quinta-feira, 1 de março de 2012

46.





Da obra do amor que consiste em recordar uma pessoa falecida




– Olha isso, Patativa! “Então”, é Kierkegaard, “entre as obras do amor, não esqueçamos desta, não esqueçamos de considerar: a obra do amor que consiste em recordar uma pessoa falecida. A obra do amor que consiste em recordar uma pessoa falecida é uma obra do amor mais desinteressado. Se quisermos garantir que o amor é completamente desinteressado, podemos então afastar toda possibilidade de retribuição. Mas é isto justamente o que está excluído na relação com uma pessoa falecida. Se então o amor permanece, é que ele é verdadeiramente desprendido.” E então? Que é que tu me fala sobre isso?
Rafael segurava um exemplar de As obras do amor: algumas considerações cristãs em forma de discursos (Ed. Vozes, 2005), de Sören Kierkegaard, aberto quase pelo final. Dizia assim, como a desafiar os meus argumentos contumazes sobre o inevitável amour de soi, que nos domina do começo ao fim. Tratava-se, no entanto, de uma pergunta muito fácil de ser respondida.
– Digo, em primeiro lugar - respondi -, que nenhum autor é canônico; por mais querido e elogiado que seja. Nihil sacrum est, se é realmente livre o nosso pensamento. Ademais, o pensamento sobre o morto ou a morta é, deveras, um meio de, o vivo, ainda amar a si mesmo: na alegria ou na tristeza que tal pensamento traz. A lembrança do defunto é como “uma ponte” – desenhei aspas no ar, com as pontas dos dedos – que nos liga a ele: no choro da saudade ou, talvez, no riso bom pela lembrança do que, em vida, com ele, se viveu. Quando Chico escreve a letra de “Pedaço de mim”, em 1978, fala de dois amores: por uma mulher, viva; e por um filho, morto. Ele não faz diferença, mas há: “Oh, pedaço de mim / Oh, metade exilada de mim / Leva os teus sinais / Que a saudade dói como um barco / Que aos poucos descreve um arco / E evita atracar no cais.” É como está no final da primeira estrofe. É de um amor não correspondido, ou correspondido, mas que teve de partir, que se trata. Daí, e para descrever o nível dessa dor, a estrofe seguinte, que é metáfora às duas primeiras: “Oh, pedaço de mim / Oh, metade arrancada de mim / Leva o vulto teu / Que a saudade é o revés de um parto / A saudade é arrumar o quarto / Do filho que já morreu.” Nenhum pai ou mãe, por mais perversos que fossem, do filho morto, desejariam ter a memória apagada. Vê? São duas as situações. Numa ou noutra, é a memória, mesmo dolorida, que une o vivo ao morto – nunca ao contrário. É como Comte diz: “Os vivos são sempre e cada vez mais governados pelos mortos.” Pois o que não tem memória não sabe o que é governo. No final de tudo, e mesmo na suposta recordação desinteressada sobre a pessoa amada e falecida, há o interesse, sim; e o Eu que recorda, evidentemente.
Rafael fechou o livro sobre a escrivaninha, levantou, coçou o queixo, olhando-se no espelho. Virou-se para mim, devagar, levantou o dedo indicador como quem vai dizer algo muito sério ou profundo; mas somente disse, quase sorrindo:
– Vá se lascar!



segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

45.






