um número insólito de velhos e feridos de guerra que recorriam àquele tipo de trabalho como um meio fácil de conseguir uma renda extra. O salário era de três óbolos por dia, quantia menor que a recebida por um trabalhador braçal, mas representava uma boa ajuda para aqueles que já contavam 63 anos de vida e estavam entediados. Os únicos requisitos eram cidadania, sanidade mental e ausência de dívidas – embora a sanidade mental não fosse avaliada segundo os critérios socráticos; bastava demonstrar ser capaz de andar em linha reta e saber dizer o próprio nome quando fosse requisitado. Os membros do júri cochilavam durante os julgamentos, raramente possuíam qualquer experiência em casos semelhantes ou leis que fossem relevantes e não recebiam qualquer orientação sobre como chegar a um veredito.” (DE BOTTON, Alain. As consolações da filosofia. Rio de Janeiro: Rocco, 2001. p. 44).
10 Mat., 27, 24.
11 Inclusive o de “moral”, candura, retidão, limpidez, etc.
12 Não mais o Eros, naturalmente. A “redenção” de Eros se deu – no idealismo moral cristão – através do ágape, que doma as paixões carnais, medindo-as e ajustando-as ao equilíbrio equânime (ou à medida) do Bem e do bom, conforme a ortodoxia da doctrina christiana, e segundo as Escrituras.  

terça-feira, 17 de abril de 2012


58.





Do encontro inusitado



Não dependendo da lógica ou da razão, o amor romântico pode surgir nas horas mais inesperadas, e dos modos mais inusitados. Foi assim com Thiago e Carlos Mateus.
Em um cruzamento na Epitácio, que dá para a Torre, o carro de Thiago foi de encontro ao de Carlos, provocando um pequenino acidente. Thiago ficou muito nervoso:
– A culpa é sua, cara! Tá sabendo, né? – Dizia assim ao sair do carro, falando alto e com o corpo trêmulo.
– Aiii, criatura! Calmaaa! Eu me entrego.
Ele achou estranho esse modo de responder, mas não disse nada além de:
– Meu pai vai me matar! Ai, caralho! Meu pai vai me matar!
– Se somente o amor constrói, porque ele haveria de destruir o objeto do seu amor? – Carlos lhe disse, numa calma que não tinha tamanho.
Thiago, apesar do nervosismo e de tudo o mais, não conseguiu disfarçar o pequenino sorriso, quando perguntou:
– Cara! Que negócio é esse que tu tá usando, hem? Quero também.
Riram risos tímidos. E as poucas pessoas que observavam a cena, curiosas, duvidavam do que viam. “Duas bichas loucas”, talvez pensassem.
O seguro, Carlos dizia, se encarregaria dos trâmites legais da coisa toda. Trocaram telefones para tratarem sobre o ocorrido, no que fosse preciso. Encontraram-se no dia seguinte. Descobriram que era boa a companhia um do outro, e para o outro. Marcaram coisas para depois do depois. Estavam felizes, estranhamente felizes. Trocaram o primeiro beijo durante uma sessão de cinema, no Manaíra Shopping, durante uma cena de Igual a tudo na vida, de Woody Allen. 
* * * * *  
Agora distam três anos do acidente. Estão juntos há dois anos e meio. Dividem um apartamento e uma cama no Bairro dos Estados, e esperam notícias boas para o próximo verão – o resultado negativo do screening do câncer de cólon que, infelizmente, parece que Carlos tem.  



  

segunda-feira, 16 de abril de 2012

57.





De l’amour



Na primeira vez que li Do amor (De l’amour, escrito em 1820 e publicado em 1822), de Stendhal, Fernanda, uma amiga querida, pensando que se tratava de um romance, perguntou:
– Como é a história?
– Não tem história, Fernandinha – respondi.
– Ué!?
– São textos e análises sobre o amor no Ocidente, de todas as maneiras que, parece, o autor conseguiu tratar.
– Humm. É tu gosta dele?, concorda com ele?
– Gostar, gosto. Concordar, não é bem algo que se concorde ou deixe de concordar, mas...
– Ué!?
– É que Stendhal quase consegue ser mais platônico que o próprio Platão. Suas teses, divagações, digressões, analogias, metáforas, anedotas, máximas, mínimas, fragmentos, os conceitos, as notas e todas as comparações entre as manifestações do amor aqui e acolá, sucumbem sob uma única e impiedosa constatação que faço a máxima das minhas máximas, contra tudo e contra todos que, iludidos pela farsa dos idealismos milenares, sublimam as afecções da alma, romantizando o espírito da corte: ideias fazem amor, pessoas fazem sexo.
– Humm.
E ficou nisso.  



domingo, 15 de abril de 2012

56.





