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sexta-feira, 30 de novembro de 2012




24.






De uma hermenêutica para o sublime




A alma da vastíssima literatura romancesca que entope livrarias, sebos e bancas de revistas – com os acessíveis pocket books e brochuras1 –, está na mesma linha vertical da ortodoxia teológica, que consigna a veracidade do amor à imediata experiência do numinoso, na subjetividade natural do sentimento de sublime, preso à ideia platônico-cristã de um Sumo Bem – mesmo que isso somente se dê no nível do inconsciente. O Summum Bonum seria a finalidade e a fonte originária de onde surgem e por onde se mensuram todos os corações perfeitos, e os bons pensamentos, e os nobres sentimentos das almas piedosas, etc.
“Nós o amamos porque ele nos amou primeiro”, é são João evangelista quem diz2. E Sócrates, repetindo o que teria escutado de Diotima de Mantinéia:

[...] Quando então alguém, subindo a partir do que aqui é belo, através do correto amor aos rapazes, começa a contemplar aquele belo, quase que estaria a atingir o ponto final. Eis, com efeito, em que consiste o proceder corretamente nos caminhos do amor ou por outro se deixar conduzir: em começar do que aqui é belo e, em vista daquele belo, subir sempre, como que se servindo de degraus, de um só para dois e de dois para todos os corpos belos, e dos belos corpos para os belos ofícios, e dos belos ofícios para as belas ciências, até que das ciências acabe naquela ciência que nada mais é senão daquele próprio belo, e conheça enfim o que em si mesmo é belo.3

Justino de Roma, depois de procurar um mestre pitagórico e ser rejeitado, procura outro, um platônico. E logo “julgava ter-me tornado um sábio”, ele diz, “um sábio em tão pouco tempo, e totalmente esperava em breve ver o próprio Deus – pois tal é o fim da filosofia platônica.4” O “belo em si mesmo”, na fala de Sócrates, transforma-se, com Justino, no próprio Deus, Summum Bonum. Foi assim que a “filosofia cristã” se apoderou da filosofia pagã (e da teologia judaica) e recriou o mundo, rebaixando o Eros grego em favor do seu ágape: “Quem ama é nascido de Deus e conhece a Deus. Aquele que não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor.5” É João, novamente. E o amor, aí, somente é perfeito se estiver ligado ao ágape, que é perfeito, e medido por ele.
Inventamos o sublime porque não desejamos a realidade tal qual é ela: nua, fria, insensível, desesperada e... mortal. Sim, basta que Eu morra para que a realidade de tudo, inclusive de Deus e do seu Espírito, despareça comigo. “Sei que sem mim Deus não pode viver um instante sequer / Se eu for aniquilado, também o seu espírito tem de necessariamente extinguir-se.6 A sensação da finitude temporal nos apavora e, conhecendo a não-eternidade deste mundo, inventamos a eternidade de um mundo extramundano, com um novo destino após o nosso tempo no mundo de agora. No tempo passado, o que morre são as consciências da realidade, individuais ou coletivas... históricas. E o mundo continuará, sem mim. E daí a permanente mudança de valores morais, de preferências estéticas, de ideias e ideologias: políticas, religiosas, etc. Nada é estanque, no mundo.
Para sobreviver ao espírito do tempo (Zeitgeist) e para fortalecerem-se diante das ameaças atrativas das minorias em oposições, em transformações, religiões e partidos políticos, dentre outros grupos ideológico-sociais, carecem da adesão dos diferentes, dos avulsos, dos contrários ou indiferentes. Para tanto, prometem em suas confissões de fé ou estatutos: felicidade, algum tipo de riqueza, algum tipo de liberdade e, naturalmente, a satisfação do espírito... com um objetivo dado à sua vida – imergido o indivíduo na coletividade dos que professam o mesmo ânimo, respirando (conspiram) os mesmos ares de fé na verdade da verdade do que acreditam.
O método teológico – aqui referido enquanto “ponte para o sublime” e, naturalmente, para a vaga noção romântico-idealista fundamental –, funciona através de saltos: da fé, pela fé (os absurdos escandalosos, paradoxais)7, e cosmológico/ontológicos (como na grande crítica de Kant)8. O que a hermenêutica teológica aplicada à matéria de bibliologia, ensinada em academias teológicas, prova, por exemplo? Que a Bíblia é um livro antigo escrito por muitas mãos, em várias épocas, com estilos variados e em línguas diferentes; que alguns dos seus relatos têm fundamentação histórica comprovada; que alguns dos seus personagens foram pessoas que realmente viveram e sentiram o peso deste mundo, como qualquer humano comum, etc. É quando parte daí, do puramente horizontal – exigindo fé na fé que esses homens e mulheres antigos tinham, conforme surgem no antigo livro –, que ocorre o salto: na verticalidade que a fé propõe, cortando a linha que prende a pipa ao chão e ao seu dono. Quanto ao seu voo, porém, quem sabe ao certo para onde os ventos a levará? A hermenêutica bíblica, na analogia, é o vento.
Na palestra de Vattimo, A tentação do realismo, uma frase de Nietzsche abre, de cara, o primeiro parágrafo, e depois reaparece por toda parte: “Não existem fatos, somente interpretações; e esta também é uma interpretação.9” E o próprio Vattimo revela a sua intenção com o uso que faz da referida: “Não estou [...] pretendendo que a hermenêutica, sintetizada na frase de Nietzsche, seja a descrição mais adequada da cultura tardo-moderna”, ele diz. “Defendo, pelo contrário, que ela é a interpretação mais razoável.10” Acontece que toda interpretação parte de um universo particular, aquele ao qual é preso o seu intérprete: língua, história, geografia, existencialidade, situação psicológica, et cetera. É nesse sentido que “o argumento lógico contra o cético nunca convenceu alguém a abandonar as próprias ‘convicções’ céticas.11” Sim, de fato. Nas palavras de um desses, Paul Valéry:

