segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

11.



Da possessividade


O amor de um sempre procurará possuir o amor do outro, que é objeto do seu próprio amor; e não há palavra melhor que esta, para defini-lo: possuir. Era assim que Maria amava Sérgio, que se tornara, ao mesmo tempo, seu doce céu e seu amargo inferno. Se ele estava em casa, mesmo sendo grosso como costumava ser, ela estava bem – pois sabia que ele não poderia estar aí e, ao mesmo tempo, com “aquelas putas” da repartição – embora o marido jamais tenha demonstrado o menor sinal de algum “desvio de conduta”; e nem precisava. Ela ficava louca só de pensar nas possibilidades. Quando Sérgio vestia uma camisa ou mudava qualquer peça de roupa, Maria ficava paranóica, perguntando:
– P’ra onde é que você vai?
– P’ra onde? Ora, Maria!, p’ra onde? P’ro trabalho, uai! Não é o que faço todo santo dia, nessa mesma hora?
– De que horas você volta?
– Depois do trabalho.
– Me promete que não vai beber.
– Tá, Maria!, eu prometo. Além do mais, e você sabe bem, faz tempo que não bebo. Recomendações do médico.
– Você me liga?
– Para quê?
– Ah, só p’ra ligar...
– Ai, meu Deus! Está bem, Maria. Se você quer que eu ligue, eu ligo... “só pra ligar”.
Ele dizia, com um balão de aspas em seu pensamento; com imaginárias pontas de dedos imaginários. E era assim que, quase todos os dias, Sérgio saía de casa, com vontade de não retornar para sua mulher grudenta, ciumenta, chata e gorda. Pensava no tanto de histórias que ouvira, de um ou de outro que, dizendo à mulher: “vou ali comprar cigarros”, sumira de uma vez por todas. O que era a sua vida? No que se transformara? Trabalhava somente para sustentar um estorvo que, não sabia como, trouxe para a sua casa, para o seu mundo. E Maria, como toda mulher, sabia perceber esses sinais de fadiga sentimental: a falta dos beijos, o ausente desejo de sexo, o cotidiano engessado, et cetera. Ela sabia. E também sentia que, uma hora dessas, Sérgio sairia para o trabalho e nunca mais retornaria. A ideia de perdê-lo foi crescendo como uma monstruosa avalancha. Com tais pensamentos, Maria, por noites a fio, não conseguia dormir direito. As noites mal-dormidas deixavam-na ainda mais chata, mais feia, mais gorda e paranoica. Não demoraria a que profundas e escuras olheiras se desenvolvessem. E agora ela notava insinuações vindas de todas as partes. Se alguém ligava e Sérgio atendia, ela queria saber:
– Quem era?
– O Helinho. Queria saber se vou à pelada, no sábado.
– Era o Helinho mesmo?
– Ué!? Claro que era, Maria!
– E você vai p’ra pelada?
– Isso eu ainda não sei. Tô vendo aqui...
– Se você for, me leva contigo.
– Que é que você vai fazer numa pelada onde só tem marmanjos, mulher? Ah!, isso não será possível. Sinto muito.
Não fazer parte da vida de Sérgio em todos os momentos parecia abrir lacunas que caberiam uma galáxia inteira. Ela queria que ele fosse, como disse o padre no dia do casamento, “ossos dos seus ossos, carne da sua carne”. E talvez seja a literalidade de tal interpretação que tenha levado Maria à tenebrosa ideia de manter, de uma vez para sempre, Sérgio junto a si, dentro de si.
Numa abafada noite de outubro, enquanto ele dormia profundamente, depois de um enfadonho dia de trabalho no Centro Administrativo, ela foi até a cozinha e apanhou a faca Ginsu que usava para cortar carnes. Aquela faca era mesmo uma coisa incrível. Cortava igualzinho aparecia no comercial da televisão; com precisão cirúrgica. Os frangos que ela destroçava pareciam feitos de isopor, de manteiga, de gelatina. Valia cada centavo. Serviria, sem dúvida, para a realização final da sua união carnal e definitiva com Sérgio. Nesta noite ele seria, enfim, afinal, seu amor eterno.
Meses depois, diante do juiz, Maria não sabia responder se o Sérgio chegou a acordar quando ela desferiu os primeiros golpes, bem na região onde fica o coração, o seu coração. Mas sabia que, nas semanas seguintes, alimentara-se como uma deusa; com as deliciosas e macias carnes do marido: “Eram como um banquete celeste, um maná dos céus”. Fizera com elas os mais diversos pratos, testando todas as receitas conhecidas e imaginárias – pois não queria desperdiçar nada daquele corpo que, agora, de fato, era seu em sua totalidade. Em sua memória estavam as aulas de filosofia, na Faculdade, quando o professor, citando Feuerbach, dizia: “O homem é aquilo que come”. Os ossos, como num ritual sagrado, foram queimados, triturados e, misturados às farinhas, massas e condimentos, transformados em bolos, salgados, tortas, docinhos, quibes, et cetera.
– Ah!, Maria, Maria... Como você pôde fazer uma loucura dessas?!
Perguntava-lhe o juiz, perplexo ante a narrativa das monstruosidades fundamentadas na filosofia de Feuerbach, na Bíblia Sagrada e nas possessividades do amor. Condenaria Maria a 35 anos de prisão; não dispensando, claro, o acompanhamento psicológico.