Do “amor ao próximo”, e como exercê-lo



Estou na rodoviária de João Pessoa, em uma fila. Devo comprar uma passagem para o ônibus que sai às 18:30, para Campina Grande.
Assim que cheguei fui abordado por um homem de aspecto bastante cansado. “A vida não foi generosa com esse cidadão”, pensei. Ele, na fila, olha para mim e diz que faz transporte alternativo de João Pessoa à Campina, e que, se eu quiser ir com ele, é o mesmo preço do ônibus, e somente falta mais um passageiro para completar a lotação. Agradeço e digo que vou de ônibus mesmo. Lembro-me de que, em outras vezes que tive de ir assim, os motoristas ligavam o som do carro muito alto, tocando essas bandas que fazem “forró estilizado”, como dizem alguns que tentam fugir da alcunha pejorativa de “forró de plástico”. Fico feliz de ter passagens e a fila não estar muito grande. É uma fila única.
Uma mulher, segurando uma mochila em uma mão e uma marmita na outra, chega logo depois de mim. “Será que ainda tem para as seis, hem?” “Acho que não, senhora. Para as seis e trinta, deve ter”, respondo. O homem da lotação lhe faz a mesma proposta. Mas ela, também, diz que prefere ir de ônibus e, de todo modo, precisa aguardar o filho que logo deve chegar para ir com ela. O homem se afasta, procurando os dois passageiros que faltam.
– Não gosto de ir de alternativo. – Ela me diz. Concordo.
– E alguns são bem irresponsáveis, e mal educados. – Digo. Ela concorda com um sorriso amistoso.
Não demora nada e chega outra mulher. O cabelo dela é curto, estaqueado e precariamente pintado de louro, com a raiz visivelmente enegrecida. É a segunda na fila, depois de mim. Até aí havia dois vendedores nos guichês; agora, somente um. A primeira pessoa da fila, embora o atendimento esteja agora à sua direita, permanece imóvel, com sua cara de Gioconda espelhada no vidro do guichê fechado. A fila inteira se mantém assim, uma pessoa atrás da outra, e todas atrás dessa primeira. Em sinal de inconformismo, mudo de lugar, como se houvesse uma fila invisível entre o guichê e eu. Outros me seguem. Daí a pouco todos notam o movimento da fila e, agora, estão posicionados em frente ao guichê aberto.  
Alguém me cutuca as costas. Olho para trás. É a senhora que não gosta de andar de lotação.
– Licença, moço. O sr. pode levantar o pé? É que...
Olhei para o chão e vi que estava pisando sobre sua sandália, de couro, muito fina. Se ela não dissesse nada, juro que não teria notado. O meu sorriso se acompanhou de um “opa!, me desculpe; eu não percebi.” Ela riu também, como a dizer que “está tudo bem”. Foi aí que eu notei que a outra mulher, que estava atrás dessa, a de cabelos mal pintados, agora estava bem a minha frente. Tive vontade de perguntar bem alto a todos da fila: “Mais alguém que tomar o meu lugar?, quer furar a fila?” Não disse nada. Mas me irritou profundamente o fato de essa mesma criatura, na hora de comprar a passagem, dizer que “é para as oito horas, moço”, e ainda estar toda atrapalhada com o cartão de crédito, sem saber qual é a senha e tendo de fazer ligações não sei para quem para que este Não Sei Quem lhe dissesse qual era a sua senha. Finalmente ela conseguiu, e se afastou sem olhar para trás.
– Ela passou à nossa frente, não foi? – A mulher da sandália de couro me pergunta, para confirmar ao filho que realmente era isso que havia ocorrido.
– Pois é. – Respondo – E ainda mais para comprar uma passagem somente para às 20:00.
Passagem comprada, disponho ainda de algum tempo antes de partir. Vou a uma banca de revistas que há no piso superior, lá bem à esquerda. Compro um exemplar de Do amor (L&PM, 2011), livro de Stendhal, escrito em 1820, depois de sua frustrada paixão por Matilde Dembowski, uma milanesa que arrasou o seu coração – é só ler o referido livro que, mesmo a alma mais desatenciosa, nota-o. Publicado em 1822, o Do amor faz referência às cortes de amor: “Houve cortes de amor, na França, entre os anos 1150 e 1200. Eis o que se encontra provado. Provavelmente a existência de cortes de amor remonta a uma época bastante anterior.” E por esse período que, conforme nota Stendhal, surge o amor cortês, o cortejar a mulher amada, o romance na corte. “Quantos livros será que eu já tive e estou tendo de comprar novamente?”, me pergunto, lembrando-me de todos os livros que, meus, foram perdidos pelo meu irmão, em sua mudança de São Paulo para Vinhedo. Eu precisava readquirir este livro, se quisesse ser respeitado nos juízos que faço sobre o amor, como venho fazendo neste meu Grande livro do amor. Stendhal foi, desde cedo, e para ele, minha principal referência – se não nas ideias, na estética. Folheei o livro por alguns instantes, até a hora de embarcar.
Ainda no guichê, notei que quase não havia mais assentos à janela. Comprei a poltrona 47, uma das duas que restavam. Quando embarquei, vi que havia uma garota ocupando a referida poltrona, conversando alegremente com outra, sentada ao seu lado. Depois de guardar a mochila, olhei para ela, dizendo: “Com licença. Parece que essa cadeira é minha.” Ela me apontou com olhos as duas cadeiras mais atrás, na outra fila, uma delas ocupado por um senhor de bigodes grisalhos e rosto sereno.
– Tu se incomoda de sentar nessa daí? É que eu e ela...
– Me incomodo, sim. – Interrompi as suas explicações.
– Ok! – Ela levantou e foi para o seu lugar, como tinha de ser. Não me disse mais nada e, parece, também não tinha nada de importante a conversar com outra. Trocaram duas ou três palavras e, ela mesma, ao meu lado, ficou ouvindo música, com fones enfiados em seus ouvidos. Sentei em meu canto e tentei inclinar o banco o tanto que pudesse. “Tomara que eu consiga dormir logo”, pensei. E não preciso dizer que, por toda a viagem, ninguém mais me incomodou.
O melhor do amor ao próximo se resume nisto: não incomodá-lo.