Repugna-me a todos que querem me convencer – Um partido, uma religião em procura adeptos, que desejam o nome e a propagação, são cheios (para mim) de ignomínia. Uma doutrina deve, para ser nobre, em nada ceder ao desejo de ser compartilhada. Que ela seja como ela é, ou que ela não seja.
Eu não desejo fazer aos outros o que eu não quero que me façam.
[...] – Ter razão. Desejo de ter razão – Propagar. Desejar convencer
Isso conduz aos milagres... à “publicidade”.12

E:

“Toda emoção, todo sentimento é uma marca de defeito de adaptação.13” Ou: “Toda a vida afetiva não passa de besteira e circulo vicioso.14” Noutra parte, a sentença “Quem faz o bem por dever o faz mal, e o faz sem arte”15, depõe tanto contra a ética autônoma kantiana quanto a heterônoma, da filosofia/teologia Clássico-Antiga. Valéry chuta conceitos e explode consensos, anunciando que “Tudo o que é humano me é estranho.16” Mas, ainda assim, ah!, eis aí o homem; o homem que estranha.
Com Valéry, e no que toca à certeza das palavras que apontam para uma realidade final e absoluta, mergulhamos em um fosso conceitual, sem escadas ou fendas por onde possamos nos animar à escalada, em direção a alguma luz anunciada ou que se anuncie. As palavras, como o mundo, o tempo e a nossa compreensão de mundo e tempo, estão em movimento.
O sentimento imediato, ante o objeto – real ou imaginário – fenomenologicamente dado, é a única realidade que possuo, e sem outras garantias que não as sensuais. Por isso, no final, ainda é o Eu quem fala e aparece, também alterado: amando, odiando, desejando isso ou aquilo; ora inventando deuses e afecções sublimadas, ora destruindo velhos ídolos à base de marteladas. De um jeito ou de outro, é a realidade da vida o que se vê, aí, lançada e desnuda na casa cheia de convivas famintos, vorazes. No mais, é o escape delirante (através da arte, da religião, da esperança na esperança, da fé na fé, etc.) contra o concreto... Como na frase que vi em algum lugar: Acreditamos na utopia, porque a realidade nos parece inacreditável.
Inventamos o cotidiano e, com ele, impressos no papel ou em nosso inconsciente, os romances bons e baratos e preciosos – as doses diárias do ópio que nos mantém sedados –, contra a realidade da vida, que é dor, deserto e desolação. O Caeiro de Fernando Pessoa dizia que “sentir é estar distraído”. Sim, é; e amar, também.





