terça-feira, 17 de abril de 2012


58.





Do encontro inusitado



Não dependendo da lógica ou da razão, o amor romântico pode surgir nas horas mais inesperadas, e dos modos mais inusitados. Foi assim com Thiago e Carlos Mateus.
Em um cruzamento na Epitácio, que dá para a Torre, o carro de Thiago foi de encontro ao de Carlos, provocando um pequenino acidente. Thiago ficou muito nervoso:
– A culpa é sua, cara! Tá sabendo, né? – Dizia assim ao sair do carro, falando alto e com o corpo trêmulo.
– Aiii, criatura! Calmaaa! Eu me entrego.
Ele achou estranho esse modo de responder, mas não disse nada além de:
– Meu pai vai me matar! Ai, caralho! Meu pai vai me matar!
– Se somente o amor constrói, porque ele haveria de destruir o objeto do seu amor? – Carlos lhe disse, numa calma que não tinha tamanho.
Thiago, apesar do nervosismo e de tudo o mais, não conseguiu disfarçar o pequenino sorriso, quando perguntou:
– Cara! Que negócio é esse que tu tá usando, hem? Quero também.
Riram risos tímidos. E as poucas pessoas que observavam a cena, curiosas, duvidavam do que viam. “Duas bichas loucas”, talvez pensassem.
O seguro, Carlos dizia, se encarregaria dos trâmites legais da coisa toda. Trocaram telefones para tratarem sobre o ocorrido, no que fosse preciso. Encontraram-se no dia seguinte. Descobriram que era boa a companhia um do outro, e para o outro. Marcaram coisas para depois do depois. Estavam felizes, estranhamente felizes. Trocaram o primeiro beijo durante uma sessão de cinema, no Manaíra Shopping, durante uma cena de Igual a tudo na vida, de Woody Allen. 
* * * * *  
Agora distam três anos do acidente. Estão juntos há dois anos e meio. Dividem um apartamento e uma cama no Bairro dos Estados, e esperam notícias boas para o próximo verão – o resultado negativo do screening do câncer de cólon que, infelizmente, parece que Carlos tem.  



  

segunda-feira, 16 de abril de 2012

57.





De l’amour



Na primeira vez que li Do amor (De l’amour, escrito em 1820 e publicado em 1822), de Stendhal, Fernanda, uma amiga querida, pensando que se tratava de um romance, perguntou:
– Como é a história?
– Não tem história, Fernandinha – respondi.
– Ué!?
– São textos e análises sobre o amor no Ocidente, de todas as maneiras que, parece, o autor conseguiu tratar.
– Humm. É tu gosta dele?, concorda com ele?
– Gostar, gosto. Concordar, não é bem algo que se concorde ou deixe de concordar, mas...
– Ué!?
– É que Stendhal quase consegue ser mais platônico que o próprio Platão. Suas teses, divagações, digressões, analogias, metáforas, anedotas, máximas, mínimas, fragmentos, os conceitos, as notas e todas as comparações entre as manifestações do amor aqui e acolá, sucumbem sob uma única e impiedosa constatação que faço a máxima das minhas máximas, contra tudo e contra todos que, iludidos pela farsa dos idealismos milenares, sublimam as afecções da alma, romantizando o espírito da corte: ideias fazem amor, pessoas fazem sexo.
– Humm.
E ficou nisso.  



domingo, 15 de abril de 2012

56.