.........– Se eu pudesse agarrar a alma do Sérgio, sua Excelência – disse Maria, olhando para o teto –, eu a beberia.



quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

10.


Das fantasias românticas, e das moléstias inevitáveis


Os apaixonados, coitados, vivem num mundo à parte: o mundo da Lua.
Talvez seja por isso que a Lua tenha exercido tanto fascínio sobre os apaixonados – como consta na vasta literatura romântica do passado, principalmente a dos séculos XVII a XIX. Ela, feminina (passiva), é cortejada pelo Sol (ativo); e o responde com o seu embriagante prateado: refletindo-o. Ele, sobre ela, qual amante enamorado, despeja sua semente (sêmen) fecundante; e ela devolve a sua luz, correspondendo-o, recíproca. É uma metáfora para o amor romântico, sem dúvida. Vontade, fecundidade, submissão.
Hoje, nas grandes cidades, a fumaça, a poeira, os grandes prédios e as luzes artificias fazem fugir o céu, escondendo-o, e Lua. Mas o romantismo antigo, ilustrado por um luar hora dourado, hora prateado, ainda existe. Noutros tempos, porém, isso era mais evidente; bem mais evidente.
Minha mãe, a propósito do afirmado, dizia que meu pai, dentre as muitas promessas que fizera antes de seduzi-la, prometeu-lhe, se fosse aceito como amante, dar-lhe o céu, a Lua e, de bônus, as estrelas e as constelações. A ingênua e romântica Almilinda, nada entendendo de astronomia, acatou a descabida proposta.
Mas a única coisa que meu pai lhe deu, realmente, foram dois filhos – e eu fui o segundo deles. Depois veio o desprezo, as traições e, como saldo, a solidão de muitas e muitas noites incrivelmente longas, e frias, e escuras. “Amor é sofrimento, é descontentamento”, dizia a Adélia. E Renato Russo, na letra de “Longe do meu lado” (música em ré menor, no álbum: “A Tempestade ou O Livro dos Dias”, da Legião Urbana), tem certeza: “A paixão quer sangue e corações arruinados...”
Mas, ai de quem tenta dar conselhos aos apaixonados!
É que eles, em relação à frieza da razão, nada podem entender; nada querem entender. Doentes que estão, têm a mente obnubilada pelos efeitos fortíssimos desta moléstia contagiante: o amor novinho – toda paixão é um amor novinho; se ela progride ou não, é outro departamento. Por isso, eles somente entendem o que querem entender, somente ouvem o que desejam ouvir. A paixão, porém, é como resfriado: se não virar bronquite, passa.


domingo, 27 de novembro de 2011

9.