1 Agora mesmo (novembro de 2011), enquanto escrevo, um livro de Natalie Anderson, Brilho no olhar, compõe o volume 51 da Coleção Modern Sexy, da série Maverick Millionaires, da editora Harlequin. Na apresentação editorial: “Ela não deveria se aproximar de seu chefe mal-humorado… Os opostos se atraem? Rude e rebelde, Lorenzo Hall é um homem que construiu a própria fortuna começando do nada. E agora ele tem um novo objetivo na vida: descobrir se sua assistente pessoal é tão certinha e recatada quanto parece. É claro que Sophy deveria fazer de tudo para não deixá-lo se aproximar. Mas com aquele corpo e aquele brilho no olhar, seria muito difícil não ceder à tentação…” Esse é tom de tais romances – e sem desmerecê-los, pelo fato de serem populares –, com suas naturais variações. A questão, como eu a coloco aqui, também não poupa os romances clássicos, de capa-dura, vendidos em lojas chiques e livrarias de shoppings. Nas bancas, além das brochuras da série Maverick Millionaires, as séries Bianca, Julia, Super JuliaSabrina – que apareceram no início dos anos sessenta – e Best-Sellers, sempre alcançaram tiragens enormes, e até hoje, quando os novos títulos e séries, seguindo o nicho sempre renovado, surgem.
2 1 João, 4, 19. In: A Bíblia Sagrada: Antigo e Novo Testamento. Deerfield, EUA: Vida, 1993. Edição Contemporânea.
3 PLATÃO. O banquete, 211c. In: _____. Diálogos. 2. ed. São Paulo: Abril Cultural, 1983. (Col. Os Pensadores).
4 ROMA, Justino de. Diálogo com Trifão, 112; P.G. 6, 460-66. GOMES, C. Folch. Antologia dos Santos Padres: páginas seletas dos antigos escritores eclesiásticos. 2. ed. São Paulo: Edições Paulinas, 1979. p. 70.
5 1 João, 4, 7b-8.
6 Citado em: SCHOPENHAUER, Arthur. O mundo como vontade e como representação. São Paulo: Editora UNESP, 2005. p. 190. (II, § 25).
7 Aqui, novamente, volto a Kierkegaad, na leitura de Camus: “O cristianismo é o escândalo, e o que Kierkegaard pede com simplicidade é o terceiro sacrifício exigido por Inácio de Loyola, aquele com o qual Deus mais se delicia: ‘o sacrifício do Intelecto.’ Esse efeito do ‘salto’ é bizarro, mas não deve nos surpreender mais. ele faz do absurdo o critério do outro mundo, enquanto não passa de um resíduo da experiência deste mundo. ‘Em seu fracasso’, diz Kierkegaard, “o crente encontra [como em Abraão] o seu triunfo’.” (CAMUS, Albert. O mito de Sísifo. Rio de Janeiro: Edições BestBolso, 2010. p. 47). Paradoxo porque o movimento da fé, uma vez compreendido pelo intelecto, não pode mais efetivar o seu sacrifício: “Não posso realizar o movimento da fé, não posso cerrar os olhos e lançar-me de cabeça, pleno de confiança, no absurdo; tal coisa é impossível, mas não me vanglorio por isso.” (KIERKEGAARD, Sören. Temor e tremor. Lisboa: Guimarães Editores, 1990. p. 47).
8 Os argumentos “cosmológicos”, reduzidos a ontológicos, segundo Kant (1724-1804) – na linha dos de Anselmo de Cantuária (c. 1033/1034-1109) e Tomás de Aquino (c. 1225-1274), entre os autores principais –, são argumentos do tipo a priori, e são falhos. Uma prova cosmológica, segundo Kant, “formula-se assim: se algo existe, deve existir, também, um ser absolutamente necessário. Ora, pelo menos existo eu próprio; logo, existe um ser absolutamente necessário... Mas a prova prossegue e conclui que o ser necessário só pode ser determinado de uma única maneira, isto é, somente mediante um dos predicados, de entre todos os predicados opostos possíveis, e, por conseguinte, deverá ser integralmente determinada pelo seu conceito. Ora, só pode haver um único conceito de coisa que determine a priori esta coisa, ou seja, o conceito de ens realissimum; portanto o conceito de ser soberanamente real é o único pelo qual pode ser pensado um ser necessário, isto é, existe necessariamente um Ser supremo.” Kant continua: “Neste argumento cosmológico reúnem-se tantos princípios sofísticos que, a razão especulativa, parece, aqui, ter desenvolvido a sua arte dialética, a fim de produzir a máxima aparência transcendental possível... Para bem, ao assegurar o seu fundamento, a prova estriba-se na experiência, dando assim a impressão de se distinguir da prova ontológica, que deposita toda a confiança em conceitos puros a priori. Mas a prova cosmológica só serve desta experiência para dar um único passo, a saber, para se elevar à existência de um ser necessário em geral. O fundamento empírico da prova nada nos pode ensinar acerca dos atributos deste ser; então a razão afasta-se dele, inteiramente, e por detrás de simples conceitos investiga os atributos que um ser absolutamente necessário em geral deve possuir... Mas, é claro, pressupõe-se, aqui, que um ser dotado da realidade suprema satisfaz plenamente o conceito de necessidade absoluta na existência... eis uma proposição sustentada pelo argumento ontológico, que assim se admite e dá por fundamento ao argumento cosmológico, o que se pretendera evitar.” (KANT, Immanuel. Kritik der reinen Vernunft. Leipzig: Felix Meiner, 1926. p. 576-78).
9 VATTIMO, Gianni. A tentação do realismo. Rio de Janeiro: Lacerda Ed.: Instituto Italiano di Cultura, 2001. p. 17. (Col. Conferências Italianas, 1).
10 VATTIMO, 2001, p. 28.
11 VATTIMO, 2001, p. 21. Ou: “Como tentei mostrar em Oltre I’interpretazione, a hermenêutica se configura como puro e perigoso relativismo só se não se leva bastante a sério as próprias implicações niilistas. Posto que a ‘verdade da hermenêutica’ como teoria alternativa a outras (e antes de tudo ao conceito de verdade como ‘reflexo’ dos ‘fatos’) não pode se legitimar pretendendo valer como uma descrição adequada de um estado de coisas metafisicamente estabelecido (‘não existem fatos, somente interpretações’) mas deve reconhecer-se também como uma interpretação, a sua única possibilidade é a de argumentar-se como tal, quer dizer, como uma ‘descrição’ interna ou leitura sui generis da condição histórica na qual é lançada e que escolhe orientar numa direção determinada, pela qual não existem outros critérios a não ser os que herda, interpretando, desta mesma proveniência.” (VATTIMO, 2001, p. 29-30). 
12 VALÉRY, Paul. Au sujet du ‘Cimetière Marin’. In: _____. Œuvres. Paris: Bibliothèque de la Pléiade / Gallimard, 1973. p. 132-133. v. 1.
13 VALÉRY, 1997, p. 354. v. 2.
14 VALÉRY, 1997, p. 382. v. 2.
15 VALÉRY, 1973, p. 620. v. 1.
16 VALÉRY, 1997, p. 320. v. 2.