Do “amor ao próximo”, e como exercê-lo



Estou na rodoviária de João Pessoa, em uma fila. Devo comprar uma passagem para o ônibus que sai às 18:30, para Campina Grande.
Assim que cheguei fui abordado por um homem de aspecto bastante cansado. “A vida não foi generosa com esse cidadão”, pensei. Ele, na fila, olha para mim e diz que faz transporte alternativo de João Pessoa à Campina, e que, se eu quiser ir com ele, é o mesmo preço do ônibus, e somente falta mais um passageiro para completar a lotação. Agradeço e digo que vou de ônibus mesmo. Lembro-me de que, em outras vezes que tive de ir assim, os motoristas ligavam o som do carro muito alto, tocando essas bandas que fazem “forró estilizado”, como dizem alguns que tentam fugir da alcunha pejorativa de “forró de plástico”. Fico feliz de ter passagens e a fila não estar muito grande. É uma fila única.
Uma mulher, segurando uma mochila em uma mão e uma marmita na outra, chega logo depois de mim. “Será que ainda tem para as seis, hem?” “Acho que não, senhora. Para as seis e trinta, deve ter”, respondo. O homem da lotação lhe faz a mesma proposta. Mas ela, também, diz que prefere ir de ônibus e, de todo modo, precisa aguardar o filho que logo deve chegar para ir com ela. O homem se afasta, procurando os dois passageiros que faltam.
– Não gosto de ir de alternativo. – Ela me diz. Concordo.
– E alguns são bem irresponsáveis, e mal educados. – Digo. Ela concorda com um sorriso amistoso.
Não demora nada e chega outra mulher. O cabelo dela é curto, estaqueado e precariamente pintado de louro, com a raiz visivelmente enegrecida. É a segunda na fila, depois de mim. Até aí havia dois vendedores nos guichês; agora, somente um. A primeira pessoa da fila, embora o atendimento esteja agora à sua direita, permanece imóvel, com sua cara de Gioconda espelhada no vidro do guichê fechado. A fila inteira se mantém assim, uma pessoa atrás da outra, e todas atrás dessa primeira. Em sinal de inconformismo, mudo de lugar, como se houvesse uma fila invisível entre o guichê e eu. Outros me seguem. Daí a pouco todos notam o movimento da fila e, agora, estão posicionados em frente ao guichê aberto.  
Alguém me cutuca as costas. Olho para trás. É a senhora que não gosta de andar de lotação.
– Licença, moço. O sr. pode levantar o pé? É que...
Olhei para o chão e vi que estava pisando sobre sua sandália, de couro, muito fina. Se ela não dissesse nada, juro que não teria notado. O meu sorriso se acompanhou de um “opa!, me desculpe; eu não percebi.” Ela riu também, como a dizer que “está tudo bem”. Foi aí que eu notei que a outra mulher, que estava atrás dessa, a de cabelos mal pintados, agora estava bem a minha frente. Tive vontade de perguntar bem alto a todos da fila: “Mais alguém que tomar o meu lugar?, quer furar a fila?” Não disse nada. Mas me irritou profundamente o fato de essa mesma criatura, na hora de comprar a passagem, dizer que “é para as oito horas, moço”, e ainda estar toda atrapalhada com o cartão de crédito, sem saber qual é a senha e tendo de fazer ligações não sei para quem para que este Não Sei Quem lhe dissesse qual era a sua senha. Finalmente ela conseguiu, e se afastou sem olhar para trás.
– Ela passou à nossa frente, não foi? – A mulher da sandália de couro me pergunta, para confirmar ao filho que realmente era isso que havia ocorrido.
– Pois é. – Respondo – E ainda mais para comprar uma passagem somente para às 20:00.
Passagem comprada, disponho ainda de algum tempo antes de partir. Vou a uma banca de revistas que há no piso superior, lá bem à esquerda. Compro um exemplar de Do amor (L&PM, 2011), livro de Stendhal, escrito em 1820, depois de sua frustrada paixão por Matilde Dembowski, uma milanesa que arrasou o seu coração – é só ler o referido livro que, mesmo a alma mais desatenciosa, nota-o. Publicado em 1822, o Do amor faz referência às cortes de amor: “Houve cortes de amor, na França, entre os anos 1150 e 1200. Eis o que se encontra provado. Provavelmente a existência de cortes de amor remonta a uma época bastante anterior.” E por esse período que, conforme nota Stendhal, surge o amor cortês, o cortejar a mulher amada, o romance na corte. “Quantos livros será que eu já tive e estou tendo de comprar novamente?”, me pergunto, lembrando-me de todos os livros que, meus, foram perdidos pelo meu irmão, em sua mudança de São Paulo para Vinhedo. Eu precisava readquirir este livro, se quisesse ser respeitado nos juízos que faço sobre o amor, como venho fazendo neste meu Grande livro do amor. Stendhal foi, desde cedo, e para ele, minha principal referência – se não nas ideias, na estética. Folheei o livro por alguns instantes, até a hora de embarcar.
Ainda no guichê, notei que quase não havia mais assentos à janela. Comprei a poltrona 47, uma das duas que restavam. Quando embarquei, vi que havia uma garota ocupando a referida poltrona, conversando alegremente com outra, sentada ao seu lado. Depois de guardar a mochila, olhei para ela, dizendo: “Com licença. Parece que essa cadeira é minha.” Ela me apontou com olhos as duas cadeiras mais atrás, na outra fila, uma delas ocupado por um senhor de bigodes grisalhos e rosto sereno.
– Tu se incomoda de sentar nessa daí? É que eu e ela...
– Me incomodo, sim. – Interrompi as suas explicações.
– Ok! – Ela levantou e foi para o seu lugar, como tinha de ser. Não me disse mais nada e, parece, também não tinha nada de importante a conversar com outra. Trocaram duas ou três palavras e, ela mesma, ao meu lado, ficou ouvindo música, com fones enfiados em seus ouvidos. Sentei em meu canto e tentei inclinar o banco o tanto que pudesse. “Tomara que eu consiga dormir logo”, pensei. E não preciso dizer que, por toda a viagem, ninguém mais me incomodou.
O melhor do amor ao próximo se resume nisto: não incomodá-lo.