Das 1001 receitas infalíveis de amor e embriaguez




Quando estive em Santiago do Chile, no final da primavera de 2009, e depois de pegar informações sobre onde encontrar boas librerías pelo centro da cidade, próximas ao hotel onde me hospedara, fui informado de um “servicio de librería pequeña, pero muy variada y muy buena” – dizia a recepcionista, apontando para a rua que ficava a minha frente, recomendando que eu andasse três quarteirões sempre em frente e, depois, dobrasse à esquerda e seguisse por mais outros dois e, “pronto, o senhor logo vera a placa.”
Era, de fato, uma livrariazinha pequena, mas de aspecto simpático, convidativo e aconchegante. Não havia clientes e, talvez por isso, fui realmente muito bem atendido.
Eu procurava por algum livro de culinária, que deveria ser presenteado ao Rafael – um amigo de Florianópolis, que fazia Direito na UFRGS, e com quem eu dividia um pequenino apartamento na Lima e Silva, em Porto Alegre. A estante de culinária, infelizmente, não era a mais sortida.
Quando eu já não tinha fé de que encontraria algo que realmente quisesse comprar, dei de cara com um livrinho de título chamativo: 1001 recettes amour sans faille et l'ivresse (1001 receitas infalíveis de amor e embriaguez), de autoria do divertidíssimo Henry Lucerne, de quem já havia lido Um dia perfeito para o suicídio (Éd. de Mégare, 1998) e As begônias de Matilda Cortese (Seuil, 2004). Tive de, no mínimo, folheá-lo.
Henry Lucerne, diferentemente de outros pensadores franceses, não afunda os pés no terreno fértil do existencialismo, mas mantêm-se, como nenhum outro, na escola satírica de Voltaire – atualizado, porém, e sem ser refém do mofo histórico-literário. Meu francês, mais afiado que atualmente, logo denunciou o chiste do autor: não havia 1001 receitas, apenas 45, em forma de máximas ou fragmentos curtos, e pequeninos comentários aos mesmos. Estava na prateleira de culinária por engano; tinha de ser. A loja aceitava pagamento em dólar, e o livrinho saiu por apenas $ 7,00.
Mais tarde, no hotel, meus olhos caíram nesta “receita”:

Para bem conservar o amor: guardá-lo na geladeira. 
(LUCERNE, Henry. 1001 recettes amour sans faille et l'ivresse. 2. ed. Paris: Éd. de Mégare, 1987. p. 21).

Dois anos depois, quando eu já havia voltado a morar em João Pessoa, e depois de consultar alguns sebos na Estante Virtual, comprei duas edições diferentes do “1001 receitas...” Na tradução inglesa (Covent Garden Press, 1992), feita por Johane Fischer, a mesma citação aparece assim: “Para conservar o amor, congelá-lo.” E, na tradução portuguesa (Verbo Editorial, 1993) – não consta o nome do tradutor –, é: “Para bem conservar o amor, mantê-lo bem resfriado.”
Lucerne – é ele mesmo quem explica – fala do “amor demais”, do “amor de perdição”: aquele que possui a vítima qual vírus, trazendo-lhe dores, febres e calafrios terríveis. É que o fruto de tal amor, em temperatura ambiente – como é mais comum que seja –, amadurece mais depressa e, também por isso, estraga-se.
Há um diálogo em “Harry & Sally – feitos um para o outro” (When Harry Met Sally... 1989), filme com roteiro de Nora Ephron e direção de Rob Reiner, onde Harry Burns (Billy Crystal) diz à Sally Albright (Meg Ryan): “Quando você percebe que quer passar o resto da sua vida com alguém, você quer que o resto da sua vida comece o mais rápido possível.” Clara confissão do “amor demais”. Há, também no diálogo, a presença daquele gelo que conserva o amor – ao menos da parte de Sally. O trecho, inteiro, é como segue:

Harry: Eu te amo.
Sally: Como você espera que eu responda isso?
Harry: Que tal “que você me ama também?”
Sally: Que tal “eu estou indo embora?”
Harry: O que eu disse não significa nada para você?
Sally: Sinto muito, Harry. Eu sei que é véspera de ano novo. Eu sei que você está se sentindo sozinho, mas você não pode aparecer aqui, dizer que me ama, e esperar que isso faça tudo ficar bem. Não funciona desse jeito.
Harry: Então como funciona?
Sally: Eu não sei, mas não desse jeito.
Harry: Que tal deste jeito? Eu amo que você fica com frio quando está 32 graus lá fora. Eu amo que você demora uma hora e meia para pedir um sanduiche. Eu amo quando você fica com uma ruguinha acima do seu nariz quando você olha para mim, me achando louco. Eu amo quando depois de passar o dia com você, eu ainda sinto seu perfume em minhas roupas. E eu amo que você seja a última pessoa que eu queira ver à noite antes de dormir. E não é porque eu estou sozinho. E não é por que é ano novo. Eu vim aqui esta noite, por que quando você percebe que quer passar o resto da sua vida com alguém, você quer que o resto da sua vida comece o mais rápido possível.
Sally: Você vê? Isso é tão você, Harry. Você diz coisas deste gênero, e fica impossível eu odiar você, e eu odeio você, Harry. Eu realmente te odeio. Odeio você.