Da perfeição 



Tito conheceu Eleonora durante o show de lançamento do primeiro EP da Star 61, banda de um amigo seu, no Parahíba Café. Era uma moça linda, professora de inglês na Wizard da Epitácio. Conversa vai, conversa vem, trocaram telefones para novo encontro. Uma semana depois, dividiam uma cerveja, na panorâmica do Mag Shopping.
– Então, Helê... Posso te chamar assim, né?
– Sim!, sim! Claro!
– Você vai sempre ao Parahíba Café?
– Olhe!, muito raramente, viu? Somente quando amigas vão e me convidam. E tu?
– Até que tenho ido bastante nesses últimos dias. Mas também não sou tão frequente. Vou mais quando há alguma atração à qual eu esteja, de certo modo, ligado; por amizade ou ofício.
Tito trabalhava na loja de fotografias do seu pai. Fotógrafo amador e músico, também produzia pequeninos shows, e sonhava em ser desenhista de história em quadrinhos.
– Na verdade – continuou ele –, quem faz os lugares são as pessoas; não é? Às vezes os lugares são bem legaiszinhos, mas se sua companhia não for, o ambiente acaba ficando chato. E, às vezes, o lugar é chaaato; mas, se você estiver bem acompanhado, as coisas se resolvem numa boa; não é?
Ela riu com o seu ar professoral, seguro, e assentiu com a cabeça.
– Concordo plenamente – disse.
Ele, procurando o que conversar, porque ainda não a conhecia bem e, naturalmente, não tinha tanto o que dizer, ou perguntar – e, sabia, disso dependeria o sucesso do encontro, e a possibilidade de mais outro, se fosse o caso –, arriscou:
– Mas, então, Helê: que bandas você tem ouvido?
– Ah!, eu gosto de Zezé Di Camargo & Luciano, Aviões do Forró, Exaltasamba, Bruno & Marrone, Victor & Leo... “Percebo que o tempo já não passa, você diz que não tem graça amar assim...” – cantarolou o trechinho, bem desafinada –, essas coisas...
E riu, encabulada. Ele também, observando se mais alguém não tinha notado o número espontâneo da moça.  
– É mesmo?! Que interessante! – estava visivelmente decepcionado com os gostos musicais da moça.
De fato, ele andava por outro mundo, in the wave of alternative bands, such as Sonyc Youth, Yo la Tengo, Galaxie 500, The Velvet Underground, Stereolab, Belle & Sebastian, et cetera. Parecia-lhe impossível acreditar que alguém que gostasse de tais... “artistas”, pudesse ser, realmente, uma companhia agradável para algo mais sério, tipo um segundo encontro.
– Bom – ele disse, bebendo o último gole –, melhor a gente ir andando, né?
– Mas, já?! Aqui está tão legal; você não acha?
– Olhe, se João Pessoa fosse um cachorro, isso aqui seria a bunda do bicho.

* * * * *


Moral da história: não há encanto que resista por muito tempo aos detalhes individuais das nossas tolas fantasias de perfeição. Uma simples palavra, às vezes, tem a fúria dos furacões, a potência da Bomba H. No mais, é como diz o filósofo João Estevam: “Cada qual, é cada qual”.



sexta-feira, 25 de novembro de 2011

8.



Das juras de amor eterno, ou: Das palavras mais etéreas 



Na novela, à mexicana, Cláudio Fernando beija Serena Alice e diz, com olhar de peixe morto:
“Oh, Serena!, como te amo! Você nem faz ideia de como te desejo! Se eu pudesse, nunca me afastaria de você; ficava para sempre colado ao seu corpo... assim...”
E agora, numa tomada mais aberta, Cláudio Fernando beija Serena Alice novamente, apertando-a contra si, em ardente fúria, fogo e sofreguidão. Serena Alice, todavia, depois do beijo, ganha um ar de severidade, de desconforto, e se livra o mais depressa que pode dos braços fortes e peludíssimos de Cláudio Fernando.
“O que você tem, meu amor? O que há de errado?” Cláudio Fernando pergunta, visivelmente confuso.
Serena Alice, pegando o vaso que repousa sobre o móvel, arremessa-o contra Cláudio Fernando, gritando, furiosa, com os olhos rasos d’água:
“Você diz isso a todas, seu infeliz mentiroso! Seu monstro! Monnnstrooo! Como você pode, Cláudio Fernando?, como você pode ser assim tão... tão imprestável?! Oh, Deus! Como você pode ser assim tão, tão... oh?!...”
E, de supetão, sai da sala aos prantos, batendo a porta atrás de si.
Cláudio Fernando, num flashback em branco e preto, lembra-se da cena anterior, quando do seu encontro com Clarissa Maria... Ele havia repetido as mesmas palavras, como que decoradas frase à frase, letra à letra... palavra por palavra. Serena Alice, certamente, estaria por detrás de uma daquelas portas, de alguma daquelas cortinas.
“Ah!, porca miséria! Mas que droga, Cláudio Fernando!”, recrimina-se, vencido, caindo na poltrona, com a cabeça entre as mãos: “Por que você não teve mais cuidado?”, pergunta-se.
A câmara se afasta e, sobre o cenário, a luz vai sumindo lentamente. Agora, sozinho, na penumbra, Cláudio Fernando está sozinho e, parece, muito decepcionado consigo mesmo. Escuridão.
O amor, meus caros, é uma novela mexicana.