quarta-feira, 11 de abril de 2012

55.






Da estupidez do estúpido



Um homem vendia vasos na praça, e os anunciava como os melhores e mais bem acabados de todos os tempos, em todo o mundo. “Verdadeiras obras de arte”, dizia.
– Às vezes quero rir do tolo, o deslumbrado sobre si e sobre a sua obra, considerada superior a todas as outras, menores. Mas, não! Deixemos o tolo em seu lugar; digo a mim mesmo. Afinal, também o louco carece da sua loucura. Quanto aos que se excedem, vejo-os acertando os seus próprios narizes nos postes, e as suas caras nos muros, e as suas testas nas pedras do meio-fio. Ainda assim, e apesar de tudo, cortejo o silêncio limpo e dourado. Ah, meus amigos! – Zaratustra disse –, é preciso ver o abutre sobre a carcaça e, contra uma falsa piedade, pensar também na fome do abutre. Ah, meus amigos!, é preciso acreditar que as hienas não riem nem por loucura e nem por paixão, mas por uma naturalidade que às condiciona ao normal que é sobre tudo, sem interpretações ou alegorias. É preciso, enfim, amar a dignidade de quem não aponta dedos afirmativos que vociferam bem deleitosos: eu não disse?!
– Mas, ancião – alguém questionou –, não nos dissestes que a modéstia é a máscara do idiota que, em troca de uma virtude que desconhece, age e fala como os idiotas?
– Sim! – outro criou coragem e se juntou a esse –, e que essa mesma modéstia é uma humildade hipócrita, através da qual o mais capaz pede perdão por ter os méritos e as qualidades que os outros não têm.
– Na verdade, e quando falava assim, era no espírito de outro mestre. O mesmo que acreditava que a solidão é a sorte dos espíritos excepcionais. E eu vos pergunto: quem é que reconhece um espírito excepcional sem que seja, ele mesmo, um espírito excepcional?
A partir daí ninguém comentou mais nada; nem Zaratustra.  



segunda-feira, 9 de abril de 2012

54.