O ódio aí, como se verá, esconde (ou disfarça) um amor muito bem guardado: congelado para o futuro. A fala, externa, pode ser reflexo de mil engenhos internos: “O que sua boca fala é o que transborda do seu coração”, são Lucas afirma, em seu evangelho. Pode ser. Mas, sim: é fácil, bem fácil, que a fala esconda um universo de intenções contrárias a si, ao que ela mesma afirma; e, em matéria de amor romântico, a palavra incendiária é a mesmíssima que, do incêndio, traz as cinzas – quando o objeto não é mais.
Henry Lucerne sabe das coisas e, nunca, nunca esteve realmente embriagado ao ponto de não saber que, para o amor romântico, não há receitas infalíveis.



sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

44.







Da solidez dos espaços vãos




– E se tudo estiver errado?
– Então será certo, o erro; como é certa, a dúvida.
Não era uma pergunta legítima, a de Rafaela; não era. O sentido das coisas, dos dogmas da fé ou da política latino-americana, para ela, mesmo quando eram bases flutuantes, e se tanto flutuavam, tomavam o céu como base. Ela, sempre me pareceu, não sabia viver sem isto: um fundamento, uma ideologia, uma certeza – mesmo que não soubesse defender intelectualmente o porquê de tal certeza.
– Mas – ela disse –, como é possível saber se é certo, o erro? E se o “tudo” também inclui-lo? Quer dizer: se o erro estiver justamente aí, na dúvida sobre o erro.
– Ainda assim – respondi – a dúvida será certa, como máxima permanente; como fundamento para algo que, se é o caso, exija algum fundamento. E isso desde Agostinho, com seu si fallor, sum.
– Que é isso?
– Se me engano, existo. Pois não poderia ter alguma dúvida da minha certeza se isto, a dúvida, já não fosse, em si, alguma certeza.
– É, faz sentido.
– Claro que faz! Agostinho não é famoso por acaso. Mas isso somente garante que sei de mim. Eu: o que duvida, res cogitans. Não há garantias para nada além disso; e principalmente como ele fez, acreditando poder “partir de si”, físico, em direção ao Super-Outro, metafísico; como em uma hierarquia, e mantendo as hierarquias que...  
– Mas isso que você fala, das estruturas clássico-ortodoxo-teológico-fundamentalistas favorecerem a dominação imperialista, et cetera, e que isso, sim, pode ser a legítima obra do Diabo... sei não, viu?
Era, ao menos do modo que eu dizia, “um modo de dizer”. E referia-se ao que, antes, havíamos conversando, com base na leitura de um livrinho de Russell Shedd, A justiça social e a interpretação da Bíblia, de 1984. No referido, há uma crítica à “horizontalidade da Teologia da Libertação”, acusando-a de ligar-se ao marxismo ateu e, nisso, arranjar-se em uma hermenêutica (principalmente a do Velho Testamento) forçada, tendenciosa.     
