sábado, 11 de fevereiro de 2012

39.





Da noção poética



Na Praça da Alfândega, em Porto Alegre, Drummond conversa com Quintana:
– E agora, José? – Diz o mineiro de Itabira do Mato Dentro, referindo-se a não eleição do gaúcho de Alegrete à Academia Brasileira de Letras.
– Todos esses que aí estão atravancando o meu caminho, eles passarão... eu passarinho! – Responde Quintana, jocoso.
Nisso, ironia das ironias, vem uma pomba – dessas que ficam aí pelas praças, comendo o milho das prefeituras e cagando sobre os transeuntes do passeio público e sobre as estátuas que, estatuadas, nada podem senão aguentar a sorte que lhes coube – e faz sua obra bem no ombro do poeta de Sapato florido, que dispara, praguejando a vivente:
– Maltratar os poetas é indício de mau caráter; ora bolas! – E, rindo-se de si mesmo, acrescenta: – Deveria haver, como queria Bandeira, um céu para os passarinhos, e uma Sacha que os cuidasse.
Drummond, que ama as aves e sabe bem do inexiste senso moral das mesmas, fica de pé e oferece um lenço bordado de vagonite ao amigo, dizendo-lhe:
– Mas o pardalzinho morreu, não foi? Não lhe bastou ter o amor da menina. O Amor... – teologizou – O amor nunca se basta. Amor com amor não se paga; amor é estado de graça.
– O meu amor é belo como um barco! – Responde Quintana, voltando a estatuar-se.
Estão assim até hoje, em um papo que somente os dois compreendem.




quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

38.





Das estações do amor, e das canções que fazem a trilha



Sempre que comprava um CD novo, Alex nos convidava a escutá-lo, em sua casa. Eram pretextos para reunir os amigos. Conversávamos sobre bandas, e bebíamos, e jogávamos ludo, war e, acima de tudo, conversa fora. Eu já morava sozinho, desde aquela época, e adorava esses encontros. Estava com 18 anos, e Alex com 17. A maioria dos nossos amigos e amigas era por aí, mais ou menos próximos da faixa etária.
Uma vez fomos ouvir o álbum novo da Legião Urbana, recentemente lançado, O descobrimento do Brasil. Era uma tarde quente de 1993. O ar que respirávamos, comecinho da década de 1990, ainda vinha dos anos 80. Foi um tempo bom, aquele. Vejo Alex dizendo que a música que mais gosta n’O descobrimento é “essa que é o nome do disco”, e cantando junto com o Renato, imitando sua voz grave e bonita:

Ela me disse que trabalha no Correio
E que namora um menino eletricista
– Estou pensando em casamento,
Mas não quero me casar...

Cada um tinha a sua preferida. De todas, nunca decidi entre “Vamos fazer um filme” e “Giz”. Adorei as duas, de cara. Comprei o CD, o mesmo que tenho ainda hoje, tão logo pude.
Perto da casa de Alex havia uma igreja. Não lembro mais a que santo era dedicada. Ao lado dessa havia um terreno baldio, onde armávamos uma rede de vôlei e disputávamos umas partidas. E o fazíamos ao menos uma vez por semana, no final de algum dia.
Eu era apaixonado por Joquebede, filha de um pastor da Igreja Batista Regular de Crato. Ela sabia da minha paixão, e até chegamos a trocar uns beijos. Ela também gostava de mim, mas pedia que eu esperasse que ela decidisse isso tudo melhor. Eu não sabia bem o que havia de “esperar”, mas esperava.
Nas partidas de vôlei, ela sempre estava lá, me vendo jogar. Eu, como qualquer cara de 18, me esforçava ao máximo para ser o melhor, para impressioná-la, para que ela gostasse de mim. Parece que não houve tempo para a gente, porque tive de me mudar.   
Dois anos depois, quando eu já morava em João Pessoa, fiquei sabendo que Alex, certa noite, enquanto estava de guarda no Tiro de Guerra (TG 10-004), brincando de roleta russa com outros, disparou uma bala de 38 contra a própria cabeça. Tiro fatal. Nunca consegui perdoá-lo pela estupidez. Como pode fazer isso? Por que foi tão egoísta? Por que não pensou no tanto de sofrimento que poderia trazer à família, e aos amigos, e às meninas? No enterro, também me disseram, duas garotas choravam dizendo que eram suas namoradas.
Quando penso nos velhos e bons amigos, dentre outros, lembro-me do Alex, e parece que vejo as meninas chorando por aquele “amor” perdido. Para tais lembranças, “O descobrimento” tornou-se a trilha inevitável: amores findos, gente morta dizendo adeus, outro Eu que não existe mais.
Hoje, exatos doze anos distam do ocorrido. Por isso, e agora, ouvirei mais uma vez “O descobrimento...” Será minha homenagem solitária ao Alex que... Ah!, “vai com os anjos!, vai em paz...”




terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

37.