terça-feira, 22 de novembro de 2011

7.


Da tranquilidade que antecede o estouro



O amor de Pedro por Matilda tinha a tranquilidade de quem caminha sobre uma planície eterna, sem acidentes, sem aclives, declives, sem novidades. E, talvez por isso, ele estava cansado. Pois vocês não sabem? A tranquilidade cansa, fomenta o tédio.
E foi num dia desses, de absoluta tranquilidade, que ele conheceu Milena.
A belíssima Milena, à semelhança do seu antigo e cansado amor, tinha somente a repetição de algumas letras no nome; tudo o mais era a novidade e expectativa de dias alegres, vibrantes, doces e quentes. As imagens do seu tranquilo amor, de repente, davam-se embaralhadas pelo tufão que foi a nova paixão. Afloraram, mais que nunca, os defeitos de Matilda em oposição às afrodisíacas imagens de Milena. Estava vencido. Apaixonara-se por Milena. E assim, apaixonara-se por sua própria imagem refletida no olhar magnético da moça, cheio de promessas de viço eterno. Teria de tê-la para poder ter-se a si mesmo, de um modo intenso e voluptuoso, tal qual nunca antes experimentara.
A ideia de fazer Matilda infeliz, porém, fazia-o infeliz. Como chegar para ela e dizer: “O meu amor por você acabou. Eu amo outra pessoa”? Como? Como acabar assim uma relação de tantos bons e maus momentos? Como botar um fim naquilo que um dia pensou-se eterno?
Numa noite de outubro, depois do sexo desapaixonado e metódico ao qual se habituara, Pedro respirou fundo, tomou coragem e disse, quase sussurrando:
– Ah!, Matilda, precisamos conversar sobre...
– Por favor, Pedro!, tenho que lhe dizer uma coisa – ela interrompeu, assentando-se na lateral da cama.
– É sobre o nosso casamento... Olha, eu amo outra pessoa!, e acho que não posso mais viver junto de você assim, mentindo, escondendo isso. Me sinto tão suja, como agora, depois do, de... você sabe. Me perdoe por isso: pela covardia e pela franqueza da covardia. Me perdoe por eu não saber dizer isso de uma maneira mais delicada, talvez. Isso me dá nojo às vezes, sabe? Nojo de você; nojo de mim. Me perdoe, Pedro! Não me tenha mal; eu lhe peço, por favor...
Naquele instante o chão, sob os pés de Pedro, desapareceu. Como ela poderia estar fazendo isso com ele? Como poderia estar dizendo isso tudo? E ele olhou para ela como nunca antes havia olhado. Estava linda. Incrivelmente linda! Seu corpo, nu, de costas, ali em sua cama, tinha uma brancura inebriante, irresistivelmente erótica, incontrolavelmente provocante. Ele tentou tocá-la mais uma vez; uma, talvez, quem sabe, última vez. Mas ela recusou o toque, estendendo a mão para que ele não fizesse aquilo. Levantou-se depressa, vestiu a camisola preta que adorava e saiu do quarto. Pedro não acreditava que aquilo estivesse acontecendo. A sensação que percorria seu corpo era de leveza, de liberdade e de, estranhamente, tristeza. Pouco depois ela voltaria, com os cabelos molhados de um banho demorado. E já estava vestida, pronta para sair.
– Vou levar uma muda de roupa para uns dias, depois mando alguém apanhar o resto – disse, mexendo nas coisas sobre a cômoda.
.......Em seguida, segurando uma pequenina mala, sumiu do quarto e vida de Pedro, para sempre. Desde então, ele sequer suporta ouvir a voz de Milena ao telefone, seja convidando-o para o cinema ou para outro programa em que os dois tenham de estar sozinhos. Na memória de Pedro, como em um retrato colorido, há lugar apenas para as costas nuas de Matilda, e sua voz dizendo “adeus!, vê se se cuida”. E em seu coração, como num filme de Leni Riefenstahl, tudo é branco e preto; tudo é deserto e desolação. 