Daí lembrei de algo que tinha lido em outro livrinho, de Basileia Schlink, Patmos – da der Himmel offen war, de 1976. Era a parte de uma oração em que a santa madre chamava o seu bom Deus de... Satã – não assim, de modo explícito, mas ao colocar a sensualidade como obra desse. Ela dizia: “Acima de tudo, renuncio a todo desejo sensual que surge em mim. Recuso-me a ter alguma coisa a ver com isso ou com Satanás, que está por trás de tudo [isso].” Ah! Que infeliz!, a afirmação. Ah!, o antinaturalismo cego dos fundamentalistas cristãos. Não era preciso concordar com Darwin, Freud ou Schopenhauer para saber que a sensualidade é um dos recursos mais comuns da Vontade (de vida), incitando (e excitando) os indivíduos pelos indivíduos, a fim de que esses gerem outros, conforme sua espécie. E a beleza, em nosso natural inconsciente, é propaganda da saúde do corpo, dizendo-se “bom” para gerar espécies igualmente boas. Mesmo as bestas, que agem por puro instinto, “sensualizam”, para atraírem seus pares. Qualquer teologia, mesmo a mais decadente, deveria entender que o “crescei e multiplicai-vos” não funcionaria sem a ereção de Adão, em resposta à beleza erótica de Eva. E, certamente, e aos menos para tais teologias, isso não deveria ser creditado ao... Diabo.  
– Também acho que a dúvida seja uma coisa boa – Rafaela dizia, sem muita convicção. – Mas, às vezes tenho medo... de duvidar.
– Pois, não deveria.
– Por quê?
– Porque o determinismo é o refúgio dos covardes. Porque a dúvida pode ser uma chave para nossa liberdade, Rafa; nossa liberdade de pensamento acerca de nós mesmos, do mundo e do Outro, e de tudo o que transcenda a isso.
Foi uma conversa longa, e não lembro mais dos detalhes; e não creio que eles tenham alguma relevância para além do que, aqui, já foi dito.  
Quatro anos depois, quando já não éramos colegas no curso de teologia, ela casou, teve dois filhos, continuou idealista, e romântica: na fé religiosa e no amor perfeito. Eu, não; não conseguia mais. Viajei o Brasil quase inteiro, e por alguns países da América Latina, sozinho e a tudo atento – à miscigenação que, por exemplo, é nossa riqueza e... pobreza: material e espiritual. Continuei antidogmático, muito mais que antes. E ainda vejo os fundamentalistas (das religiões ou dos partidos políticos) como cânceres ou gângsteres reacionários, e me afasto deles. Se não nos permitimos à dúvida, prostituímos a liberdade – a nossa. Dogmas, sistemas e certezas, são limites, e limites são prisões. É preciso duvidar de tudo, ainda.



quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

43.






Do nosso lugar no mundo, da nossa vida, e do quanto ela vale




Enquanto leio algo d‘O inverno de nossa desesperança, de John Steinbeck, ela me espera, deitada no sofá, ouvindo o rádio tocar uma música qualquer, algo que nem liga, que não ligamos, e que ouvimos assim, sem ouvir... Seus pés balançam fora do compasso.
Compasso. Tempo.  
Qual o nível de precisão de um metrônomo? E quanto ao tempo, sei que o dia está frio e o All Star não aquece bem os nossos pés? Tempo... Um problema sério à filosofia, enquanto definição conceitual, desde Agostinho até Kant, dentre os mais destacados. Mas isso não vem ao caso hoje, 27 de março de 2007, aqui neste apartamento, 7º andar, na Lima e Silva, Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil, América Latina... Estamos certos de nossas incertezas, vagando por algum lugar deste mundo.
Lugar. Que é um lugar?
Uma vez tentei fazer um poema sobre o tema, porque era a única forma de dizer o que um “lugar” poderia ser – já que o modo poético se permite às subjetividades. “O Mundo, por exemplo”, eu dizia, “não é um lugar. Lugar é definição, ‘coisa’ que diz respeito ao ‘desde quando?’, ‘para quê?’, ‘até quando?’, ‘a partir de onde, sua localização?’... Ora!, quem sabe ‘onde é Mundo’?” Concluía, sem nada concluir.
As listras das meias que ela usa traçam riscos no ar, com o movimento de suas pernas. Mas as linhas, também, não estão condenadas às paralelas. Inexiste a reta que liga os dois pontos, no que seria a menor distância entre ambos; existe, sim, a curva, a geodésica – na geometria curva de George Friedrich Bernhard Riemann, que sobrepujou a curva, de Euclides. E cada vez que seus pés iam e vinham, era uma primeira e única vez, e para cada um, como são todos os movimentos – como o das ondas que morrem na praia, mesmo quando ninguém as observa.
– Pata, tu já viu o remake de 12 angry men, de Sidney Lumet?
– Ah?
Ela rompe com as minhas divagações sobre o nosso lugar no mundo, e sobre as certezas relativas ao tempo e espaço. Ainda leio Steinbeck, e ela me espera, absorta em pensamentos que nem sei...
– A versão de 12 homens e uma sentença, de William Friedkin, de 97.
– Putz! – digo, espantado. – Tu deve gostar mesmo desse filme. Vi não, baby.
Ela ri, para de balançar as pernas, agora paralelas, como as listras em suas meias. Silencia por um instante, como a organizar o que vai dizer, e que diz:
– Há uma fala lá, do Henry Fonda, que, para mim, resume toda a trama. É assim: todos acreditam que o réu é culpado, menos ele. Aí, nessa parte, ele fala do rapaz que é julgado.
– O réu.
– Isso. Ele fala assim, do réu: “Comecei a me colocar no lugar do rapaz. Teria pedido outro advogado. Se fosse minha vida em jogo, ia querer que o meu advogado pusesse todas as testemunhas de acusação na parede. Só há uma pessoa que pode ser considerada testemunha. A outra diz que ouviu e viu o rapaz fugir depois de matar. E há provas circunstanciais. Esses dois são tudo o que a promotoria tem. E se estiverem errados?” Daí outro, do júri, intervém: “Como assim errados? Então, para que testemunhas?” Mas, Fonda lhe pergunta: “Não poderiam estar errados?” E ele: “Como? Estavam sob juramento.” “São pessoas. Pessoas erram. Não poderiam estar errados?” Fonda responde. E o outro diz: “Não, não acho, não.” “Assegura isso?” É Fonda quem pergunta. “Não se pode assegurar isso. Não é uma ciência exata.” Fonda conclui vitorioso, ao menos por hora: “Isso mesmo, não é.” O outro parece entender a complexidade de tais juízos, e parece meio contrariado, inseguro... Tu vê isso, Pata? O veredicto decidiria a vida ou a morte do cara, bem novinho e tal; e eles doze, menos Fonda, estavam dispostos a condená-la, embora não tivessem certeza de que ele era culpado. A pergunta que me fiz, na hora: quanto vale a nossa vida?, e que “certezas” têm aqueles que decidem, todos os dias, se devemos viver ou morrer? Sim, porque há projetos de governos e armas que são capazes de, em um só dia...
“Meu Deus!”, penso, enquanto ela continua falando sem me notar, “que direito eu tenho de fazê-la esperar tanto?”
– Sim!, eu gosto da minha vida – ela diz, enquanto eu marco a página lida, e de onde deveria continuar, depois –, mesmo que ela não seja tudo aquilo que eu queira que ela seja.


domingo, 19 de fevereiro de 2012

42.