quarta-feira, 11 de abril de 2012

55.






Da estupidez do estúpido



Um homem vendia vasos na praça, e os anunciava como os melhores e mais bem acabados de todos os tempos, em todo o mundo. “Verdadeiras obras de arte”, dizia.
– Às vezes quero rir do tolo, o deslumbrado sobre si e sobre a sua obra, considerada superior a todas as outras, menores. Mas, não! Deixemos o tolo em seu lugar; digo a mim mesmo. Afinal, também o louco carece da sua loucura. Quanto aos que se excedem, vejo-os acertando os seus próprios narizes nos postes, e as suas caras nos muros, e as suas testas nas pedras do meio-fio. Ainda assim, e apesar de tudo, cortejo o silêncio limpo e dourado. Ah, meus amigos! – Zaratustra disse –, é preciso ver o abutre sobre a carcaça e, contra uma falsa piedade, pensar também na fome do abutre. Ah, meus amigos!, é preciso acreditar que as hienas não riem nem por loucura e nem por paixão, mas por uma naturalidade que às condiciona ao normal que é sobre tudo, sem interpretações ou alegorias. É preciso, enfim, amar a dignidade de quem não aponta dedos afirmativos que vociferam bem deleitosos: eu não disse?!
– Mas, ancião – alguém questionou –, não nos dissestes que a modéstia é a máscara do idiota que, em troca de uma virtude que desconhece, age e fala como os idiotas?
– Sim! – outro criou coragem e se juntou a esse –, e que essa mesma modéstia é uma humildade hipócrita, através da qual o mais capaz pede perdão por ter os méritos e as qualidades que os outros não têm.
– Na verdade, e quando falava assim, era no espírito de outro mestre. O mesmo que acreditava que a solidão é a sorte dos espíritos excepcionais. E eu vos pergunto: quem é que reconhece um espírito excepcional sem que seja, ele mesmo, um espírito excepcional?
A partir daí ninguém comentou mais nada; nem Zaratustra.  



segunda-feira, 9 de abril de 2012

54.