segunda-feira, 20 de agosto de 2012


14.





Do “sentimento oceânico”



Um tratado honesto sobre o amor, depois de longas definições do que ele seja e em quantas formas se dá a conhecer – na vasta literatura romântica, no cinema, nos livros sagrados e em tudo o que se pode chamar de arte –, deverá sempre estancar em uma constatação limítrofe: o amante é quem o inventa; e mesmo o sublime, ideal, mas sem que possa distanciar-se do real: da crueza da afecção da Vontade que joga indivíduos contra indivíduos a fim de que, através do coito, a espécie sobreviva e se apresente em melhores condições de seguir adiante. A beleza que acende em nós o desejo sexual é propaganda da saúde, atestando a aptidão do corpo que se mostra pronto para gerar descendentes igualmente belos e saudáveis. “O impulso sexual”, Schopenhauer diz, “é a expressão mais completa da vontade de viver, seu tipo mais claramente expresso.1” E quanto ao ideal (ou “fundamento estético”) e às suas sublimidades, o pensador deverá, como em um sermão de final apofático-escatológico, impetrar um silêncio obsequioso; uma vez que, contra a força da Vontade, nihil sacrum est.2
Se isso parece generalizado demais e, igualmente, pessimista, é que o realismo da razão evidente – a que bem melhor sabe enxergar o mundo – não convalida poemas, nem delírios viciados ou encantamentos teologais.