Da fé no amor, e suas recompensas



No amor romântico, como na fé religiosa – “‘Fé’ significa não querer saber o que é verdadeiro”, Nietzsche afirma, n’O Anticristo, de 1888 –, a razão é rebaixada, e o realismo, em favor do idealismo, e do carnaval dos sentidos.         
Daniela acreditava firmemente que João Aurélio era o “homem da sua vida”. Confidenciou-me, bêbada e chorosa, ali no Bar do Elvis, próximo à UFPB. Tanto acreditava que, mesmo sabendo das suas traições, afirmava irredutível: “É sexo o que ele faz com as outras, Patativa; comigo, é amor.” “Putz!”, pensei na hora, inconformado de que alguém ainda acreditasse nisso, e fazendo cara de praça em dia de chuva.
De um modo misterioso, e por alguma estranha defesa da sua fé no amor, ela depositava todas as forças na inabalável convicção de que, “um dia, pode anotar aí, o João há de se corrigir”. Largaria a vida que estava levando, dizia, e se devotaria somente a ela, e seriam felizes, igual no filme de Garry Marshall, Uma linda mulher (Pretty woman, de 1990). Mas ele – sim, ele – é que seria a Julia Roberts da história. “Você vai ver, Patativa. Você vai ver.” Nunca vi.
O amor romântico, para as suas recompensas, requer o salto da fé (Kierkegaard), requer o absurdo. Tal amor, sublimado, é dono das promessas de futuras beatitudes – mesmo quando, no presente, somente tristezas e decepções seja o seu quinhão. O ideal apostólico: “O amor é paciente, é benigno; não se porta inconvenientemente, não busca seus próprios interesses, não se irrita, não suspeita mal; tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta”, referente ao ágape, é espelho para Eros – no equívoco do idealismo, e da propaganda cristã – que deve, por aí, se corrigir, ser corrigido. Ágape é perfeito, Eros, não.
O amor romântico concebe a felicidade dos que se auto completam (corações perfeitos, almas gêmeas, et cetera), ou que pensam poderem-se completar no Outro, no  encontro com o Outro: a metade que lhes falta. Tais ilusões originam-se em nosso inconsciente senso de estética, de simetria. Barbie procura Ken; a princesa da Disney, seu príncipe: bonito, rico, educado, sério e, lá no fundo, um pouco safado – para que a vida privada dos dois não vire uma privada, sufocada pela monotonia.
Com o declínio da moral ocidental – a cristã, em particular –, o modelo de “bom rapaz, direitinho” (que nem na música do Tom Zé), tornou-se coisa para o cinema, e à literatura fantasiosa. “Bom rapaz, direitinho, desse jeito não tem mais”. E quando tem, é a coisa mais chata do mundo. Tão chata que somente a mãe (ou a avó) aguenta. O inconsciente feminino, grosso modo, vê com melhores olhos o masculino incendiário: James Dean, Jim Morrison, outros. Quando não é assim, é porque ou as amarras culturais – nas quais nasceu e habituou-se – ou a retração própria do medo, referente aos riscos (ou suas consequências), meteram-lhe uns freios. O amor romântico é uma máscara da Vontade de vida, ou do desejo de viver (Wille zum Leben); nossa inconsciente noção de estética e simetria, seus cães farejadores.
A Vontade também precisa de certas estabilidades que garantam o sucesso do empreendimento: daí viria, de modo natural, nosso sentimento de fidelidade, comum aos homens (instinto e razão) e às bestas (instinto) – havendo ou não a infidelidade. No homem, como em uma embalagem (conforme cada cultura), o instinto domado e amordaçado é o selo da moral, ou da virtude, que pode ser religiosa ou autônoma – e nada são senão conceitos. E se todas as histórias de todas as lutas têm em seus enredos mais profundos um script ditado pelo ideal de um amor perfeito, é que ele, em relação à Vontade da vida, tem uma funcionalidade conveniente. Como Schopenhauer escreve na Metafísica do amor – capítulo XLIV dos suplementos ao livro IV de O mundo como vontade e como representação (1818) –: “A natureza só pode atingir o seu objetivo fazendo nascer no indivíduo uma certa ilusão, graças à qual ele considera como uma vantagem pessoal o que na realidade é apenas vantagem para a espécie, do mesmo modo que é para a espécie que ele trabalha quando imagina trabalhar para ele mesmo.” O disfarce é tão perfeito que, esquecendo-se de suas próprias vidas, as pessoas fantasiam o amor para além delas mesmas, e deste mundo.
Desisti de tentar convencer Daniela a procurar outro que, ao menos, lhe respeitasse. Desisti de fazê-la entender que, dignidade, nada tem a ver com egoísmo, no sentido “ruim” do termo. Desisti de repetir que, “se você mesma não se ama, como espera que outros o façam?”   



quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

41.





Dos fantasmas vivos dos amores mortos



Lorayne fazia “poeminhas”, como ela mesma dizia.

Eu tenho flores nas pontas dos dedos,
e um espinho no coração...
o meu diário de tantos segredos,
é um fantasma preso no porão...