Da presença inverossímil da diferença





Houve um tempo em que eu não era assim: espírito estoico cultivado, dado a mais ouvir do que falar, sem a pressa que aniquila o verso, e sem os juízos que, cedo, condenam. Coisa do tempo: que nos faz saber o tanto que a alma humana pode ser instável e leviana, tangida pelos desvãos da hora, na medida exata da ocasião.
Uma vez, quando eu não tinha mais que vinte, me apaixonei por uma Clarissa, que gostava de um certo João. Não sei por que meios, convenci que fôssemos ao Parque Arruda Câmara, tomar sorvete, conversar sobre coisas da vida e, quem sabe, sobre o que poderíamos ser, já que não éramos sequer amigos.
Encontrei Clarissa na Lagoa, exatamente às 15:30.  Daí fomos a pé, ali pela rua do SESC Centro. Durante todo o trajeto, ela falava de João: de como ele era isso e de como ele era aquilo. Nos intervalos, dizia que era bom estar ali, “apesar de tudo”. Chegamos à Bica. Pagamos os R$ 0,50 que estavam cobrando na entrada e descemos até a parte lá mais abaixo, onde há umas árvores; e, agora, um lago com pedalinhos. Sentamos na grama irregular de um lugar que nos pareceu seguro e agradável. Ela que escolheu. Clarissa logo se encostou a uma árvore. Nela, deslizou a mão sobre o tronco grosso e enrugado, como a fazer-lhe algum carinho.  
– Eu gosto dessa árvore – disse –, porque ela está sempre aqui quando eu preciso.
– Como se houvesse opção! – Respondi, automático, sem pensar nem por um instante. E isso, parece, não agradou Clarissa. Ela me olhou por cima dos olhos, enquanto tirava alguma coisa que estava agarrado em sua calça jeans.
– Ah, Patativa!, e tu acha que ela não estaria, se pudesse?
– Sei não. – Respondi no ato, novamente sem pensar. Era o meu dia de bate-bola e jogo-rápido, como a Marília Gabriela diz aos entrevistados. – Mas sei que ninguém gosta de ficar aguentando choramingas.
Clarissa abriu a bolsa e pegou o telefone. Havia uma mensagem nele, de anteontem. Queria que eu visse, que lhe desse razão.
– Olha isso, Patativa! Olha isso! O idiota disse a outra lá que, comigo, foi só uma aventura e que “isso não significava nada”. O cachorro! Tá certo que eu também não pensava em uma coisa lá tão séria et cetera, pensava não; mas assim também, né? Você há de...
– Tá vendo? – atalhei. – Lamúrias! Coitadismo! E eu, que não sou uma árvore, acho melhor a gente ir embora. Daqui a pouco eles estão fechando.
– Não, moço; espera. – ela disse, jogando o telefone na bolsa e fechou o zíper. Levantou a cabeça e me encarou, olhos nos olhos. – Tá! Prometo que não vou mais falar disso. Você é meu amigo, não é? Estraguei nossa saída, não foi?
Eu já havia conversado com Clarissa sobre o modo como pensava nela, com carinho. Mas aquilo tudo, o tumulto do Centro, o barulho dos carros, o calor da estação e a conversa dela, monodirecionada, sim, isso tudo havia mexido comigo e com a minha paciência. Não era mais uma coisa legal estar ali. E pouco me importava aquele parque idiota, e aqueles bichos fedorentos, e aquelas árvores estúpidas, e a gente.
– Não! Estragou nada não. – Menti. Pensei e menti. Na primeira vez que pensei, menti. Não sei por que isso me deixou tão contrariado. Pensei que era melhor ter feito como antes, sem envolver o pensamento com a fala.
Clarissa, porém, não sei como, e ao levantar para me seguir, parece ter esquecido o que acabara de prometer. Enquanto limpava o bumbum com tapinhas, retirando pedaços de talos e folhas mortas, disse, praguejando o famigerado e onipresente João:
– Mas que babaca! Todos os homens são iguais.
– Nossa, Clarissa! – Não me contive. – Eu não sabia que você era tão rodada.
            


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