  

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

6.



Da união conjugal, ou: Do casulo e da borboleta



Um dia, quando o Sol estava a pino, Zaratustra viu um homem que conduzia um asno carregado com dois pesados fardos de feno. Os homens que o escutavam viram quando seus olhos ficaram enternecidos de compaixão, ante a servidão passiva da criatura.
“Que vedes aqui, senhores?”, ele perguntou, com um gesto solene, como somente ele sabia e ousava fazer. “Que vedes?”
E como os homens nada dissessem, pois que ele realmente não esperava que dissessem nada mesmo, continuou:
“Eu vos digo a que se afigura a cena: a união entre um homem e uma mulher; a isto que todos dão o nome de união matrimonial, realizada mediante contrato, e troca de alianças, e em presença de testemunhas. Mas, e por tantas precauções, eu vos pergunto: por quê? Porque um se faz para o outro, naturalmente, cônjuge. Sim, ‘fardo’, ‘fardo em comum’, ‘jugo com jugo’. No casamento, um e outro, mutuamente, comprometem-se em carregar o mesmo fardo, multiplicado por mais um, na alegria e na tristeza, no sorriso e no choro. Os que fazem o contrato e que, inocentemente, acreditam em um laço romântico-amoroso sublimado ao máximo, por este ou aquele querer, nem sempre lembram que, a não menos de dois séculos, inexistia o tal ‘laço romântico-amoroso sublimado ao máximo’... mas apenas o contrato mesmo, e os fardos. ‘O amor venceu, afinal’. Outros pensam. Pois, e se não é assim, que outro motivo seria tão grande e tão sublime ao ponto de fazer com que alguém, além do seu próprio fardo, quisesse carregar ainda o de outro? Ah!, que grande é a tentação do Idealismo! Por isso, ainda vos pergunto: quem impediu o florescimento de tantos vales? E quem negou o casulo à borboleta mais colorida? Compreendeis? Não!, vós não podeis! A minha doutrina é a doutrina do novo homem: o homem-pássaro.”
Mas o que as pessoas não entendiam mesmo era o porquê de Zaratustra usar tantas parábolas, tantas alegorias, tantas metáforas e tantas figuras de linguagem. 


quarta-feira, 16 de novembro de 2011

5.