Como um Drummond que faz poemas para outro Carlos, falando de si para si, mas como se não fosse – “Ah, Carlos, não se mate!...” –, também Lorayne, e os trazia para que eu avaliasse. Coisa que ela mesma fazia, argumentando:
“Pois quem não tem segredos e não convive com fantasmas de amores findos?” Abria os braços, erguendo os ombros, para dar ênfase. “Quem, em algum momento da vida, já não teve o coração ferido por um espinho, quando, nas mãos, somente flores era o que trazia? E quem, nas dores do amor, não é meio louco, meio poeta, meio Van Gogh, meio Miró?”
“Para o amor, Lorayne”, respondi, nessa ocasião, enquanto ela acendia o cigarro e enchia o pulmão de fumaça, “temos de aprender sobre a resignação, sobre os riscos e, acima de tudo, não termos medo dos seus tantos fantasmas.”
Ferida e magoada, Lorayne estava sozinha. Disse, enquanto dividíamos uma garrafa de Angelica Zapata, que esperava por um amor que lhe chegaria qual canção de Nina Simone, ou de Violeta Parra, na violência sutil do cotidiano. Para esse amor, compunha, já, os poemas que não seriam lidos por mais ninguém.


segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

40.






Da velhice e da mecânica que continua as gerações



Os velhos veem com os olhos da eternidade. É caso de se pensar: não nos foi dada, a juventude, como lição para que, bem aprendida, saibamos aceitar com tranquilidade o que vem depois? Se a filosofia, como Sócrates ensinava, é uma meditação para a morte, por que não seria, a juventude, sua escola? Quando escreveu o Diálogo sobre a velhice (Cato Maior ou De senectute), que dedica ao seu bom amigo Ático, Cícero estava com 63 anos; e, Ático, 66. Estavam velhos, e a morte já os cortejava. Por boca de Catão – que faz seu personagem principal, por admiração e respeito –, Cícero afirma: “Toda idade é pesada àqueles aos quais nada há neles mesmos para viverem bem e felizmente; ao contrário, nada que a necessidade da natureza traz pode parecer um mal a esses que tiram todos os bens de si mesmos. A velhice é, em primeiro lugar, dessas coisas que todos desejam atingir, e, uma vez conseguida, acusam-na: tão grande é a inconstância e a perversidade da estupidez!” Nada nos garante, como queria a Adélia, que algum amor da nossa mocidade torne-se a ventura de uma velhice feliz:

Me dá alegria, Pai, eu só quero a alegria,
os olhos do moço em mim.
Me cansarei, redonda, casável,
capitulada entre massas e molhos,
sentirei fome e prazer,
ficarei velha e feliz.
  
Ah!, a poesia (também a teologia). Nela, os milagres e as visões delirantes são possíveis, permissíveis, louváveis e, mesmo, sagradas: o êxtase místico (São João da Cruz, Santa Teresa D'Ávila, et cetera), a cura do câncer, a paz mundial... A realidade da vida que se impõe, porém, é profana: não há fim último senão ser, e continuar sendo, até o fim do Eu consciente. Tal realidade profana o santo lugar da beatífica visão do paraíso derradeiro, porvir, que os velhos – ao menos os que conservam a fé religioso-escatológica – veem com os seus olhos de eternidade.