Da presença inverossímil da diferença





Houve um tempo em que eu não era assim: espírito estoico cultivado, dado a mais ouvir do que falar, sem a pressa que aniquila o verso, e sem os juízos que, cedo, condenam. Coisa do tempo: que nos faz saber o tanto que a alma humana pode ser instável e leviana, tangida pelos desvãos da hora, na medida exata da ocasião.
Uma vez, quando eu não tinha mais que vinte, me apaixonei por uma Clarissa, que gostava de um certo João. Não sei por que meios, convenci que fôssemos ao Parque Arruda Câmara, tomar sorvete, conversar sobre coisas da vida e, quem sabe, sobre o que poderíamos ser, já que não éramos sequer amigos.
Encontrei Clarissa na Lagoa, exatamente às 15:30.  Daí fomos a pé, ali pela rua do SESC Centro. Durante todo o trajeto, ela falava de João: de como ele era isso e de como ele era aquilo. Nos intervalos, dizia que era bom estar ali, “apesar de tudo”. Chegamos à Bica. Pagamos os R$ 0,50 que estavam cobrando na entrada e descemos até a parte lá mais abaixo, onde há umas árvores; e, agora, um lago com pedalinhos. Sentamos na grama irregular de um lugar que nos pareceu seguro e agradável. Ela que escolheu. Clarissa logo se encostou a uma árvore. Nela, deslizou a mão sobre o tronco grosso e enrugado, como a fazer-lhe algum carinho.  
– Eu gosto dessa árvore – disse –, porque ela está sempre aqui quando eu preciso.
– Como se houvesse opção! – Respondi, automático, sem pensar nem por um instante. E isso, parece, não agradou Clarissa. Ela me olhou por cima dos olhos, enquanto tirava alguma coisa que estava agarrado em sua calça jeans.
– Ah, Patativa!, e tu acha que ela não estaria, se pudesse?
– Sei não. – Respondi no ato, novamente sem pensar. Era o meu dia de bate-bola e jogo-rápido, como a Marília Gabriela diz aos entrevistados. – Mas sei que ninguém gosta de ficar aguentando choramingas.
Clarissa abriu a bolsa e pegou o telefone. Havia uma mensagem nele, de anteontem. Queria que eu visse, que lhe desse razão.
– Olha isso, Patativa! Olha isso! O idiota disse a outra lá que, comigo, foi só uma aventura e que “isso não significava nada”. O cachorro! Tá certo que eu também não pensava em uma coisa lá tão séria et cetera, pensava não; mas assim também, né? Você há de...
– Tá vendo? – atalhei. – Lamúrias! Coitadismo! E eu, que não sou uma árvore, acho melhor a gente ir embora. Daqui a pouco eles estão fechando.
– Não, moço; espera. – ela disse, jogando o telefone na bolsa e fechou o zíper. Levantou a cabeça e me encarou, olhos nos olhos. – Tá! Prometo que não vou mais falar disso. Você é meu amigo, não é? Estraguei nossa saída, não foi?
Eu já havia conversado com Clarissa sobre o modo como pensava nela, com carinho. Mas aquilo tudo, o tumulto do Centro, o barulho dos carros, o calor da estação e a conversa dela, monodirecionada, sim, isso tudo havia mexido comigo e com a minha paciência. Não era mais uma coisa legal estar ali. E pouco me importava aquele parque idiota, e aqueles bichos fedorentos, e aquelas árvores estúpidas, e a gente.
– Não! Estragou nada não. – Menti. Pensei e menti. Na primeira vez que pensei, menti. Não sei por que isso me deixou tão contrariado. Pensei que era melhor ter feito como antes, sem envolver o pensamento com a fala.
Clarissa, porém, não sei como, e ao levantar para me seguir, parece ter esquecido o que acabara de prometer. Enquanto limpava o bumbum com tapinhas, retirando pedaços de talos e folhas mortas, disse, praguejando o famigerado e onipresente João:
– Mas que babaca! Todos os homens são iguais.
– Nossa, Clarissa! – Não me contive. – Eu não sabia que você era tão rodada.
            


quarta-feira, 4 de abril de 2012

53.






Da cor amarela, ou: De como o dia pode ser bom




A menininha sentou ao meu lado, surgida não sei de onde. Com o polegar e o indicador, e com muita delicadeza, segurava uma flor que não sei o nome. Falou sem me olhar, como fazem as crianças:
– Tá vendo essa flor?, ela é amarela.
– Lembrei na hora de Agostinho, na praia, conversando com o anjo. Na lenda, representada pelos pintores da Renascença, um atormentado Agostinho passeia à beira-mar, meditando sobre o mistério da Santíssima Trindade. Depara-se com uma criança ocupada em transportar a água do oceano para um pequenino buraco cavado na areia. Notando o espanto de Agostinho, a criança diz: “Seria mais fácil fazer entrar o mar neste buraquinho do que, para ti, explicar a mínima parcela do mistério da Trindade”. Talvez por isso, jamais por maldade, eu tenha perguntado à menininha:
– E o que é o amarelo?
– É um bom dia.
Ela disse, e saiu correndo para junto da mãe, que me sorriu alegremente. Retribui, e continuei lendo o Diário e Cartas, de Katherine Mansfield; livro que é traduzido e organizado por Julieta Cupertino, para a Editora Revan (edição de 1996). Na carta de 20 de fevereiro de 1918, endereçada a J. M. Murry, seu companheiro – o divórcio com George Bowden ainda não havia saído –, ela conta da sua doença, e de como, por causa dela, tem estado presa em casa, sozinha e triste:

Quando penso nas flores que crescem na grama, nos riachos, nos lugares onde poderíamos nos deitar olhando para as nuvens lá no alto, oh, eu simplesmente sonho com essas coisas, ao seu lado. Excluindo você, o resultado dessa soma será zero.

Longe de Murry, e para ele, Katherine envia cartas quase todos os dias. É um modo de tê-lo por perto, e falar sobre si àquele que ama. Nelas, às vezes se repete: “Te amo tanto. Te amo tanto. O vento uiva e as venezianas estremecem, e [onde estou] parece em uma ilha longe, muito longe. Mas eu te amo muito, eu te amo muito. Sou absolutamente tua para sempre” (19 de janeiro de 1918). E no final, para se despedir: “Oh, meu amor, continue cuidando de você, para mim, e eu continuarei cuidando de mim, por sua causa. Mais oito dias, e o mês acaba. Então, só faltará março. Apenas.”
A França estava em guerra, e o inverno inglês seria fatal à sua saúde debilitada pela tuberculose. Katherine está em Bandol, comuna da França. Deve retornar para Londres e para os braços de Murry em abril, como diz. Na volta, tumultuada, é preciso passar por Paris, sob os bombardeios dos alemães. “As explosões ocorrem a cada dezoito minutos, até onde posso avaliar. [...] Não estou amedrontada, embora tenha estado muitíssimo perto do lugar onde ocorrem as explosões. Na verdade, sinto que há um risco muito grande de que se possa ser morto. Veja: não há aviso sobre o lugar onde a próxima bomba cairá e os intervalos não são regulares...”, e aí:

Se não fosse por você, não me importaria de morrer ou não. mas você está aí, eu me importo intensamente e tomarei todas as precauções que você gostaria que eu tomasse. Da minha parte, gostaria que você as tomasse se estivesse em circunstâncias semelhantes. (Paris, 30 de março de 1918).

Ela não está bem, e os dias se arrastam. Chega a Londres em 11 de abril. Em 3 de maio do mesmo ano, casa-se com Murry. Deseja bons dias. Deseja ser feliz através do amor, como tantos. E, como tantos e tantas, não é. No livro O amor (Martins Fontes, 2011), André Comte-Sponville afirma que é impossível falar da felicidade sem falar do amor, ou se interrogar sobre o amor sem pensar em felicidade. É como se uma “coisa” supusesse a outra; mas... ah, dois equívocos!

Em A portrait of Katherine Mansfield (Hyperion Books, 1989), Nora Crone diz que, em dezembro de 1919, Katherine sentia-se abandonada por Murry, encarando a morte como um novo romance, um novo marido – a quem faz um poema (The New Husband), entregando-o a Murry, com um pedido: “Guarda-o para mim, sim?”


Alguém veio até mim e disse:
Esqueça, esqueça que foi casada.
Quem é o seu homem, para deixá-la
Doente e passando frio, num país distante?
Quem é o marido – quem é a pedra
Que pode deixar sozinha uma criança como você?

Você é como uma folha colhida pelo vento
Você é como um cordeiro deixado para trás,
Quando todo o rebanho se distanciou.
Você é como um pobre gatinho perdido
Que eu havia colocado dentro de meu colete
Você é como um pássaro caído do ninho.

[...]