De quando uma alegria traz os seus contrários



Márcio finalmente completara os seus tão sonhados 18 anos. Sonhados porque seu pai, satisfeito que era com ele, moço muito bom e obediente, prometeu-lhe dar uma moto Honda, 250 cilindradas, “mas somente quando você chegar aos dezoito!” Chegou aos dezoito. E assim foi. A moto era linda: novinha, vermelhinha, do jeitinho que ele queria. Um sonho realizado. Mas havia outro.
Depois de ouvir as mil e tantas recomendações da mãe, Márcio ligou para Juliana, convidando-a a ir com ele, em sua nova moto, ao forte de Cabedelo, ou à Ponta do Seixas, ou aonde ela quisesse ir. Não ficaria nada mal impressionar a garota que, em sua garupa, ele pensava, lhe abarcaria pela cintura, espremendo-se no abraço. “Juliana é a menina mais linda desta cidade, Patativa”, ele me dizia, “e do universo todinho”. Que maravilha! A vida era boa. E todas as vias eram veias que apontavam para o paraíso. Era somente seguir... vivendo.  
Marcaram de sair no domingo, quando o sol não estivesse em um para cada habitante da cidade.
O ar que entrava pelos lados da viseira do capacete, acariciando gentilmente o seu rosto, dava-lhe uma agradável sensação de aventura, de liberdade, e de poder. Nas mudanças de marcha, que provocavam pequeninos solavancos, Juliana lhe abraçava, rosto colado à sua nuca. Dava até para sentir sua respiração, e seu perfume. Tudo como ele havia sonhado. Tudo como ele queria. Seus sonhos, finalmente, estavam se realizando. Só faltava agora, para que tudo fosse realmente perfeito, ela dizer que “sim”, que “quero ser tua garota pelos séculos dos séculos, amém.” Sim, faltava isso; mas não parecia mais uma coisa tão longe de acontecer. E ele ainda não entendia o porquê de ela ser assim tão, tão arredia; tão desconfiada dos próprios sentimentos.
Márcio pensava nessas coisas quando, na ladeira, no começo da descida que dá para a praia de Cabo Branco, viu um vira-lata correr para atravessar a pista. Não tinha como frear. Atropelou o animal e, ao mesmo tempo, perdeu o controle sobre a moto. Ele e Juliana foram arremessados contra o meio-fio, caindo bruscamente sobre algumas pedras que estavam no encostamento. Ela teve o rosto dilacerado e algumas fraturas expostas, no joelho direito e nos braços. Morreu na hora. Márcio, conforme laudo da polícia técnica, além de várias escoriações pelo corpo, quebrara o braço direito e a cabeça. Esta, aberta que estava, fizera com que ele perdesse bastante massa encefálica. Morreu ali mesmo, deitado de bruços, enquanto o cão traçava círculos na pista, rodando para os lados, ganindo, tentando levantar-se, com a língua para fora e o sangue escorrendo pelos cantos da boca.
Nos dias seguintes, o povo da rua não falava de outra coisa, admirados de como o destino pode ser tão negro e impiedoso.
Os pais de Márcio, numa das visitas que lhes fiz, deram-me de presente o disco que ele ouvia antes de sair para encontrar-se com Juliana. Disseram-me que não conseguiriam guardar “aquilo”, e que o Márcio gostava muito de mim, e certamente iria querer que eu ficasse com ele, porque eu gostava muito daquela banda e então... Era o álbum Ouça o que eu digo, não ouça ninguém, de 1988, dos Engenheiros do Hawaii.
Márcio tinha uma irmã com quem tive um brevíssimo romance, Mayra. Quando eu já estava de saída, na calçada, ela contou-me que o irmão tinha mania de sair e deixar o som ligado. “Nesta última vez”, disse-me, chorando, “quando fui desligar, tava lá tocando aquela música: ‘É muito engraçado que todos tenham os mesmos sonhos e que o sonho nunca vire realidade’”. Precisei abraçá-la, tentando dar algum consolo. E aí ela disse que lembrava bem disso porque a frase tinha ficado martelando em sua cabeça, como se houvesse alguma relação entre o que ouvia e o trágico ocorrido. “Como é triste que as pessoas morram tão cedo, não é?” Confirmei com a cabeça, ainda abraçado a ela, que completou: “Maldita Honda dos infernos! São as nossas maiores alegrias que também podem trazer as nossas maiores tristezas. Mas não temos nunca como saber, e precisamos nos permitir aos seus riscos.” Concordei novamente.  
Hoje fui ao cemitério do Cristo Redentor. Levei algumas flores para Márcio e Juliana, que lá estão sepultados. Sei, claro, que isso não faz diferença nenhuma para os dois; mas, para mim, sim.   