* * * * *

O velho, amolador de facas, viu quando o casal se aproximou. Não deu atenção. É que muitos passavam assim: olhando-o de longe, olhando-o por olhar, por curiosidade (quase não há mais amoladores de faca pelas cidades grandes); depois iam embora, silenciosos, anônimos. Tinha os olhos fixos na roda que, presa à correia de couro e ao pedal, girava conforme impulsionada pelo seu pé direito. Algumas faíscas saltavam de uma pequenina tesoura que era amolada. Somente permitiu-se interromper quando precisou responder ao rapaz que se acompanhava de uma moça bonita. Esse, alegre e amistoso, perguntara-lhe:
– O senhor não é o seu João?
Levantou o rosto lentamente. Semicerrou os olhos, para ver melhor quem era aquele por quem era abordado.   
– Sim! E a sua graça?
Ninguém mais falava assim, perguntando por um nome. E como o moço lhe pareceu confuso, tratou logo de acudi-lo, também gentil e sorridente:
– O senhor me conhece de onde?
– Pois então, seu João, sou filho do Carlos. Carlos Gomes. Acho que o senhor o conhece, não é?
– Sim, sim, meu rapaz! E como eu haveria de esquecer do velho Gomes? Inda mais com um nome desses. Motivo de gracejo entre nós, por causa do compositor e... Eu e seu pai fomos colegas na mesma turma de escola. Somente bem depois, quando ficamos adultos, e com os nossos filhos já nascidos, foi que nossos caminhos tomaram rumos diferentes.
O velho olhou o moço mais cuidadosamente, examinando-o.
– Então você é aquele gurizinho que eu vi, assim, tanticozinho assim? Mas, vejam só!
Fazia medidas no ar, colocando um pequeno espaço entre o indicador e o polegar da mão direita. Perguntou, em seguida:
– Mas, venha cá, me conte: e como é que anda o Gomes?
– Ah!, vai bem. Não sei se o senhor sabe, mas ele abriu mais uma loja, ali perto da Lagoa. Tá pensando em abrir mais outra, fora da cidade, talvez em Campina Grande; e quer botar mais uma no Tambiá.
– Gomes sempre teve um espírito muito empreendedor. Dava para notar, desde muito cedo. Mais uma loja no Tambiá, hem? Vejam só!
– Pois é! E o senhor, seu João, como vai? Tenho certeza que ele vai me perguntar isso, quando eu disser que o encontrei.
– É, vai mesmo. Bom, como você pode ver, não tive a mesma sorte que seu pai. Trabalhei aqui e ali, sempre para os outros; fiquei sem emprego. E agora que sou velho, não para trabalhar, mas para arrumar novo trabalho, ganho a vida fazendo uns bicos aqui, outros ali, amolando facas, tesouras, e essas coisas.
– Sei como é. Tenho certeza que o pai vai querer lhe ajudar, pelos velhos tempos.
– Ah!, fico agradecido por isso. Mas, independente de qualquer coisa, diga-lhe que mando lembranças, e que guardo boas recordações de nossa mocidade. Pergunte sobre o franguinho do Fernando. Ele vai dar umas boas risadas quando você disser isso.
E o velho riu, gostosamente. O rapaz não sabia do que se trataria o tal “franguinho do Fernando”. Seu pai certamente lhe haveria de contar essa história, elucidando os motivos dos risos do seu João. Por isso, não perguntou nada. Riu também, e sem saber por que ria.
– Mas, vejo que você vai se casar – o velho disse, notando a maneira carinhosa com a qual ele cuidava da moça, e vendo as grossas alianças que ambos usavam.
A moça de olhos brilhantes riu. Parecia feliz.
– Pois é – o moço confirmou. – Já plantei uma árvore; mas de uma, na verdade. Talvez nunca venha a escrever um livro; não creio que tenha algo realmente de valor para sua composição. Estamos esperando um filho – disse, apertando a mão da moça. – Já já ele estará chegando.
– Plantar uma árvore tem a ver com a permanência da vida sobre a terra, e o ambiente propício às gerações seguintes; escrever um livro diz respeito à transferência do saber adquirido, para o progresso em todos os sentidos; e um filho representa a nossa própria continuidade. Por eles, ou através deles, nós mesmos nos mantemos vivos, nosso inconsciente nos diz. Filhos são retratos dos pais.
– Eu não havia pensado o ditado por essa perspectiva.
O velho esboçou novo sorriso, lembrando-se de algo que havia lido em Camus: “Começar a pensar é começar a ser atormentado.” E lembrou-se de coisas mais cruas e realistas, ditas pelo existencialista franco-argelino. Mas não disse nada. Não!, não diria. Aquela felicidade deveria permanecer, até o fim, que às vezes chega depressa demais. O próprio Camus, tão novo, 47. Ele sabia do amor romântico: do tanto de absurdos sobre os quais ele costuma ser edificado, e a somatória de mentiras que asseguram a duradoura ventura. A descoberta da mecânica do arco-íris não o tornou menos bonito; mas a sua magia se foi, àqueles que não têm os olhos na magia. Não, não diria nada. A ignorância, em dados casos, é o melhor dos prêmios, e o único paraíso... que somente pode ser se se ignora-se. “Começar a pensar é começar a ser atormentado.” Ah!, que grandes e fascinantes são estes absurdos: ser, amar!
Depois de se despedir, o casal saiu abraçado, conversando alegremente sobre alguma coisa. E tudo voltou a ser como era, mas modificado.
         

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