Estamos geralmente habituados a ver os poetas ocupados em descrever o amor sexual. É ele o objeto principal de todas as obras dramáticas, trágicas ou cômicas, românticas ou clássicas, tanto na Índia como na Europa. É também o assunto principal da maior parte da poesia lírica como da épica, sem falarmos da incomensurável quantidade de romances que, desde séculos, todos os anos se produzem nos países civilizados, tão regularmente como os frutos da terra. Em seu conteúdo principal, todas essas obras são apenas descrições variadas, curtas ou longas, dessa paixão. As suas mais perfeitas descrições, tais como Romeu e Julieta, a Nova Heloísa, Werther, adquiriram glória imortal.3 
 
Nenhum outro, antes de Schopenhauer, soube ver a paixão romântica como – e apesar da popularização dos escritos de Darwin4 e Huxley5 – recurso da vontade de vida: o instinto sexual é o instinto da vida que quer viver; o romance e a corte, os meios artificias de essa mesma vontade se apresentar: menos violenta na satisfação dos seus impulsos, “civilizada”, “domada”. Se assim não fosse, os homens se igualariam às bestas, contra toda e qualquer moral heteronômico-normativa – em uma autonomia sem peias, absolutista. “De todos os filósofos”, Schopenhauer afirma,
  
foi Platão que mais se dedicou ao tema do amor sexual, sobretudo no Banquete e Fedro. Mas, o que ele diz sobre o assunto não passa de mitos, fábulas e anedotas, e refere-se, na sua maior parte, à pederastia. O pouco que Rousseau disse no seu Discurso sobre a Desigualdade, é errado e insuficiente. Kant, na terceira parte do tratado Sobre o Sentimento do Belo e do Sublime, trata do assunto de maneira muito superficial e sem conhecimento da causa. Platner, na sua antropologia, tratando da questão, oferece-nos apenas ideias medíocres e banais. A definição de Spinoza merece ser citada, a título de curiosidade, por causa da sua extrema ingenuidade: Amor est tilillatio, concomitante idea causae externae (Eth. 14, prop. 44, dem.).
Não tenho, pois, predecessores a copiar e nem a refutar. [...] Pouca aprovação espero da parte daqueles que no momento ficam dominados por sua paixão, e que naturalmente procuram exprimir pelas imagens mais sublimes e mais etéreas a intensidade de seus sentimentos. A estes, meu ponto de vista parecerá muito físico, muito materialista...
Todo amor, por mais celeste que se mostre, está arraigado, na realidade, no instinto sexual e não é outra coisa senão esse instinto, determinado e inteiramente individualizado.6  

O que, aí, pode parecer pedantismo ou esnobismo, é sinceridade. E, afinal, o que é a modéstia? É a vaidade daquele ou daquela que deseja apresentar-se ao mundo como modesto, e em recompensa, ser querido e louvado pelos demais7. Schopenhauer está além de tão tola e reducionista armadilha ético-moral – se é que se pode usar a expressão. Tratando do seu lugar entre aqueles que escrevem seriamente sobre o amor – com qualquer acréscimo conceitual que o façam: amor sexual, amor a deus, amor ao próximo, et cetera –, é bem acima deles e de suas ilusões  que Schopenhauer se coloca, sem a paixão que cega e sem as apologias retórico-viciadas nesta ou naquela noção engessada no delírio coletivo-cotidiano. O amor, diferentemente do que as religiões afirmam e ensinam, sobre ele e sobre elas próprias, não é nenhum sentimento oceânico8. Sem o ofício teológico-poético (se possível) não há, ao menos na linguagem, o delírio, a embriaguez da razão e, consequentemente, nenhum sentimento oceânico – definição inadequada, sub-reptícia e vulgar nos discursos sobre o amor... por remetê-lo a uma fonte que, em tese, não seria o próprio Eu, pleno amour de soi – que não é mais que outro modo de falar dessa mesmíssima luta pela sobrevivência individual.
Por trás da corte e dos olhos que brilham, enamorados, está a individual luta pela autoconservação, autosobrevivência9; e o outro, que romanticamente seria o par, no casal, é a presa, individual – caça que é, também, caçador, caçadora.  