domingo, 5 de fevereiro de 2012

36.




Da indecisão quanto ao querer  



Zaratustra observou uma mulher que carregava um enorme vaso d’água nos ombros. Os homens que o escutavam notaram que ele, com os olhos, a acompanhava em seu pequenino trajeto: do poço à taberna, que distava pouco mais de vinte metros da praça. A mulher, talvez pelo excesso de peso, e na metade do percurso, esvaziou parte do conteúdo. Ao fazê-lo, porém, parece que esvaziou demais, pois fez uma cara engraçada, de frustração e descontentamento. Mas seguiu adiante.
Todos esperavam que Zaratustra fizesse algum comentário àquela cena, mas ele não disse nada. Sua atenção, agora, estava no menino que brincava com um velho e esquelético cão.
 – Não nos dirá nada sobre a mulher e sobre o ocorrido? – Alguém perguntou, incitando-o. Outros riram, esperando que o eremita se pronunciasse.
– Acaso Zaratustra é um tagarela do teatro cômico? Porque falaria de tudo, como se as palavras fossem a erva que nasce pelos campos? Por que teria um discurso pronto sobre tudo, e disposição para derramá-lo sobre os idiotas? Nada tenho a vos dizer. – Declarou, indolente.
Todos ficaram contrariados. Zaratustra parecia não corresponder, de uma ou de outra forma, ao tipo de sábio que eles desejavam. E foi aí, enquanto trocavam olhares incógnitos, que ele lhes disse, repentinamente:
– Por que necessitais de um doutrinador? Zaratustra é, acaso, um doutrinador? Precisa de discípulos sobre os quais esvazie a sua doutrina? Não é Zaratustra uma planta antes da semente? Não são as suas palavras podadeiras antes dos galhos? Quem, além dos sábios, necessita de alguma sabedoria? Pode a água derramada retornar ao vaso?
Os homens, ao que parece, irritaram-se com Isso. Pois foram embora, praguejando baixinho, e sem saberem exatamente do que o velho eremita estava falando. “Pode a água derramada retornar ao vaso?”, rum!
Encontrando-se sozinho, Zaratustra virou-se para um asno que pastava por ali, depressivo, ruminando.
– Esses homens – disse ao animal, que lhe ignorava por completo – são como aquela mulher que conduzia o vaso, e como todas as mulheres, e como todos os homens: não têm o que querem e, quando têm, não têm certeza se é isso mesmo o que querem. E quando têm certeza de que, sim, é o que desejam, já não sabem mais o que fazer com isso.
O asno, naturalmente, nada lhe disse.


quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

35.