Da fortuna


Quando meu avô virou adubo, foi uma festa. Casa cheia, gente na sala, na cozinha, gente por todos os cantos. Os meninos brincando no quintal, e eu entre eles. É que as crianças não entendem o mistério da Morte, e nem o sofrimento que traz uma desencarnação aos encarnados. Mas entendem o espetáculo: o mundo é bom ou mau, sem quaisquer divagações contemplativas sobre a magnum mysterium. A apreciação estética, financiada pelo sensualismo, é a nossa primeira e mais verdadeira experiência com o Mundo, no Mundo. Sem a ratio, conhecemos – sem saber que conhecemos – a experientia pura, ou a experientia docet, como Levinas diria.
“Parem já com isso!” Dizia um.
“Vão brincar mais longe!” Dizia outro.
O mundo das crianças não é o mundo dos adultos. Definitivamente. E Dasdores, que Deus a tenha em bom e espaçoso lugar, que o diga. Nunca aprendeu a “ser adulta”, sempre criança. As pessoas diziam que ela era retardada em oito anos. Aos dezoito, tinha uma mente de dez. E o retardo, depois daí, parecia só aumentar. Nisso, aos trinta, parecia ter somente oito ou nove, ou menos.
“A bichinha!” Todos se apiedavam da mulher-criança. “Veio a este mundo somente para sofrer!”
Diziam as más línguas – ou não tão más assim – que o pai, aproveitando-se da ingenuidade da criança e do corpo da mulher, servia-se dos dotes sexuais de Dasdores. Mas isso ninguém nunca pôde provar.
“O povo fala demais, e de tudo”, ele dizia. “Tem gente que, quando morre, precisa de dois esquifes: um p'ro corpo e outro p'ra língua”.
O certo é que Dasdores, que não conhecia homem nenhum, pelo menos era o que todo mundo pensava, apareceu, assim, do nada, grávida. Aquilo, com certeza, não era obra ou graça do Espírito Santo. Que fosse uma obra não havia quem o negasse, mas não tinha graça nenhuma.
“Meu Deus! Que escândalo!” A família em pânico. Quem teria embuchado a retardada; pobrezinha...
E ela não dizia nada, nem mesmo sob as ameaças da mãe doente e da irmã mais nova que, com o tempo, assumira uma postura vigilante-ditatorial em benefício da segurança da irmã doida, e da honra familiar. Tempos depois, quando não era mais possível esconder a barriga da infeliz, ela foi enviada à casa de umas tias velhas que moravam no fim do mundo.
“Assim ela pode dar à luz ao vivente em paz e escapar do falatório desse povo maldito. Tem gente que tem prazer na desgraça dos outros.” Foi o que os pais disseram às tias, procurando convencê-las a cuidarem da retardada.
Meses depois a notícia: o menino nascera morto. Nem chegara a ver a luz deste mundo desgraçado de luz nenhuma. Dasdores, após o período de descanso, foi enviada a um convento para ser guardada pelo Senhor e pelos muros enormes que protegiam o santo lugar.
“Aqui ela ficará bem”, a Madre superiora, despedindo-se da família.
“Eu sei, Madre, por isso que a trouxemos para cá”. Respondeu o pai, numa tristeza que não disfarçava sua alegre alegria.
“Nos dias determinados, os senhores poderão visitá-la, conforme o tratado”.
E assim foi.
E assim passaram-se os dias que viraram meses, e os meses que viraram anos. Estranho foi quando, infortúnio!, Dasdores apareceu grávida novamente. Outro escândalo; desta vez não somente para a família, mas também para o convento.
“Deus, amado!” Diziam as irmãzinhas em polvorosa, “quem teria engravidado a irmã Dasdores?”
Cogitou-se a possibilidade de ter sido o padre Zé Vicente que, meses atrás, havia sido enviado a pastorear uma pequenina paróquia em Pinheiros, para escapar aos comentários de pedofilia que estavam sendo ventilados pela cidade. Pensou-se também se, numa infelicidade extrema, num descuido fatal, Dasdores não estaria grávida do jardineiro. Este, como ela, miserável, tinha uma mente de criança. Crianças que podiam gerar crianças. Mundo cão! Mas o infeliz, mudo qual uma porta, não fazia a menor ideia do que lhe diziam, ao fato relacionado. Logo foi descartada a possibilidade. Mas, infeliz realidade, quem teria sido o seu artífice? E agora? Fazer o quê? Entreolhavam-se os familiares de Dasdores e as irmãzinhas, coradas de vergonha. A solução que pareceu mais viável a todos e todas foi enviar Dasdores, novamente, à casa das tias distantes. Elas, tementes que eram, a Deus e à Igreja, não rejeitariam um pedido assinado pela santa Madre. Quisera Deus que, como da última vez, tudo se arranjasse, sem maiores complicações. E assim foi.
E assim passaram-se os dias que viraram semanas, e as semanas que viraram meses. Ninguém pareceu se importar muito quando a notícia chegou: Dasdores, dadas as complicações de um parto agonizante, não resistiu, morreu ao dar à luz a uma meninazinha miúda, esquálida, pálida... viva, porém. A meninazinha, tempos depois, na Paróquia de Santa Helena, seria batizada com o nome de Maria Dasdores, em homenagem à mãe e à Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, de quem a mãe era devota, mesmo que não soubesse o que fosse isso.
Dizem as más línguas que a menina, por esta data, decorrido apenas dois anos do seu nascimento, já demonstra claros sinais de retardo mental. Mas o povo fala demais, e de tudo. E tem gente que, quando morre, precisa de dois esquifes: um p’ro corpo e outro p’ra língua.


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