1 SCHOPENHAUER, Arthur. O instinto sexual. São Paulo: Edições INEDOS, 1951. p. 35.
2 A grande crítica sobre o amor, em qualquer que seja a sua manifestação (ou descrição), já foi, toda e completamente, realizada por Schopenhauer em sua obra monumental: Die Welt als Wille und Vorstellung (O Mundo como Vontade e como Representação, de 1819), principalmente nos capítulos: Leben der Gattung, Metaphysik der Geschlechtsliebe e Die Paederastie.
3 SCHOPENHAUER, 1951. p. 39.
4 Publicado em 1859, a primeira edição de A origem das espécies trazia o título, enorme: On the origin of species by means of natural selection, or the preservation of favoured races in the struggle for life (Sobre a origem das espécies por meio da seleção natural ou a preservação de raças favorecidas na luta pela vida). Em 1872, já em sua sexta edição, o título seria abreviado, como o conhecemos atualmente. N’A Origem, Darwin remove a sublimidade da condição humana – enquanto criação de Deus, etc. –, apresentando-a em sua materialidade, animalidade e finitude. Cf. DARWIN, Charles. A origem das espécies. Leça da Palmeira, Portugal: Planeta Vivo, 2009. (Col. Planeta Darwin). 440 p.
5 Thomas Henry Huxley (1825-1895), principalmente em seus artigos sobre ciência e religião, a exemplo dos que, recentemente, foram traduzidos em nossa língua, por Jézio Gutierre. Cf. HUXLEY, Thomas Henry. Escritos sobre ciência e religião. São Paulo: Editora UNESP, 2009. [Col. Pequenos Frascos]). 143 p. Amigo de Darwin, Huxley foi um dos seus maiores incentivadores, encorajando-o a publicar A origem das espécies, que Darwin relutava em fazê-lo, pelo estrago que seria às caras afirmações da teologia cristã, relativas à origem sagrada do homem, do amor, etc.
6 SCHOPENHAUER, 1951. p. 41-2.
7 “A modéstia” – diz Schopenhauer – “é uma virtude inventada principalmente para uso dos velhacos, porque exige que cada qual fale de si como se fosse um; isso estabelece uma igualdade de nível admirável e produz a mesma aparência, como se não houvesse, em geral, mais que velhacos.” (SCHOPENHAUER, Arthur. Arte del buen vivir. Madrid: EDAF. p. 101. [Col. Biblioteca EDAF de Bolsillo, 47]).
8 A expressão aparece em Sigmund Freud (1855-1939), n’O mal-estar na civilização (Das Umbehagen in der Kultur, 1930). Já no primeiro parágrafo, Freud fala das cartas que havia recebido de Romain Rolland, que rebatiam as teses de O futuro de uma ilusão (Die Zukunft einer Illusion), de 1927: “Enviei-lhe o meu pequeno livro que trata a religião como sendo uma ilusão, e ele me respondeu que concordava inteiramente com esse juízo, lamentando, porém, que eu não tivesse apreciado corretamente a verdadeira fonte da religiosidade. Esta, diz ele, consiste num sentimento peculiar, que ele mesmo jamais deixou de ter presente em si, que vê confirmado por muitos outros e que pode imaginar atuante em milhões de pessoas. Trata-se de um sentimento que ele gostaria de designar como uma sensação de ‘eternidade’, um sentimento de algo ilimitado, sem fronteiras – ‘oceânico’, por assim dizer.” (FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. Rio de Janeiro: Imago, 1997. p. 9).  
9 “Nada mais fácil que admitir a verdade deste princípio: a luta universal pela sobrevivência; nada mais difícil – e falo por experiência – do que ter este princípio sempre presente no espírito, pois, caso contrário, ou se vê mal toda a economia da natureza, ou se atribui sentido errado a todos os casos relativos à distribuição, à raridade, à abundância, à extinção e as variações dos seres organizados. [...] Emprego, pois, para uma maior comodidade, o termo geral luta pela sobrevivência nos diferentes sentidos que se confundem uns com os outros.” (DARWIN, Charles. A luta pela sobrevivência. Rio de Janeiro: PocketOuro, 2009. p. 7, 9).


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