Dos espaços vazios


A cada nova conquista, Rafael se sentia mais vazio, mais sozinho e mais alheio ao mundo. Ele mesmo dizia assim. E dizia que não lhe adiantava o “pegar” tantas garotas, que elas não o satisfaziam por muito tempo. Cada rosto diferente que aparecia era uma promessa de novidade a manter-se, na expectativa de algo mais feliz e duradouro que uma semana, e umas trepadas, e et cetera. No pouco tempo comum dos dois, porém, o enigma de antes, e o brilho e a graça da beleza feminina daquela, transmudavam-se, transmudavam-na, mergulhando-a na imensa galeria dos lugares comuns que são todos e todas.
“É que eu me acostumo rápido demais com a beleza”, dizia, dando a entender que a menina, por mais linda que fosse, perderia a graça, e fatalmente morreria para os seus sentidos de caçador, e para a sua reação positiva ao seu sexo.
“Vai ver que tu é gay, Rafa? Já pensou na possibilidade?”
Era uma provocação que eu e o Márcio Barcelos fazíamos, nalgumas das várias noites em que conversávamos e bebíamos, atravessando as madrugadas geladas do inverno porto-alegrense.
“Sou não, Patativa. Tenho certeza.”
“Então tu é só mais um descarado sem vergonha”, eu aproveitava, rindo.
“Isso aí mais parece autoafirmação: o cara querendo se convencer de que é o fodão, de que pode conquistar esta ou aquela e exibi-la como um troféu, para mostrar que é...”
“Viado.” Eu não ia perder a piada, não é?
Sim, era uma coisa boba, e restrita ao nosso pequenino círculo. Não representava, realmente, uma opinião sexista fundamentada, e menos ainda preconceituosa.
Certo é que, a cada “adeus, a gente se vê por aí”, Rafael sentia como se algo dentro de si também partisse, como o gás de um balão que vai murchando. O gás, na comparação, seria o seu sentimento, e ele, a bexiga. Era assim: uma parte sua partia com a menina que, uma vez, houvesse entrado em sua vida.
Era preciso encontrar alguém que, mesmo não sendo perfeita, por algum mecanismo sentimental, permanecesse. Senão, ele dizia, “daqui a pouco eu mesmo não me encontro, despedaçado em mil pedaços”. Creio que entendia o seu sentimento. Uma vez, e pelas semelhanças, evidentemente, fiz com que ele ouvisse o poema “Propiciação”, de Oswald de Andrade, do Serafim Ponte Grande - publicado pela primeira vez em 1933. No espírito do Oswald, eu mesmo li, com a voz grave e impostada:

Eu fui o maior onanista de meu tempo
Todas as mulheres
Dormiram em minha cama
Principalmente cozinheira
E cançonetista inglesa
Hoje cresci
As mulheres fugiram
Mas tu vieste
Trazendo-me todas no teu corpo.

Comentaria, ao final da leitura: “Rapaz, acho que uma hora dessas vai aparecer uma garota assim, mandada pelo Capeta, com cara de anjo e corpo de puta de luxo, te fazendo esquecer de todas as outras. E ela vai te bastar, embora a gente saiba que nunca basta. Enquanto isso não acontece, viadinho, não vá se perder por aí; e tente gostar mais de você mesmo.” Vai que o Márcio tinha razão. Sim, bem que poderia ter. Vai saber. A criança que mora em nós nunca cresce. O que cresce, realmente, são os objetos dos seus desejos.


segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

34.