O poema teria sido escrito, conforme Julieta Cupertino, numa crise de febre alta e refletiria o estado de depressão em que ela vivia. Em busca de alguma esperança, Katherine procurou tratamentos pouco ortodoxos. Depois de consultar o médico russo Ivan Manoukhin, em fevereiro de 1922, e a conselho desse, se submeteu a um tratamento experimental que consiste em ter o baço bombardeado por raios-X. O tratamento não somente não resolveria o seu problema como, a esse, somaria um estranho calor e insensibilidade nas pernas. Em outubro desse mesmo ano, mudou-se para o Instituto para o Desenvolvimento Harmônico do Homem (em Fontainebleau, França), dirigido por George Ivanovich Gurdjieff. Gurdjieff utilizava a dança e a meditação para a obtenção do que chamava de “controle psíquico”, afirmando que, com ele, Katherine poderia “ignorar a condição do corpo”. Ignorar, talvez; resolver, não. Murry afirmava que tudo isso não passava de “ocultismo”. Não houve resultados e, pelo desentendimento dos dois quanto à eficácia do programa do Intituto, o casal novamente se separou. Para provar a Murry que o tratamento surtia efeito, Katherine subiu uma escada, correndo. Pelo esforço, sofreu uma hemorragia pulmonar fatal. Morreu em Fontainebleau, no dia 9 de janeiro de 1923. Seu corpo foi enterrado no cemitério de Fontainebleau District, em Avon.
Na foto que ilustra a capa do Diário e Cartas, Katherine tem os olhos muito ternos, e me sorri; nela, vejo aquela menininha que, segurando a flor amarela, definiu a cor alegre como um “bom dia”. A pergunta que não lhe fiz, e que poderia tê-la feito, faço a mim: o que é, afinal, um bom dia?



domingo, 1 de abril de 2012

52.





Dos poetas, boêmios, amantes incontinentes e da parte que eles têm com o Diabo




Quando fazia meu doutoramento em Teologia, na EST, em São Leopoldo, Charles, um amigo que procurava ser o mais ortodoxo possível (e eu o respeitava por isso), tão logo alguém saísse com “a noite é uma criança”, dizia, de pronto: “E vocês são os brinquedos dela”. Depois fiquei sabendo que o avô do avô dele, imigrante alemão que veio para o Brasil na época da colonização, já dizia isso.
Boêmios, poetas e românticos em geral têm, comum das vezes, predileção pela noite, pelo álcool e por mulheres. Paul Veyne, por exemplo, em L’Élegie érotique romaine – l’amour, la poésie et l’occident (de 1983), transcreve o famoso epitáfio de Rabelais, atribuído a Pierre de Ronsard:

Du bom Rabelais, qui buvait
Toujours, cependante qu’il vivait;
Jamais le soleil ne l’a vu
Tant fût-il matin, qu’il n’eût bu
E jamais au soir la muit noire
Tant fût tard, ne l’a vu sans boite.

(O bom Rabelais que bebia
Sempre enquanto vivia;
Nunca o sol o viu
Mesmo que fosse pela manhã, que não tivesse bebido
E a noite escura
Mesmo que fosse tarde, jamais o viu sem beber).

O epitáfio, parece, estava em alguma parte das peças do Bocage real (1544), de Ronsard – que depois foram suprimidas. Rabelais, aí, é mitificado como homem da noite, entregue às bebidas e aos prazeres mundanos. Todavia, não é porque falava de bêbados e notívagos que ele, ele mesmo, fosse um.
A imagem que criamos dos outros é, em generosas medidas, a imagem que queremos ter – como a de um ídolo, a quem amamos. Do modo contrário – questão de tempo –, e para desmistificar tal imagem, basta que conheçamos o nosso ídolo. Nós próprios, na intenção de causarmos alguma boa impressão, costumamos nos mitificar, como se fôssemos as melhores ou as piores criaturas da terra. Isso, de nenhum modo, é fenômeno recente. Propércio, recorrendo ao Priamel (Der Priamel der Wert in Grieshischen von Homer bis Paulus, de 1964), fala a Demofoonte:

Tu me perguntas, ó Demofoonte, por que não posso resistir a nenhuma mulher? Não é uma pergunta correta: em amor nunca existe por quê. Não há pessoas que se cortam os braços com punhais sagrados e se mutilam ao som de ritmos de Frigia? A natureza assinala a cada um sua esquisitice, e meu destino é o de sempre ter em mente algum amor.