Da tristeza que anoitece a alma


“Vem, Himeneu, oh, vem, / que o teu rosto radiante / seja quase um sol nascente, / e traga a estes amantes os dias serenos, / e para longe afaste sempre / os anseios, a dor, os horrores e as sombras.” É como canta o Coro, tão logo surge em Orfeo, ópera do italiano Claudio Monteverdi, apresentada pela primeira vez em 1607. O invocado Ὑμέναιος, filho de Apolo e Afrodite, é o deus do casamento, para os gregos. Ele, caso atendesse ao pedido, daria a Orfeu e Eurídice, dias serenos: sem anseios, dores, horrores ou sombras. Pois, a própria história do infeliz casal nos mostra, há tristezas que fazem anoitecer a alma. A de amor, qualquer amor, certamente é uma das maiores.
Quando Pedro encontrou Beatriz, a pedido dela, logo notou algo diferente. Sim, havia um ar de mistério no jeito que ela o encarava, como se quisesse rir ou chorar. Na fração de segundos em que a encarou, como se fosse a primeira vez, depois de tantas, ela parecia dispersa, meio ansiosa, muito elétrica.
– Tá tudo bem? – Perguntou, olhos nos olhos dela.
– Está sim! Aliás, e ao menos para mim, até demais. – Respondeu, abrindo os braços para recebê-lo, para abraça-lo. Mas, ele sabia: havia algo a mais.
– Ai, Bia!, fala de uma vez, danada! Que é que tá pegando, hem? Quê que tu quer falar?
Ela quase não se continha em sua ansiedade e tensão, fazendo cara de choro e riso, ao mesmo tempo.
– Tenho medo da tua reação, Pedroooo. Quer dizer: não sei se é a melhor hora para te falar isso e...
– Ah, meu Deus! – atalhou, fitando-a com um olhar de “pode dizer o que quiser que eu aguento”. – Isso o quê? Fala de uma vez, criatura!, falaaa... Não gosto desse suspense todo.
E ela falou, vomitando as palavras com toda a urgência do mundo:
– Estou grávida, Pedro! É isso. Estou grávida, esperando um filho nosso.
Há horas em que os nossos pensamentos se misturam, como a neve artificial naquelas esferas de vidro de inverno, de Natal, quando sacudidas; e não temos o que fazer senão esperar que eles voltem ao lugar – se queremos que nossas palavras e ações façam sentido. E até que voltem, ficamos assim, meio paralisados. Quando há tal inação, nossa confusão mental é facilmente denunciada pela expressão do nosso rosto: o da tristeza ou da alegria. Tanto faz.
– Ah, meu Deus! Sério, Bia?! Caraaalho, meuuu!
Levou as mãos à cabeça, girou em um vagaroso trezentos e sessenta. Olhou para ela, incrédulo. Ela começou logo a fungar, limpando o nariz choroso com a palma da mão esquerda, sei querer acreditar no que acreditava.
– Eu não devia ter te contado agora.
– Ué!, por quê?
– Melhor ter te preparado antes e...
– Nãooo, meu amor! – ele entendeu o que ela poderia estar pensando. – Não é nada disso! É que eu não esperava que, quer dizer...
Tomou-a nos braços, dizendo que “te amo, te amo, te amo”, repetidas vezes. E ficaram assim, e em silêncio, até que Pedro disse, rindo, quase saltando de felicidade:
– Que coisa boa, Bia! Que coisa tão boa! Tu me faz tãooo feliz!
Abraçou-a ainda com mais força, espremendo-a contra si. Sim, estava realmente muito feliz. É certo que não havia pensado em ter um filho, em ser um pai. Agora, porém, parece que isso era a coisa que ele mais queria em sua vida; a coisa que mais merecia festa e expectativa.
Ela sorriu, aliviada e feliz, e pensou “que boba eu sou!, não entendendo o jeito dele agir”. Enxugou novamente o nariz com a manga da camisa, ainda abraçada a ele.
– De quantos meses?
– Acho que de um, um e meio... Não sei direito. Vou ver isso amanhã.
Beijaram-se, e fizeram mil planos para o bebê que seria o mais amado, o mais querido, o mais mais deste mundo todinho.
– Pedro – ela disse –, acho que vou passar dias inteiros olhando para ele, ou ela, hipnotizada.
Ele riu, e amou aquele instinto materno que ele não escondia.  
Mas, e como Shakespeare dizia, “há mais mistério entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia”. Foi em um destes mistérios, destas coisas que não se explicam, que Beatriz, seis meses depois, quando voltava da clínica, olhando o resultado do pré-natal, não viu o Pálio prata que, em alta velocidade, não teve como frear a tempo. Não morreria no acidente, mas o bebê, sim. Já tinha até nome: Eduarda.
Desde então, Beatriz não conseguiu mais levar a vida de antes, atormentada pela culpa de haver perdido o bebê, praticamente pronta para vir ao mundo. O impacto psicológico daquele acidente foi de um estrago enorme. Em sua contabilidade sentimental, o tempo não passa, ou passa lento e arrastado. Quando não está dormindo, que é um tipo de fuga do real, que é doloroso demais, está chorando pelos cantos, soluçando a perda abrupta e dolorosa de sua... Eduarda. E dia após dia Pedro vê Beatriz se afastando da razão, apesar de todos os tratamentos. Ela lhe pergunta, repetidamente:
– Será que o bebê sofreu? Será que ela, se tivesse nascido, iria olhar o céu, procurando bichinhos feitos de nuvens? Será que iria querer explicar todas as coisas do mundo, ou estaria contente em viver cada dia como um prêmio da natureza? Vai, Pedro, me diz; me diz...
– Eu não sei, meu amor; eu não sei. Acho que as crianças não têm pensamentos assim tão... complexos; também acho que as crianças de hoje não têm mais o costume de fazer isso: observar as nuvens que se desenham.
– Sabe – ela disse, filosofando, porque isso é a coisa que mais os loucos sabem fazer –, às vezes eu queria ser outra pessoa. Mas aí, penso assim: se eu fosse outra pessoa, ainda ia querer ser outra pessoa que desejaria ser outra pessoa, sem conseguir nunca me livrar desse círculo de eterno retorno do mesmo... Ah!, mas isso só funcionária se eu fosse eu mesma, entende? Que nem um oroboro.
Pedro ficou em silencio, pensando sobre o que ela dizia – que não era sem sentido –, e visualizando a imagem de uma serpente engolindo-se a si mesma, e de um cão que perseguia a sua própria cauda, e que relação havia entre isso e o que ela acabara de dizer.
– Pedro?
– Oi.
– Se nosso bebê tivesse nascido, a gente ia ter que botar umas redes nas janelas, não era? Olha só: sétimo andar... Vai que a gente deixava a janela aberta e o bebê, vendo os bichinhos nas nuvens...
– É, teríamos de botar umas proteções...
Ele concordava com tudo, seguindo à risca as recomendações do psiquiatra.
– É – dizia, com o olhar muito distante –, a gente ia ter de botar umas redes nas janelas...


quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

33.





Das cartas de desamor



Fernando Pessoa fala das cartas de amor, que são ridículas. As de desamor, também, em nada são mais significantes. Sabe-o bem Luiz, que viu o amor de Isadora minguar do pouco ao quase nada, e daí para a coisa nenhuma. Ela, ele desconfiava desde que a convidou para morar consigo, não fazia o tipo “moça para casar”. Isadora tinha o coração na rua, e os olhos no breu do mundo. Uma vez, decerto sem notar que dava margem às várias interpretações, ela contou de um sonho que teve, com um Zeppelin enorme, que tinha uma escada enorme que descia até a varanda do apartamento onde os dois viviam há pouco mais de seis meses. E ela subia pela escada, ignorando os perigos, por amor à liberdade que era... voar. Noutra ocasião, quando ele não quis ir a uma festa com ela, alegando estar realmente muito cansado do dia duro na repartição, ela não se fez de rogada: foi sozinha. E dançou, e bebeu, e bebeu, e dançou. Chegou muito tarde naquela noite. Ele, que tinha ficado em casa para descansar, não conseguiu. Ficou pensando se não deveria tê-la acompanhado para... vai saber. Quando ela voltou, ele ainda estava acordado, e cansado, e chato, e estressado, e perguntou o porquê de ela ter demorado tanto. Ela não disse nada além de um desdenhoso e desaforado “vivendo”. Nunca mais foi a mesma, desde aquela noite. “Será que ela se envolveu com outro cara, na festa? Se foi, e se ela é mesmo assim tão volúvel, não vale mesmo a pena estarmos juntos”, pensava, sem bem saber o que pensar. “Hoje será diferente.” Disse a si mesmo, enquanto passava pela Castelo Branco, em direção a Bancários. “Vou conversar com Isa, com calma e delicadeza; tudo vai se ajustar, como tem de ser. Eu ainda a amo tanto.”
Não demorou mais que dez minutos para que ele chegasse em casa. Ela não estava. “Talvez tenha ido ali ao Shopping Sul”, divagou. Havia um envelope sobre a mesa em que ele sempre largava a mochila, tão logo chegava. É claro que ela o havia deixado ai de propósito, sabendo que seria a primeira coisa que ele veria. E assim foi. Luiz nem deu importância. “Ela deve estar avisando que foi ali e já volta.” Foi até a cozinha, encheu um copo com água; bebeu devagar. No último gole, abriu o envelope com uma só mão, sem emoção nenhuma. Nem estava colado. Era um bilhete, escrito a mão, e perfumado.  
Leu em silêncio e...
... no silêncio, o copo escapou da sua mão, espatifando-se contra o piso escuro da cozinha. O baque seco ecoou na casa vazia.
“Não é possível!”
Teve vontade de chorar. E por mais que segurasse as lágrimas, elas teimavam em vir, enquanto ele lia e relia o bilhete de tão poucas linhas. Amassou a pequenina e frágil folha de papel cor-de-rosa.
Suspirou.
Desamassou.
Tornou a ler.
E era como se pudesse ouvir a própria voz de Isadora, lhe dizendo:

Não penses mais em mim
Seria inútil, pois nunca te amei
O que houve entre nós dois foi apenas fantasia
Nosso passado terminou como terminam todas as ilusões
Doravante seguiremos caminhos diferentes
Não me procures, seria uma desilusão a mais.

Isa.

Ah, Deus! Uma carta de “adeus”.
Ficou ali, imóvel, como se a sua alma tivesse abandonado o seu corpo e partido ao encontro de Isadora, onde quer que ela estivesse. Onde estaria?
Uma lágrima, sobre o bilhete, fez borrar a tinta porosa da caneta azul onde havia o “adeus” escrito. Ele, agora, era uma mancha enorme e indefinida... como indefinidos são todos os finais felizes ou infelizes de todas as histórias românticas de amor, em que eles  são sempre, e sem variação alguma, novo recomeço.

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Inspirado no samba-seresta “A carta”, música e letra de Iza Franco, gravada no álbum “Sanfona do povo” (1964), de Luiz Gonzaga.


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