É a aventura humana e a exaltação do Eu à categoria de divino – ou de alguma proximidade com ela – que, desde os primeiros romances, enquanto categoria literária, se faz notar. Na literatura helênica, por exemplo: “Descobertas modernas de papiros demonstram que as origens do romance grego, que os estudiosos do passado remontavam ao período romano tardio, situam-se no século II a.C. e são expressão típica da visão helenística da existência humana.” São palavras de Helmut Koester, estudioso da história, da cultura e da religião do período helenístico. Koester ainda diz que “o romance reuniu num conceito literário novo todos os elementos da experiência humana e a superação das suas limitações, enquanto estas encontravam expressão em vários gêneros da literatura helenística. O romance leva em consideração os horizontes geográficos mais amplos expandidos por meio das conquistas de Alexandre, mas coloca o indivíduo humano no centro da trama e procura reconciliar seus heróis com os poderes do destino que frequentemente parecem tornar a vida sem sentido, culminando num final feliz”. É exatamente isso que podemos constatar no final da Odisséia (Οδύσσεια, séc. VIII a.C.), quando os patifes pretendentes da amada mais fiel, Penélope, são massacrados pelas hábeis mãos de um Odisseu enfurecido. De Penélope, não são esquecidas as noites e noites de solidão nas quais tecia uma colcha que nunca acabava e, se parecia que tal ocorreria, ela tornava a desfazê-la. Como poderia dormir com outro homem que não o seu amado Odisseu?
No romance antigo, o excesso sexual é cabível apenas aos personagens cômicos ou secundários. O romance em seus começos, ao contrário, defendia uma virtude que elevava o tema do sexo a um nível máximo da espera dolente; os amantes preservam sua castidade até o fim. Exceções existem, mas são poucas e, de certo modo, ou não tão antigas ou anteriores ao êxito da nova moral cristã – a exemplo do Satyricon (ou Satyrica, séc. I d.C.), do latino Gaius Petronius, e da Teresa filósofa (Therésè Philosophe), de um autor anônimo do século XVIII (talvez Jean Baptiste de Boyer, ou D’Arles de Montigny, ou ainda Denis Diderot).
Essa visão do sexo, às vezes ampliada pela vida prodigiosamente exemplar do herói ou da heroína, ganha contornos de uma virtude quase sagrada, sacralizando o sexo que foge do excesso, ou que simplesmente se anula em função – ou na intenção – de guardar a alma pura, neste corpo que lha aprisiona. Na Antiguidade Tardia e na Idade Média, principalmente, a noção do sexo como “coisa suja”, “anti-heróica” e imoral, quando feito fora da alcova (por “simples prazer”) ou fora do matrimônio, foi ampliada. Não havendo um meio racional de prevenir os pares contra a libertinagem, usaram-se as penas legais e, se elas não fossem suficientes para apagar tanto fogo, as capitais – que remetiam a alma do leviano e da leviana ao fogo do inferno aquecido cinco vezes mais.
A Igreja, zelosa da sua moral e do seu poder simbólico imposto através do medo, tornou-se governanta – embora tenha se autoproclamado mãe –, mestra (armada com a palmatória) e, muitas vezes, juíza e carrasca. Sua voz oficial, por séculos a fio, fez a noite, e o álcool, e as mulheres (era uma época machista mesmo!) e o sexo, de algum modo, terem parte com o Diabo. Mancomunados com ele e olhados (às vezes vigiados) com desconfiança, estavam os poetas, os bêbados e os amantes incontinentes, como no exemplo de Propércio. Os brincantes noturnos, afinal, eram, na verdade, os brinquedos da Noite – que é o horário preferido do Diabo e dos seus anjos.   

(Nos bancos que margeiam o busto de Lutero, no campus da EST):

TIAGO – Óoo, gente; vamo ali no Cachorrão beber umas Polar e comer umas fritas...
CHARLES – Bah! Nem posso!
BENITO – Ué? E por quê?
CHARLES – Porque tenho que fazer umas lições de hebraico e...
GRÉGORI – Ôoo, mas ainda é cedo, Charlinhooo... A noite é uma criança!
CHARLES – E vocês são os brinquedos dela!
PATATIVA – Ah, Charles; cala a boca!


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